Dorival Caymmi – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 149 (2017)

Para alegria dos amigos cultos, ocultos e associados do TM, o Grand Record Brasil, dedicado à musicografia brasileira em 78 rpm, está de volta. Nesta, que é a edição de número 149, apresentamos um pouco da preciosíssima obra de Dorival Caymmi, o poeta seresteiro da Bahia, interpretada por ele próprio em gravações originais. Caymmi veio ao mundo no dia 30 de abril do ano da graça de 1914, na capital baiana, Salvador. Era descendente de italianos pelo lado paterno, e seu bisavô chegou ao Brasil para trabalhar no reparo do Elevador Lacerda. Ainda criança, iniciou-se na música, ouvindo parentes ao piano. O pai, Durival (assim mesmo, com “u”!) Henrique Caymmi, funcionário público e músico amador, tocava ainda violão e bandolim, e a mãe, Aurelina Soares Caymmi, dona-de-casa, mestiça de portugueses e africanos, cantava apenas no lar. Ainda menino, nosso Caymmi era baixo-cantante em um coro de igreja. Aos 13 anos, interrompeu os estudos e passou a trabalhar como auxiliar na redação do jornal “O Imparcial”. Com o fechamento do periódico, em 1929, passou a vender bebidas. Escreve sua primeira música, “No sertão”, em 1930 e, aos vinte anos, faz suas primeiras apresentações como cantor  e violonista em programas da Rádio Clube da Bahia. Em 1935, passa a ter um programa só seu, “Caymmi e suas canções praieiras”. Aos 22 anos, vence um concurso de músicas de carnaval com o samba “A Bahia também dá”. Incentivado por um diretor da Rádio Clube da Bahia, Gilberto Martins, resolve seguir carreira no Sul do Brasil, e embarca para o Rio de Janeiro, então Capital da República, em abril de 1938, num ita (navio que cruzava o Brasil de sul a norte) , a fim de obter emprego como jornalista e estudar Direito. Com a ajuda de parentes e amigos, fez alguns pequenos trabalhos como repórter em “O Jornal”, periódico dos Diários Associados, ainda assim continuando a compor e cantar. Em seguida, estreou como cantor na PRG-3, Rádio Tupi (“o cacique do ar”), apresentando-se dois dias por semana. Foi no programa “Dragão da Rua Larga” que Caymmi apresentou, pela primeira vez, seu samba “O que é que a baiana tem?”, mais tarde interpretado por Cármen Miranda no filme “Banana da terra”,  e que muito contribuiu para a consagração internacional da “pequena notável”. E foi com ele que Caymmi estreou em disco, em dueto com Cármen, em 1939, tendo no verso “A preta do acarajé” (incluído nesta seleção).  Era o pontapé inicial para inúmeros outros sucessos, gravados por ele próprio e por outros intérpretes, em mais de 50 anos de atividade musical, entre os quais, além dos presentes nesta edição do GRB, podemos citar: “A jangada voltou só”, “Marina”, “Acalanto”, “A vizinha do lado”, “Saudade da Bahia”, “Pescaria (Canoeiro)”, “Tão só”, “Sábado em Copacabana”, “Samba da minha terra”, “Eu não tenho onde morar”, “São Salvador”, “Modinha para Gabriela”, “Das Rosas”, “Eu cheguei lá”, “Vou ver Juliana”, “Maracangalha”, “Adeus”, “Trezentas e sessenta e cinco igrejas”, “Oração de Mãe Menininha”, “O bem do mar” e muitos mais. Uma gloriosa trajetória que também inclui apresentações no exterior.  Possuía um estilo pessoal de compor e cantar, com espontaneidade nos versos, sensualidade e riqueza melódica. Além da música, dedicou-se intensamente à pintura. Em 1986, foi merecidamente homenageado pela Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira com o enredo “Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm”, com o qual a “verde-e-rosa” sagrou-se campeã do carnaval carioca. Do casamento de Caymmi com Adelaide Tostes (que, como cantora, usava o pseudônimo de Stella Maris), resultaram três filhos que também seguiram carreira musical, e estão na estrada até hoje:  Nana, Dori e Danilo, além da neta Alice. Dorival Caymmi faleceu em 16 de agosto de 2008, aos 94 anos, no Rio de Janeiro, de insuficiência renal.

Para esta edição do GRB, foram selecionadas doze preciosas gravações de mestre Caymmi, verdadeiras joias da nossa música popular, documentando parcela substancial de sua obra como autor e intérprete. Abrindo o programa, temos “Cantiga”, gravação RCA Victor de 5 de novembro de 1947, lançada em maio de 48 sob número 80-0585-A, matriz S-078820. O samba “Dois de fevereiro”, em homenagem  a Iemanjá, “a rainha do mar”, é gravação Odeon de primeiro de setembro de 1957, com acompanhamento orquestral de Léo Peracchi, lançada em dezembro seguinte com o número 14286-A, matriz 12000, aparecendo também no LP “Caymmi e o mar”, quarto vinil do artista baiano e primeiro no formato-padrão de doze polegadas. Voltando à RCA Victor, temos “Festa de rua”, “cena baiana” gravada em 18 de abril de 1949 e lançada em julho seguinte com o número 80-0596-B, matriz S-078868. Temos em seguida uma amostra do Caymmi apenas intérprete, no samba-jongo “Navio negreiro”, de Alcyr Pires Vermelho, J. Piedade e Sá Roris, gravação Odeon de 5 de março de 1940, com suporte orquestral do palestino Simon Bountman,  lançada em maio do mesmo ano sob número 11850-A, matriz 6311. Uma das obras-primas de Caymmi, o samba-canção “Nem eu”, que o autor já havia interpretado no filme “Terra é sempre terra”, da Vera Cruz, foi por ele gravado na mesma Odeon em 14 de maio de 1952, com lançamento em julho do mesmo ano, com o número 13288-B, matriz 9305. “Nem eu” tem regravações por Ângela Maria, Gal Costa e até mesmo por Hebe Camargo, entre outras. Logo depois, outra obra-prima do mestre baiano: a canção praieira “O mar”, por ele interpretada com acompanhamento orquestral de Radamés Gnattali. A gravação ocupou os dois lados do disco Columbia 55247, registrado em 7 de novembro de 1940 e lançado em dezembro do mesmo ano, matrizes 328 e 329. “Noite de temporal”, outra canção praieira do gênio baiano, é o lado B de “Navio negreiro”, e foi gravado um dia antes, em 4 de março de 1940, matriz 6310. Caymmi a interpreta acompanhado pelos violões de Laurindo de Almeida, Dilermando Reis e Rogério Guimarães. E tome clássico: “Dora”, samba com introdução de frevo, que Caymmi fez no Recife, inspirado numa mulata que dançava o frevo com perfeição, à frente de um bloco que passava em frente a um hotel da capital pernambucana. Antológica gravação Odeon de 18 de junho de 1945, com acompanhamento da orquestra do maestro Fon-Fon , lançada em agosto seguinte sob número 12606-A, matriz 7856. O samba “Lá vem a baiana” foi gravado por seu autor na RCA Victor em 11 de julho de 1947, com lançamento em agosto do mesmo ano, com o número 80-0536-B, matriz S-078763. O samba-canção “João Valentão” foi inspirado em um pescador amigo de Caymmi, Carapeba, e é considerado um dos melhores perfis humanos traçados pelo mestre baiano. Foi por ele imortalizado na Odeon em 28 de maio de 1953, acompanhado pela orquestra de Oswaldo Borba, com lançamento em agosto seguinte sob número 13478-A, matriz 9726, e tem sido bastante regravado, como aliás quase todas as suas obras. “Saudade de Itapoã” é outra obra-prima que o próprio Caymmi imortalizou, desta vez na RCA Victor, em 5 de novembro de 1947, com lançamento em abril de 48, sob número 80-0576-B, matriz S-078823. Para encerrar, uma gravação do início da carreira de Caymmi: a “cena típica baiana” “A preta do acarajé”, que ele interpreta ao lado de Cármen Miranda. Registro Odeon de 27 de fevereiro de 1939, lançado em abril seguinte com o número 11710-B, matriz 6024. Caymmi recolheu o pregão da voz de uma negra vendedora de acarajé , que todas as noites passava por sua rua, em Salvador, e ao servir os fregueses também dizia: “Todo mundo gosta de acarajé, mas o trabalho que dá pra fazer é que é”. Segundo o próprio Caymmi, “em verdade essa canção é muito mais daquela preta que vendia acarajé do que minha”… Enfim, uma pequena-grande amostra do talento, da poesia e da musicalidade de Dorival Caymmi como autor e intérprete, que o GRB tem a grata satisfação de oferecer.

* Texto de Samuel Machado Filho

Cauby Peixoto – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 148 (2016) Parte 2

O Grand Record Brazil oferece hoje aos amigos cultos, ocultos e associados a segunda parte do retrospecto especial dedicado ao grande e notável Cauby Peixoto, que partiu para a eternidade em 15 de maio último, deixando muitas saudades em todos aqueles que apreciam o que é bom em matéria de música. Oferecemos aqui mais 14 gravações de Cauby, várias delas prensadas simultaneamente em 78 rpm e vinil. Abrindo esta segunda parte, o bolero “Meu amor por você”, de Lourival Faissal e Edson Menezes, que Cauby gravou na RCA Victor em 20 de dezembro de 1957, com lançamento em abril de 58, sob número 80-1928-B, matriz 13-H2PB-0312. E a faixa seguinte é justamente o lado A, matriz 13-H2PB-0311, e um clássico do repertório dele: o samba-canção “Nono mandamento”, de Renê Bittencourt, retumbante êxito na época, e que o nosso saudoso Cauby também interpretou no filme “De pernas pro ar”, co-produção Herbert Richers-Cinedistri. Na quarta faixa, temos o primeiro hit maiúsculo do “professor da MPB”: o fox “Blue gardenia”, dos norte-americanos Bob Russell e Lester Lee, em versão de Antônio Carlos. Foi composto para o filme de mesmo nome, exibido no Brasil como “Gardênia azul”, e nele interpretado por Nat King Cole, tornando a música bem mais lembrada do que a própria película. O registro de Cauby saiu pela Columbia em maio de 1954, sob número CB-10042-A, matriz CBO-215, e, mais tarde, “Blue gardenia” seria faixa-título e de abertura do primeiro LP do cantor, em dez polegadas. Ainda em 54, apareceu outra gravação em português deste fox, por Lúcio Alves, mas o sucesso foi mesmo de Cauby. Aqui também apresentamos o lado B desse 78, matriz CBO-214: o samba-canção “Só desejo você”, assinado pelo então empresário de Cauby, Di Veras, em parceria com Osmar Campos Filho, e, ainda em 1954, também gravado na Copacabana por Ângela Maria. A música entrou mais tarde no segundo LP de Cauby, o dez polegadas “Canção do rouxinol”.  A quinta faixa desta seleção é “Canção de sentir saudade”, samba-canção de Durval Ferreira e Orlando Henriques, que Cauby gravou na RCA Victor em 11 de outubro de 1960, com lançamento em janeiro de 61, sob número 80-2286-A, matriz L2CAB-1132. Mais tarde, seria faixa de encerramento do compacto duplo de 45 rpm número 583-5068. O lado B do 78, matriz L2CAB-1133, que também abriu o compacto em questão e um LP do cantor com o mesmo título, é a faixa seguinte: a balada “Perdão para dois”, de Palmeira e Alfredo Corleto, lançada pouco antes por Leila Silva na Chantecler. Em seguida, temos o beguine “Tentação”, de Edson Borges e Sidney Morais (que integrou o Conjunto Farroupilha e Os Três Morais, e gravou discos de música latina como Santo Morales). Foi lançado pela Columbia, na voz de Cauby, em abril de 1956, sob número CB-10250-B, matriz CBO-727. Logo depois, vem o lado B, matriz CBO-729, o fado “Lisboa antiga”, standard do cancioneiro lusitano, de autoria de Raul Portela, Amadeu do Vale e José Galhardo. Em LP, e de dez polegadas, esta faixa só apareceu na coletânea mista “Meus favoritos – vol.  5”. A faixa 9, “Bibape do Ceará”, é um baião de Catulo de Paula e Carlos Galindo, originalmente gravado pelo próprio Catulo em 1955. O registro de Cauby foi lançado em setembro de 56 pela Columbia, sob número CB-10285-B, matriz CBO-818 (o lado A é o clássico “Conceição”, já oferecido a vocês em nosso volume anterior). Na décima faixa, temos o fox “É tão sublime o amor (Love is a many splendored thing)”, dos norte-americanos Paul Francis e Sammy Fain, em versão de Alberto Almeida.  A música deu título a um filme também de sucesso, estrelado por William Holden e Jennifer Jones, e exibido no Brasil como “Suplício de uma saudade”. O registro de Cauby foi lançado pela Columbia em maio-junho de 1956, sob número CB-11002-A, matriz CO-55565, abrindo também seu terceiro LP, o dez polegadas “Você, a música e Cauby”.  Em seguida, outro clássico: o bolero “Espera-me no céu (Esperame em el cielo)”, do portorriquenho Francisco López Vidal (Paquito), em versão do pistonista Araken Peixoto, irmão de nosso Cauby, que a imortalizou na RCA Victor em 30 de janeiro de 1957, com lançamento em julho do mesmo ano, sob número 80-1812-B, matriz 13-H2PB-0044. A gravação entrou mais tarde no LP de dez polegadas “Música e romance”, já oferecido a vocês pelo Toque Musical. A faixa seguinte é o lado B do disco de estreia de Cauby, o Carnaval/Star 013, lançado bem em cima do carnaval de 1951, em fevereiro:  a marchinha “Ai, que carestia”, de Victor Simon e Liz Monteiro (nada mais atual, não é mesmo?).  A penúltima faixa é o clássico “Molambo”, samba-canção do violonista Jayme Florence, o Meira dos regionais, em parceria com Augusto Mesquita. Lançado em 1953 por Julinha Silva, tem vários outros registros, e o de Cauby foi lançado pela Columbia em maio-junho de 1956, em seu terceiro LP, o dez polegadas “Você, a música e Cauby”, chegando ao 78 rpm em agosto seguinte sob número CB-10267-A, matriz CBO-769. E, encerrando esta seleção, o fox “Tudo lembra você (These foolish things/Remind me of you)”. A música foi feita em 1936 pelos britânicos Jack Strachey e Eric Maschwitz (também conhecido por Holt Marvel), mais o norte-americano Harry Link, e tem vários registros. O de Cauby, com letra brasileira de Mário Donato, tem acompanhamento do conjunto do violonista Ângelo Apolônio, o Poly, e saiu pela Todamérica em março de 1953, com o número TA-5259-A, matriz TA-1153. Um fecho realmente de ouro para este retrospecto especial que o GRB dedica ao agora imortal Cauby Peixoto!

*Texto de Samuel Machado Filho

Cauby Peixoto (parte 1) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 147 (2016)

No dia 15 de maio último, um domingo, por volta das 23h50, em São Paulo, o Brasil perdia um de seus mais expressivos cantores, e o último remanescente  da fase áurea do rádio: Cauby Peixoto.  Há tempos ele vinha enfrentando problemas de saúde (em 2000, por exemplo, Cauby implantou seis pontes de safena no coração), mas ainda assim continuou a se apresentar artisticamente, inclusive em um show ao lado de Ângela Maria, grande amiga e colega de profissão, comemorando os 60 anos de carreira de cada um, cuja temporada terminaria no sábado, 21 de maio. E o Grand Record Brazil, “braço de cera” do TM, evidentemente, não poderia deixar de homenagear este notável astro da MPB, apresentando, em duas partes, um retrospecto musical de sua carreira. Com o nome completo de Cauby Peixoto Barros, nosso focalizado veio ao mundo no bairro de Santa Rosa, em Niterói, litoral do estado do Rio de Janeiro, em 10 de fevereiro de 1931, oriundo de uma família musical: era sobrinho do pianista Romualdo Peixoto, o Nonô, seu pai, Eliziário, era violonista, a mãe, Alice, adorava cantar, e seus cinco irmãos (Cauby era o caçula) também tinham dotes musicais: Moacyr era pianista, Araken, pistonista,  e as irmãs Aracy, Andyara e Iracema também cantavam. Mas seu parente mais famoso era Cyro Monteiro, “o cantor das mil e uma fãs”. Foi ouvindo discos de Orlando Silva e Sílvio Caldas (e também, logicamente,  pelo rádio, então já veículo de massa) que nosso Cauby teve seus primeiros contatos com a música. Aos 14 anos de idade, para ajudar nas finanças da casa, ele começou a trabalhar no comércio, além de estudar à noite. Em 1949, antes de demitir-se de uma perfumaria em que trabalhava, fez suas primeiras apresentações no rádio, através do programa “Hora do comerciário”, da PRG-3, Rádio Tupi, transmitido nos finais de tarde dos sábados. Depois, passou a se apresentar no Teatro Rival, na Cinelândia, além de pedir para dar “canjas” em boates como a Vogue. Em 1951, grava seu primeiro disco, no selo Carnaval, da Star, com duas músicas para a folia daquele ano: o samba “Saia branca” e a marchinha “Ai, que carestia”. No ano seguinte, transferiu-se para São Paulo, cantando nas boates Arpége e Oasis,e na Rádio Excelsior. Suas performances impressionaram o futuro empresário Di Veras, q            ue aos poucos lhe criou uma estratégia de marketing completa: repertório, roupas, atitudes nos palcos etc. Após dois discos na Todamérica, em 1953, Cauby é contratado pela Columbia, hoje Sony Music, e, um ano mais tarde, obtém seu primeiro grande hit: “Blue gardenia”, versão de Antônio Carlos para a música-tema do filme de mesmo nome, que daria título, mais tarde, a seu primeiro LP. Ainda em 54, ingressa na lendária Rádio Nacional do Rio, e consolida sua popularidade, lançando êxitos sobre êxitos em disco, o maior deles, por certo, “Conceição”, seu prefixo pessoal para sempre, além de aparecer cantando em alguns filmes. Foi o primeiro a gravar um rock cem por cento brasileiro, letra e música, em 1957, “Rock and roll em Copacabana”, de Miguel Gustavo. Cauby passou várias temporadas nos EUA, e em uma delas, com o pseudônimo de Ron Coby, gravou em inglês, e em ritmo de calipso, o clássico “Maracangalha”, de Dorival Caymmi, com o título de “I go”. No decorrer dos anos 1960, foi proprietário da boate Drink, do Rio de Janeiro, em sociedade com os irmãos. Encantando gerações com sua voz e interpretação, ao longo da carreira, Cauby recebeu inúmeros prêmios, e sempre foi reconhecido como notável intérprete, que cantava de tudo e em qualquer idioma, sem qualquer embaraço. Em 2015, foi lançado o documentário “Cauby – Começaria tudo outra vez”, de Nélson Hoineff, contando toda a sua trajetória. Nos últimos anos de vida, apresentava-se às segundas-feiras no Bar Brahma, em São Paulo, onde permaneceu por mais de uma década.

Nesta primeira parte da homenagem que o GRB faz a Cauby Peixoto, estão catorze preciosíssimas gravações, várias delas prensadas em 78 rpm e também em LP (nunca esquecendo que foram feitas numa época de transição de formatos).  Abrindo esta seleção, o bolero “A pérola e o rubi (The ruby and the pearl)”, de Jay Livingstone e Ray Evans, em versão de Haroldo Barbosa., composto para o filme “Uma aventura na Índia (Thunder at the East)”, produzido em 1952 pela Paramount. Cauby o gravou em Hollywood, EUA, durante sua primeira temporada naquele país, com a orquestra do maestro Paul Weston, e a Columbia o lançou no Brasil por volta de agosto de 1955, sob número CB-11000-B, matriz RHCO-33427. Curiosamente, o lado A é a última faixa desta seleção, o samba-canção “Final de amor”, de Haroldo Barbosa, Cidinho e Di Veras (o polêmico empresário do cantor), matriz RHCO-33427. Ambas as músicas entraram depois no primeiro LP do cantor, o dez polegadas “Blue gardênia” (cuja faixa-título estará em nosso próximo volume).  A segunda faixa revela o Cauby compositor, no samba-canção “Lealdade”, parceria com Santos Silva, gravação RCA Victor de 20 de julho de 1960, lançada em setembro do mesmo ano, sob número 80-2243-A, matriz L2CAB-1032. Em seguida temos justamente o lado B do 78: o bolero clássico “Ninguém é de ninguém”, de Umberto Silva, Toso Gomes e Luiz Mergulhão, matriz L2CAB-1033, bastante regravado e até hoje conhecido. As duas faixas apareceram depois no compacto duplo de 45 rpm n.o 583-5062, também chamado “Ninguém é de ninguém”, e a faixa-título ainda entrou no LP “Perdão para dois”. A quarta música é simplesmente o maior sucesso da carreira de Cauby: “Conceição”, samba-canção de Waldemar “Dunga” de Abreu e Jair Amorim, seu eterno prefixo e obrigatório em qualquer show que ele fizesse. Lançado pela Columbia em maio-junho de 1956 no LP de dez polegadas “Você, a música e Cauby”, chegaria ao 78 rpm em setembro do mesmo ano, com o número CB-10285-A, matriz CBO-770. Dircinha Batista também gravou “Conceição” no mesmo ano, mas o sucesso foi mesmo de Cauby, que ainda interpretou a música no filme “Com água na boca”, da Herbert Richers. Originalmente uma balada-fado, “De degrau em degrau”, dos portugueses Jerônimo Bragança e Nóbrega e Souza, é apresentado por Cauby em ritmo de fox, numa gravação Columbia de 1960, editada sob número 3114-A, matriz CBO-2231. O lado carnavalesco de nosso Cauby é mostrado na faixa seguinte, “Mil mulheres”, marchinha da folia de 1955, Assinada por Herivelto Martins, Cyro Monteiro e Salvador Miceli, saiu pela Columbia ainda em dezembro de 54, sob número CB-10109-A, matriz CBO-374. Originalmente gravado em 1938 por Orlando Silva, o fox-canção clássico “Nada além”, de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, é aqui revivido por Cauby em gravação RCA Victor de 22 de agosto de 1956, lançada em novembro seguinte com o número 80-1691-A, matriz BE6VB-1261, aparecendo ainda no LP de dez polegadas “Ouvindo Cauby” e no compacto duplo de 45 rpm n.o 583-0031. “Ser triste sozinho (Learning the blues)”, fox de Dolores Vicki Silvers em versão de Lourival Faissal, saiu originalmente no LP de dez polegadas “Você, a música e Cauby”, em 1956, só chegando ao 78 rpm em julho de 57, sob número CB-10353-B, matriz CO-55562. “Prece de amor”, samba-canção de Renê Bittencourt, foi um dos maiores hits de Cauby, lançado originalmente em fins de 1956 pela Columbia no LP de dez polegadas “O show vai começar” e reeditado depois em 78 rpm com o número CB-10337-A, matriz CBO-772. Ainda teve outra gravação, por Dalva de Oliveira. “Enrolando o rock”, de Heitor Carillo e Betinho, foi lançado por este último em 1957, e Cauby aqui o interpreta em gravação que a Columbia editou por volta de março de 58, sob número CB-11008-B, matriz CBO-1299. A balada “A noiva (La novia)”, de origem chilena, é de autoria de Joaquín Prieto, e foi gravada na Argentina por seu irmão, o ator e cantor Antonio Prieto. Com letra brazuca de Fred Jorge, logo recebeu várias gravações, como esta de Cauby, feita na RCA Victor em 15 de março de 1961 e lançada em abril seguinte com o número 80-2321-B, matriz M2CAB-1242, aparecendo depois no compacto duplo de 45 rpm n.o 583-5068 e no LP “Perdão para dois”. “Muito além” é versão do radialista Júlio Nagib para o fox italiano “Al di la”, de Carlo Donida e Mogol, e é o lado A de “A noiva”, matriz M2CAB-1243, também constando do mesmo compacto duplo dessa faixa. Composto pelo lendário César de Alencar, colega de Cauby na Rádio Nacional, o samba “Se você pensa” foi lançado pela Columbia ainda em dezembro de 54, no lado B de “Mil mulheres”, matriz CBO-375. Enfim, uma homenagem à altura para aquele foi, com justiça, “o professor da MPB”. Aguardem o próximo volume, com mais Cauby pra vocês!

* Texto de Samuel Machado Filho

As Cantoras – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 146 (2016)

Em sua edição de número 146, o Grand Record Brazil apresenta mais uma seleção de gravações com cantoras que fazem parte da história de nossa música popular, mesclando nomes consagrados com outros que o passar do tempo foi esquecendo, e perfazendo um total de 16 faixas, autênticas raridades que são reveladas para os amigos cultos, ocultos e associados de nosso TM.  –  Abrindo a seleção musical desta quinzena, temos o samba-canção “Amigos”, de autoria de Paulo Marques e Aylce Chaves, na interpretação de Linda Batista, acompanhada de conjunto no qual o violino, certamente, é de Fafá Lemos. A gravação foi feita na RCA Victor em 27 de janeiro de 1955 e lançada em março do mesmo ano, sob número de disco 80-1429-A, matriz BE5VB-0651. Em seguida, temos Aracy de Almeida, a inesquecível “dama da Central” e “do Encantado”, interpretando outro samba-canção, este clássico e bastante regravado: “Bom dia, tristeza”, lançado pela Continental em maio-junho de 1957 sob número 17437-B, matriz 11947. E a música tem uma história bem interessante: os versos, de autoria do Poetinha Vinícius de Moraes, foram enviados por ele de Paris (ele trabalhava na embaixada brasileira na França), por correio, a Aracy de Almeida, a fim de que ela fizesse o que bem entendesse com eles. Aracy, então colega de Adoniran Barbosa na Rádio e Televisão Record de São Paulo, solicitou então a ele que os musicasse. Mestre Adoniran desincumbiu-se plenamente da tarefa, e o resultado foi mais uma página antológica de seu trabalho autoral, no qual se destacam sambas como “Saudosa maloca” e “Trem das onze”, entre outros. Ângela Maria, a festejada Sapoti, aqui comparece com um tango bastante expressivo e de sucesso: “Mentindo”, de Eduardo Patané e Lourival Faissal. Foi lançado pela Copacabana em setembro-outubro de 1956, com o número 20032-A (dentro da série “de exportação” da companhia), matriz M-1671, mais tarde abrindo o LP de dez polegadas “Sucessos de Ângela Maria, número 2”. A cantora também interpretou “Mentindo” em dois filmes: “Com água na boca”, da Cine TV Filmes (mais tarde Herbert Richers), e “Rio fantasia”, de Watson Macedo. Paulista de Santos, Eladyr Porto iniciou sua carreira interpretando sambas e marchinhas. Mas, após residir na Argentina, passou a cantar tangos. É desta fase a gravação escalada para esta edição do GRB, “Cantando”, um clássico do gênero, escrito por Mercedes Simone, com letra brasileira de Virgínia Amorim. Quem o conhece na interpretação em dueto de Silvana e Rinaldo Calheiros, agora vai poder conferir sua primeira gravação em português, com Eladyr Porto, lançada pela Mocambo em 1956 sob número 15016-A, matriz R-537, aparecendo também no LP de dez polegadas “Tangos em versão”. Logo depois, Norma Ardanuy interpreta “Alma de boêmio (Alma de bohemio)”, outro tango clássico, de autoria de Roberto Firpo e Juan Andrés Caruso, em versão de Vanda Ardanuy, por certo irmã da intérprete. Foi gravado na Polydor em 13 de abril de 1956, e o disco recebeu o número 149-A, matriz POL-1116. Grande destaque do rádio de São Paulo nos anos 1940/50, e também pioneira da televisão no Brasil, Rosa Pardini aqui interpreta o bolero “Nunca, jamais (Nunca, jamás)”, de autoria de Lalo Guerrero, norte-americano do Arizona, mas descendente de mexicanos, em versão de Nélson Ferreira. Gravação Polydor de 31 de agosto de 1956, em disco número 173-B, matriz POL-1215, e que também abriu o LP de dez polegadas n.o LPN-2013, sem título. Em seguida, volta Eladyr Porto, interpretando “Silêncio”, versão dela própria para um tango clássico de Carlos Gardel, Alfredo Le Pera e Horacio Pettarosi. Outra gravação Mocambo , lançada em dezembro de 1956 sob número 15117-A, matriz R-740, sendo também faixa de abertura do já citado LP de dez polegadas “Tangos em versão”. Luely Figueiró interpreta depois “Até (Prière sans espoir)”, versão de Oswaldo Santiago para um fox de origem francesa, de autoria de Charles Danvers e Pierre Benoit Buisson, sucesso em todo o mundo na letra norte-americana de Carl Sigman, com o nome de “Till”. A gravação de Luely saiu pela Continental em setembro-outubro de 1958, sob número 17589-B, matriz 12120, entrando também no primeiro LP da cantora, “Gauchinha bem querer”. No mesmo ano, esta versão foi também gravada por Julie Joy, com o nome de “Até que…”.  A recifense-pernambucana Maria Helena Raposo bate ponto aqui com “Antigamente”, samba-toada de Vadico e Jarbas Mello, faixa de seu único LP, “Encantamento”, lançado em 1958 pela Mocambo, gravadora que inclusive tinha sede em seu Recife natal. Isaura Garcia, a sempre lembrada “Personalíssima”, aqui interpreta “Falaram de você”, samba-canção dos irmãos Hervê e Renê Cordovil, gravação RCA Victor de 13 de novembro de 1953, lançada em março de 54 sob número de disco 80-1258-B, matriz BE4VB-0304. O clássico “Conceição”, de Waldemar “Dunga” de Abreu e Jair Amorim, imortal sucesso de Cauby Peixoto, é aqui apresentado na voz de Dircinha Batista. A gravação dela para esse samba-canção foi feita na RCA Victor em 29 de maio de 1956, e lançada em agosto do mesmo ano sob número 80-1646-B, matriz BE6VB-1178, e, em virtude da enorme repercussão do registro de Cauby, ficou esquecida. Portanto, o GRB agora oferece uma oportunidade de ouvir e reavaliar esta interpretação de Dircinha Batista para “Conceição”. Logo depois, Dóris Monteiro interpreta “Quando tu passas por mim”, samba-canção que, embora tenha sido integralmente composto pelo Poetinha Vinícius de Moraes, letra e música, teve parceria por ele mesmo concedida a Antônio Maria. Originalmente gravado por Aracy de Almeida, em 1953, é oferecido aqui na interpretação da sempre notável  Dóris, lançada pela Continental em março de 1955, sob número 17092-B, matriz C-3555, com orquestração e regência do mestre Tom Jobim, outra importantíssima credencial. “Quantas vezes”, samba-canção de Peterpan, e outro sucesso de Dóris Monteiro (1952), aqui aparece na voz da eterna “Favorita”, Emilinha Borba (por sinal cunhada do compositor), em gravação extraída de acetato da Rádio Nacional carioca, então vivendo seu período áureo. Uma das “cantorinhas” reveladas pelo programa “Clube do Guri”, da Rádio Tamoio, também do Rio de Janeiro, Zaíra Cruz interpreta graciosamente a valsa “Anjo bom”, de Lourival Faissal em parceria com o jornalista Max Gold, em homenagem ao Dia das Mães. Gravação RCA Victor de 15 de março de 1956, lançada em maio do mesmo ano sob número 80-1600-B, matriz BE6VB-1022. Um ano mais tarde, apareceu no LP-coletânea de dez polegadas “Mãezinha querida”.  Entre 1952 e 1961, Zaíra Cruz gravou 21 discos de 78 rpm com 42 músicas, quase todos pela RCA Victor, e o último na Tiger. A também atriz Heloísa Helena (Rio de Janeiro, 28/10/1917-idem, 19/6/1999) bate ponto nesta edição com uma verdadeira raridade: “N’aimez que moi”, canção de Joubert de Carvalho e Maria Eugênia Celso, com letra me francês, originalmente lançada em disco por Marlene Valleé, em 1932. A presente gravação, em que Heloísa Helena é acompanhada ao piano por Benê Nunes, foi  tirada diretamente da trilha sonora do filme “É fogo na roupa”, de 1952, produzido e dirigido por Watson Macedo, verdadeiro craque das chanchadas.  E por último, da escassa discografia da cantora Míriam de Souza, resgatamos “Noite de chuva”, samba-canção do maestro Lindolfo Gaya em parceria com Pascoal Longo. É o lado A de seu segundo disco, o Odeon 13684, gravado em 28 de maio de 1954 e lançado em julho do mesmo ano, matriz 10144. Míriam gravou apenas seis discos 78 com doze músicas, cinco pela Odeon, entre 1953 e 1956, e o último na obscura Ciclone, em 1960. Enfim, esta é mais uma contribuição do GRB e do TM para a preservação da memória musical do Brasil, tarefa árdua porém extremamente gratificante. Divirtam-se!
*Texto de Samuel Machado Filho

A Música De Getúlio Marinho (parte 2) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 145 (2016)

O Grand Record Brazil oferece hoje, mui prazeirosamente, aos amigos cultos, ocultos e associados do TM, a segunda parte da retrospectiva dedicada a Getúlio “Amor” Marinho, compositor carioca intimamente ligado ao carnaval e ás escolas de samba, oferecendo mais dez preciosas gravações de obras suas. Para começar, a marcha-rancho “Gegê”, parceria de “Amor” com Eduardo Souto (compositor de belas páginas desse gênero), do carnaval de 1932. A gravação ficou por conta de Jayme Vogeler, na Odeon, acompanhado pela Orquestra Copacabana de Simon Bountman, em 24 de novembro de 31, disco 10876-A, matriz 4369. É a crônica musical de um episódio segundo o qual o então presidente Getúlio Vargas, assim que tomou posse, em 1930, começou a receber inúmeros pedidos de empregos públicos, e, para protelar e desacelerar essa avalanche (era um período de crise financeira, como agora), passou a exigir requerimento estampilhado, com foto e selos.  Só que “Gegê”, aqui, não é o apelido de Getúlio, e sim um nome qualquer,  ou seja, apenas uma coincidência. A música, por sinal, até venceu um concurso promovido pelo “Correio da Manhã”, através de votos impressos no próprio jornal, apontando a melhor música da folia momesca de 1932, deixando em segundo lugar o clássico “Teu cabelo não nega”, dos irmãos Valença e Lamartine Babo. Logo depois, o partido-alto “Tentação do samba”, que “Amor” fez com seu mais constante parceiro, João Bastos Filho. Foi gravado por Patrício Teixeira na Victor em 2 de fevereiro de 1933, com lançamento em março do mesmo ano, disco 33633-A, matriz 65660. Luiz Barbosa, sambista prematuramente desaparecido, mas cujo estilo deixou inúmeros seguidores , aqui comparece com a batucada “Bumba no caneco”, parceria de Getúlio  “Amor” Marinho com Orlando Vieira. Destinada ao carnaval de 1933, foi gravada na Odeon em 24 de janeiro desse ano, com lançamento a toque de caixa sob número de disco 10974-A, matriz 4594. Patrício Teixeira retorna em seguida para interpretar “Quando me vejo num samba”, de “Amor” sem parceiro, gravação Victor de 17 de maio de 1933, somente lançada em setembro de 34 (!), disco 33818-B, matriz 65735. Castro Barbosa vem depois com “De que será?”, marchinha do carnaval de 1935, da parceria “Amor”-João Bastos Filho. Acompanhado pelos Diabos do Céu, de Pixinguinha, Barbosa gravou a música na Victor em 4 de dezembro de 34, com lançamento bem em cima da folia, em fevereiro, disco 33899-A, matriz 79795. Aurora Miranda, irmã de Cármen, comparece aqui com o samba “Molha o pano”, de “Amor” e Vasconcelos, do carnava de 1936. Gravação Odeon de 16 de dezembro de 35, lançada um mês antes da folia, em janeiro, disco 11320-A, matriz 5213. Ainda de “Amor” e João Bastos Filho é a valsa “Teu olhar”, executada por Luiz Americano à clarineta com a maestria habitual, em gravação Odeon de 3 de outubro de 1936, lançada em abril de 37, disco 11459-B, matriz 5390. Ídolo popular inesquecível, Orlando Silva aqui apresenta o samba “Vai cumprir o teu fado”, da parceria Getúlio “Amor” Marinho-João Bastos Filho, sucesso do carnaval de 1940. Gravação Victor de 26 de setembro de 39, lançada ainda em novembro, disco 34517-B, matriz 33165. Dessa parceria é também a marchinha “Oh! Mariana”, da mesma folia momesca, interpretada pelo irmão de Sílvio Caldas, Murilo. Gravação Victor de 22 de novembro de 1939, lançada em janeiro de 40, disco 34561-B, matriz 33286. Por fim, o grande Nélson Gonçalves, interpretando, também de “Amor” e João Bastos Filho, a valsa “Nadir”, gravação Victor de 30 de maio de 1944, lançada em agosto do memso ano, disco 80-0198-A, matriz S-052968. Um belo fecho para esta seleção que o GRB dedica a Getúlio “Amor” Marinho, com toda a certeza. Até a próxima!

Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.

A Música De Getúlio Marinho (parte 1) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 144 (2016)

Iniciando com o pé direito o ano de 2016, o Grand Record Brazil apresenta a primeira de duas partes de uma retrospectiva dedicada a um dos mais expressivos compositores de nossa música popular, também instrumentista e dançarino: Getúlio “Amor” Marinho. Nosso focalizado nasceu em Salvador, Bahia, no dia 15 de novembro de 1889, o mesmo da Proclamação da República, recebendo na pia batismal o nome de Getúlio Marinho da Silva. Filho de Paulina Tereza de Jesus e Antônio Marinho da Silva, o “Marinho que Toca”, mudou-se para o Rio de Janeiro aos seis anos de idade, junto com a família, é claro. Com a mesma idade, ingressou no Rancho Dois de Ouro.  Foi criado frequentando as casas de tias baianas como Gracinda, Bebiana, Calu Boneca e a lendária Ciata. Participou dos primeiros ranchos carnavalescos cariocas criados por baianos, então residentes no bairro da Saúde. Getúlio saía como porta-machado no Dois de Ouros, e ainda desfilava no Concha de Ouro. Frequentou as rodas de samba organizadas por baianos que se reuniam no Café Paraíso, então situado à Rua Larga de São Joaquim, atual Avenida Marechal Floriano. Mestre-sala de inúmeros ranchos carnavalescos (Flor do Abacate, Quem Fala de Nós Tem Paixão, Reinado de Silva), aprendeu a coreografia com o pioneiro Hilário Jovino Ferreira, tornando-se grande especialista nessa arte. Estava sempre vestido de forma impecável, com roupas de fidalgo, sapatos de fivela e salto alto, de luvas e cabeleira empoada, como se fosse alguém vindo das cortes francesas. Sua coreografia era sóbria, sem acrobacias nem presepadas, e  exatamente por sua finesse, recebia os aplausos do público presente aos desfiles. Em 1916, iniciou sua carreira artística, atuando como dançarino na revista “Dança de velho”, encenada no Teatro São José. Sua primeira composição gravada foi o samba “Não quero amor”, em 1930, pelo Conjunto Africano. Frequentou terreiros de macumba e conheceu  pais de santo afamados, como João Alabá, Assumano e Abedé, recolhendo pontos do gênero e levando-os ao disco, juntamente com Elói Antero Dias, o Mano Elói. Outros pontos de macumba por ele compostos foram gravados por Moreira da Silva. De 1940 a 1946, Getúlio foi o “cidadão-samba” do carnaval carioca. Entre suas composições de maior sucesso, destacam-se o samba “Apanhando papel” e a marchinha junina “Pula a fogueira”. Era também considerado grande tocador de omelê, antigo nome da cuíca. Em 1963, já quase esquecido, adoeceu seriamente, e foi internado no Hospital dos Servidores da então Guanabara, vindo a falecer a 31 de janeiro do ano seguinte, 1964. Nesta primeira parte da retrospectiva que o GRB dedica a Getúlio “Amor” Marinho, apresentamos oito de seus pontos de macumba, um jongo e  um samba, perfazendo um total de dez fonogramas históricos e importantes. Começamos com o “Ponto de Inhansan” (ou Iansã), que ele  gravou com seu Conjunto Africano na Odeon em 9 de março de 1937, com lançamento em junho do mesmo ano, disco 11481-A, matriz 5533. Logo em seguida temos o lado B, “Ponto de Ogum”, matriz 5534, regravação de música que já lançara em 1930, em dueto com Mano Elói. Foi lançada justamente nesse ano, mais precisamente em outubro de 30, nossa faixa seguinte, o “Canto de Exú”, de domínio público, igualmente pelo Conjunto Africano, disco Odeon 10690-A, matriz 3879.  Depois temos o lado B desse disco, “Canto de Ogum”, outro motivo popular, matriz 3880. Apresentamos em seguida as músicas do único disco de João Quilombô, o Parlophon 13400, lançado por volta de abril de 1932, justamente dois pontos de macumba de “Amor”: “Pisa no toco”, matriz 131362, e “Quilombô”, matriz 131363. “Vou te dar”, samba do carnaval de 1933, é uma parceria de “Amor” com Alcebíades “Bide” Barcellos, e foi lançado pela Odeon em janeiro desse ano, na voz de Luiz Barbosa, disco 10971-B, matriz 4586.  O jongo “Ê timbetá”, de “Amor” sem parceiro, foi gravado na Victor por J. B. de Carvalho, acompanhado de seu Conjunto Tupi, em 27 de maio de 1936, com lançamento em julho do mesmo ano, disco 34075-B, matriz 80168. Encerrando esta primeira parte, dois pontos de macumba que “Amor” compôs com João da Baiana, interpretados pelo parceiro com seu conjunto, em gravações Victor de 21 de março de 1938, lançadas em maio seguinte no disco 34313. No lado A, matriz 80707, “Sereia”, e no B, matriz 80708, “Folha por folha”.  Na próxima edição do GRB, mais um pouco da obra musical de Getúlio “Amor” Marinho. Até lá!

* Texto de Samuel Machado Filho

Luely Figueiró – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 142 (2015)

Em sua edição de número 142, o Grand Record Brazil tem a satisfação de apresentar uma cantora que também mostrou seu talento no cinema, como atriz, e ainda hoje lembrada por muita gente. Estamos falando de Luely da Silva Figueiró, seu nome completo na pia batismal, Nasceu em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no dia 26 de setembro de 1935. Cantava no rádio desde a mais tenra idade, tendo sido eleita, em 1957, Rainha do Rádio Gaúcho. Logo depois, mudou-se para São Paulo (residiu também no Rio), e gravou seu primeiro disco, em 78 rpm, pela Continental, apresentando o tango “Yasmin de Santa Mônica” e o bolero “Quero te assim”.  Luely foi também estrela do cinema nacional, em filmes como “A doutora é muito viva”, “Casei-me com um xavante”, “Vou te contá” e “Marido de mulher boa”. Esteve também entre as “certinhas do Lalau”, seção que Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, mantinha em sua coluna no jornal “Última Hora”. Em 1958, foi eleita Rainha dos Músicos de São Paulo. Luely foi esposa do compositor Sérgio Ricardo, com quem apresentou o programa musical “Balada”, da TV Continental, Canal 9, do Rio de Janeiro.  Atuou também na TV Tupi e na Rádio e TV Record de   São Paulo, as chamadas “Emissoras Unidas”.  Sua discografia abrange doze discos 78, quase todos pela Continental e o último deles pela RCA Victor, um compacto simples pela Chantecler, em 1967, e apenas dois LPs, “Gauchinha bem querer” (Continental, 1959) e “Nova era” (independente, 1981), este último já oferecido a vocês pelo TM, além de participações em álbuns coletivos.  Convertendo-se ao espiritismo, Luely Figueiró deixou a carreira artística e retomou seus estudos, diplomando-se professora de ensino de segundo grau, tendo exercido a profissão por muitos anos até ser aposentada pelo Estado de São Paulo, na virada do século XXI. Dedicou-se à literatura espírita, lançou livros religiosos e se tornou também astróloga. Não cantava mais profissionalmente, mas apenas em encontros comunitários. Sua última aparição foi em agosto de 2008, em São Paulo, durante o show musical de lançamento do livro “A era do rádio”, do pesquisador Waldyr Comegno, onde apresentou-se ao lado de nomes como Denise Duran e Roberto Luna. Luely Figueiró morreu em 6 de dezembro de 2010, aos 75 anos. Nesta edição do GRB, apresentamos  catorze preciosas gravações de Luely Figueiró em 78 rpm. Para começar, as músicas do disco RCA Victor 80-2281, gravado em 26 de outubro de 1960, com lançamento em janeiro de 61, por sinal o único de Luely na marca do cachorrinho Nipper.  No lado A, matriz L2CAB-1116, a toada “Amor ruim”, de Sérgio Ricardo. E no verso, matriz L2CAB-1117, o samba-canção “Chuva que passa”, de Durval Ferreira , Maurício Einhorn e Bebeto.  Durval e Maurício fizeram parte, respectivamente como violonista e gaitista, do grupo Os Gatos. As onze faixas seguintes são da Continental, primeira gravadora de Luely, incluídas, em sua maior parte (exceto “O relógio da saudade”,  “A felicidade” e “O nosso amor”), no primeiro LP da cantora, “Gauchinha bem querer”. E a terceira faixa desta seleção é justamente a que deu título ao vinil, toada de Tito Madi que foi gravada originalmente por ele mesmo, em 1957. E Luely a registrou um ano mais tarde, a 22 de abril de 1958, com lançamento pela Continental em julho-agosto seguintes sob número  17565-A, matriz 12078. “A felicidade”, samba clássico da parceria Tom Jobim-Vinícius de Moraes, foi feito para o filme “Orfeu negro”, produção franco-italiana rodada em cores no Brasil, e originalmente exibida nos cinemas daqui como “Orfeu do carnaval”. Interpretado na trilha sonora por Agostinho dos Santos, é aqui oferecido por Luely na gravação que a Continental lançou em agosto de 1959 com o número 17713-A, matriz C-4191. Depois, temos “Eu não sei”, samba-canção de autoria do cantor Lúcio Alves, lançado em maio de 1959 sob número 17664-B, matriz 12181. “O nosso amor” é outro samba da parceria Tom Jobim-Vinícius de Moraes feito para o filme “Orfeu negro” (nos cinemas, “Orfeu do carnaval”), e foi nele interpretado por Elizeth Cardoso. Luely Figueiró o canta aqui em gravação que a Continental lançou em agosto de 1959 sob número 17713-B (o outro lado de “A felicidade”), matriz C-4190. “Quero-quero” é uma valsa campeira em estilo gauchesco, de autoria de Luiz Carlos Barbosa Lessa.  É o lado B do segundo 78 de Luely, o Continental 17469, lançado em julho-agosto de 1957, matriz 11974. “Até…”, também conhecido como “Até que…”, é a versão de Oswaldo Santiago para o fox “Till”, de Carl Sigman e Charles Danvers. Foi lançado pela Continental em setembro-outubro de 1958, sob número 17589-B, matriz 12120, e na época foi também gravado por Julie Joy. “Não quero, não posso, não devo”, samba-canção de Dirce Moraes, é o lado B de “Eu não sei”, lançado em maio de 1959, matriz 12181. “Nasce uma pobre menina”, samba-canção de Alcyr Pires Vermelho e Alberto Ribeiro, abre o segundo 78 de Luely, o Continental 17469, lançado em julho-agosto de 1957, matriz 11974, e na mesma ocasião também teve registro de Léo Vaz, na Todamérica.  “O relógio da saudade”, a faixa seguinte, é uma verdadeira relíquia para colecionadores, e me foi enviado a pedido pelo pesquisador Miguel  Ângelo de Azevedo, o Nirez, lá de Fortaleza (CE), a quem agradecemos a cortesia. Trata-se de um samba-canção de Sérgio Ricardo, com quem Luely foi casada, e saiu pela Continental em julho de 1959 sob número 17698-A, matriz C-4178, estranhamente com o título de “O relógio da vovó”!  Por certo o título foi mudado em tiragens posteriores, e Luely também interpretou a música no filme “Marido de mulher boa”, da Herbert Richers. A valsa “Olhe-me, diga-me”, de autoria de Tito Madi, é bastante conhecida e tem vários registros, inclusive do próprio autor. Este foi feito na Continental por Luely em 22 de abril de 1958, com lançamento em julho-agosto do mesmo ano, disco 17565-B (do qual aqui também está o lado A, “Gauchinha bem querer”), matriz 12072. “O relógio da saudade” teve regravações por Rosana Toledo e pelo próprio Sérgio Ricardo. O bolero “Quero-te assim (Te quiero asi, asi)”, de Bernardo Sancristóbal (espanhol radicado no México) e Miguel Prado, em versão de Carlos Américo, é o lado B do 78 rpm de estreia de Luely Figueiró, o Continental 17438, lançado em maio-junho de 1957, matriz 11952. Encerrando esta edição do GRB, o divertido “Xote do Netinho”, de autoria do violonista Ângelo Apolônio, o Poly, em parceria com Victor Dagô, lançado pela Continental em janeiro-fevereiro de 1959 sob número 17635-AZ, matriz 12177. Esta é, portanto, a homenagem que o Grand Record Brazil presta a Luely Figueiró, também uma grande contribuição à preservação de nossa memória musical. Para ouvir e guardar com carinho!

* Texto de Samuel Machado Filho

Paraguassú – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 141 (2015) Parte 2

Estamos de volta com o Grand Record Brazil, em sua edição de número 141, apresentando a segunda parte do retrospecto que dedicamos a Paraguassu, “o cantor das noites enluaradas”.  São mais dezessete gravações de inestimável valor histórico e artístico que oferecemos aos amigos cultos, ocultos e associados do TM. Abrindo esta seleção, o tango-canção “Tenho pena dos meus olhos”, de Angelino de Oliveira, gravação Columbia de 1931, lançada provavelmente no mês de maio, disco 22016-A, matriz 380982. Em seguida, a bela canção “Todo poeta nasceu para sofrer”, de Mílton Amaral, lançada pela Columbia em fevereiro de 1932, disco 22093-A, matriz 381122. “O violero do luá” (assim mesmo, em caipirês), é outra primorosa canção, do próprio Paraguassu com versos de Assumpção Fleury, e a Columbia a editou em janeiro de 1933, sob número 22183-A, matriz 381408. Ainda de 33 é “Esse boêmio sou eu”, outra canção, esta de Paraguassu sem parceiro, que abre o Columbia 22209, matriz 381409. “Portera  véia” (também com título em caipirês) é mais uma canção do próprio Paraguassu sem parceiro, em gravação Columbia de 1934, disco 22255-A, matriz 3003. Em seguida temos o clássico “Luar do sertão”, com versos de Catulo da Paixão Cearense e melodia também a ele creditada, mas que teria sido feita pelo violonista João Pernambuco a partir do tema folclórico nordestino “É do Maitá”. Lançada por Mário Pinheiro em 1914, como “toada sertaneja”, a canção tem várias gravações, e Paraguassu aqui a revive em registro Columbia de 1936, disco 8196-A, matriz 3261. “Zabumbo do bombo” é uma toada de Roberto de Andrade, que ele mesmo canta junto com Paraguassu em outra gravação Columbia de 1936, disco 8208-B, matriz 3315. Em seguida, outra modinha clássica, “Talento e formosura”, com versos de Catulo da Paixão Cearense e melodia de Edmundo Otávio Ferreira, também lançada originalmente por Mário Pinheiro, em 1904. A gravação de Paraguassu abre o disco Columbia 8280, de 1937, matriz 3430. A seguir, um outro clássico: a toada “Tristeza do jeca”, obra máxima de Angelino de Oliveira, verdadeiro hino do caipira paulista. Surgiu em disco pela primeira vez em 1925, na execução da Orquestra Brasil-América, e, um ano depois, Patrício Teixeira a gravou cantada, com sucesso. Merecedora de inúmeras gravações, é interpretada aqui por Paraguassu em registro Columbia de 1937, disco 8287-A, matriz 3431. No verso, matriz 3433, uma regravação da canção “A choça do monte”, outra obra totalmente creditada a Catulo da Paixão Cearense. Foi lançada por Eduardo das Neves em 1913, e Paraguassu já havia feito gravação anterior, pela Odeon, em 1927. Apresentamos em seguida as duas músicas do disco gravado por Paraguassu em dueto com Nhá Zefa (Maria di Léo), considerada a caipira mais preferida de Cornélio Pires, embora fosse paulistana do Brás, onde também nasceu Paraguassu, e, como ele, filha de imigrantes italianos. São duas batucadas que a Columbia editou sob número 8328, por certo visando o carnaval de 1938: “Baiana dengosa”, motivo popular adaptado pelo próprio Paraguassu, matriz 3581, e “Olá, seu Barnabé”, dele mesmo sem parceria, matriz 3582. Da curta passagem de Paraguassu pela Victor é a rancheira “Natal dos caboclos”, dele próprio em parceria com o já mencionado Capitão Furtado (Ariowaldo Pires), com participação vocal do Quarteto Tupã, formado pelo compositor Georges Moran, russo radicado no Brasil, e integrado pelas então jovenzinhas  Salomé Cotelli, Consuelo, Hedymar Martins (irmã de Herivelto Martins) e  Lourdes, que mais tarde fariam parte de outros grupos mais famosos. Gravação de 26 de setembro de 1938, lançada pela marca do cachorrinho Nipper em dezembro do mesmo ano, disco 34397-B, matriz 80904. É nesse período que, como já informamos, as gravações de Paraguassu ficam cada vez mais espaçadas. Tanto que as duas faixas seguintes são de 1945, na Continental, ambas com acompanhamento do conjunto do violonista Antônio Rago, e gravadas em 12 de julho desse ano. “Perdão, Emília”, outra famosa modinha brasileira, tem versos de José Henriques da Silva (1855-1930), poeta e jornalista português radicado desde menino na cidade de São João da Barra (RJ). Ele os escreveu em 1874, com apenas 19 anos, com o título de “Vingança no cemitério”, sendo musicada depois pelo sanjoanense Juca Pedaço (“Perdão, Emília foi título dado por batismo popular).  O registro de Paraguassu, o único feito na fase elétrica de gravação, foi lançado pela Continental em agosto de 1945, sob número 15411-A, matriz 10444. “Estela” é outra modinha clássica, com versos de Adelmar Tavares e melodia de Abdon Lyra. Feito na mesma sessão de “Perdão, Emília”, a 12 de julho de 1945, o registro de Paraguassu  foi lançado pela Continental em setembro do mesmo ano sob número 15419-A, matriz 10445. A moda campeira “Gaúcho guapo”, do próprio Paraguassu, foi por ele gravada na mesma Continental em 16 de abril de 1948, matriz 10849, mas o disco só saiu em março-abril de 49, sob número 16064-A. Por fim, apresentamos “Janela fechada”, valsa-canção do próprio Paraguassu, lado B de seu derradeiro disco 78, o Chantecler 78-0303-B, lançado em agosto de 1960, matriz C8P-606. Enfim, é a homenagem do GRB ao notável  e legendário Paraguassu, que através de seu canto resgatou inúmeras páginas musicais genuinamente nossas e lançou outras tantas, e deve ser sempre enaltecido pela contribuição preciosa que deixou para a MPB.

* Texto de Samuel Machado Filho

Paraguassú – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 140 Parte 1 (2015)

Finalmente está chegando aos amigos cultos, ocultos e associados do TM uma novíssima edição do Grand Record Brazil, a de número 140. Apresentamos nesta quinzena a primeira de duas partes de um retrospecto dedicado a Paraguassu, certamente um dos pioneiros do disco  e do rádio no Brasil.

Batizado com o nome de Roque Ricciardi, o cantor nasceu em São Paulo, a 25 de maio de 1894. Seus pais, italianos, tiveram seis filhos, sendo nosso focalizado o terceiro deles, e primeiro a nascer no Brasil. O falecimento de seu pai, dono de armazém e ferraria, abalou a tranquila vida familiar, e o menino Roque foi logo encaminhado ao trabalho, como tipógrafo, por pouco tempo, e como seleiro, por muitos anos, chegando a mestre no ofício. Desde criança ele estava empolgado com a música e, ainda imberbe, depois do trabalho, já se apresentava em cafés-cantantes, serestas e rodas boêmias, de violão em punho. Mesmo falando perfeitamente o italiano e conhecendo as canções da terra de seus pais, ele só cantava modinhas brasileiras. Em 1908, o grande Eduardo das Neves, em temporada paulistana, tem a oportunidade de ouvi-lo no Café Donato e o convida para o espetáculo que daria. Foi uma emoção inesquecível para o menino de catorze anos. Contava Paraguassu que fez suas primeiras gravações em 1912, em São Paulo, sob o selo Phoenix, mas esses discos não têm sido localizados por nenhum colecionador.  Comprovadamente, gravou na pioneira Casa Edison (selo Odeon), em 1926/27, um total de sete discos com catorze músicas, ainda na fase mecânica. Já havia ingressado, em 1924, sem ganhar um só tostão, na pioneira Rádio Educadora Paulista, que funcionava nas torres do Palácio das Indústrias de São Paulo, e onde se cantava “num telefone”. Seus companheiros de então eram Alberto Marino e Américo “Canhoto” Jacomino, sendo que este último Paraguassu conheceu numa seresta, em plena rua. Em 1927, no início da fase elétrica de registros fonográficos, registra na Odeon dois discos com duas músicas. Em 1929, a convite, ingressa no elenco da nóvel Columbia, sob a direção artística do maestro Gaó  (Odmar Amaral Gurgel), então com apenas 20 anos de idade. Paraguassu, embora na casa dos 34 anos, já representava a “velha guarda”.  Até esse momento, tinha aparecido nos selos dos discos com seu nome verdadeiro, Roque Ricciardi. Cansado de ser chamado de “italianinho do Brás”, escolheu um pseudônimo bem brasileiro, Paraguassu, fazendo questão dos dois “ss”. Recordando episódios da história do Brasil, lembrou-se dos índios Caramuru e Paraguassu e escolheu este último, que aliás era índia, e não índio. E passaria a ser “o cantor das noites enluaradas”. Foi na Columbia que Paraguassu desfrutou de sua fase áurea, entre 1929 e 1937, gravando 77 discos com 146 músicas. Em seguida, suas gravações iriam se espaçar cada vez mais: na Victor (1938), Odeon (idem), novamente na Columbia (1939 e 1942), Continental  (1945 a 1949), Todamérica (1953) e Chantecler (1960), perfazendo um total de 101 discos 78 rpm com 192 músicas. Ainda gravaria LPs rememorativos, em 1958 e 1969. Também foi bom compositor, mas não se inibiria em apresentar, como suas, algumas canções tradicionais, inclusive gravadas por outros antes dele. Um expediente sobretudo prático de reservar para si direitos musicais que, na maioria dos casos, não seriam destinados a ninguém. Paraguassu faleceu em sua Pauliceia natal, no dia 5 de janeiro de 1976, aos 81 anos de idade.
De seu extenso e bastante expressivo legado fonográfico, o GRB foi buscar, nesta primeira parte, dezessete preciosas gravações, apresentadas em ordem cronológica. Abrindo esta seleção, temos  a modinha “Lua de fulgores”, com acompanhamento ao violão de Américo Jacomino, o Canhoto, gravação Odeon de 1926, disco 122938. Dada como “arranjo” do intérprete, é na verdade a famosa “Lua branca”, de Chiquinha Gonzaga, surgida em 1912 na burleta teatral

Conjuntos Vocais – Seleçao 78 RPM Do Toque Musical Vol. 139 (2015)

E aí vai, para os amigos cultos, ocultos e associados do TM, a edição de número 139 do Grand Record Brasil.  Desta feita, apresentamos gravações de conjuntos vocais  e instrumentais que marcaram época na história de nossa música popular, perfazendo um total de dezessete faixas.

Abrindo a seleção desta quinzena (com atraso, diga-se de passagem)*, temos o grupo Os Namorados, uma continuação dos antigos Namorados da Lua sem Lúcio Alves, que iniciara carreira-solo ainda no final dos anos 1940, e contando inclusive com o cantor Miltinho entre seus componentes. Eles aqui comparecem com as músicas do disco Sinter  00-00.249, lançado em julho de 1953. No lado A, matriz S-532, uma regravação de “Eu quero um samba”, de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida.  E, no verso, matriz S-533, um outro bom samba, “Três Aves-Marias”, de Hanníbal Cruz.
 Encontraremos em seguida os Quatro Ases e um Coringa,  conjunto criado em 1941, no Rio de Janeiro, pelos irmãos cearenses Evenor, José e Permínio Pontes de Medeiros, a eles juntando-se Esdras Falcão Guimarães, o Pijuca,  e André Batista Vieira, o Coringa. A princípio, o grupo chamava-se Bando Cearense, nome com o qual se apresentavam na Ceará Rádio Clube. Por sugestão do poeta e jornalista Demócrito Rocha, o nome foi alterado para Quatro Ases e um Melé. De volta ao Rio de Janeiro, ao serem contratados pela Rádio Mayrink Veiga, adotaram o nome definitivo de Quatro Ases e um Coringa, pois “melé” era um termo desconhecido na então Capital da República. Em cerca de vinte anos de carreira, o grupo deu de fato as cartas, o que comprovam as três faixas aqui reunidas, todas gravadas na Odeon.  Para começar, o “calango mineiro” “Dezessete e setecentos” (conta errada mas sucesso certeiro), de Luiz Gonzaga e Miguel Lima, originalmente lançado por Manezinho Araújo em 1945. Os Quatro Ases e um Coringa registraram sua versão na “marca do templo” em 18 de abril de 1947, com lançamento em julho do mesmo ano, disco 12784-B, matriz 8213. Em seguida, a marchinha “Feijoada”, de Rubens Soares, gravação de 2 de fevereiro de 1943 lançada em março do mesmo ano, disco 12277-A, matriz 7196. Por fim, outra marchinha, “Lili… Lili”, de Assis Valente, do carnaval de 1944. Foi gravada pouco antes do Natal de 43, no dia 21 de dezembro, com lançamento bem em cima dos festejos de Momo,em 44, disco 12414-A, matriz 7459.
As seis faixas seguintes são com o Bando da Lua, criado no início dos anos 1930, e pioneiro no Brasil em harmonizar as vozes, como estava então na moda nos EUA , criando com isto, uma mania nacional. Sempre acompanhavam Cármen Miranda em suas apresentações, e acabaram indo para os EUA junto com ela, em 1939. O grupo desfez-se após a morte de Cármen, em 1955. Não por acaso, a participação do Bando da Lua neste volume do GRB inicia-se com duas gravações que o grupo fez nos EUA, pela Decca. Primeiramente, o samba “Na aldeia”, de Sílvio Caldas (seu criador em disco, em 1933), Carusinho e De Chocolate, em gravação  feita no dia 4 de julho de 1941 e, ao que parece, só lançada no Brasil em 1974 pela Chantecler (então representante da Decca/MCA entre nós), no LP “Bando da Lua nos EUA”, produzido por João Luiz Ferrete. A segunda é “O passarinho do relógio (Cuco)”, marchinha de Haroldo Lobo e Mílton de Oliveira, lançada para o carnaval de 1940 na voz de Aracy de Almeida. Este registro do Bando da Lua não chegou a ser lançado comercialmente, e ficou inédito em disco. Passando para a fase inicial brasileira do grupo, temos um clássico do carnaval: a marchinha “Pegando fogo”, do carnaval de 1939, de autoria de José Maria de Abreu e Francisco Matoso. Foi imortalizada pelo Bando da Lua na Victor em 3 de novembro de 1938, com lançamento ainda em dezembro, disco 34393-B, matriz 80927. Temos em seguida outra marchinha, de meio-de-ano, de autoria do mestre Lamartine Babo, “Menina das lojas”. Também gravação Victor, datada de 8 de abril de 1937, com lançamento em maio do mesmo ano, disco 34161-B, matriz 80358. O samba “Quero  ver”, de Léo Cardoso, Ademar Santana e Vicente Paiva, pertence à época em que Cármen Miranda fez sua última apresentação artística no Brasil, no Cassino da Urca, e obviamente o Bando da Lua a acompanhou. Gravação Columbia de 19 de outubro de 1940, lançada em novembro do mesmo ano sob número  55245-B, matriz 324. De volta aos EUA, o grupo acompanha nada mais nada menos do que Bing Crosby, na gravação que ele fez do clássico samba “Copacabana”, de João “Braguinha” de Barro e Alberto Ribeiro, originalmente lançado em 1946 por Dick Farney. O registro do cantor a ator norte-americano, ao lado do grupo brasileiro, com letra em inglês de Stillman, data de 1950, e foi lançado nos EUA pela Decca sob número  M-33399-A, matriz L-6040. No Brasil, foi lançado pela Odeon sob número 288455-A. Ainda da fase brasileira do Bando da Lua (só que gravado na Victor da Argentina, durante uma excursão que o grupo fez com Cármen Miranda) é o belo samba “Uma voz de longe me chamou”, de Hervê Cordovil e Alberto Ribeiro. Foi registrado em Buenos Aires a primeiro de dezembro de 1935, sendo lançado no Brasil sob número 34010-B, matriz 93019. E, encerrando a participação do Bando da Lua neste volume, a gravação que fizeram nos EUA, pela Decca, para o sambatucada “Nêga do cabelo duro”, de Rubens Soares e David Nasser (cujo registro original, aqui também incluso, é dos Anjos do Inferno). Datada de 26 de maio de 1949, a gravação só chegaria ao Brasil, ao que parece, em 1974, no já citado LP “Bando da Lua nos EUA”.
Logo depois, temos um enigma. O conjunto Emboabas só gravou um disco na Victor, em 1946, com os sambas  “A geada matou” e “Mania dela”.  Aqui, eles comparecem com uma gravação, ao que parece, editada em disco particular, não-comercializado, interpretando o conhecido samba “General da banda”, de Sátiro de Melo, José Alcides e Tancredo Silva, sucesso no carnaval de 1950 nos registros de Linda Batista e Blecaute. Será que este registro foi para as lojas?
Formado por deficientes visuais, o sexteto Titulares do Ritmo surgiu em 1941, em Belo Horizonte, logo conquistando notoriedade pelas harmonizações e vocalizações requintadas  e bastante elaboradas. Eles aqui marcam presença com o samba “Não põe a mão”,  grande sucesso no carnaval de 1951, de autoria de Bucy Moreira, Mutt e Arnô Canegal. Foi gravado na Odeon em 9 de novembro de 1950 e lançado ainda em dezembro, disco 13072-B, matriz 8848.
Cearenses como os Quatro Ases e um Coringa, os Vocalistas Tropicais interpretam neste volume “Irmão do samba”, de Nestor de Holanda e Jorge Tavares, gravação Odeon de 13 de maio de 1949, lançada em  julho do mesmo ano, disco 12934-B, matriz 8492.
Para finalizar, trazemos os Anjos do Inferno, justamente com a gravação original do clássico sambatucada “Nêga do cabelo duro”, já mencionado aqui, de Rubens Soares e David Nasser. O grupo liderado por Léo Vilar imortalizou a composição na Columbia, e o lançamento se deu em janeiro de 1942, sob número de disco 55315-A,matriz 478. “Nêga do cabelo duro” foi absoluto sucesso no carnaval daquele ano, merecendo vários outros registros, inclusive de Elis Regina, sendo até hoje lembrado, e com justiça.  Um fecho realmente de ouro para esta edição do GRB, que reverencia alguns dos melhores e mais famosos conjuntos vocais  que a música popular já teve em toda a história. É ouvir e recordar
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.

Forró 78 – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 138 (2015)

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Ah, a alegria do reencontro…  É o que certamente vocês,  amigos cultos, ocultos e associados do nosso TM, estão sentindo ao ver, após longa ausência, mais um volume do nosso Grand Record Brazil. E eu também,  é claro, estava sentindo saudades deste convívio quinzenal com vocês.  Nesta que é a edição de número 138, estamos apresentando uma seleção de dezessete gravações, como sempre de alto valor histórico e artístico, de um gênero bem brasileiro, o forró. Afinal de contas, estamos em junho, mês de festas juninas, que no Nordeste sempre foram  verdadeiras apoteoses.
Pra começar, trazemos Gordurinha (Waldeck Arthur de Macedo, Salvador, BA, 10/8/1922-Rio de Janeiro, 16/1/1969),apresentando um baião dele mesmo em parceria com Nelinho, “Praça do Ferreira” (alusão a uma praça de Fortaleza, capital do Ceará, um dos pontos turísticos da cidade). Saiu pela Continental em setembro de 1961, sob número 17993-B. Em seguida, uma curiosa gravação de “Maria Chiquinha”,xote-balada humorístico de Guilherme Figueiredo e Geysa Bôscoli. Originalmente lançada por Evaldo Gouveia e Sônia Mamede na RGE, em agosto de 1961,aqui consta na gravação feita mais tarde por Marinês (“a rainha do xaxado”), em dueto com Luiz Cláudio, na RCA Victor.O registro data de 20 de outubro de 1961,editado sob número 80-2413-A,matriz M2CAB-1518, e saiu também no LP “Outra vez Marinês”. Um dos maiores conjuntos vocais da MPB,o Trio Nagô (Evaldo Gouveia, Mário Alves e Epaminondas de Souza) aqui comparece com o baião “O gemedor”, de Gilvan Chaves,originalmente lançado por ele mesmo em 1955. O Trio Nagô fez seu registro na RCA Victor em 20 de dezembro de 1956, e o lançamento deu-se em março de 57 sob número 80-1749-A, matriz BE6VB-1410. Marinês (Inês Caetano de Oliveira, São Vicente Férrer, PE, 16/11/1935-Recife, PE, 14/5/2007) comparece mais uma vez aqui com “Cadê o peba?”, divertido e malicioso coco de autoria de Zé Dantas, parceiro de Luiz Gonzaga em hits como “Vozes da seca”, “Cintura fina” e “O xote das meninas”. Marinês o gravou  na RCA Victor em 25 de janeiro de 1961, com lançamento em março seguinte sob número 80-2301-B, matriz M2CAB-1183, e o registro saiu também no LP “O Nordeste e seu ritmo”.  Manezinho Araújo (Manoel Pereira de Araújo, Cabo, PE, 27/9/1913-São Paulo, 23/5/1993), o eterno “rei da embolada”, aqui nos oferece um clássico do gênero, de autoria dele próprio:  é “Cuma é o nome dele?” (“É Mané Fuloriano”…), lançado pela Sinter em outubro de 1956 sob número 498-A,matriz S-822, figurando também no LP de dez polegadas “Manezinho Araújo cantando no Cabeça Chata” (um restaurante que ele então possuía no Rio de Janeiro, especializado em música e comidas típicas do Nordeste).  O eterno Rei do Baião, Luiz Gonzaga (Exu, PE, 13/12/1912-Recife,PE,2/8/1989), comparece aqui com um de seus primeiros  hits cantados. É o “chamego” “Penerô xerém”, dele e de Miguel Lima, gravação Victor de 13 de junho de 1945,lançada em agosto do mesmo ano, disco 80-0306-A,matriz S-078189. Na faixa seguinte,temos novamente Marinês, agora interpretando o xote “Peba na pimenta”, de João do Valle (antes de estourar nacionalmente com “Carcará”), José Batista e Adelino Rivera, outra divertida e maliciosa página do repertório da “rainha do xaxado”. Saiu pela Sinter em setembro de 1957 sob número 568-A, matriz S-1231, e também figurou no LP de dez polegadas “Vamos xaxar com Marinês e sua Gente”. “Peba na pimenta”  tem várias regravações, como as de Ivon Cúri e do próprio João do Valle. Gilvan (de Assis) Chaves (Olinda, PE, 20/9/1923-São Paulo, 12/8/1986) comparece nesta seleção com o divertido xote “Casamento aprissiguido”,de Ruy de Moraes e Silva. Foi por ele gravado na recém-inaugurada Mocambo, dos irmãos Rozenblit, que tinha sede no Recife,com lançamento por volta de abril de 1955, disco 15029-A,matriz R-545, figurando depois no LP-coletânea de dez polegadas “Oito sucessos”. Depois, Marinês volta, desta vez para interpretar “Xaxado da Paraíba”, de Reinaldo Costa e Juvenal Lopes,lançado pela Sinter por volta de outubro de 1957 sob número 579-A, matriz S-1253, sendo depois faixa de abertura do LP “Aquarela nordestina”. Temos depois a famosa “Mulher rendeira”, que ficou conhecida graças ao filme “O cangaceiro” (1953), produzido pela Vera Cruz e vencedor da Palma de Prata do Festival de Cannes como melhor filme de aventuras.  No entanto, o sucesso internacional do filme não impediu a falência do estúdio, uma vez que  a maior parte dos lucros ficou com sua distribuidora, a norte-americana Columbia Pictures.  De origem folclórica, mas com autoria por vezes atribuída aos cangaceiros do bando de Lampião e até mesmo a ele próprio,”Mulher rendeira” era cantada no filme pelos Demônios da Garoa (em “off”), e aqui apresentamos a gravação comercial, em ritmo de baião,  feita por eles mesmos, ao lado do cantor Homero Marques, em 27 de janeiro de 1953, com lançamento pela Odeon em março do mesmo ano, disco 13403-A, matriz 9594. O paraibano (de Taperoá) Zito Borborema, sobre quem pouco se sabe, a não ser que foi casado com Chiquinha do Acordeon , dessa união resultando um filho, Perpétuo Borborema, integrante do Trio Pé-de-Serra, aqui interpreta, acompanhado de seus “Cabras da Peste”, um clássico assinado por Venâncio e Curumba,o rojão (espécie mais acelerada de baião) “Mata Sete”. Foi lançado pela recém-nascida RGE,  de José Scatena, em dezembro de 1956, sob número 10018-A, matriz RGO-109, entrando depois no LP de dez polegadas “O Nordeste canta”.  Depois,temos novamente a grande Marinês, agora com outro clássico de João do Valle, feito em parceria com Silveira Júnior e Ernesto Pires: o xote “Pisa na fulô”,em gravação lançada pela Sinter em setembro de 1957 no lado B de “Peba na pimenta”, disco 568,matriz S-1232, sendo igualmente incluída no LP de dez polegadas “Vamos xaxar com Marinês e sua Gente” (o curioso é que “Pisa na fulô” também figurou no álbum “Aquarela nordestina”, em doze polegadas, editado posteriormente).  Outro grande nome da música nordestina, Luiz Wanderley (Colônia de Leopoldina, AL, 27/1/1931-Rio Tinto, PB, 19/2/1993) apresenta-se aqui com um xote dele próprio em parceria com Jeová Portela,”Moça véia”, gravação dos primórdios da marca alemã Polydor no Brasil, lançada em 1955 sob número 126-A, matriz POL-1065. Showman completo (cantor,compositor,humorista,etc.), o notável Ivon Cúri  (Caxambu, MG, 5/6/1928-Rio de Janeiro, 24/6/1955) aqui se faz presente com um verdadeiro clássico de seu repertório, o baião “Farinhada” (conhecido como “Tava na peneira”, primeiro verso da letra), assinado pelo mestre Zé Dantas. Ivon o imortalizou na RCA Victor em 8 de junho de 1955, e o lançamento se deu em agosto seguinte sob número de disco 80-1473-A, matriz BE5VB-0763, sendo a faixa mais tarde incluída no LP de dez polegadas “O rei decreta os sucessos” (Ivon era então o “Rei do Rádio”). ”Farinhada” tem várias regravações, inclusive do próprio Ivon Cúri. Luiz Wanderley retorna em seguida, desta vez para interpretar “O boi na cajarana”, motivo popular adaptado por Venâncio e Curumba, e por eles próprios lançado em disco,em 1953. O registro de Luiz Wanderley, em ritmo de baião, saiu pela Chantecler em janeiro de 1959, disco 78-0078-A, matriz C8P-155, e entrou mais tarde em seu primeiro LP, “Baiano burro nasce morto”.  Pernambucano de Amaraji, Ivanildo, conhecido como “o sax de ouro”, marca presença neste volume do GRB com o baião “Crioula”, de Moreira Filho, gravação Mocambo de 1961, lançada sob número 15372-A, matriz R-1263, e também faixa do LP “Uma noite no Comercial”.  Para finalizar, outro grande nome da música regional nordestina, Ary Lobo (Gabriel Euzébio dos Santos Lobo, Belém,  PA, 14/8/1930-Fortaleza, CE, 22/8/1980) apresenta o delicioso xote “Abotoa o paletó, Belizário”, de Geraldo Queiroz e Waldemar Tojal. É gravação RCA Victor de 10 de julho de 1957, lançada em setembro do mesmo ano sob número 80-1844-A, matriz 13-H2PB-0163. Enfim, uma seleção forrozeira de nível, que retoma a bem-sucedida trajetória do GRB, para alegria de tantos quantos apreciem nossa música popular no que ela tem de melhor. Puxa o fole,  maestro!
*Texto de Samuel Machado Filho

 

Cinema Em 78 RPM – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 137 (2015)

Estamos de volta com o Grand Record Brazil, agora em sua edição de número 137. E a seleção musical desta quinzena foi preparada por uma pessoa muito especial: eu próprio!  Tudo começou quando o Augusto me mandou  diversos áudios extraídos de clipes produzidos para o YouTube, pela Rádio Educativa Mensagem de Santos, aproveitando cenas de filmes diversos, todos em preto e branco. No entanto, apenas quatro músicas, devidamente conservadas aqui , fizeram realmente parte de filmes. Então sugeri que fosse feita uma edição com músicas que foram realmente apresentadas em películas de sucesso, a maior parte nacionais. Com o devido acolhimento da ideia, e com carta branca para sua elaboração,  consegui garimpar dezesseis fonogramas, alguns até raríssimos, extraídos das bolachas de cera velhas de guerra. Uma seleção que resultou inclusive de pesquisas em fontes diversas, particularmente o “Dicionário de filmes brasileiros – longa-metragem”, de Antônio Leão da Silva Neto (Editora Futuro Mundo, 2002). Isto posto,vamos às músicas.Para começar, temos o clássico “O ébrio”, canção de e com Vicente Celestino, “a voz orgulho do Brasil”, por ele gravada na Victor em 7 de agosto de 1936 e lançada em setembro do mesmo ano, disco 34091-A, matriz 80195. O filme viria dez anos depois, produzido pela Cinédia e dirigido pela esposa do cantor, Gilda de Abreu, com grande bilheteria (teria superado até mesmo “Tropa de elite2”, o recordista oficial de bilheteria do cinema brazuca).  Esta gravação é uma montagem que apresenta, primeiramente, o monólogo inicial, extraído da regravação que Celestino fez da música em 1957, e, em seguida, o registro original de 1936, junção esta feita para a coletânea “Sessenta anos de canção”, lançada após a morte do cantor, em 1968. Inezita Barroso, recentemente falecida, aqui comparece com “Maria do mar”, canção do maestro Guerra Peixe em parceria com o escritor José Mauro de Vasconcelos, autor de romances de sucesso como  “Vazante”, “Coração de vidro”, “Banana brava” e “O meu pé de laranja-lima”. Fez parte do filme “O canto do mar”, produção da Kino Filmes dirigida por Alberto Cavalcanti, e Inezita a gravou na RCA Victor em 4 de agosto de 1953,com lançamento em  outubro do mesmo ano, disco 80-1209-B, matriz BE3VB-0222. Temos, em seguida, a única composição de origem estrangeira inclusa nesta seleção. Trata-se de “Natal branco (White Christmas)”, fox de autoria de Irving Berlin, um dos maiores compositores dos EUA, e sucesso em todo o mundo. Seu intérprete mais constante foi o ator e cantor Bing Crosby, que a lançou em um show que fez para os pracinhas norte-americanos que serviam nas Filipinas, durante a Segunda Guerra Munidal. Bing também interpretou este clássico em dois filmes: “Duas semanas de prazer (Holiday inn)”, de 1942, e “Natal branco(White Christmas)”, de 1954. Com letra brasileira de Marino Pinto, foi levado a disco na RCA Victor por Nélson Gonçalves, ao lado do Trio de Ouro, então em sua terceira fase (Lourdinha Bittencourt, então esposa deNélson, Herivelto Martins e Raul Sampaio), no dia 25 de novembro de 1955, mas estranhamente só saiu em janeiro de 56, disco 80-1551-B, matriz BE5VB-0926. Houve uma versão anterior, assinada por Haroldo Barbosa, que Francisco Alves interpretava em programas de rádio, porém não gravada comercialmente. Na quarta faixa, o maior sucesso autoral do compositor pernambucano Nélson Ferreira:  o frevo-de-bloco “Evocação”, primeiro de uma série de sete com o mesmo título, homenageando grandes nomes do carnaval recifense do passado. A interpretação é do Bloco Batutas de São José,lançada pela recifense Mocambo em janeiro de 1957, no 78 rpm n.o 15142-B, matriz R-791, e no LP coletivo de 10 polegadas “Viva o frevo!”.  “Evocação” foi também sucesso no eixo Rio-São Paulo, em ritmo de marchinha, entrando na trilha sonora do filme “Uma certa Lucrécia”, de Fernando de Barros, estrelado por Dercy Gonçalves. Logo depois, outra gravação da Mocambo: é a balada-rock “Sereno”, lançada em 1958 no 78 rpm n.o 15233-A, matriz R-985, e incluída mais tarde no LP “Surpresa”. A música fez parte do filme “Minha sogra é da polícia”, uma comédia dirigida pelo mesmo autor da composição, Aloízio T. de Carvalho, e por sinal bastante cultuada pelos fãs de dois futuros astros da Jovem Guarda, Roberto & Erasmo Carlos, pois marcou a primeiríssima aparição de ambos no cinema.  “Sereno” também foi revivida, em 1976, na novela “Estúpido Cupido”, da TV Globo, cuja trilha sonora foi a de maior vendagem da história da gravadora Som Livre: mais de dois milhões e meio de cópias! Na sexta faixa, uma raridade absoluta: trata-se da toada “Céu sem luar”, do maestro Enrico Simonetti em parceria com o apresentador de rádio e televisão Randal Juliano. Quem a interpreta, com suporte orquestral do mestre Tom Jobim, é Dóris Monteiro, em gravação Continental de 6 de maio de 1955, lançada em outubro do mesmo ano, disco 17171-A, matriz C-3628. Dóris também a interpretou no filme “A carrocinha”, produção de Jaime Prades estrelada por Mazzaropi  sob a direção de Agostinho Martins Pereira, e na qual Dóris também contracenou com outro mestre, Adoniran Barbosa (seu pai, na trama).  Desse mesmo filme, agora com o próprio Mazzaropi, um dos mais queridos comediantes do cinema brazuca, até hoje lembrado com saudade, é nossa sétima faixa, o baião “Cai, sereno (Na rama da mandioquinha)”, baião de Elpídio “Conde” dos Santos (autor do clássico “Você vai gostar”).O eterno jeca registrou “Cai, sereno” na RCA Victor em 2 de agosto de 1955, e o lançamento se deu em outubro do mesmo ano, disco 80-1497-A, matriz BE5VB-0821. Temos também o lado B desse disco,matriz BE5VB-0822, também de Elpídio: a rancheira “Dona do salão”, interpretada por Mazza no filme “Fuzileiro do amor”, dirigido por Eurides Ramos, primeira das três películas que o comediante fez no Rio de Janeiro para a Cinedistri, de Oswaldo Massaini.  Ângela Maria, a querida Sapoti, nos apresenta o expressivo samba-canção “Vida de bailarina”, de Américo Seixas em parceria com o humorista Chocolate (Dorival Silva). Fez parte do filme “Rua sem sol”, da Brasil Vita Filmes, dirigido por Alex Viany, e a gravação em disco saiu pela Copacabana em  dezembro de 1953, sob n.o 5170-B,matriz M-642. Voltando bem mais longe no tempo, apresentamos “Estrela cadente”, valsa-canção de José Carlos Burle, que fez parte do filme “Sob a luz do meu bairro”, da Atlântida, dirigido por Moacyr Fenelon. Carlos Galhardo,seu intérprete na película, cujos negativos infelizmente se perderam em um incêndio, gravou a música na Victor em 12 de abril de 1946, com lançamento em julho do mesmo ano sob n.o 80-0421-B, matriz S-078474. O eterno Rei do Baião, Luiz Gonzaga, apresenta a animadíssima polca “Tô sobrando”, que fez em parceria com Hervê Cordovil, e gravou na RCA Victor em 26 de julho de 1951, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco 80-0816-A,matriz S-092995. Gonzagão também a interpretou no filme “O comprador de fazendas”, da Cinematográfica  Maristela, estúdio paulistano que ficava no bairro do Jaçanã, baseado em conto de Monteiro Lobato e dirigido por Alberto Pieralisi, tendo no elenco Procópio Ferreira, Hélio Souto e Henriette Morineau, entre outros (o próprio Pieralisi dirigiu uma refilmagem inferior, em 1974).  O número musical de Luiz Gonzaga, por sinal, foi rodado após o término das filmagens, uma vez que ele sofrera grave acidente automobilístico e quebrara o braço. Outra raridade vem logo em seguida: o samba-exaltação “Parabéns, São Paulo”, de Rutinaldo Silva,em gravação lançada pela Continental em março de 1954 (ano em que a capital bandeirante comemorou seus quatrocentos anos de existência), disco 16912-B, matriz C-3287. Esse foi o número musical de encerramento do filme “O petróleo é nosso”, da Brasil Vita Filmes, dirigido por um especialista em chanchadas, Watson Macedo. O belo samba-canção “Onde estará meu amor?”, de autoria da compositora e instrumentista Lina Pesce (Magdalena Pesce Vitale), é outra absoluta raridade nesta seleção “cine-musical”. Interpretado por Agnaldo Rayol no filme “Chofer de praça”, o primeiro que Mazzaropi fez como produtor independente, sob a direção de Mílton Amaral, foi lançado em disco pela Copacabana em maio de 1958, no 78 rpm n.o  5891-A, matriz M-2181, entrando mais tarde no primeiro LP de Agnaldo, sem título (CLP-11061). Gravações  posteriores de Dolores Duran e Elizeth Cardoso, também pela Copacabana, reforçariam o êxito de “Onde estará meu amor?”.  Silvinha Chiozzo, irmã da acordeonista e também cantora e atriz Adelaide Chiozzo,  aqui comparece com duas músicas que interpretou no filme “Rico ri à toa”, primeiro trabalho do cineasta Roberto Farias, que mais tarde fez ”Assalto ao trem pagador” e a trilogia cinematográfica estrelada por Roberto Carlos (“Em ritmo de aventura”, “O diamante cor-de-rosa” e “A trezentos quilômetros por hora”), sendo depois diretor de especiais da TV Globo.  Saíram pela Copacabana em 1957, sob número 5795. Primeiro,o lado B, “Zé da Onça”, baião clássico de João do Valle, o acordeonista Abdias Filho (o famoso Abdias dos Oito Baixos) e Adrian Caldeira, matriz M-1990, que Silvinha canta em dueto com Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga. Vem depois o lado A, matriz M-1965, “É samba”, que Silvinha canta solo, concebido por Vicente Paiva, Luiz Iglésias e Walter Pinto, os três ligados ao teatro de revista. Para terminar, um verdadeiro clássico interpretado pelo grande Cauby Peixoto: o samba-canção “Nono mandamento”, de Renê Bittencourt e Raul Sampaio, e que fez parte do filme “De pernas pro ar”, co-produção Herbert Richers-Cinedistri,  dirigida por Victor Lima. Cauby imortalizou este sucesso inesquecível na RCA Victor em 20 de dezembro de 1957,com lançamento em abril de 58 no 78 rpm n.o 80-1928-A, matriz 13-H2PB-0311. Um fecho realmente de ouro para a seleção desta quinzena do GRB, que por certo irá proporcionar grandes momentos de recordação e entretenimento a vocês  que tanto prestigiam o TM. Quero expressar inclusive meus mais sinceros agradecimentos aos colecionadores Gilberto Inácio Gonçalves e Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)  pela colaboração, enviando-me alguns dos preciosos fonogramas que compõem esta edição. E agora, luz, câmera, ação… e música!

*Texto e seleção musical de Samuel Machado Filho

Albertinho Fortuna – Seleção 78 RPM do Toque Musical Vol. 136 (2015)

Nesta quinzena, o Grand Record Brazil, em sua edição de número 136, focaliza um grande nome da música popular e do rádio no Brasil: Albertinho Fortuna.
Batizado com o nome de Alberto Fortuna Vieira de Azevedo,  o cantor nasceu em Portugal, mais precisamente em Vila Nova de Gaia, no dia 28 de outubro de 1922. Ele e sua família mudaram-se  para Niterói, litoral do Rio de Janeiro, quando Albertinho estava  com apenas seis meses de nascido. Residiam no bairro de Santa Rosa, e o futuro astro estudava no Colégio  Salesiano, destacando-se no coro da instituição de ensino. Aos oito anos, convidado por um amigo da família, foi cantar na Rádio Mayrink Veiga.  Agradou tanto ao público que retornaria várias vezes à emissora, já pedindo um cachê de dez mil-réis. Albertinho prosseguiu seus estudos no Instituto de Humanidades, cujo diretor era o jornalista e compositor Gomes Filho. Ele também dirigia a Rádio Sociedade de Niterói, que estava inaugurando, e Albertinho acabaria sendo,  em 1936, um dos pioneiros dessa estação. Ainda nesse ano, Zezé Fonseca providenciou seu retorno à Mayrink Veiga, solicitando ao seu então diretor artístico, César Ladeira, que o testasse. Albertinho foi devidamente aprovado e contratado pela Mayrink, por um salário mensal de quatrocentos mil-réis, além de receber, também de Ladeira, o slogan de “O garoto que vale ouro”. Estava então na plenitude de seus treze anos de idade, e apresentou-se várias vezes ao lado da maior estrela da Mayrink nesse tempo:  nada mais nada menos que Cármen Miranda!
Albertinho parou de cantar em virtude da mudança de voz, inevitável com o avanço da idade, e após dois anos inativo,  em 1938, retornaria à cena, agora na PRG-2, Rádio Tupi, “o cacique do ar”. Depois de uma temporada na mesma, transferiu-se para a Rádio Educadora do Brasil, a convite de Saint-Clair Lopes e Luiz Vassalo. Em 1940, ingressa na lendária PRE-8, Rádio Nacional, e três anos mais tarde passa a integrar, ao lado de Nuno Roland e Paulo Tapajós, o Trio Melodia, criado para apoio do superprograma “Um milhão de melodias”. Dada sua impressionante qualidade, o trio fez inúmeras gravações em disco, inclusive acompanhando inúmeros cantores famosos de sua época. As carreiras individuais de seus integrantes, paralelamente, prosseguiam sem qualquer problema.  Albertinho fez sua primeira gravação como solista em 1944, na Victor, ao lado das Três Marias, interpretando o samba clássico “Ai, que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. No ano seguinte, faz nova gravação, agora pela Continental, interpretando a valsa “Meu coração te fala” de Pedro Raimundo,que também o acompanhou ao acordeom e numa declamação. Foi um sucesso! De volta à Victor, obtém êxito no carnaval de 1947 com “Marcha dos gafanhotos”, incluída nesta edição. Entre 1948 e 1951 gravou na Star, futura Copacabana, fixando-se de vez na Continental em 1952.
Albertinho Fortuna tem sua trajetória na MPB marcada pelo repertório de cunho romântico, em especial versões de tangos, que cantava como ninguém. Tanto é assim que, por vários anos, os tangos gravados por Albertinho seriam bastante executados nos programas de rádio das madrugadas,por todo o Brasil.
Albertinho Fortuna morreu em sua cidade adotiva, Niterói, no dia primeiro de julho de 1995, aos 72 anos. Nesta edição do GRB, uma pequena-grande amostra de sua arte e de seu trabalho musical, em doze gravações. Abrindo a seleção desta quinzena, temos “Abraça-me”, bolero de Almeida Rego e Antônio Correia, originalmentre lançado por Anísio Silva,em 1962, e que Albertinho incluiu no LP “Prelúdio…”, de 1963, pela Continental. Em seguida,o tango clássico “Cristal”, de Marianito Mores e José Maria Contursi, em versão de Haroldo Barbosa. A música surgiu em 1944, e suas primeiras gravações argentinas foram feitas pelas orquestras típicas de Anibal Troilo, Oswaldo Fresedo e Francisco Canaro. Vencedora do concurso de tangos “Mejoral”, da Rádio Belgrano de Buenos Aires, “Cristal” teve sua primeira gravação em português por Francisco Alves, em 1945. O registro de Albertinho Fortuna é do LP de 10 polegadas “Tangos inesquecíveis”, lançado pela Continental em 1957. Desse mesmo LP é a faixa seguinte, “Garoa”, versão de Lourival Marques para “Garua”, de Anibal Troilo e Enrique Cadícamo, que a Continental lançaria também em 78 rpm, em janeiro-fevereiro de 1958, sob número 17523-B, matriz C-4078. “Lua do rio” é a versão brasileira do clássico romântico”Moon river”,  balada composta por Henry Mancini para o filme “Bonequinha de luxo  (Breakfast at Tiffany’s)”, produzido pela Paramount em 1961 e nele interpretada por sua atriz principal, Audrey Hepburn.  Abrasileirada pelo grande João “Braguinha” de Barro, foi gravada por Albertinho Fortuna em 1963, na Continental, disco 78-227-A, sendo também faixa do LP “Prelúdio…”.  “Mano a mano”, tango clássico de Carlos Gardel, José Razzano e Celedonio Flores, ganhou letra brasileira de Giuseppe Ghiaroni, que Albertinho interpreta ao lado do Trio Madrigal e de seus companheiros no Trio Melodia, com suporte orquestral de Radamés “Vero” Gnattali. A gravação saiu pela Continental  em maio-junho de 1952, sob número 16582-B, matriz C-2866. Da parceria Carlos Gardel-Alfredo Le Pera é  “Morro abaixo (Cuesta abajo)”, que Gardel interpretou num filme também chamado “Cuesta abajo”, subintitulado no Brasil “O amor obriga”. É outra versão de Ghiaroni, gravada na Continental por Albertinho Fortuna em 18 de junho de 1954, com lançamento em julho seguinte sob n.o 16996-B,matriz C-3405. Mostrando que tangos eram mesmo o seu forte, Albertinho também brilha em “Percal”, de Homero Expósito e Domingo Federico, em versão de Haroldo Barbosa. Sua primeira gravação argentina deu-se em 1943, pela típica de Anibal Troilo, com vocal de Francisco Fiorentino. A versão brasileira foi gravada pela primeira vez por Francisco Alves,em 1944, e o registro de Albertinho saiu pela Continental em maio-junho de 1958 no 78 rpm n.o 17557-A, matriz C-4091, sendo também faixa de abertura do LP de 10 polegadas “Tangos inesquecíveis”. Desse LP também consta “Uno”, outra versão de Haroldo Barbosa, subintitulada “Rosa vermelha”, para mais um clássico da parceria Marianito Mores-Enrique Santos Discépolo. Anibal Troilo, com sua típica, e estribilho de Alberto Marino, lançou “Uno” em 1943, e um ano dpeois, Francisco Alves fez a primeira gravação desta versão. O registro de Albertinho, claro, também saiu em 78 rpm pela Continental, em janeiro-fevereiro de 1958, sob n.o 17523-A, matriz C-4077. Em seguida mais um clássico da parceria Carlos Gardel-Alfredo Le Pera, com letra brasileira de Ghiaroni, “Voltar (Volver)”, gravada por Albertinho para o LP de 10 polegadas “Meus velhos tangos” (Continental, 1955).  “Caminito”,de Juan de Diós Filiberto e Gabino Coría Peñaloza,  abre esse mesmo LP, também em versão de Ghiaroni. A Continental, claro, também disponibilizaria a gravação em 78 rpm, sob número 17356-A, em novembro-dezembro de 1956, matriz C-3893. “Gira, gira (Yira, yira)”, de Discépolo sem parceiro, em outra versão de Ghiaroni, também está no LP de 10 polegadas “Meus velhos tangos”, e, em 78 rpm, é o lado B de “Caminito”, matriz C-3894. Para finalizar, um dos primeiros hits de Albertinho  Fortuna:  a “Marcha dos gafanhotos”, de Eratóstenes Frazão e Roberto Martins, uma das campeãs do carnaval de 1947. Foi imortalizada por Albertinho na Victor em 22 de outubro de 46, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro,disco 80-0489-A,matriz S-078631. Um fecho realmente de ouro para esta retrospectiva do GRB, prestando justa homenagem ao eterno Albertinho Fortuna!
Texto de Samuel Machado Filho

 

Cantoras – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 135

Para alegria dos amigos cultos, ocultos e associados do TM, o Grand Record Brazil está de novo na área, agora em sua edição de número 135. Desta vez, apresentamos mais um punhado de registros históricos, exclusivamente com vozes femininas, sempre presentes em nosso GRB. São dezoito joias preciosas, de fazer qualquer colecionador vibrar, gravadas entre os anos 1910 e 1930.

Iniciamos nosso retrospecto com Abigail Maia (Porto Alegre, RS, 17/10/1887-Rio de Janeiro,  20/12/1981). Cantora e também atriz, fundou companhia teatral junto com Oduvaldo Vianna, além de se destacar, tempos depois, como radio-atriz na lendária Rádio JESZNacional do Rio de Janeiro. Abigail, cuja discografia como intérprete seria escassa, aqui comparece em três faixas. A primeira é “Chico, Mané, Nicolau”, batuque paulista de autor desconhecido, em gravação mecânica Odeon/Casa Edison de 1916, disco 121173. Já dá fase elétrica de registros fonográficos é a canção “Flor de maracujá”, de Marcelo Tupinambá e Amadeu Amaral. Foi gravada por Abigail na Victor em 24 de fevereiro de 1931, e o disco foi lançado com o número 33425-B, matriz 65112. Por fim, outro registro mecânico, o do “coco baiano” “O cumbuco e o balaio”, mais uma peça de autor ignorado,  em gravação Odeon/Casa Edison de 1916, disco 121172.
Maior nome feminino da música erudita brasileira, aplaudida e consagrada no Brasil e no exterior, tendo sido até mesmo enredo de escola de samba,  Bidu Sayão (Balduína de Oliveira Sayão, Itaguaí, RJ, 11/5/1902-Rockport, Maine, EUA, 13/3/1999), aqui comparece com uma modinha de Barrozo Neto e Nosor Sanches, a “Canção da felciidade”, originalmente lançada em 1928 por uma certa Maria Emma. A gravação de Bidu foi feita na Victor (selo Victrola) em 14 de setembro de 1933, e o disco recebeu o número 4229-B, matriz 65853.
Filha de um diplomata brasileiro e de uma cantora lírica, Gilda de Abreu (Paris, França, 23/9/1904-Rio de Janeiro, 4/6/1979) foi cineasta, atriz, escritora, radialista e cantora. Casou-se,  em 1933, com o também cantor Vicente Celestino, em duradoura união que perduraria até a morte deste, em 1968. Inclusive dirigiu, entre outros, os dois filmes estrelados pelo marido, “O ébrio” (1946) e “Coração materno” (1951). Aqui, Gilda interpreta “Bonequinha de seda”, valsa de sua autoria e Narbal Fontes,  incluída no filme de mesmo nome, da Cinédia, dirigido pelo já citado Oduvaldo Vianna, e do qual foi a atriz principal. Gravação Victor de 10 de novembro de 1936, lançada em dezembro do mesmo ano, disco 34112-A, matriz 80239.
A soprano luso-brasileira Cristina Maristany (Porto, Portugal, 11/8/1906-Rio Claro, SP, 27/9/1966) foi membro-intérprete da Academia Brasileira de Música e, um ano antes de seu falecimento (1965), recebeu a Medalha Carlos Gomes. Consagrada nacional e internacionalmente, assim como Bidu Sayão, Cristina interpreta aqui uma serenata de autoria do compositor mexicano Manuel Ponce, no original em espanhol, “Estrelita”. Gravação Columbia de 1935, em disco número 8144-A, matriz 1087.
Odete Amaral (Niterói, RJ, 28/4/1917-Rio de Janeiro, 11/10/1984), “a voz tropical do Brasil”, aqui interpreta este que é considerado seu primeiro grande sucesso, a marchinha “Colibri”, de Ary Barroso, do carnaval de 1937. Acompanhada pelos Diabos do Céu, de Pixinguinha,Odete gravou a música na Victor em 13 de novembro de 36, com lançamento ainda em dezembro, disco 34120-B, matriz 80255.
Sylvinha Mello (Vitória, ES, 23/2/1914-Paris, França, c. 1978) foi uma das primeiras cantoras brasileiras a fazer sucesso no exterior, particularmente nos EUA, atuando em rádios e casas noturnas . De sua escassa discografia brasileira como intérprete, aqui vai o fox “Canção das águas”, de Joubert de Carvalho,  gravação Victor de  26 de maio de 1936, lançada em julho do mesmo ano, disco 34070-B, matriz 80166.
Laura Suarez (Rio de Janeiro, 23/11/1909-idem, c. 1990) foi uma verdadeira  “garota de Ipanema”, uma vez que foi eleita Miss Ipanema em 1930, sendo considerada uma das mulheres mais bonitas de seu tempo. Além de cantora e compositora, foi também atriz  de teatro (no qual atuou por mais de cinquenta anos), televisão e cinema. Fez toda a sua carreira discográfica na extinta Brunswick, e dela  apresentamos aqui uma canção sua de parceria com Henrique Vogeler (co-autor do clássico “Ai Ioiô”), intitulada “Romance”. O disco saiu em 1931, ano em que a gravadora encerrou suas atividades no Brasil, provavelmente em março, sob número 10159-B, matriz 618.
Membro da alta sociedade carioca, Maria de Lourdes de Assis, aliás Madelou Assis (Rio de Janeiro, 1915-idem, 1956) começou sua carreira em 1932, aos 16 anos,  atuando em um cinema como apresentadora de um espetáculo do qual participaram alguns cantores de sucesso na época. Atuou nas rádios Mayrink Veiga (Rio) , Record, Kosmos e Cruzeiro do Sul (São Paulo),  tendo também feito temporada na Rádio Belgrano de Buenos Aires, e casou-se, em 1934, com o radialista e compositor Valdo Abreu. De sua escassa discografia (apenas cinco discos 78  com oito músicas), apresentamos duas gravações Victor, ambas do disco 33689, e de autoria do futuro esposo, Valdo Abreu, gravado em 31 de maio de 1933 e lançado em agosto do mesmo ano: o samba-canção “Ciúme”, matriz 65758, e, no verso,  a canção “Praia dos beijos”, matriz 65759.
Uma das principais divulgadoras de músicas folclóricas no decorrer dos anos 1930, Sônia Barreto  (pseudônimo de Sônia Luiz Mosciaro), carioca de Santa Tereza, foi também  poetisa  e radialista, atuando como radioatriz, produtora e apresentadora de programas da lendária Rádio Nacional. Soprano lírico-dramática, recebeu medalha de ouro do Instituto Nacional de Música. Ela aqui comparece com três faixas. Para começar, a valsa “História de uma flor”, de Joubert de Carvalho, gravação Victor de 31 de agosto de 1931, lançada em outubro do mesmo ano, disco 33474-B, matriz 65228. Depois, na faixa 14, temos o fox-canção “Descansa, coração!”, versão de Alberto Ribeiro para o standard americano “All of me”, de Gerald Marks e Seymour Simons. Saiu pela Columbia em dezembro de 1932,sob número de disco 22163-B, matriz 381359. Houve outra versão bastante conhecida, em ritmo de iê-iê-iê, assinada por Neusa de Souza e gravada em fins de 1964 pelos Golden Boys, o famoso “Ai de mim”. Por fim, a toada-canção “Beijo azul”, de José Francisco de Freitas, o Freitinhas, e Oswaldo Santiago. Gravada na Victor em 27 de agosto de 1931, é o lado A de “História de uma flor”, matriz 65223. Na faixa 13, uma rara oportunidade de se ouvir a voz da carioca Odaléa Sodré (1924-?), filha do compositor e instrumentista Heitor Catumby. E a faixa escalada é justamente de seu primeiro disco, o Columbia 8112-B, de 1936, gravado na plenitude de seus 12 anos de idade:  o samba “Romance da morena”, de Bucy Moreira e Kid Pepe, matriz 1112.
Elisa (de Carvalho) Coelho (Uruguaiana, RS, 1/3/1909-Volta Redonda, RJ, 2001) deixou gravados 15 discos 78 com 30 músicas, entre 1930 e 1934. Criadora dos clássicos “No rancho fundo” e “Caco velho”, era mãe do jornalista e apresentador de televisão Goulart de Andrade, aquele do bordão “Vem comigo”. Elisinha, como era carinhosamente chamada, aqui comparece com duas gravações Victor, ambas feitas em 11 de junho de 1930, porém lançadas em discos distintos. A primeira é o samba “Escrita errada”, de Joubert de Carvalho, matriz 50397, editada em fevereiro de 1931 sob número 33338-B. E a segunda é a toada “Ciume de caboca”, de Josué de Barros, o descobridor de Cármen Miranda, em parceria com Domingos Magarinos, matriz 50308, lançada em agosto de 1931 sob número 33444-B. para encerrar, temos Jesy (de Oliveira) Barbosa (Campos, RJ, 15/11/1902-Rio de Janeiro, 30/12/1987).Ela foi um talento múltiplo: cantora, compositora, jornalista, poetisa, contista, radialista… Jesy Barbosa marca aqui sua presença com “May”, tango de Renato Leão de Aquino, gravação Victor de primeiro de julho de 1931,lançada em setembro do mesmo ano, disco 33464-B, matriz 65180. E encerrando com brilho mais esta edição do GRB, dedicada a cantoras que, se depender de iniciativas como a nossa, jamais serão esquecidas!
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.

 

Jorge Veiga – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 134 (2015)

Em sua edição de número 134, o Grand Record Brazil, agora com periodicidade quinzenal, tem a satisfação de apresentar um dos mais expressivos sambistas que o Brasil já teve. Estamos falando de Jorge Veiga.

Com o nome completo de Jorge de Oliveira Veiga, nosso focalizado veio ao mundo no bairro do Engenho de Dentro, zona norte do Rio de Janeiro, em 14 de abril de 1910. Teve infância de menino pobre, trabalhando como engraxate, vendedor de frutas e pirulitos. Ao chegar à fase adulta, exerceu o ofício de pintor de paredes.  Um belo dia, ao ouvi-lo cantar durante o serviço, o dono de uma casa comercial que o futuro astro estava pintando percebeu suas qualidades de intérprete. E conseguiu que ele cantasse em um programa da Rádio Educadora do Brasil (PRB-7),  onde fazia imitações de Sílvio Caldas durante o programa “Metrópolis”, pontapé inicial de sua carreira artística, atuando nessa época também em circos e pavilhões. A estreia de Jorge Veiga em disco aconteceu em 1939, participando da gravação da rancheira “Adeus, João”, composta e executada pelo acordeonista Antenógenes Silva, apenas vocalizando o refrão.  Em 1942, quando atuava na Rádio Guanabara, conheceu Paulo Gracindo, figura que teve grande importância na carreira do cantor, estimulando-o a cantar sempre com um sorriso nos lábios, garantindo a leveza de suas interpretações e a diversão dos ouvintes. Seu repertório era composto, basicamente, de sambas malandros e anedóticos, além de sambas de breque. E, no carnaval de 1944, consegue seu primeiro sucesso:  o samba “Iracema”,de  Raul Marques e Otolindo Lopes. No rádio, atuou ainda na Tupi e, mais tarde, na lendária Nacional, onde Floriano Faissal criou o bordão com o qual o cantor sempre iniciava suas apresentações: “Alô, alô, senhores aviadores que cruzam os céus do Brasil! Aqui fala Jorge Veiga, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Estações do interior, queiram dar seus prefixos para guia de nossas aeronaves. Mantendo sua popularidade por cerca de vinte anos, Jorge Veiga lançou sucessos inesquecíveis, tanto no carnaval como no meio de ano, tais como “O que é que eu tenho com isso?”, “Rosalina”, “Vou sambar em Madureira”, “Eu quero é rosetar”, “Bigorrilho”, “O que é que há?”, “Coração também esquece”, “Cinzas”, “O que é que eu dou”, “Senhor comissário”, “Reza por nosso amor”, “Cala a boca Etelvina”, “História da maçã”, “Orora analfabeta”, “Brigitte Bardot” e “Café soçaite (Depois eu conto…)”. Com esta última, um samba de Miguel Gustavo  que satirizava a alta sociedade carioca (e sua sequência, “Boate Trá-lá-lá”), criou,no rádio e na TV, a imagem do malandro grã-fino, apresentando-se sempre de smoking.  Gravou na Odeon, Continental, Copacabana e RCA Victor,ao longo de sua carreira. Jorge Veiga faleceu em seu Rio de Janeiro natal em 29 de maio de 1979, aos 69 anos de idade. Nesse ano, teve lançado seu último álbum, “O eterno Jorge Veiga”, pela CBS.
 Nesta edição do GRB, um pouco da arte, do estilo inconfundível e do bom humor de Jorge Veiga, em doze raras e preciosas gravações. Abrindo esta seleção, temos o samba “A vida tem dessas coisas”, de Raul Marques e Djalma Mafra, lançado pela Continental em junho de 1946 com o número 15639-B, matriz 1411, no qual é acompanhado pela inconfundível flauta do mestre Benedito Lacerda, a frente de seu regional. Em seguida, o cantor mostra que também era bom de baião junino em “Eu fiz uma prece”, de Bucy Moreira, Ary Cordovil e Araguari, lançado pela Copacabana em maio de 1955 sob número 5408-B, matriz M-1160, tendo também aparecido no LP coletivo de 10 polegadas “Baile na roça”. Na terceira faixa, o bom samba “Conversa, Raul”, de Gil Lima e José Batista, em que Jorge Veiga é acompanhado pelo conjunto de outro Raul, o trombonista Raul de Barros. Gravação Continental de 11 de março de 1948, lançada em maio-junho do mesmo ano sob número 15890-B, matriz 1801. “Cabo Laurindo” é um samba dos mestres Haroldo Lobo e Wilson Batista exaltando a figura exemplar do personagem-título, que saiu da favela como soldado para lutar na Segunda Guerra Mundial e voltou trazendo a Cruz da Vitória. Ao mesmo tempo, chamava a atenção para uma contradição da época: se os pracinhas brasileiros haviam ido lutar no exterior contra ditaduras estrangeiras, por que manter uma dentro de seu próprio país, no caso,o Estado Novo getulista?  Gravação Continental de 18 de junho de 1945, lançada em julho do mesmo ano sob número 15381-B, matriz 1172. Logo em seguida temos o lado A, matriz 1171, “Na minha casa mando eu”, samba de outro mestre, Cyro de Souza. A marchinha “Pode ser que não seja”, de João de Barro, o Braguinha, e Antônio Almeida, foi um dos hits do carnaval de 1947.Jorge Veiga a gravou na Continental em 20 de agosto de 46, matriz 1577, e o registro apareceu em disco duas vezes: a primeira em dezembro desse ano com o número 15750-A, e a primeira em fevereiro de 47, já em plena folia, com o número 15762-A. Na primeira edição, apareceu o samba “Martírio”, de Haroldo Lobo e Pery Teixeira, mas, sabe-se lá por que razão, essa tiragem desapareceu do catálogo da Continental, não havendo nenhum exemplar nas mãos de colecionadores. Teria sido de fato comercializada? “Deixa eu viver minha vida” é um samba de Ari Monteiro, lançado pela Continental em maio-junho de 1949 sob número 16076-A, matriz 2062, sendo o acompanhamento do conjunto de Geraldo Medeiros. “Caboclo africano” é um samba-choro de Zé e Zilda, “a dupla da harmonia”, e foi gravado por Jorge Veiga na Continental em 30 de maio de 1946, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco 15713-A, matriz 1501. “Medalha dourada”, outro bom samba, é de Otolindo Lopes e Arnô Provenzano, e a Continental o lançou em março-abril de 1950 sob número  16173-B,matriz 2232. “Carne de gato”, samba de Ary dos Santos e Gentill Leal,  é o lado B de “Caboclo africano”, matriz 2063. “Testamento do sambista”, de Raul Marques e Alberto Maia, vem a ser o lado A de ”Conversa, Raul”, matriz 1800. Para encerrar, temos a gravação de estreia de  Jorge Veiga na Continental:  o samba “Morena linda”, de João Martins e Otolindo Lopes, que saiu em junho de 1944 sob número 15160-A, matriz 787. Enfim, uma pequena-grande amostra do legado deixado por aquele que foi cognominado com justiça, “o caricaturista do samba”.Com vocês, o inesquecível Jorge Veiga!
* Texto de Samuel Machado Filho

Pixinguinha 2 – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol.133 (2015)

E chegamos à edição de número 133 do Grand Record Brazil, “braço de cera” do Toque Musical. Aqui,apresentamos a segunda e última parte de nossa retrospectiva dedicada a esse grande mestre da MPB que foi Pixinguinha (1897-1973). Desta vez, apresentamos 14 raridades de fazer qualquer colecionador vibrar, gravações essas que, em sua maior parte, foram feitas ainda no processo mecânico ou acústico, correspondendo ao glorioso início da carreira do mestre Pizindim, sendo algumas outras já do processo elétrico, quase todas de sua própria autoria.

Para abrir esta seleção de verdadeiras raridades, foi escalada a primeiríssima gravação do mais popular, o mais difundido e o que recebeu maior número de arranjos  entre todos os sucessos de Pixinguinha: nada mais nada menos que “Carinhoso”, choro que ele compôs em 1917, mas que ficou engavetado por mais de 10 anos, uma vez que o próprio Pixinguinha o considerava extremamente “jazzificado”.  A Orquestra Típica Pixinguinha-Donga fez este histórico registro, que a Parlophon lançou em dezembro de 1928, no início das gravações elétricas brasileiras, com o número de disco 12877-B, matriz 2048. Ressalte-se que, só nove anos mais tarde (1937)  é que “Carinhoso” recebeu  letra, assinada por João de Barro, o Braguinha, e magistralmente gravada por Orlando Silva. Logo depois, outra relíquia imperdível:  a valsa “Rosa”, executada pelo próprio Pixinguinha à flauta, com a maestria habitual, à frente de seu “Choro”. Verdadeira relíquia mecânica da Odeon/Casa Edison, datada de 1917,disco 121365. E outra composição dele que Orlando Silva gravou em 1937, com letra de autoria controvertida, embora a partitura impressa  informe que Pixinguinha também fez os versos. Estes, segundo alguns estudiosos, teriam sido escritos, na verdade, por um mecânico do Engenho de Dentro, muito amigo de Pixinguinha, cujo nome era Otávio de Souza.  Já da fase elétrica de gravação é o choro “Vamos brincar”, em mais uma  magnífica execução de flauta do autor.  Saiu pela Odeon em maio de 1928,sob número 10163-A, matriz 1566. E em seguida ainda tem o lado B, “Ainda existe”, matriz 1567, choro com a qualidade habitual do mestre, em composição e execução de flauta.  O tango (nada a ver como argentino) “Os dois que se gostam” é gravação mecânica de 1919, disco Odeon /Casa Edison 121613. De 1926 é a gravação do choro “Tapa buraco”, disco Odeon/Casa Edison 123067. Em seguida temos a polca “Pretensiosa”, em solos de bandoneon, por executantes  não-identificados no selo original.  A gravação saiu pela Parlophon em outubro de 1928, disco 12848-A, matriz 1962. Voltamos depois a ouvir a flauta do então jovem Pixinguinha no seu samba “Eu também vou”, em registro Odeon/Casa Edison de 1926, disco 122100. O tango (brasileiro, é claro) “Os Oito Batutas” alude ao conjunto que o próprio Pixinguinha fundou, e foi gravado por ele à frente de seu grupo em 1919, disco Odeon/Casa Edison 121610. Logo depois, a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga executa “Os teus beijos”, samba amaxixado de autoria de Felisberto Martins, que foi pianista e dirigente de gravadora.  Registro Parlophon de 24 de outubro de 1928, lançado em dezembro do mesmo ano sob número 12876-B, matriz 2062. A faixa  11 nos traz a gravação original do choro “Recordando”, com o próprio Pixinguinha em outro imperdível solo de flauta. Ele o imortalizou na Odeon em 19 de junho de 1934, mas o disco só saiu em março de 35, sob número 11204-A, matriz 4869. Confira, no volume anterior, a regravação feita por Jacob do Bandolim em 1950, com o título modificado para “Teu aniversário”. Depois temos outro choro clássico do mestre Pizindim na gravação original: o célebre “Lamento” (mais tarde “Lamentos”, no plural) executado pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga.  Saiu pela Parlophon em novembro de 1928 com o número 12867-A, matriz 2046. Teve duas regravações por Jacob do Bandolim (a primeira delas apresentada em nosso volume anterior) e receberia letra posterior de Vinícius de Moraes. A mesma orquestra executa  em seguida o maxixe “Desprezado”, igualmente do mestre Pizindim, em gravação lançada pela mesmíssima Parlophon em janeiro de 1929, disco 12893-A, matriz 2050. Encerrando com chave de ouro este festival de verdadeiras  joias raras, apresentamos o imperdível registro original do tango (depois choro) “Sofres porque queres”, verdadeira obra-prima de Pixinguinha que ele mesmo executa à frente de seu “choro”. Obra-prima que ele imortalizou na Odeon/Casa Edison em 1917, em disco número 121364. Mais tarde ele regravaria a música ao saxofone,em dupla (e com a co-autoria) do flautista Benedito Lacerda.  Enfim, são verdadeiras relíquias que, por certo, enriquecerão as coleções de tantos quantos apreciem nossa melhor música popular, sobretudo por seu inestimável valor artístico e histórico. Simplesmente imperdíveis!
* Texto de Samuel Machado Filho

Pixinguinha 1 – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 132 (2015)

Um verdadeiro gênio da música popular brasileira.  Uma perfeição em tudo que fez: flautista, saxofonista, compositor,  arranjador.  Um autêntico mestre.  E é justamente a obra de Alfredo da Rocha Viana Júnior, aliás, Pixinguinha, que o Grand Record Brazil tem a honra de focalizar nesta e na próxima edição.
Esta autêntica legenda de nossa música popular veio ao mundo no bairro do Catumbi, Rio de Janeiro, no dia 23 de abril de 1897. Seu pai, funcionário dos correios e também flautista, possuía uma vasta coleção de partituras de choros antigos.  Nosso focalizado aprendeu música em casa,tendo inclusive aulas de flauta com Irineu “Batina” de Almeida,  fazendo parte de uma família com vários irmãos músicos, entre eles Otávio Viana, o China. Foi ele quem conseguiu para o irmão seu primeiro emprego. Pixinguinha começou a atuar como músico ainda adolescente, em 1912, em cabarés da Lapa, e depois substituiu o flautista titular na orquestra da sala de projeção do Cine Rio Branco.  Continuou atuando, nos anos seguintes, em cinemas, casas noturnas, ranchos carnavalescos e no teatro de revista, e nessa época também fez suas primeiras gravações em disco.  Aos 14 anos, fez sua primeira composição, o choro “Lata de leite”. Integrou, ao lado de Donga e João Pernambuco, o Grupo Caxangá e, a partir deste, em 1919, formou outro conjunto que se tornaria famoso:  Os Oito Batutas, que tocava na sala de espera do Cine Palais.  Um dos mais assíduos frequentadores dessas audições dos Batutas era Ruy Barbosa, que sempre pedia que eles tocassem “Bem-te-vi”, de Catulo da Paixão Cearense.  Os Oito Batutas se apresentaram ainda na França e na Argentina, onde inclusive gravaram uma série de discos na Victor de Buenos Aires.  Mais tarde, formou a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, que gravava na Parlophon, subsidiária da Odeon. Outro ilustre fã do mestre do choro era o escritor Mário de Andrade, a quem Pixinguinha forneceu, em 1926, os elementos para a cena de macumba de sua obra-prima, o romance “Macunaíma”.
Contribuindo para que o choro brasileiro encontrasse uma forma musical definitiva, Pixinguinha foi contratado, em 1929, pela recém-instalada filial brasileira da gravadora Victor (depois RCA Victor), como instrumentista, arranjador e maestro. Nessa época dividia com Radamés Gnattali a responsabilidade de reger a Orquestra Victor Brasileira (ou Orquestra Típica Victor). Nessa gravadora também formou o Grupo da Guarda Velha e, mais tarde, a orquestra Diabos do Céu, acompanhando nas gravações os cantores contratados da empresa nessa época, tais como Cármen Miranda, Sílvio Caldas, Gastão Formenti, Francisco Alves, Mário Reis, Patrício Teixeira, Carlos Galhardo,etc.  Também formou a Orquestra Columbia de Pixinguinha, igualmente acompanhando os cantores nas gravações de estúdio dessa marca, futura Continental. Mais tarde, em 1937, formou o conjunto Cinco Companheiros. Em 1940, a convite do maestro americano Leopold Stokowski, então em turnê no  Brasil, a bordo do navio “Uruguai”, Pixinguinha organizou um grupo de músicos e cantores brasileiros para fazer gravações . Estas, feitas no próprio navio, seriam lançadas nos EUA em dois álbuns de 78 rpm, a raríssima série “Native brazilian music”.
Nos anos 1940, talvez por dificuldades de embocadura, Pixinguinha teve de trocar a flauta pelo saxofone, e realizou, ao lado do flautista Benedito Lacerda,uma série de gravações  antológicas, até hoje bastante procuradas por estudiosos e pesquisadores da MPB.  Na década de 1950, formou a Turma da Velha Guarda, ao lado de velhos companheiros, tais como Almirante, Donga, Bide e J. Cascata, com quem inclusive gravou LPs rememorativos na Sinter e participou, em 1954, do Festival da Velha Guarda, promovido pela Rádio Record de São Paulo. Em 1962, fez a trilha sonora do filme “Sol sobre a lama”, e ganhou novos parceiros, tais como Vinícius de Moraes e Hermínio Bello de Carvalho. Com este último, fez a música “Fala baixinho”, escrita no hospital após um enfarte que sofrera, em 1964, e finalista em um festival.  Em 1968, gravou, ao lado de João da Baiana e Clementina de Jesus, o álbum “Gente da antiga”, produzido justamente por Hermínio. Mestre Pixinguinha faleceu em seu Rio de Janeiro natal, a 17 de fevereiro de 1973, de infarto, na sacristia da Igreja da Paz, no bairro de Ipanema, onde assistia a um batizado, ostentando a mesma elegância com que sempre viveu. E deixando um legado precioso e importante para quem estuda e pesquisa nossa música popular. Uma parte dele o GRB começa a oferecer agora, apresentando, neste primeiro volume, 12 gravações preciosíssimas, todas feitas na RCA Victor.  Para começar, Jacob do Bandolim executa o choro “Teu aniversario”, originalmente intitulado “Recordando” e assim gravado pelo próprio Pixinguinha em 1935. O registro de Jacob data de 30 de junho de 1950 e saiu em setembro do mesmo ano, disco 80-0688-B, matriz S-092700. O próprio Pixinguinha, ao saxofone, em dueto com Benedito Lacerda, vem em seguida com outro expressivo choro, “Proezas de Sólon”, em gravação de 4 de junho de 1946, lançada em agosto de 47 sob número 80-0534-B, matriz S-078536. E logo depois, uma raridade: Pixinguinha cantando (!) um lundu que fez com Gastão Viana,“Yaô”, originalmente lançado em 1938 por Patrício Teixeira, com palavras africanas na letra: “akicó” (galo), “pelu adié” (o peru rodopia entre as galinhas), “jacutá” (casa) e “Yaô” (mulher filha de santo). Pixinguinha fez seu registro na RCA Victor em 7 de julho de 1950, com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 80-0692-A, matriz S-092707. O duo Pixinguinha (sax)-Benedito Lacerda (flauta) volta em seguida apresentando “Segura ele”, choro  que o próprio mestre gravou pela primeira vez, como solista de flauta, em 1930. Esta regravação Victor  (com Benedito Lacerda na co-autoria, por acordo comercial que havia entre ele e Pixinguinha) data de 20 de maio de 1946, lançada em outubro do mesmo ano, disco 80-0447-B, matriz S-078520. Uma amostra do talento de Pixinguinha como orquestrador e maestro vem em seguida com a polca (de sua autoria, assim como todas as faixas aqui reunidas) “Marreco quer água”, com ele mesmo regendo sua orquestra. Gravação RCA Victor de 16 de abril de 1959, lançada em julho seguinte sob número 80-2081-A,matriz 13-K2PB-0627. Jacob do Bandolim volta em seguida, recordando outra obra-prima de Pixinguinha, o choro “Sofres porque queres”, que mestre Pizindim (apelido que lhe teria sido dado por sua avó, significando,em africano, “menino bom”)  lançou como solista de flauta, em 1917. Jacob o regravou pela RCA Victor em 10 de julho de 1957, com lançamento em  setembro seguinte sob número 80-1845-A, matriz 13-H2PB-0165. Temos depois o lado B desse mesmíssimo 78, matriz 13-H2PB-0166, onde Jacob revive outro choro conhecidíssimo do mestre Pixinguinha: “Cochichando”, que antes se chamava “Cochicho” e teve sua primeira gravação em 1944, na voz do cantor Déo, com letra de Braguinha e Alberto Ribeiro. Depois, vem o clássico “Lamento” (que, mais tarde, teria seu título mudado para “Lamentos”, no plural). Lançado originalmente em 1928 pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, é revivido aqui pelo bandolim mágico do mestre Jacob em gravação RCA Victor de 14 de março de1951, lançada em junho do mesmo ano, disco 80-0767-A, matriz S-092905. Jacob do Bandolim faria uma gravação ainda melhor deste choro em 1967, integrando o LP “Vibrações”.  O duo Pixinguinha-Benedito Lacerda retorna depois com outro grande choro, “Pagão”, gravação RCA Victor de 12 de junho de 1946, lançada em março de 47, disco 80-0498-B, matriz S-078662. Eles executam ainda outro choro, “Vagando”, gravação de 26 de dezembro de 1950, lançada pela marca do cachorrinho Nipper em março de 51,disco 80-0746-B, matriz S-092817. “Paciente”, choro executado pela orquestra do próprio Pixinguinha com ele à frente, foi gravado em 16 de abril de 1959, matriz 13-K2PB-0628, e é o lado B do 78 de “Marreco quer água”. A faixa seguinte, outro choro clássico, é “Um a zero”, que Pixinguinha compôs em 1919, por ocasião da conquista do Campeonato Sul-Americano de Futebol pelo Brasil, frente ao Uruguai,. pela contagem que dá título á composição.  Lançado originalmente pela dupla Pixinguinha-Benedito Lacerda em 1946, é aqui revivido por Jacob do Bandolim em gravação RCA Victor de 13 de junho de 1955, lançada em  agosto seguinte sob número 80-1476-B, matriz BE5VB-0770. Um belo começo para a retrospectiva que o GRB faz, alusiva à obra do mestre Pixinguinha. E teremos ainda muito mais no próximo volume… Aguardem!

 

 * Texto de Samuel Machado Filho

Adoniran Barbosa – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 131 (2015)

E eis aqui a primeira edição de 2015 do nosso Grand Record Brazil, o “braço de cera” do Toque Musical, cronologicamente a de número 131. E o GRB começa este ano com o pé direto,homenageando um de nossos mais expressivos compositores, autêntico representante do samba paulista: nada mais nada menos que Adoniran Barbosa.
Nosso ilustre focalizado recebeu na pia batismal o nome de João Rubinato. Nasceu em Valinhos (SP), no dia 6 de agosto de 1910. Filho de imigrantes italianos, abandonou os estudos ainda no curso primário para trabalhar,  tendo sido tecelão, balconista, pintor de paredes e até garçom. Ele achava que João Rubinato não era nome de cantor de samba, e resolveu adotar o nome artístico com o qual ficaria para a posteridade, Adoniran Barbosa, com o Adoniran emprestado de um amigo e o sobrenome em homenagem a outro grande sambista, Luiz Barbosa.  No início dos anos 1930, Adoniran passou a frequentar os programas de calouros da Rádio Cruzeiro do Sul de São Paulo. Foi várias vezes reprovado por causa da voz fanha, mas, em 1933, obteve o primeiro lugar no programa de Jorge Amaral, interpretando “Filosofia”, de Noel Rosa e André Filho. Em 1935, fez sua primeira música, em parceria com o maestro e compositor J. Aymberê, a marchinha “Dona Boa”, sucesso do carnaval daquele ano (foi inclusive a melhor marchinha dessa folia em São Paulo) e incluída nesta seleção. Em 1941, Adoniran transfere-se da Rádio Cruzeiro do Sul para a Record (então “a maior”), a convite de Otávio Gabus Mendes. Ali começou sua carreira de ator, participando da série radioteatral “Serões domingueiros”, e criando seus primeiros personagens, sempre cômicos, caso do malandro Zé Cunversa e do galã de cinema francês Jean Rubinet. Na Record, Adoniran conheceu o produtor Oswaldo Molles, responsável pela criação e pelo texto dos principais personagens interpretados por ele. Ambos trabalharam juntos por 26 anos, e o maior sucesso da parceria foi o programa “Histórias das malocas”, em que Adoniran interpretava o Charutinho. O programa ficou em cartaz até 1965 e chegou até a ser apresentado na televisão. Adoniran e Osvaldo Molles também foram parceiros em muitos sambas, entre eles os clássicos “Tiro ao álvaro”e “Pafunça”.  No cinema, sua primeira aparição foi no filme “Pif-paf”, da Cinédia, em 1945,e Adoniran atuou ainda em “Caídos do céu” (1946), “O cangaceiro” (1953), “Candinho” (1954), “A carrocinha” (1955), estes dois ao lado de Mazzaropi, e “A pensão da dona Estela” (1956).  Em 1952, a carreira de Adoniran Barbosa como compositor ganhou impulso quando os Demônios da Garoa foram premiados no carnaval daquele ano  com o samba “Malvina”. Em 1953, eles repetiram a dose, com outro samba,“Joga a chave”, de Adoniran e Oswaldo França. Começou aí mais uma parceria de anos na vida do mestre Adoniran, com os Demônios imortalizando vários de seus sambas, verdadeiras crônicas da vida paulistana,  tais como “Saudosa maloca”, “O samba do Arnesto” (ambos gravados antes sem sucesso pelo próprio Adoniran), “As mariposa”, “Samba italiano”, “Iracema”  e, claro, “Trem das onze”, que foi até premiado no carnaval carioca de 1965 e foi escolhida, em 2000, como a música que melhor representa a cidade de São Paulo, em concurso promovido pela TV Globo.  Adoniran também é autor da melodia do samba-canção “Bom dia, tristeza”, com letra de Vinícius de Moraes. Na televisão, ainda atuou nos humorísticos “Papai sabe nada” e “Ceará contra 007”, ambos da Record, e nas novelas “Mulheres de areia” e “Os inocentes”, ambas da Tupi. Gravou seu primeiro LP apenas em 1974, e viriam em seguida mais dois, em 1975 e 1980, este último com a participação de grandes nomes da MPB de então, tais como Clara Nunes, Elis Regina,  Djavan, Clementina de Jesus e o grupo MPB-4, em comemoração a seus 70 anos de vida. Adoniran Barbosa morreu no dia 23 de novembro de 1980, aos 72 anos, em São Paulo.

Nesta edição do GRB, um pouco do preciosíssimo legado de Adoniran Barbosa, em dezesseis faixas extraídas de discos 78 rpm. Abrindo esta seleção, o samba “Agora pode chorar”, de Adoniran em parceria com José Nicolini, do carnaval de 1936, que o próprio autor interpreta em gravação lançada pela Columbia em cima dos festejos momescos, em fevereiro, disco 8171-B,matriz 3215. Na faixa seguinte, os Demônios da Garoa interpretam o antológico samba “As mariposa”, de Adoniran sem parceiro, que gravaram na Odeon em primeiro de agosto de 1955, sendo lançado em outubro do mesmo ano, disco 13904-B, matriz 10697. Déo, “o ditador de sucessos”, aqui comparece com o samba “Chega”, de Adoniran em parceria com José Marcílio. Saiu no terceiro disco do  cantor, o Columbia 8212-B, em julho de 1936, matriz 3312, e o acompanhamento é do regional do flautista Atílio Grany. “Conselho de mulher”, parceria de Adoniran com Oswaldo Moles e João Belarmino dos Santos, é interpretado por ele mesmo, em gravação Continental de 23 de julho de 1952, só lançada em março-abril de 53, disco 16707-B, matriz 11414. A próxima faixa é justamente a primeira composição de Adoniran Barbosa, a marchinha “Dona Boa”, parceria com J, Aymberê, retumbante sucesso no carnaval paulistano de 1935. Raul Torres, um dos expoentes máximos da música sertaneja de raiz, a gravou pela Columbia, que lançou o registro em disco sob número 8129-A, matriz 3122. “Iracema” , de Adoniran sozinho, é outro clássico samba seu que os Demônios da Garoa imortalizaram,em gravação Odeon de 11 de janeiro de 1956, lançada em março do mesmo ano, disco 14001-A, matriz 10944. Eles ainda nos brindam justamente com o samba “Malvina”, outro só de Adoniran, sucesso do carnaval de 1952, lançado pelo efêmero selo Elite Special em janeiro desse ano, disco N-1065-A, matriz MIB-1081. E os Demônios ainda interpretam aqui “No Morro da Casa Verde”, em gravação Odeon de 5 de maio de 1959, lançada em junho do mesmo ano, disco 14472-A, matriz 50133, também integrando o LP “Pafunça”. Em seguida, temos uma faceta do Adoniran intérprete,  com a marcha-rancho “Os mimoso colibri”, de Hervê Cordovil e Oswaldo Molles, gravação Continental de 27 de julho de 1951, lançada entre outubro e dezembro do mesmo ano, disco 16468-A, matriz 11334, visando por certo o carnaval de 52. “Quem bate sou eu”, samba de Adoniran e Artur Bernardo, é gravação Odeon dos Demônios da Garoa, feita em 5 de julho de1956 e lançada em novembro do mesmo ano, disco 14115-B, matriz 11251. Temos em seguida dois indiscutíveis clássicos do samba, nas gravações originais de Adoniran pela Continental, mas que só foram sucesso mais tarde com os Demônios da Garoa. Primeiro, “O samba do Arnesto”, parceria com Alocin (Nicola ao contrário), que Adoniran gravou em 23 de julho de 1952, mas só saiu em março-abril de 53, disco 16707-A, matriz 11415. “Saudade da maloca”, de Adoniran e mais ninguém, é o título original do clássico “Saudosa maloca”, gravado pelo autor em 27 de julho de 1951 e lançado entre outubro e dezembro do mesmo ano sob número 16468-B, matriz 11335. Ambos os sambas receberam várias regravações, e curiosamente, estes registros originais do autor seriam relançados pela Continental em 1955, sob número  17173,com “Saudosa maloca” no lado A e o “Arnesto” no verso. A seguir, uma rara incursão de Adoniran no gênero caipira ou sertanejo de raiz, o cateretê “Tô com a cara torta”, parceria com Ivo de Freitas.  Raul Torres e Florêncio o gravaram na Victor em 19 de setembro de 1945, mas o lançamento só aconteceria em abril de 46, disco 80-0393-B, matriz S-078343. “Um amor que já passou”, samba de Adoniran em parceria com Eratóstenes Frazão,  é do segundo disco do cantor Déo, o Columbia 8211-B, lançado em julho de 1936, matriz 3319. Em seguida, voltam os Demônios da Garoa com “Um samba no Bexiga”, de Adoniran sem parceria, gravação Odeon de 4 de abril de 1956, lançada em junho do mesmo ano, disco 14049-B, matriz 11110. Para encerrar, novo exemplo do Adoniran Barbosa apenas intérprete, com o samba “Pra que chorar?”, de Peteleco, lançado em janeiro de 1958 pela RGE sob número 10081-B, matriz RGO-497, por certo visando o carnaval desse ano. Enfim, é o que o GRB tem o prazer de oferecer a vocês, precioso legado deixado por Adoniran Barbosa, cujas músicas eram de fato a cara de São Paulo, e ficarão para sempre em nossa memória!

* Texto de Samuel Machado Filho

 

Temas Natalinos – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 130 (2014)

Então é Natal… Aquela ocasião em que a gente arma a árvore, o presépio, reúne a família, troca presentes, degusta a ceia… e, por que não, também canta canções típicas da festa máxima da cristandade. Assim sendo, o Grand Record Brazil, em sua edição de número 130,  presenteia os amigos cultos, ocultos e associados do TM com mais esta compilação de músicas natalinas. São, no total, dez gravações.

Abrindo esta seleção natalina muitíssimo especial, temos o gaúcho (de Rio Grande) Alcides Gerardi (1918-1978), criador de sucessos do porte de “Antonico”, “Cabecinha no ombro” , “Marise” e “Chora, Pierrô”, entre outros,  interpretando aqui a valsa “Natal de saudade”,da dupla Raul Sampaio-Ivo Santos. Saiu pela Columbia em dezembro de 1957, sob número CB-10386-A, matriz CBO-1220, entrando também no LP coletivo “Nosso Natal”. Um ano mais tarde, houve uma reedição em 78 rpm com o número CB-11093-B. Ângela Maria, a grande Sapoti, interpreta o samba-canção “Outros Natais”, de autoria de Cláudio Luiz Pinto,impregnado de forte crítica social em sua letra. A Copacabana o lançou em dezembro de 1954, sob número 5351-A, matriz M-1006, sendo mais tarde faixa de encerramento do LP de 10 polegadas “Sucessos de Ângela Maria”, primeiro de uma série de três.  João Dias, que o próprio Francisco Alves escolheria para ser seu sucessor, por ter timbre de voz parecido com o dele, vem com duas faixas, ambas extraídas do disco Odeon  13592, gravado em 30 de novembro de 1953, com acompanhamento orquestral de Osvaldo Borba,  e lançado (detalhe intrigante) em janeiro de 54. O lado A,matriz 9987, é “A doce canção de Natal”, de autoria de Sivan Castelo Neto (psudônimo de Ulysses Lelot Filho), na qual João Dias canta ao lado de Edith Falcão e do então menino Altir Gonçalves.  O lado B, matriz 9988, que João Dias canta em dueto com Edith Falcão, é a conhecida valsa “O velhinho”, de autoria de Otávio Babo Filho, primo do compositor Lamartine Babo, correspondente à última faixa desta seleção. Relançadas mais tarde em LPs e compactos, essas gravações de João Dias permaneceram no catálogo da Odeon por vários anos. Na faixa 4, você tem  o grande João Gilberto interpretando o delicado samba em estilo bossa nova “Presente de Natal”,de autoria de Nelcy Noronha, uma das faixas de maior destaque de seu terceiro LP-solo, sem título, editado pela Odeon em outubro de 1961. Formado por Edda Cardoso, Lolita Koch Freire e Yeda Tavares Gomes da Silva, o Trio Madrigal comparece aqui com as duas músicas do disco Todamérica TA-5359, ambas cânticos, gravado em 15 de setembro de 1953 e lançado em novembro do mesmo ano. Abrindo-o,  a matriz TA-542 apresenta “Oh! Vinde crianças (Ihr Kinderlein, kommet)”, do compositor alemão  Johann Abraham Peter Schulz, sobre versos de seu conterrâneo  Christophe von Schmid, sendo a letra brasileira de Frei Paulo Avelino Assis. No lado B, matriz TA-543, vem “Noite de luz”, outra adaptação de Frei Paulo. Laranjinha e Zequinha, dupla do sertanejo-raiz,  vem aqui com as duas músicas do 78 Odeon número 13553, gravado em 31 de agosto de 1953 e lançado em dezembro do mesmo ano.  No lado A, matriz 9852, o valseado “Natal no sertão”, de Reinaldo Santos e Vicente Lia, e, no lado B, matriz 9862, a valsa “Ano novo”, de  Francisco Lacerda e José Maffei. Filha caçula do compositor Hervê Cordovil, e por tabela irmã de Norman e Ronnie Cord, Maria Regina Cordovil, então com apenas quatro anos de idade, apresenta as duas faixas do 78 RCA Victor 80-2398, gravado em 28 de setembro de 1961, com acompanhamento orquestral de Francisco Moraes, e lançado em outubro do mesmo ano. Primeiro temos o lado B, matriz M2CAB-1479, “Carta a Papai Noel”, de autoria do paizão Hervê e certamente seu maior sucesso. Depois vem o lado A, matriz M2CAB-1478, o clássico “Sinos de Belém  (Jingle bells)”, do norte-americano James S. Pierpont em versão de Evaldo Ruy. Curiosamente, esta canção foi composta em 1857 sem qualquer intenção natalina, com o título de “One  horse open sleigh”. Foi traduzida para inúmeros idiomas. Ambas as faixas também saíram no LP “A menor cantora do mundo”, por sinal o slogan de Maria Regina. O niteroiense Orlando Correia, que se destacou gravando sucessos do porte de “Meu sonho é você”, “Sistema nervoso” e “Serenata suburbana”, interpreta aqui o samba-canção “Natal sem você”, de Bruno Gomes e Jorge de Castro, com a participação do Trio Madrigal. Foi gravado na Todamérica em 15 de setembro de 1953 (a mesma sessão em que o Trio Madrigal registrou outras duas faixas deste volume) e lançado em novembro do mesmo ano, disco TA-5358-A, matriz TA-544. Enfim, é um presente que o GRB  oferece aos amigos cultos, cultos e associados do TM, com os mais sinceros votos de um maravilhoso Natal e um 2015 repleto de alegrias e realizações positivas. E nunca é demais lembrar do verdadeiro dono desta festa. Feliz aniversário, Jesus!

* Texto de Samuel Machado Filho

Marília Batista – Dircinha Batista – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 129 (2014)

A  edição número 129 do Grand Record Brazil, “braço de cera” do Toque Musical, oferece alguns dos melhores momentos de duas  notáveis cantoras da MPB, que não eram parentes, apesar do sobrenome ser igual:  Marília e Dircinha Batista. São dezesseis gravações raras, sendo chover no molhado falar de seu valor artístico e histórico, absolutamente incontestável.
Marília Monteiro de Barros Batista nasceu no Rio de Janeiro em 13 de abril de 1918, filha do médico do Exército Renato Hugo Batista e da pianista Edith Monteiro de Barros Batista. Seus irmãos, Henrique e Renato, eram também compositores, o que faria nossa Marília (neta do poeta e Barão Luiz Monteiro de Barros) interessar-se desde menina pela música. Seu primeiro violão foi “ganho” por acaso, aos seis anos de idade, quando o barbeiro da família, numa ida à sua casa para cortar os cabelos do pai e de um irmão, esqueceu lá o seu instrumento. O violão seria uma de suas eternas paixões, e ela não o largaria mais, já mostrando talento de compositora aos oito anos. Estudou no Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da Universidade Federal  do Rio de Janeiro), onde se formou em teoria, solfejo e harmonia,apesar de ter abandonado, no quarto ano, o curso de piano. Em 1930, levada pelo jornalista Lauro Sarno Nunes (pai do humorista Max Nunes), fez seu primeiro recital, no Cassino Beira-Mar, interpretando, com sua voz e seu violão, canções sertanejas, sambas e cateretês, além de suas primeiras composições próprias. Aos 12 anos, começou a estudar violão com Josué de Barros, que, após ficar encantado com o recital da menina Marília, fez questão de lhe dar aulas por conta própria. Marília estudou com Josué por seis meses, mas, como pretendia ser concertista, passou a ter aulas de violão clássico com o virtuose José Rebelo. Porém, seu interesse pela música popular sempre foi mais forte. Em 1931, aos 14 anos, convidada para se apresentar no espetáculo “Uma hora de arte”, no Grêmio Esportivo Onze de Junho, ali conheceu Noel Rosa. Ambos logo se tornaram grandes amigos, e Marília é até hoje considerada por historiadores da MPB uma das melhores intérpretes de Noel, ao lado de Aracy de Almeida.  O primeiro disco viria em 1932,apresentando duas músicas suas de parceria com o irmão Henrique Batista: o samba “Pedi, implorei” e a marchinha “Me larga”. Em 1933,a convite de Almirante, participa do Broadway Cocktail, um espetáculo que acontecia no Cine Broadway, antecedendo o filme, ao lado de medalhões da MPB nessa época, tais como Sílvio Caldas e Jorge Fernandes. O sucesso fez com que, a convite de Ademar Casé (avô da humorista e apresentadora de TV Regina Casé),Marília participasse do “Programa Casé”, na PRAX, Rádio Philips. No programa, fazia improvisos e versinhos das propagandas dos patrocinadores, ao lado de Noel Rosa, com quem gravou três discos com seis músicas. Foi para Marília Batista que a mãe de Noel,  Dona Martha, após sua morte(1937),  entregou os manuscritos do filho, que a cantora repassou para Almirante. Foi uma das pioneiras da Rádio Nacional, inaugurada em 1936, e lá faria parte do grupo vocal As Três Marias, com quem gravaria alguns discos e acompanhou os cantores da emissora. Em 1945, ao se casar, interrompeu por alguns anos suas atividades artísticas, mas, no início da década de 1950, retomou-as, gravando inúmeros LPs,  incluindo músicas de seu amigo Noel Rosa, até mesmo inéditas que aprendera com ele (sua discografia também abrange cerca de 30 gravações em 78 rpm). Nos anos 1960, resolveu voltar a estudar e formou-se em Direito. Em 1988, quando participou do projeto “Concerto ao meio-dia”, no Teatro João Teotônio, foi aplaudidíssima pela plateia que superlotava o recinto, chegando a ir às lágrimas. Marília Batista faleceu em seu Rio natal, no dia 9 de julho de 1990. Abrindo esta seleção do GRB, ela interpreta justamente um samba de Noel, “Tipo zero”, composto em 1934, mas só gravado por Marília Batista em 1956, na Musidisc de Nilo Sérgio, integrando o 78 número M-50046-A, matriz MD-10091, e, como faixa de abertura, o LP de 10 polegadas “Samba e outras coisas”, título de um programa que seu irmão Henrique manteve no rádio por muitos anos.  Noel  faria retoques na segunda parte deste samba, e colocaria uma estrofe a mais para encaixá-lo na opereta “A noiva do condutor”, só gravada na íntegra em 1986, em álbum da Eldorado, já oferecido a vocês pelo TM.  Em seguida, temos mais cinco sambas de Noel Rosa, cantados por Marília em dueto com ele,  já no final da curta vida do compositor, e em sua maior parte com acompanhamento do regional de Benedito Lacerda,  e sua inconfundível flauta. “Provei” é da parceria de Noel com Vadico, gravação Odeon de 12 de novembro de 1936, lançada em dezembro do mesmo ano para o carnaval de 37, disco 11422-A, matriz 5445. O lado B, matriz 5446, está na faixa 8: ”Você vai se quiser”, único samba que Noel fez para sua esposa Lindaura, que se dispôs a trabalhar fora, dadas as dificuldades financeiras do casal. Noel, nada feminista, revidou:  “Ela esquece que tem braços,nem cozinhar ela quer”…  “Cem mil-réis” (faixa 3)  é outro produto da parceria Noel-Vadico, gravação Odeon de 5 de março de 1936, lançada em abril do mesmo ano, disco 11337-B, matriz 5275. Em seguida, na faixa  4, matriz 5277, o lado A desse disco:  o divertido e clássico “De babado”,  conhecido e regravado até hoje, como praticamente tudo do Poeta da Vila.  A letra menciona inclusive o cavalo Mossoró, vencedor do Grande Prêmio Brasil de Turfe em 1933. Ironicamente,era “De babado” que estava sendo executado numa casa vizinha a de Noel, no dia de sua morte (4 de maio de 1937), quando ele já agonizava em seu leito, consumido pela tuberculose. Na faixa 5, “Quem ri melhor”, samba de sucesso no carnaval de 1937, o último da vida de Noel, e feito sem parceria. Gravação Victor de 18 de novembro de 36, com acompanhamento dos Reis do Ritmo, lançada em dezembro seguinte sob número 34140-A, matriz 80258. “Silêncio de um minuto”, samba feito por Noel em 1935, só foi gravado pela primeira vez,  por Marília Batista, cinco anos depois, com Noel já falecido, em 20 de março de 1940, com lançamento pela Victor em maio do mesmo ano, disco 34604-B, matriz 33356. É uma versão resumida, pois o samba só foi gravado com a letra completa em 1951, por Aracy de Almeida.  Por fim, uma amostra do trabalho exclusivamente autoral de Marília Batista: o “Samba de 42”, parceria dela com o irmão Henrique Batista, mais Arnaldo Paes. Quem canta é Arnaldo Amaral, também galã de cinema, e o lançamento se deu pela Columbia em janeiro de 1942, é claro, para o carnaval, disco 55320-B, matriz 491.
 Filha do comediante Batista Júnior e irmã da também cantora Linda Batista, Dirce Grandino de Oliveira, aliás Dircinha Batista (São Paulo, 7/4/1922-Rio de Janeiro,  18/6/1999) começou bem cedo sua carreira artística: em 1930, aos oito anos de idade, como Dircinha de Oliveira, gravou seu primeiro disco, na Columbia,futura Continental,  interpretando duas composições do pai, “Dircinha” e “Borboleta azul”. Em mais de 40 anos de estrada, gravou mais de 300 discos em 78 rpm, e alguns LPs  e compactos, com inúmeros hits, especialmente carnavalescos, além de atuar no rádio, no teatro e no cinema (apareceu em 16 filmes). Foi eleita Rainha do Rádio em 1948, substituindo a irmã Linda, que detinha a coroa desde 1937. Parou de cantar em 1972, abalada pela morte de sua mãe, Emília Grandino de Oliveira, e pelo descaso da mídia com os astros do passado.  Nos últimos anos de vida, Dircinha e sua irmã Linda foram amparadas pelo cantor José Ricardo, que as acolheu como membros de sua família. No final dos anos 1980, surgiu o musical “Somos irmãs”, estrelado por Nicete Bruno e Suely Franco, relatando a vida das irmãs-cantoras.

Nesta edição do GRB, um pouco do legado artístico-musical de Dircinha Batista. Para começar, a bem-humorada e divertida “Canção pra broto se espreguiçar”,  que leva a respeitável assinatura de Mário Lago, gravada na RCA Victor por Dircinha em primeiro de julho de 1955 e lançada em setembro do mesmo ano, disco 80-1493-B, matriz BE5VB-0810. Mais tarde, entraria no LP-coletânea de 10 polegadas “Elas cantam assim”. “Chico Brito” é um samba clássico e bastante conhecido, de autoria de Wilson Batista e Afonso Teixeira.  Gravado por Dircinha na Odeon em primeiro de dezembro de 1949, só seria lançado menos de um ano depois (outubro de 50), sob número 13047-B, matriz 8603. O nome Peçanha foi posto na letra da música para substituir “meganha”, gíria da época para policial. Note-se também uma menção à “erva do norte”, possivelmente…   Adivinha! O samba “Icaraí”, de Raimundo Flores e Célio Ferreira, é uma exaltação à famosa praia situada em Niterói, litoral fluminense, imortalizada por Dircinha Batista na Continental em 19 de abril de 1948 e lançada em  julho-setembro do mesmo ano, disco 15923-A, matriz 1851. Mostrando que sabia dar o recado até em inglês, Dircinha interpreta depois, com acompanhamento orquestral de Aristides Zaccarias, o fox “I only have eyes for you”, de Harry Warren e Al Dubin, composto em 1934. Gravação RCA Victor de 1957, do LP de 10 polegadas “Música para o mundo”. “O teu sorriso me prendeu” é uma marchinha de meio-de-ano, assinada pelo pistonista Bomfiglio de Oliveira, com letra de Walfrido Silva. Dircinha a gravou na Victor na plenitude de seus 13 anos, acompanhada pela endiabrada orquestra Diabos do Céu, de Pixinguinha, em 8 de julho de 1935, sendo lançada em agosto do mesmo ano, disco 33961-B, matriz 79969. A batucada “A coroa do rei”, de Haroldo Lobo e David Nasser, foi uma das músicas campeãs do carnaval de 1950, imortalizada por Dircinha na Odeon em 30 de setembro de 49 e lançada ainda em dezembro, disco 12962-B, matriz 8564. Do carnaval de 1946 é o samba “Que papagaio sou eu?”,  de Wilson Batista e Henrique de Almeida, lançado por Dircinha na Continental em janeiro daquele ano, disco 15574-B,matriz 1352. Encerrando este volume,uma curiosidade histórica:  o jingle publicitário gravado por Dircinha para o Auris Sedina, um remédio para dor de ouvido, produzido até hoje pelos Laboratórios Osório de Moraes. Bastante veiculado no rádio durante os anos 1950, ficou na memória de muita gente. E,  se depender de iniciativas como a deste volume do GRB, as Batistas aqui recordadas, Marília e Dircinha, vão ficar para sempre na memória de muitos!

* Texto de Samuel Machado Filho