José Tobias – Poema Triste (1965)

Muito bom dia, amigos cultos e ocultos. Hoje é Dia de Finados e talvez, para muitos, não fosse apropriado falarmos de música. Muitos talvez prefiram o silêncio, um momento de reclusão e respeito aos nossos que já se foram. Também compartilho desse momento, penso nos meus pais, irmã, tia, avós e amigos. Mas procuro pensar não quando eles se foram, mas quando eles ainda estavam presentes em minha vida. Daí, não há tristeza. Há, sim, uma saudade e essa vem das boas lembranças. Inevitavelmente, não há como desvincular, na nossa cultura, o dia de hoje com um sentimento de tristeza. Faz parte. Por essa razão, eu procurei trazer nesta postagem um disco com um espírito mais contemplativo.

“Poema Triste” foi um belíssimo trabalho lançado no início dos anos 60 pelo selo Audio Fidelity, trazendo o cantor e compositor José Tobias. Eis aí um nome que eu considero injustiçado no cenário musical brasileiro. Pouco se ouve falar deste magnífico cantor, dono de uma voz única. José Tobias surgiu nos anos 50, se apresentando na Rádio Jornal do Comércio de Recife. Pelas suas evidentes qualidades vocais encantou milhares de ouvintes, não demorando muito para ser apresentado também no Rio de Janeiro e São Paulo, onde seguiu carreira em diversas rádios. Gravou também alguns discos nos anos 50. Muitas dessas músicas, gravadas em discos de 78 rpm, vieram novamente a serem regravadas para este disco. Encontraremos no álbum um repertório fino, como músicas marcantes, algumas inclusive de autoria do próprio cantor.
“Poema Triste” é um disco que prima pela excelência e qualidade, tendo um ótimo cantor, rodeado por ótimas músicas. Para assim ser, só mesmo contando com um time de primeira de orquestradores, os maestros Ciro Pereira, Nelsinho, Lyrio Panicalli e Zico Mazagão. Tudo isso gravado em alta fidelidade 😉
negro
balada da solidão
jangada
prelúdio para ninar gente grande
rio triste
acauã
só voltou de madrugada
praia comprida
canção do esquecimento
vai poema triste
hoje é domingo outra vez
despertar da montanha

Juca Mestre And His Brasileiros – Panorama Musical Do Brasil (1962)

Mais um muito bom dia a todos os amigos cultos e ocultos! À medida em que vou me aproximando das férias os dias parecem ficar ainda mais bonitos. Que maravilha! Já estou com tudo pronto…
Na sequência da semana, vamos agora com outro disco, também uma raridade, objeto de desejo de muitos discófilos e colecionadores. Vale uma nota boa um exemplar como este. Disco gravado para gringo, ou seja, um trabalho feito no capricho. Gravações de alta qualidade, feitas em equipamento de ponta da época, coisa que ainda hoje muito estúdio digital nem chega perto. Este álbum, quando tocado em um bom aparelho, com uma boa agulha e boas caixas de som faz a gente sentir o que um mp3 jamais conseguiria nos dar. Estou dizendo isso, mas não sou do tipo que se preocupa tanto com a pureza do som a nível de incluirmos aqui uma versão em flac ou wave. Um mp3 de 320 kbps já tá de bom tamanho, pelo menos para mim.
Segue assim este álbum supimpa, um disco que agrada de cara a qualquer um, principalmente os estrangeiros. Temos aqui Juca Mestre e Seus Brasileiros, um nome fictício, que esconde, principalmente na versão brasileira do lp o verdadeiro mestre que direciona o conjunto, Severino Filho. Acredito que no álbum lançado no Brasil, no texto da contracapa, por questões contratuais, o nome de Severino não podia aparecer.
“Panorama Musical do Brasil” é mesmo um retrato pintado por gringos, que até então só conseguiam ouvir o que ecoava no Rio de Janeiro. Aliás, o disco deveria ter mesmo esse nome, “Panorama Musical Carioca”. Tem tudo a ver e a ouvir. Um disco só de samba, com o líder dOs Cariocas (embora seja paraense) e uma capa onde o Brasil é apenas um postal do Rio de Janeiro. Tá certo, foi por lá que se fez a porteira do Brasil.

apito no samba
mulata assanhada
poema do adeus
covarde
arrasta a sandália
mundo de zinco – eu chorarei amanhã – lata d’agua
não me diga adeus
chora tua tristeza
implorar 
o amor e a rosa
recordar
madeira de lei
é com esse que eu vou