As Cantoras – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 146 (2016)

Em sua edição de número 146, o Grand Record Brazil apresenta mais uma seleção de gravações com cantoras que fazem parte da história de nossa música popular, mesclando nomes consagrados com outros que o passar do tempo foi esquecendo, e perfazendo um total de 16 faixas, autênticas raridades que são reveladas para os amigos cultos, ocultos e associados de nosso TM.  –  Abrindo a seleção musical desta quinzena, temos o samba-canção “Amigos”, de autoria de Paulo Marques e Aylce Chaves, na interpretação de Linda Batista, acompanhada de conjunto no qual o violino, certamente, é de Fafá Lemos. A gravação foi feita na RCA Victor em 27 de janeiro de 1955 e lançada em março do mesmo ano, sob número de disco 80-1429-A, matriz BE5VB-0651. Em seguida, temos Aracy de Almeida, a inesquecível “dama da Central” e “do Encantado”, interpretando outro samba-canção, este clássico e bastante regravado: “Bom dia, tristeza”, lançado pela Continental em maio-junho de 1957 sob número 17437-B, matriz 11947. E a música tem uma história bem interessante: os versos, de autoria do Poetinha Vinícius de Moraes, foram enviados por ele de Paris (ele trabalhava na embaixada brasileira na França), por correio, a Aracy de Almeida, a fim de que ela fizesse o que bem entendesse com eles. Aracy, então colega de Adoniran Barbosa na Rádio e Televisão Record de São Paulo, solicitou então a ele que os musicasse. Mestre Adoniran desincumbiu-se plenamente da tarefa, e o resultado foi mais uma página antológica de seu trabalho autoral, no qual se destacam sambas como “Saudosa maloca” e “Trem das onze”, entre outros. Ângela Maria, a festejada Sapoti, aqui comparece com um tango bastante expressivo e de sucesso: “Mentindo”, de Eduardo Patané e Lourival Faissal. Foi lançado pela Copacabana em setembro-outubro de 1956, com o número 20032-A (dentro da série “de exportação” da companhia), matriz M-1671, mais tarde abrindo o LP de dez polegadas “Sucessos de Ângela Maria, número 2”. A cantora também interpretou “Mentindo” em dois filmes: “Com água na boca”, da Cine TV Filmes (mais tarde Herbert Richers), e “Rio fantasia”, de Watson Macedo. Paulista de Santos, Eladyr Porto iniciou sua carreira interpretando sambas e marchinhas. Mas, após residir na Argentina, passou a cantar tangos. É desta fase a gravação escalada para esta edição do GRB, “Cantando”, um clássico do gênero, escrito por Mercedes Simone, com letra brasileira de Virgínia Amorim. Quem o conhece na interpretação em dueto de Silvana e Rinaldo Calheiros, agora vai poder conferir sua primeira gravação em português, com Eladyr Porto, lançada pela Mocambo em 1956 sob número 15016-A, matriz R-537, aparecendo também no LP de dez polegadas “Tangos em versão”. Logo depois, Norma Ardanuy interpreta “Alma de boêmio (Alma de bohemio)”, outro tango clássico, de autoria de Roberto Firpo e Juan Andrés Caruso, em versão de Vanda Ardanuy, por certo irmã da intérprete. Foi gravado na Polydor em 13 de abril de 1956, e o disco recebeu o número 149-A, matriz POL-1116. Grande destaque do rádio de São Paulo nos anos 1940/50, e também pioneira da televisão no Brasil, Rosa Pardini aqui interpreta o bolero “Nunca, jamais (Nunca, jamás)”, de autoria de Lalo Guerrero, norte-americano do Arizona, mas descendente de mexicanos, em versão de Nélson Ferreira. Gravação Polydor de 31 de agosto de 1956, em disco número 173-B, matriz POL-1215, e que também abriu o LP de dez polegadas n.o LPN-2013, sem título. Em seguida, volta Eladyr Porto, interpretando “Silêncio”, versão dela própria para um tango clássico de Carlos Gardel, Alfredo Le Pera e Horacio Pettarosi. Outra gravação Mocambo , lançada em dezembro de 1956 sob número 15117-A, matriz R-740, sendo também faixa de abertura do já citado LP de dez polegadas “Tangos em versão”. Luely Figueiró interpreta depois “Até (Prière sans espoir)”, versão de Oswaldo Santiago para um fox de origem francesa, de autoria de Charles Danvers e Pierre Benoit Buisson, sucesso em todo o mundo na letra norte-americana de Carl Sigman, com o nome de “Till”. A gravação de Luely saiu pela Continental em setembro-outubro de 1958, sob número 17589-B, matriz 12120, entrando também no primeiro LP da cantora, “Gauchinha bem querer”. No mesmo ano, esta versão foi também gravada por Julie Joy, com o nome de “Até que…”.  A recifense-pernambucana Maria Helena Raposo bate ponto aqui com “Antigamente”, samba-toada de Vadico e Jarbas Mello, faixa de seu único LP, “Encantamento”, lançado em 1958 pela Mocambo, gravadora que inclusive tinha sede em seu Recife natal. Isaura Garcia, a sempre lembrada “Personalíssima”, aqui interpreta “Falaram de você”, samba-canção dos irmãos Hervê e Renê Cordovil, gravação RCA Victor de 13 de novembro de 1953, lançada em março de 54 sob número de disco 80-1258-B, matriz BE4VB-0304. O clássico “Conceição”, de Waldemar “Dunga” de Abreu e Jair Amorim, imortal sucesso de Cauby Peixoto, é aqui apresentado na voz de Dircinha Batista. A gravação dela para esse samba-canção foi feita na RCA Victor em 29 de maio de 1956, e lançada em agosto do mesmo ano sob número 80-1646-B, matriz BE6VB-1178, e, em virtude da enorme repercussão do registro de Cauby, ficou esquecida. Portanto, o GRB agora oferece uma oportunidade de ouvir e reavaliar esta interpretação de Dircinha Batista para “Conceição”. Logo depois, Dóris Monteiro interpreta “Quando tu passas por mim”, samba-canção que, embora tenha sido integralmente composto pelo Poetinha Vinícius de Moraes, letra e música, teve parceria por ele mesmo concedida a Antônio Maria. Originalmente gravado por Aracy de Almeida, em 1953, é oferecido aqui na interpretação da sempre notável  Dóris, lançada pela Continental em março de 1955, sob número 17092-B, matriz C-3555, com orquestração e regência do mestre Tom Jobim, outra importantíssima credencial. “Quantas vezes”, samba-canção de Peterpan, e outro sucesso de Dóris Monteiro (1952), aqui aparece na voz da eterna “Favorita”, Emilinha Borba (por sinal cunhada do compositor), em gravação extraída de acetato da Rádio Nacional carioca, então vivendo seu período áureo. Uma das “cantorinhas” reveladas pelo programa “Clube do Guri”, da Rádio Tamoio, também do Rio de Janeiro, Zaíra Cruz interpreta graciosamente a valsa “Anjo bom”, de Lourival Faissal em parceria com o jornalista Max Gold, em homenagem ao Dia das Mães. Gravação RCA Victor de 15 de março de 1956, lançada em maio do mesmo ano sob número 80-1600-B, matriz BE6VB-1022. Um ano mais tarde, apareceu no LP-coletânea de dez polegadas “Mãezinha querida”.  Entre 1952 e 1961, Zaíra Cruz gravou 21 discos de 78 rpm com 42 músicas, quase todos pela RCA Victor, e o último na Tiger. A também atriz Heloísa Helena (Rio de Janeiro, 28/10/1917-idem, 19/6/1999) bate ponto nesta edição com uma verdadeira raridade: “N’aimez que moi”, canção de Joubert de Carvalho e Maria Eugênia Celso, com letra me francês, originalmente lançada em disco por Marlene Valleé, em 1932. A presente gravação, em que Heloísa Helena é acompanhada ao piano por Benê Nunes, foi  tirada diretamente da trilha sonora do filme “É fogo na roupa”, de 1952, produzido e dirigido por Watson Macedo, verdadeiro craque das chanchadas.  E por último, da escassa discografia da cantora Míriam de Souza, resgatamos “Noite de chuva”, samba-canção do maestro Lindolfo Gaya em parceria com Pascoal Longo. É o lado A de seu segundo disco, o Odeon 13684, gravado em 28 de maio de 1954 e lançado em julho do mesmo ano, matriz 10144. Míriam gravou apenas seis discos 78 com doze músicas, cinco pela Odeon, entre 1953 e 1956, e o último na obscura Ciclone, em 1960. Enfim, esta é mais uma contribuição do GRB e do TM para a preservação da memória musical do Brasil, tarefa árdua porém extremamente gratificante. Divirtam-se!
*Texto de Samuel Machado Filho

Cinema Em 78 RPM – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 137 (2015)

Estamos de volta com o Grand Record Brazil, agora em sua edição de número 137. E a seleção musical desta quinzena foi preparada por uma pessoa muito especial: eu próprio!  Tudo começou quando o Augusto me mandou  diversos áudios extraídos de clipes produzidos para o YouTube, pela Rádio Educativa Mensagem de Santos, aproveitando cenas de filmes diversos, todos em preto e branco. No entanto, apenas quatro músicas, devidamente conservadas aqui , fizeram realmente parte de filmes. Então sugeri que fosse feita uma edição com músicas que foram realmente apresentadas em películas de sucesso, a maior parte nacionais. Com o devido acolhimento da ideia, e com carta branca para sua elaboração,  consegui garimpar dezesseis fonogramas, alguns até raríssimos, extraídos das bolachas de cera velhas de guerra. Uma seleção que resultou inclusive de pesquisas em fontes diversas, particularmente o “Dicionário de filmes brasileiros – longa-metragem”, de Antônio Leão da Silva Neto (Editora Futuro Mundo, 2002). Isto posto,vamos às músicas.Para começar, temos o clássico “O ébrio”, canção de e com Vicente Celestino, “a voz orgulho do Brasil”, por ele gravada na Victor em 7 de agosto de 1936 e lançada em setembro do mesmo ano, disco 34091-A, matriz 80195. O filme viria dez anos depois, produzido pela Cinédia e dirigido pela esposa do cantor, Gilda de Abreu, com grande bilheteria (teria superado até mesmo “Tropa de elite2”, o recordista oficial de bilheteria do cinema brazuca).  Esta gravação é uma montagem que apresenta, primeiramente, o monólogo inicial, extraído da regravação que Celestino fez da música em 1957, e, em seguida, o registro original de 1936, junção esta feita para a coletânea “Sessenta anos de canção”, lançada após a morte do cantor, em 1968. Inezita Barroso, recentemente falecida, aqui comparece com “Maria do mar”, canção do maestro Guerra Peixe em parceria com o escritor José Mauro de Vasconcelos, autor de romances de sucesso como  “Vazante”, “Coração de vidro”, “Banana brava” e “O meu pé de laranja-lima”. Fez parte do filme “O canto do mar”, produção da Kino Filmes dirigida por Alberto Cavalcanti, e Inezita a gravou na RCA Victor em 4 de agosto de 1953,com lançamento em  outubro do mesmo ano, disco 80-1209-B, matriz BE3VB-0222. Temos, em seguida, a única composição de origem estrangeira inclusa nesta seleção. Trata-se de “Natal branco (White Christmas)”, fox de autoria de Irving Berlin, um dos maiores compositores dos EUA, e sucesso em todo o mundo. Seu intérprete mais constante foi o ator e cantor Bing Crosby, que a lançou em um show que fez para os pracinhas norte-americanos que serviam nas Filipinas, durante a Segunda Guerra Munidal. Bing também interpretou este clássico em dois filmes: “Duas semanas de prazer (Holiday inn)”, de 1942, e “Natal branco(White Christmas)”, de 1954. Com letra brasileira de Marino Pinto, foi levado a disco na RCA Victor por Nélson Gonçalves, ao lado do Trio de Ouro, então em sua terceira fase (Lourdinha Bittencourt, então esposa deNélson, Herivelto Martins e Raul Sampaio), no dia 25 de novembro de 1955, mas estranhamente só saiu em janeiro de 56, disco 80-1551-B, matriz BE5VB-0926. Houve uma versão anterior, assinada por Haroldo Barbosa, que Francisco Alves interpretava em programas de rádio, porém não gravada comercialmente. Na quarta faixa, o maior sucesso autoral do compositor pernambucano Nélson Ferreira:  o frevo-de-bloco “Evocação”, primeiro de uma série de sete com o mesmo título, homenageando grandes nomes do carnaval recifense do passado. A interpretação é do Bloco Batutas de São José,lançada pela recifense Mocambo em janeiro de 1957, no 78 rpm n.o 15142-B, matriz R-791, e no LP coletivo de 10 polegadas “Viva o frevo!”.  “Evocação” foi também sucesso no eixo Rio-São Paulo, em ritmo de marchinha, entrando na trilha sonora do filme “Uma certa Lucrécia”, de Fernando de Barros, estrelado por Dercy Gonçalves. Logo depois, outra gravação da Mocambo: é a balada-rock “Sereno”, lançada em 1958 no 78 rpm n.o 15233-A, matriz R-985, e incluída mais tarde no LP “Surpresa”. A música fez parte do filme “Minha sogra é da polícia”, uma comédia dirigida pelo mesmo autor da composição, Aloízio T. de Carvalho, e por sinal bastante cultuada pelos fãs de dois futuros astros da Jovem Guarda, Roberto & Erasmo Carlos, pois marcou a primeiríssima aparição de ambos no cinema.  “Sereno” também foi revivida, em 1976, na novela “Estúpido Cupido”, da TV Globo, cuja trilha sonora foi a de maior vendagem da história da gravadora Som Livre: mais de dois milhões e meio de cópias! Na sexta faixa, uma raridade absoluta: trata-se da toada “Céu sem luar”, do maestro Enrico Simonetti em parceria com o apresentador de rádio e televisão Randal Juliano. Quem a interpreta, com suporte orquestral do mestre Tom Jobim, é Dóris Monteiro, em gravação Continental de 6 de maio de 1955, lançada em outubro do mesmo ano, disco 17171-A, matriz C-3628. Dóris também a interpretou no filme “A carrocinha”, produção de Jaime Prades estrelada por Mazzaropi  sob a direção de Agostinho Martins Pereira, e na qual Dóris também contracenou com outro mestre, Adoniran Barbosa (seu pai, na trama).  Desse mesmo filme, agora com o próprio Mazzaropi, um dos mais queridos comediantes do cinema brazuca, até hoje lembrado com saudade, é nossa sétima faixa, o baião “Cai, sereno (Na rama da mandioquinha)”, baião de Elpídio “Conde” dos Santos (autor do clássico “Você vai gostar”).O eterno jeca registrou “Cai, sereno” na RCA Victor em 2 de agosto de 1955, e o lançamento se deu em outubro do mesmo ano, disco 80-1497-A, matriz BE5VB-0821. Temos também o lado B desse disco,matriz BE5VB-0822, também de Elpídio: a rancheira “Dona do salão”, interpretada por Mazza no filme “Fuzileiro do amor”, dirigido por Eurides Ramos, primeira das três películas que o comediante fez no Rio de Janeiro para a Cinedistri, de Oswaldo Massaini.  Ângela Maria, a querida Sapoti, nos apresenta o expressivo samba-canção “Vida de bailarina”, de Américo Seixas em parceria com o humorista Chocolate (Dorival Silva). Fez parte do filme “Rua sem sol”, da Brasil Vita Filmes, dirigido por Alex Viany, e a gravação em disco saiu pela Copacabana em  dezembro de 1953, sob n.o 5170-B,matriz M-642. Voltando bem mais longe no tempo, apresentamos “Estrela cadente”, valsa-canção de José Carlos Burle, que fez parte do filme “Sob a luz do meu bairro”, da Atlântida, dirigido por Moacyr Fenelon. Carlos Galhardo,seu intérprete na película, cujos negativos infelizmente se perderam em um incêndio, gravou a música na Victor em 12 de abril de 1946, com lançamento em julho do mesmo ano sob n.o 80-0421-B, matriz S-078474. O eterno Rei do Baião, Luiz Gonzaga, apresenta a animadíssima polca “Tô sobrando”, que fez em parceria com Hervê Cordovil, e gravou na RCA Victor em 26 de julho de 1951, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco 80-0816-A,matriz S-092995. Gonzagão também a interpretou no filme “O comprador de fazendas”, da Cinematográfica  Maristela, estúdio paulistano que ficava no bairro do Jaçanã, baseado em conto de Monteiro Lobato e dirigido por Alberto Pieralisi, tendo no elenco Procópio Ferreira, Hélio Souto e Henriette Morineau, entre outros (o próprio Pieralisi dirigiu uma refilmagem inferior, em 1974).  O número musical de Luiz Gonzaga, por sinal, foi rodado após o término das filmagens, uma vez que ele sofrera grave acidente automobilístico e quebrara o braço. Outra raridade vem logo em seguida: o samba-exaltação “Parabéns, São Paulo”, de Rutinaldo Silva,em gravação lançada pela Continental em março de 1954 (ano em que a capital bandeirante comemorou seus quatrocentos anos de existência), disco 16912-B, matriz C-3287. Esse foi o número musical de encerramento do filme “O petróleo é nosso”, da Brasil Vita Filmes, dirigido por um especialista em chanchadas, Watson Macedo. O belo samba-canção “Onde estará meu amor?”, de autoria da compositora e instrumentista Lina Pesce (Magdalena Pesce Vitale), é outra absoluta raridade nesta seleção “cine-musical”. Interpretado por Agnaldo Rayol no filme “Chofer de praça”, o primeiro que Mazzaropi fez como produtor independente, sob a direção de Mílton Amaral, foi lançado em disco pela Copacabana em maio de 1958, no 78 rpm n.o  5891-A, matriz M-2181, entrando mais tarde no primeiro LP de Agnaldo, sem título (CLP-11061). Gravações  posteriores de Dolores Duran e Elizeth Cardoso, também pela Copacabana, reforçariam o êxito de “Onde estará meu amor?”.  Silvinha Chiozzo, irmã da acordeonista e também cantora e atriz Adelaide Chiozzo,  aqui comparece com duas músicas que interpretou no filme “Rico ri à toa”, primeiro trabalho do cineasta Roberto Farias, que mais tarde fez ”Assalto ao trem pagador” e a trilogia cinematográfica estrelada por Roberto Carlos (“Em ritmo de aventura”, “O diamante cor-de-rosa” e “A trezentos quilômetros por hora”), sendo depois diretor de especiais da TV Globo.  Saíram pela Copacabana em 1957, sob número 5795. Primeiro,o lado B, “Zé da Onça”, baião clássico de João do Valle, o acordeonista Abdias Filho (o famoso Abdias dos Oito Baixos) e Adrian Caldeira, matriz M-1990, que Silvinha canta em dueto com Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga. Vem depois o lado A, matriz M-1965, “É samba”, que Silvinha canta solo, concebido por Vicente Paiva, Luiz Iglésias e Walter Pinto, os três ligados ao teatro de revista. Para terminar, um verdadeiro clássico interpretado pelo grande Cauby Peixoto: o samba-canção “Nono mandamento”, de Renê Bittencourt e Raul Sampaio, e que fez parte do filme “De pernas pro ar”, co-produção Herbert Richers-Cinedistri,  dirigida por Victor Lima. Cauby imortalizou este sucesso inesquecível na RCA Victor em 20 de dezembro de 1957,com lançamento em abril de 58 no 78 rpm n.o 80-1928-A, matriz 13-H2PB-0311. Um fecho realmente de ouro para a seleção desta quinzena do GRB, que por certo irá proporcionar grandes momentos de recordação e entretenimento a vocês  que tanto prestigiam o TM. Quero expressar inclusive meus mais sinceros agradecimentos aos colecionadores Gilberto Inácio Gonçalves e Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)  pela colaboração, enviando-me alguns dos preciosos fonogramas que compõem esta edição. E agora, luz, câmera, ação… e música!

*Texto e seleção musical de Samuel Machado Filho

Emilinha Borba – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 109 (2014)

E aí vai, para nossos amigos cultos, ocultos e associados, a centésima-nona edição do Grand Record Brazil. Desta vez, apresentamos uma das mais queridas cantoras do Brasil, autêntico ídolo da fase áurea do rádio brasileiro e um fenômeno de popularidade como poucos:  Emilinha Borba. O nome completo de nossa focalizada era Emília Savana da Silva Borba. Ela veio ao mundo na Estação de Mangueira, no Rio de Janeiro, no dia 31 de agosto de 1923, filha do engenheiro agrônomo Eugênio Jordão da Silva Borba, por sinal proprietário da Vila Savana, onde nasceu e morava Emilinha, e Edith da Silva Borba. A família teve ao todo sete filhos, sendo seis mulheres  (Maria de Lourdes, Xezira, Salete, Emília, Ely e Terezinha)e apenas um homem, José Maria, qual Emilinha era irmã gêmea.  A prodigalidade do pai acabou por deixar a todos, quando faleceu prematuramente,em situação bem difícil.  E Dona Edith precisou distribuir os filhos pelas casas dos parentes, e nossa Emilinha foi para a residência da avó, Dona Bela. Desde muito pequena, Emilinha demonstrou estar fadada a trilhar o caminho da arte, passando a frequentar as emissoras de rádio. Apresentando-se no programa “De graça para todos”, da PRG-3, Rádio Transmissora, produzido por Oscar Gomes Cardim, em 1937, recebia cachês de 20 mil-réis.  Passou também pelo “Programa juvenil”, da PRD-2, Rádio Cruzeiro do Sul, e até mesmo pelo programa de calouros do sempre exigente Ary Barroso, onde conquistou o primeiro prêmio, feito do qual se orgulharia para o resto da vida.  Na Cruzeiro do Sul,conheceu Bidu Reis, com quem formaria o duo As Moreninhas. Xezira Borba,irmã de Emilinha, também chegou a esboçar carreira de cantora, com o pseudônimo de Nena Robledo, gravando dois discos com três músicas, mas abandonou o canto ao se casar com o compositor Peterpan (José Fernandes de Paula). Dona Edith, mãe de Emilinha, em 1938, trabalhava como faxineira do Cassino da Urca, e despertou a atenção de Cármen Miranda, então grande atração da casa. Ao saber da reviravolta na vida dos Borbas, Cármen se ofereceu para ajudar, caso alguma das filhas da Dona Edith pudesse ser aproveitada no espetáculo. Esta então indicou Emilinha, que, com roupas fornecidas por Cármen, fez um teste perante o mineiro Joaquim Rolas,dono do cassino. Percebendo o nervosismo da menina, que teve sua idade aumentada em dois anos, Cármen desviava a atenção de Rolas com uma conversa sem fim enquanto Emilinha cantava. Além de ser uma das “crooners” da Urca, a futura “Favorita” atuava na Rádio Cajuti. Em fevereiro de 1939, apresentou-se pela primeira vez em São Paulo, através da Rádio Record, no Teatro Coliseu, ao lado de Orlando Silkva, Almirante e Sílvio Caldas. No mesmo ano, ainda como Emília Borba, estreia em disco, na Columbia, interpretando a marchinha “Pirulito”, ao lado de Nílton Paz,  e, embora só este  aparecesse como intérprete no selo, sua voz se evidenciava, e bem. Até 1940, ela faria mais quatro discos na Columbia, e um ano depois, teve curta passagem pela Odeon, aparecendo pela primeira vez no selo do disco como Emilinha Borba. Ela foi também a cantora que mais participou de filmes  em toda a história do cinema brasileiro, cerca de 40, todos eles musicais: “Vamos cantar” (1940), “Tristezas não pagam dívidas” (1944), “Não adianta chorar” (1944), “Segura esta mulher” (1946), “Estou aí?” (1948), “De pernas pro ar” (1957), etc.  Em 1944, Emilinha ingressa na lendária Rádio Nacional, onde atua por 27 anos, e volta a gravar na Columbia, já com o nome de Continental, onde fica até 1958, quando ingressa em outra Columbia, a futura CBS, hoje Sony Music. É aí que tudo acontece: sucessos sobre sucessos em disco, programas de auditório (inclusive o de César de Alencar, seu apresentador oficial, então líder de audiência nas tardes de sábado), faixas, troféus, a propalada rivalidade com Marlene…  Esta começou em 1949, quando Marlene venceu o concurso de Rainha do Rádio (Emilinha só ganharia o título em 1953). A “Favorita” teve até sua própria página na “Revista do Rádio”, o “Diário de Emilinha”, e o simples anúncio de sua presença em qualquer cidade ou lugarejo do Brasil era feriado local, com desfile em carro aberto, outorga da chave da cidade etc. Até agosto de 1995, foi a personalidade que mais apareceu em capas de revistas, aproximadamente 350! Entre 1968 e 1972, Emilinha esteve inativa por causa de um edema nas cordas vocais, voltando a cantar após três cirurgias e um longo estudo de reeducação da voz. Em toda a carreira, gravou, em 78 rpm, 117 discos com 216 músicas, e cerca de dez LPs.  Nos três últimos anos de vida, continuou se apresentando por todo o país, inclusive animando bailes carnavalescos. Em 2003,após 22 anos sem gravar, lançou o CD independente “Emilinha  pinta… e Borba”, que ela mesmo vendia de forma bem popular, em contato com o público.  No início de 2005, lançou seu último trabalho em disco, o CD “Na banca da folia”, para o carnaval desse ano. Emilinha Borba morreu na tarde do dia 3 de outubro de 2005, aos 82 anos, de infarto fulminante, enquanto almoçava em seu apartamento, no bairro carioca de Copacabana, mas continua até hoje lembrada por sua voz, popularidade e extremo carisma.  E o GRB reverencia sua memória apresentando dezoito faixas gravadas em 78 rpm, uma amostragem de alguns de seus melhores momentos, que os fãs da cantora por certo reconhecerão aos primeiros acordes. Abrindo esta seleção, a batucada “A louca chegou”, do carnaval de 1953, de autoria de Rômulo Paes, Henrique de Almeida e Adoniran Barbosa, em dueto com o também “bandleader” Ruy Rey, lançada pela Continental em janeiro desse ano com o n.o 16692-B, matriz C-3005 (nessa ocasião também gravada na Copacabana por Elza Laranjeira). A maior parte das faixas com a ‘Favorita” aqui incluídas foi por sinal gravada na Continental. Em seguida, um verdadeiro clássico: o baião “Paraíba”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, por ela imortalizado em primeiro de março de 1950, com lançamento em abril, disco 16187-B, matriz 2256 (Gonzagão só fez seu próprio registro em 1952). No acompanhamento,o regional de Canhoto (Waldiro Frederico Tramontano) e o coro Os Boêmios. A música iria criar, por sinal, um neologismo significando mulher masculinizada, mas a expressão “Paraíba masculina, mulher macho, sim senhor” significava que a Paraíba era um estado, mas com nome feminino.  A faixa 3 apresenta o choro ‘Divagando”,  de Nélson Miranda e Luiz Bittencourt, com Emilinha acompanhada pelo conjunto Bossa Clube, e lançado pela Continental em novembro de 1945,disco 15473-B, matriz 1299. “Quando tu não estás (Cuando tu no estás)” é uma versão de Haroldo Barbosa, em ritmo de bolero, para um tango de Carlos Gardel, Alfredo Le Pera e Battistella, que Francisco Alves interpretava em seus programas de rádio. Mas foi Emilinha quem a gravou comercialmente, na Continental, menos de um ano depois da morte trágica do Rei da Voz, em 15 de abril de 1953, com lançamento em julho-agosto seguintes sob número 16796-A,matriz C-3113. A faixa seguinte traz a toada junina “Capelinha de melão”, motivo popular adaptado por João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro, com lançamento  pela então “marca dos sininhos” em março-abril de 1949, disco 16041-A, matriz 2058. Desse mesmo suplemento bimestral da Continental  é o samba “Deixa que amanheça (Como nos versos de Bilac)”, de autoria de Oswaldo Santiago, catalogado com o número 16036-A,matriz 2041. A faixa 7 é um verdadeiro clássico de Emilinha e do carnaval: a marchinha “Chiquita Bacana”, de Braguinha e Alberto Ribeiro, lançado em janeiro de1949 com o número 15979-A,matriz 2001, época em estava em moda o chamado Existencialismo, cuja figura de proa era a atriz francesa Juliette Greco. Emilinha também a interpretou no filme “Estou aí?”, de Moacyr Fenelon. “Dançando a rumba”, de Ayrton Amorim e Mário Menezes,  é outro dos conhecidos hits da “Favorita”, e a Continental o lançou entre julho e setembro de1951, disco 16416-A, matriz 2680. Em seguida, temos o fox “Deixa eu, nêgo (Let me go, lover)”, de Jenny Lou Carson e All Hill, com letra brasileira de Giuseppe Ghiaroni, escritor, jornalista e então colega de Emilinha na Rádio Nacional, onde escreveu inúmeras novelas e programas. A gravação da ‘Favorita” foi lançada pela Continental em maio-junho de 1955, sob número 17123-A, matriz C-3609, imediatamente após a de Violeta Cavalcanti com o Trio Irakitan, pela Odeon.  Depois , do primeiro disco-solo de Emilinha, então Emília Borba, o Columbia 55048, temos o lado A, o samba-choro “Faça o mesmo”, de Nássara e Eratóstenes Frazão, gravado em 2 de março de 1939 e lançado em maio do mesmo ano, matriz 145. Voltando à Continental, ou melhor, permanecendo nela, já que era a antiga Columbia, temos o samba “Jurei”, também de Nássara, agora em parceria com Waldemar “Dunga” de Abreu, lançado em setembro-outubro de 1950 sob n.o 16295-B, matriz 2417. A seguir, outra marchinha carnavalesca conhecidíssima: a famosa “Vai com jeito”, de exclusiva autoria do grande Braguinha, que a “Favorita” imortalizou em 19 de outubro de 1956, com lançamento em janeiro de 57, sob n.o 17372-B, matriz C-3869, abrindo também o LP coletivo “Carnaval de 1957”, em 10 polegadas. “Vai com jeito”,aliás, dominou essa folia, sendo também apresentada no filme ‘Garotas e samba”, da Atlântida.  “Você e o samba”, de Peterpan (cunhado de Emilinha) e Ari Monteiro, saiu pela “marca dos sininhos” em outubro de 1945, sob número 15455-B, matriz 1215. O fox-samba “Istambul”, de Norman Simon e Jimmy Kennedy, tem letra brasileira de Lourival Faissal, gravada por Emilinha em 2 de agosto de 1955 e lançada em outubro seguinte com o n.o 17177-A, matriz C-3675. Chegaria até mesmo ao LP, na compilação  “Seleções Continental n.o 1”, por sinal o primeiro da gravadora no formato-padrão de 12 polegadas. Ainda do cunhado Peterpan, agora em parceria com José Batista, é o bolero ‘Noite de chuva”, que Emilinha imortaliza na Continental de sempre em 7 de junho de 1954, para lançamento no suplemento do bimestre junho-julho, disco 16990-B, matriz C-3361, sendo também apresentado no filme “Capricho de amor”, da Bandeirante Filmes.  Outro inesquecível hit carnavalesco de Emilinha aqui incluído é a marchinha “Tomara que chova”, de Paquito e Romeu Gentil, que dominou a folia de 1951. Inicialmente gravado na Odeon pelos Vocalistas Tropicais, ganha também registro de Emilinha pela Continental, em 25 de outubro de 50, com lançamento um mês antes do carnaval, janeiro, sob n.o 16339-B, matriz 2479. A “Favorita” igualmente a interpretou no filme “Aviso aos navegantes”, da Atlântida.  A lírica toada “Não é só o luar”, de José Batista, é lançada pela “marca dos sininhos” em  abril-maio de 1956, sob n.o 17273-A, matriz C-3408. Para encerrar, temos justamente a estreia de Emilinha em disco, em dueto com Nílton Paz: a marchinha “Pirulito”, composta por João “Braguinha” de Barro e Alberto Ribeiro, com estribilho oriundo do folclore português, para o filme “Banana da terra”, da Cinédia, em substituição ao samba ‘Boneca de piche”, de Ary Barroso, que seria interpretado por Almirante e Cármen Miranda com os rostos pintados de preto, como malandros da Lapa. Como não houve acordo financeiro com Ary, Almirante e Cármen filmaram “Pirulito” com essa mesma caracterização.  A gravação, porém, coube a dois estreantes em disco, o maranhense (de Caxias) Nílton Paz, em dupla com nossa Emilinha, na Columbia, em 3 de janeiro de 1939, com lançamento em plena folia, fevereiro, sob n.o  55013-A, matriz 120, e com estrondoso sucesso, um fecho realmente de ouro para esta seleção. Com vocês, a minha, a sua, a nossa favorita…. Emilinha Borba!
Texto de Samuel Machado Filho

Emilinha Borba – Força Positiva (1981)

Olá, meus caros amigos cultos e ocultos! Depois de sete anos nessa batalha ‘blogmusical’, eu vou dizer uma coisa: ando num desânimo que vocês não fazem ideia. Sei que uma das razões dessa minha ‘broxada’ tem a ver com a interatividade que por aqui já não existe. Mas no fundo, a culpa é minha mesmo. Sou eu quem deveria estar instigando vocês através de mais postagens, mais envolvimento e conteúdo… porém, está me faltando ânimo (e tempo que anda cada vez mais curto). Mesmo assim, vamos lá, no pingado…
Tenho hoje para vocês este álbum da Emilinha Borba. Um disco lançado por ela própria, de forma independente, no início dos anos 80. Naquela época vários artistas, sem encontrar espaço nas grandes e tradicionais gravadoras, partiram para os lançamentos independentes. Nessa empreitada muitos deles acabavam se enveredando também para o trabalho de produção a ponto de criarem suas próprias empresas. Emilinha foi uma dessas. Investiu na produção criando a Discos EPA (Emilinha Produções Artísticas). Lançou assim, “Força Positiva”, um lp feito na cara e na coragem, somente com músicas então inéditas. Um repertório variado contemplando velhas e novas paixões, ou por outra, antigos e novos compositores. Embora muito bem assistida em todos os aspectos dessa produção, achei meio pobre alguns arranjos. A economia de uma orquestra faz uma falta danada para uma cantora do quilate de Emilinha.

meu cheiro
poema da alma
dona do ar (brinco de ouro)
meu amor não envelhece
voltaste
o herói da noite
amante amigo
eu vou até amanhã
sinuca de bico
o milagre da luz
meu dinheiro não é borracha
ninguém fica pra semente
.

A Música De Geraldo Pereira – Parte 1 – Seleção 78 RPM Do Toque Musical – Vol. 80 (2013)

E chegamos a edição de número 80 do nosso Grand Record Brasil. Em edição anterior, como os amigos cultos, ocultos e associados do TM bem se lembram, apresentamos algumas das melhores gravações de Geraldo Pereira (Juiz de Fora, MG, 1918-Rio de Janeiro, 1955) como intérprete, inclusive, claro, composições próprias. E, como prometemos nessa ocasião, estamos voltando a focalizar a obra deste nome importantíssimo de nossa música popular. Desta vez, apresentamos doze gravações (é até chover no molhado falar de suas qualidades e de sua importância histórica) em que cantoras e conjuntos  contemporâneos do compositor interpretam suas obras.  Abrindo nossa seleção desta semana, os Quatro Ases e um Coringa, originários do Ceará, apresentam uma seleção de sambas que  homenageiam a Bahia de todos os santos, que sempre fascinou inúmeros compositores, sejam eles nascidos ou não na chamada boa terra, gravada na RCA Victor em 18 de julho de 1953 e lançada em outubro do mesmo ano sob n.o 80-1204-B, matriz BE3VB-0210. De Geraldo Pereira, aparece um trecho de seu clássico “Falsa baiana”, e neste pot-pourri também foram incluídos sambas de Vicente Paiva e Chianca de Garcia (“Exaltação à Bahia”), Dorival Caymmi (“O que é que a baiana tem?”)  e Ary Barroso (“Faixa de cetim”, “Na Baixa do Sapateiro”).  Na faixa seguinte, os Quatro Ases, que durante toda a carreira deram de fato as cartas,  nos brindam com “Ai! Que saudade dela”, samba de Geraldo Pereira em parceria com Ari Monteiro, gravação Odeon de primeiro de setembro de 1942, lançada em novembro do mesmo ano sob n.o 12221-B, matriz 7044. Mesmo pouco divulgado, é um samba que merece atenção.  Outro importantíssimo conjunto vocal dessa época, os Anjos do Inferno, liderados por Léo Vilar, aqui comparece com três sambas absolutamente imperdíveis. O primeiro é “Sem compromisso”, de Geraldo Pereira em parceria com Nélson Trigueiro, gravação Continental de 29 de maio de 1944, lançada em junho do mesmo ano com o n.o 15184-A, matriz 823. Nessa época, os salões e dancings eram bastante frequentados por certa camada da população carioca, e Geraldo, atento observador do cotidiano, adorava esse ambiente. Portanto, não deixaria mesmo passar em branco a cena – real ou imaginária – relatada neste samba, por sinal muito bem regravado por Chico Buarque em 1974. Outro hit de Geraldo Pereira  imortalizado pelos Anjos do Inferno é “Bolinha de papel”, gravação Victor de primeiro de fevereiro de 1945, lançada em abril do mesmo ano sob n.o 80-0266-B, matriz S-078125. Samba que, como muitos sabem, seria regravado em 1961 por João Gilberto. Em seguida tem “Vai que depois eu vou”, também de Geraldo sem parceiro, em outra gravação Victor, esta de 28 de novembro de 1945, lançada bem em cima do carnaval de 46, em fevereiro, disco 80-0381-B, matriz S-078402, e uma das músicas mais cantadas nessa folia momesca.  A faixa seguinte é “Pode ser?”, samba em que Geraldo Pereira conta com a parceria de Marino Pinto. E tem uma particularidade: foi incluído no disco de estreia da paulistana Isaurinha Garcia, a eterna “personalíssima”, gravado na Columbia em 23 de junho de 1941 e lançado em agosto do mesmo ano sob n.o 55294-B, matriz 440 (no lado A estava “Chega de tanto amor”, de Mário Lago). Como se vê, Isaurinha já mostrava a que veio, e esse seria o pontapé inicial de uma carreira repleta de sucessos. Na época, ela já era contratada da Rádio Record de São Paulo (então “a maior”), sendo inclusive considerada por seu então proprietário, Paulo Machado de Carvalho (“o marechal da vitória”), autêntico patrimônio da casa, fazendo parte até mesmo de seus móveis e utensílios (!), e Isaurinha lá permaneceu por mais de 40 anos.  Outro inesquecível cartaz do rádio e do disco, Dircinha Batista apresenta o samba-choro “Sinhá Rosinha”, parceria de Geraldo com Célio Ferreira, por ela gravado na Odeon em 7 de abril de 1942 e lançado em julho do mesmo ano, disco 12167-B, matriz 6937. Aqui, a temática é a do malandro regenerado, presente em outras composições de Geraldo Pereira, bastando lembrar, por exemplo, o samba-canção “Pedro do Pedregulho”, por ele mesmo gravado e que já apresentamos anteriormente no GRB. Dircinha ainda interpreta o samba “Fugindo de mim”, parceria com Geraldo com Arnaldo Passos e Waldir Machado, destinado ao carnaval de 1952. Gravação também da  Odeon, de 8 de novembro de 51, lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 13212-B, matriz 9186. “A minha, a sua, a nossa favorita” Emilinha Borba, fenômeno de popularidade como raramente se viu em nosso país, e outro grande nome da fase áurea do rádio brasileiro, comparece aqui com outros dois sambas de Geraldo Pereira, em gravações Continental. O primeiro deles é “Boca rica”, parceria de Geraldo com Arnaldo Passos, lançado em janeiro de 1950 para o carnaval desse ano, disco 16142-B, matriz 2211. Do carnaval seguinte, de 1951, é “Perdi meu lar”, também da parceria Geraldo Pereira-Arnaldo Passos, gravado pela eterna “Favorita” em 25 de outubro de 50 e lançado um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, sob n.o 16340-B, matriz 2478. Logo depois, temos Marlene (Vitória de Martino Bonaiutti), a que foi rival de Emilinha sem nunca ter sido (naquele tempo, como se vê, já tinha marqueteiro), interpretando outro samba de Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, “Aquele amor”, destinado ao carnaval de 1952 e lançado pela Continental em janeiro desse ano, tendo a gravação sido feita em 5 de novembro de 51, disco 16513-A, matriz C-2783. Finalizando, temos uma cantora hoje pouco lembrada, mas que teve sua época, Heleninha Costa, interpretando aqui outro samba de Geraldo Pereira em parceria com Arnaldo Passos: “Não consigo esquecer”. Destinado ao carnaval de 1953, foi gravado por Heleninha na RCA Victor em 20 de agosto de 52, sendo lançado ainda em novembro sob n.o 80-1007-A, matriz SB-093410 (no lado B apareceu o clássico “Barracão”, de Luiz Antônio e Oldemar Magalhães). Como se percebe, as músicas destinadas ao carnaval eram então lançadas com antecedência, a fim de serem divulgadas e aprendidas pelos foliões em tempo hábil. Assim, chegando fevereiro, o público poderia escolher suas favoritas e cantá-las nos salões e nas ruas. Na próxima semana, continuaremos a abordar a obra de Geraldo Pereira, apresentando gravações de cantores contemporâneos do autor. Aguardem!
* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.

It’s Rock 1 – Seleção 78 RPM Do Toque Musical – Vol. 44 (2012)

Esta semana, em sua quadragésima-quarta edição, o Grand Record Brazil apresenta a primeira de duas partes de uma seleção de rock (ou coisa parecida) produzida e digitalizada pelo blog Sintonia Musikal, na pessoa de seu administrador Chico, um autêntico especialista em resgatar o passado de nossa música dita “jovem”, e seguidor de carteirinha do TM. Aquele abraço, Chico!

Permitam-me os amigos cultos, ocultos e associados começar minha resenha desta primeira parte pela faixa 5. Ela foi justamente o começo, o pontapé inicial do rock tupiniquim. Estou falando da gravação feita pela carioca Nora Ney (Iracema de Souza Ferreira, 1922-2003) de “Rock around the clock”, de Jimmy de Knight e Max C. Freedman. A música era sucesso com Bill Haley e seus Cometas, e fazia parte do filme “Sementes da violência (The blackboard jungle)”, da MGM. Em 24 de outubro de 1955, Nora compareceu ao estúdio da Continental, no Edifício Cineac-Trianon (Avenida Rio Branco, esquina com Rua Bittencourt da Silva, em frente ao lendário Café Nice) para gravar sua personalíssima versão deste rock pioneiro, lançada em novembro-dezembro do mesmo ano com o n.o 17217-A, matriz C-3730. Foi assim que o rock and roll começou a balançar a juventude brasileira!

No restante do programa que o Chico nos oferece, outras doze peças raras, curiosas e interessantes do início do rock brasileiro, a chamada “pré-Jovem Guarda”. Nem mesmo a pianista Carolina Cardoso de Menezes (Rio de Janeiro, 1916-idem, 1999) resistiu aos encantos do chamado “ritmo alucinante”, compondo e executando o seu “Brasil rock”, em gravação Odeon de 14 de março de 1957 (14191-B, matriz 11601), lançada em maio daquele ano. Em seguida vem a faixa mais antiga desta seleção do amigo Chico: uma versão em português de “Jambalaya (On the bayou)”, clássico country de Hank Williams, assinada pelo comediante Edair Badaró, então atuando nas Emissoras Unidas (Rádio e TV Record de São Paulo). Na  interpretação, Neyde Fraga (São Paulo, 1924-Rio de Janeiro, 1987), então também atuando na Record. Gravado pela Odeon em 4 de setembro de 1953 e lançado em novembro do mesmo ano (13527-A, matriz 9873), este é considerado o maior sucesso da cantora. Em seguida, a versão de Aloysio de Oliveira para “In the mood”, clássico da big band de Glenn Miller, de Joe Garland e Andy Razaf, interpretada pelo Bando da Lua, formado e dirigido por Aloysio, com o nome de “Edmundo”. Gravação de 8 de junho de 1954, feita nos EUA pela Decca (hoje Universal Music), mas só lançada no Brasil vinte anos mais tarde, no LP “Bando da Lua nos EUA”, produzido por João Luiz Ferrete para a Chantecler, então representante da Decca/MCA. Depois, o curioso “rock-baião-samba” “Eu sou a tal”, de Murilo Vieira, Edel Ney e O.Vargas, interpretado por Mara Silva (Isabel Gomes da Silva, Campos, RJ, n.1930), em gravação lançada pela RGE em dezembro de 1957 (10076-A, matriz RGO-335). A faixa 6 traz aquele que é considerado o primeiro rock cem por cento brasileiro, letra e música: “Rock and roll em Copacabana”, assinado por esse verdadeiro cronista que foi Miguel Gustavo, e gravado na RCA Victor por Cauby Peixoto em 30 de janeiro de 1957, com lançamento em maio seguinte (80-1774-A, matriz 13-H2PB-0043). Temos depois a versão feita pelo radialista Paulo Rogério para o conhecido mambo-rock “Tequila”, de Chuck Rio, originalmente instrumental. A gravação coube à carioca Araci Costa (1932-1976) e saiu pela Continental em setembro-outubro de 1958, com o número 17595-A, matriz C-4123. “Tequila” era um dos números mais apreciados da orquestra do “bandleader” e vibrafonista Sylvio Mazzucca (São Paulo, 1929-idem, 2003), que curiosamente vem aqui com o chá-chá-chá “Cerveza”, de Boots Brown, em gravação lançada pela Columbia no mesmo ano de 1958 (CB-11079-A, matriz CBO-1767). O cantor Mário Augusto, criador de hits como “O amor de Terezinha” e “Calcutá”, aqui comparece com a versão de Fred Jorge para “Claudette”, de Roy Orbison, extraída de seu segundo disco, o Odeon 14372-B, gravado em 26 de agosto de 1958 e lançado em setembro do mesmo ano, matriz 12848. “A minha, a sua, a nossa favorita” (como César de Alencar a anunciava em seu programa na Rádio Nacional) Emilinha Borba vem aqui com a versão do misterioso A.Bourget para o chá-chá-rock “Patrícia”, de Pérez Prado, lançada pela Columbia também em 1958 (CB-11070-B, matriz CBO-1766). Marita Luizi, um daqueles nomes atualmente relegados ao mais completo esquecimento, apesar de terem tido sua época, aqui comparece com o calipso “Sonho maluco”, de Elzo Augusto e Miranda, lançado pela Copacabana em dezembro de 1959 com o n.o 6086-B, matriz M-2590, o segundo de seus três discos nesse formato. Marita também deixou um LP intitulado “Os grandes momentos” (Alvorada/Chantecler, 1978), ao que parece coletânea, e participou do álbum “Cinco estrelas apresentam Inara” (Copacabana, 1958), reunindo músicas de Inara Simões de Irajá (suas faixas nesse disco são”E ele não vem” e “Boca da noite”). Outro nome da pré-história de nosso rock and roll, Regina Célia, comparece aqui com a divertida “Aula de inglês em rock”, de Canarinho e Kid Sax, gravada na Polydor em 9 de dezembro de 1959 e lançada em janeiro de 60 no 78 rpm n.o 342-B, matriz POL-3774. Encerrando esta primeira seleção do amigo Chico, Cizinha Moura, que deixou apenas dois discos 78 com quatro músicas, aqui interpretando, do segundo e último deles, o Chantecler 78-0134-B, lançado em junho de 1959, o fox “Brotinho Lili”, de Alberto Roy e Domingos Paulo, matriz C8P-268. Enfim, um interessante panorama dos primórdios do rock and roll no Brasil, que continuaremos na próxima semana, sempre agradecendo ao Chico do Sintonia Musikal pela gentileza de permitir o aproveitamento desta seleção no GRB. Até lá!

SAMUEL MACHADO FILHO.

Parada Continental 1 (1953)

Opa! Ainda nos últimos minutos do que resta do domingo, aqui vou eu com a postagem do dia. Confesso que que esqueci completamente desta tarefa mais que diária. Cheguei tarde, mas trouxe uma boa recompensa para vocês, um raro exemplar de 10 polegadas e 33 rpm, o primeiro lançado pela Continental, em 1953. Temos aqui uma coletânea com oito  artistas do ‘cast’ da gravadora, certamente extraídos de bolachas de 78 rpm. Como se pode ver logo a baixo, trata-se de um encontro bem interessante, uma verdadeira parada de sucessos, com a qualidade Continental. Taí um disquinho bem contado, raridade para qualquer colecionador, que eu comprei baratinho na mão de um catador de papel. Salve, salve!!!

ninguém me ama – nora ney
tormento – lúcio alves
maria joana – carmélia alvex e sivuca
mambo caçula – chiquinho e sua orquestra
alguém como tu – dick farney
bandolins ao luar – emilinha borba
macurije – ruy rey
natureza bela – severino araújo
*Putz! Que sono..Zzz….

Emilinha Borba E Jorge Goulart – Oh! As Marchinhas (1981)

Olá amigos cultos e ocultos! Nosso domingo começa quente, antecipando o Carnaval que já vem chegando. Como é do conhecimento dos frequentadores e já esclarecendo aos novos visitantes, o que não falta aqui é disco e músicas de carnaval. Se você está pensando em reviver momentos de pura folia, entrou no lugar certo. Para a sua consulta, sugiro que pesquise em nosso index por nomes em ordem alfabética, na barra lateral direita. Consultar pela barra de pesquisa do Blogger não adianta, algum sacana mudou a tempos atrás as diretrizes do html no intuito de sabotar o Toque Musical. Como eu não sei resolver esse problema, adotei o index por nome de artista, assim temos uma outra alternativa para consultar o que já foi postado aqui. A lista vem crescendo a cada dia. Vai chegar uma hora em que eu terei que tomar alguma outra providência. Por isso eu sugiro, inclusive, àqueles que ainda não se colocaram como seguidores do TM que o faça. Dessa forma não irão perder nada do que temos postado aqui diariamente. Como eu disse, o Carnaval está chegando aí e aqui você encontra tudo, inclusive o frevo e coisas do carnaval baiano. Por essas e por outras é que neste ano eu vou fazer diferente. Para a próxima semana (temática) só vai dar as ‘boas’.
Abrindo o nosso grito de carnaval, temos para hoje um disquinho sensacional (até rimou!). Vamos com Emilinha Borba e seu parceiro Jorge Goulart, desfilando as mais famosas marchinhas carnavalescas de todos os tempos. Um disco o qual podemos chamar de básico para os quatro dias de folia. Pode até ser que o Carnaval já não tenha mais o mesmo encanto daqueles que eram embalados por essas músicas. Mas elas serão eternas, independente do que hoje virou aquela festa inventada pelo diabo, mas que Deus abençoou. (o diabo antes tinha bom gosto)

raminho de café
joga a chave meu amor
israel
colombina yê-yê-yê
cabeleira do zezé
mulata yê-yê-yê
as pastorinhas
rancho da praça onze
história do brasil
touradas em madrid
pirata da perna de pau
pirulito
tem gato na tuba
lourinha
yes, nós temos banana
chiquita bacana
a água lava tudo
vai com jeito
pó de mico
tomara que chova
marcha do remador
passarinho do relógio
o passo do cangurú
miau… miau
índio quer apito
o teu cabelo não nega
grau 10
linda morena
zé pereira
o abre alas
o pé de anjo
balzaqueana

Emilinha Borba – Os Grandes Sucessos de Emilinha Borba (1969)

Bom dia a todos! Verificando no blog, percebi que injustamente nunca postei um disco da cantora Emilinha Borba, exceto uma ou outra faixa com ela. Por outro lado já tivemos muitos da Marlene. Pessoalmente, na escolha de repertório, prefiro mesmo a Marlene, mas a Emilinha também tem seus encantos e acho que já é hora de mostrá-los também. A cantora Emilinha Borba gravou ao longo de sua carreira centenas de discos. Fica até difícil escolher entre tantos, um que representasse bem a figura da cantora, que também foi “A Rainha do Rádio”. Escolhi então esta coletânea lançada pela CBS em 1969, num período onde a cantora estava afastada do público, devido a um problema nas cordas vocais. Uma das coisas que acho mais interessantes na Emilinha é o seu carisma. É impressionante como a cantora conseguiu conquistar tantos fãs, mesmo numa fase onde a turma da sua época vivia um momento de ostracismo. Ela sempre se manteve emparelhada com sua rival Marlene. Afinal, quem já foi rainha não pode perder a majestade. Se manteve ativa até em seus últimos tempos. Sempre lembrada, sempre querida.

Este disco, sem dúvida, não representa o que de melhor fez a cantora, mas pelo menos garante o seu lugar aqui no Toque Musical. Para aqueles fãs, de carteirinha ou não, deixo já avisado: ela ainda volta 😉
história de minha vida
juntinhos é melhor
cachito
castigo, meu amor
me leva pro céu
boa noite meu bem
dez anos
milhões de carinhos
chiquita bacana
benzinho
intriga
a menina da areia

Jorge Goulart, Emilinha Borga & Gilberto Milfont – Sucessos De Carnaval

Eu não gosto muito de atender pedidos, embora algumas vezes já o tenha feito. Não gosto porque foge da minha proposta inicial. Mas na medida do possível e conforme a solicitação faço as vezes um esforcinho para ajudar aos amigos. Coincidentemente, meu amigo/minha amiga, o disco que você tanto procurava eu tenho aqui. Por essa razão e também pelo fato de ser um disco raro estou postando-o aqui, num toque que do individual passou a ser coletivo. Extensivo à todos. Eis então as marchinhas de carnaval, sempre lembradas. São 24 canções em “pout-pourris” nas vozes de Jorge Goulart, Emilinha Borba e Gilberto Milfont.