A Música De Dunga – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 143 (2015)

E aí vai mais uma edição do Grand Record Brazil, o “braço de cera” do TM, com o número 143, para seus amigos, cultos e associados. Desta vez, focalizamos a obra musical do compositor e pianista Waldemar de Abreu, o Dunga.  Nosso focalizado veio ao mundo no dia 16 de dezembro de 1907, no Rio de Janeiro. Ganhou o apelido de Dunga aos sete anos de idade, de sua professora, que o considerava o mais querido da turma. Fez o curso primário na escola pública do subúrbio de Haddock Lobo, e o ginásio (até o quarto ano) no Instituto Matoso. Em 1928, começou a jogar futebol, em Petrópolis, região serrana fluminense.  Em 1930, ingressou na Leopoldina Railways, trabalhando como conferente, e sempre jogava nos times de futebol e basquete da companhia, sendo campeão da Liga Bancária diversas vezes.  Em janeiro de 1935, sai a primeira música gravada de Dunga, para o carnaval do mesmo ano: o samba “Amar pra quê?”, na voz de Sílvio Pinto. Ainda em 35, acontece o enlace matrimonial de Dunga com Zaíra Moreira, que tiveram dois filhos. Em 1940, entrou para a SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), exercendo a função de cobrador junto aos teatros, e , um ano depois, ingressou na UBC (União Brasileira de Compositores), onde permaneceria durante anos. Em 1960, assumiu a vice-presidência da ADDAF (Associação Defensora de Direitos Autorais e Fonomecânicos), sem no entanto abandonar a atividade musical. Ao longo de sua carreira, teve mais de oitenta músicas gravadas, nas vozes de grandes astros da MPB, tais como Orlando Silva, Jamelão, Dircinha Batista, Cyro Monteiro,  Déo, etc. Basta lembrar, por exemplo, de “Conceição” (1956), eterno sucesso de Cauby Peixoto, cuja melodia é de Dunga, com letra de Jair Amorim. Eles também fizeram juntos “Maria dos meus pecados”, hit de Agostinho dos Santos em 1957. E Dunga continuaria compondo até sua morte, em 5 de outubro de 1991, aos 83 anos, em seu Rio de Janeiro natal.

Para esta edição do GRB, foram escolhidas músicas de exclusiva autoria de Dunga, ou seja, obras que ele compôs sem parceria. São 29 faixas, interpretadas pelos melhores cantores e instrumentistas de sua época, quase todas sambas. (Uma boa lembrança e colaboração do amigo Hélio Mário Alves, quem nos enviou boa parte desse material). Para começar, temos “Antes tarde do que nunca”, do carnaval de 1940, gravado na Victor por Odete Amaral em 23 de outubro de 39 e lançado ainda em dezembro, disco 34537-B, matriz 33187. Em seguida, um sucesso inesquecível de Orlando Silva, “Chora, cavaquinho”, outra gravação Victor, esta de 27 de agosto de 1935, lançada em dezembro do mesmo ano, disco 33998-B, matriz 80011. Edna Cardoso, cantora que só gravou dois discos com quatro músicas, pela Continental, aqui comparece com as três obras de Dunga que constam dos mesmos. Para começar, temos “Confessei meu sofrer”, lado A do disco 15428, o segundo e último de Edna, lançado em setembro de 1945, matriz 1199. Depois desta faixa, Aracy de Almeida comparece com “Dizem por aí”, gravação Victor de 20 de abril de 1938, lançada em junho seguinte sob número 34321-B, matriz 80761. Em seguida, o delicioso arrasta-pé “Espiga de milho”, executado pelo regional do violonista Canhoto (Waldiro Frederico Tramontano), em gravação RCA Victor de 21 de maio de 1954, lançada em agosto do mesmo não, disco 80-1325-B, matriz BE4VB-0462. Depois, mais três imperdíveis faixas com Orlando Silva. “Esquisita” é da safra do Cantor das Multidões na Odeon, por ele gravado em 23 de junho de 1947 e lançado em setembro do mesmo ano, disco 12797-A, matriz 8246. Voltando à Victor, temos um verdadeiro clássico da carreira de Orlando: o samba-canção “Eu sinto vontade de chorar”, que ele canta acompanhado pela Orquestra Carioca Swingtette, sob a direção de Radamés Gnattali. Gravação de 13 de junho de 1938, lançada em setembro seguinte sob número 34354-B, matriz 80826. “Foi você”, outra das melhores gravações de Orlando, foi feita em 17 de setembro de 1936 e lançada pela marca do cachorrinho Nipper em outubro seguinte com o número 34100-A, matriz 80221. O samba-canção “Justiça”, grande sucesso na voz de Dircinha Batista, foi por ela gravado na Odeon  em 20 de junho de 1938, com lançamento em agosto do mesmo ano, disco 11628-B, matriz 5871. Logo depois, temos “Meu amor”, samba do carnaval de 1949, na interpretação de Jorge Goulart, lançada pela Star em fins de 48 sob número 79-A. Nuno Roland interpreta, em seguida, o samba-canção “Meu destino”, gravação Todamérica de 8 de março de 1951, lançada em abril do mesmo ano, disco TA-5053-A, matriz TA-101. Dircinha Batista volta em seguida com “Moleque de rua”, lançado pela Continental em setembro de 1946, disco 15691-A, matriz 1639. Roberto Paiva interpreta depois “Não sei se voltarei”, em gravação Victor de 13 de julho de 1944, lançada em setembro do mesmo ano, disco 80-0211-A, matriz S-078018. Déo lançou em janeiro de 1945, na Continental, para o carnaval desse ano, o samba “Nunca senti tanto amor”, matriz 912. Em junho do mesmo ano, ele lançou pela mesma marca outro samba de Dunga, “Orgulhosa”, disco 15356-A, matriz 1128. Em seguida, volta Edna Cardoso, desta vez cantando “Pandeiro triste”, lançado em agosto, também de 1945, e pela mesma Continental, abrindo seu disco de estreia, número 15408, matriz 1201. Alcides Gerardi aqui comparece com “Perdoa”, gravado por ele na Odeon em 29 de agosto de 1946, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco 12730-A, matriz 8092. “Quando alguém me pergunta”, samba destinado ao carnaval de 1939,  tornou-se um clássico na voz de Castro Barbosa, que o gravou na Columbia em 12 de janeiro desse ano, com lançamento bem em cima da folia, em fevereiro, disco 55015-B, matriz 125. Cyro Monteiro, em seguida, interpreta “Que é isso, Isabel?”, gravação Victor de 3 de junho de 1942, lançada em agosto do mesmo ano, disco 34950-B, matriz S-052544. Poderemos apreciá-lo ainda em “Quem gostar de mim”, que gravou na mesma Victor em 8 de julho de 1940, com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 34646-B, matriz 33461. Janet de Almeida, irmão de Joel de Almeida, falecido ainda jovem, interpreta depois “Quem sabe da minha vida”, batucada do carnaval de 1946, lançada pela Continental em janeiro desse ano, disco 15582-B, matriz 1397. Em seguida, Aracy de Almeida interpreta “Remorso”, gravação Odeon de 30 de março de 1943, lançada em maio do mesmo ano, disco 12305-B, matriz 7244. Temos depois novamente Edna Cardoso, desta vez interpretando “Se ele me ouvisse”, lado B de seu segundo e último disco, o Continental 15428, lançado em setembro de 1945, matriz 1198. Orlando Silva registrou “Soluço de mulher” na Odeon em 6 de agosto de 1944, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco 12503-B, matriz 7645. A bela valsa “Sonho” é executada pelo clarinetista Luiz Americano, acompanhado por Pereira Filho ao violão elétrico, em gravação lançada pela Continental em maio de 1945, disco 15337-B, matriz 1105. O choro “Tic tac do meu relógio” foi lançado pela Continental, na interpretação de Carmélia Alves, ao lado do Quarteto de Bronze, acompanhados por Fats Elpídio e seu Ritmo, em março-abril de 1949, sob número de disco 16048-B, matriz 2067, por sinal marcando o início definitivo da carreira fonográfica de Carmélia, seis anos após sua estreia na Victor. O samba “Trapaças de amor” foi gravado na RCA Victor por Linda Batista em 5 de maio de 1947, com lançamento em junho do mesmo ano, disco 80-0519-A, matriz S-078750. Primeiro ídolo country brasileiro, Bob Nélson aqui comparece com “Vaqueiro apaixonado”, marchinha do carnaval de 1951, devidamente acompanhado de “rancheiros” músicos que, mais competentes, não existiam nem mesmo no Texas ou na Califórnia. Gravação RCA Victor de 12 de outubro de 50, lançada ainda em dezembro, disco 80-0726-A, matriz S-092786. Para encerrar, temos “Zaíra”, valsa cuja musa inspiradora foi certamente a esposa de Dunga. É executada ao saxofone por Luiz Americano, em gravação Continental de 5 de abril de 1948, só lançada em março-abril de 49, disco 16015-A, matriz 1831. Enfim, esta é uma justa homenagem do GRB a um dos maiores compositores que o Brasil já teve: Waldemar “Dunga” de Abreu!

* Texto de Samuel Machado Filho

Castro Barbosa – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 111 (2014)

Já estamos na centésima-primeira edição do Grand Record Brazil, o “braço de cera” do Toque Musical, dedicado à era das 78 rotações por minuto. E nela oferecemos uma significativa amostra do trabalho de um expressivo cantor, compositor e também humorista da era de ouro do rádio: Castro Barbosa. Ele veio ao mundo na cidade de Sabará, interior de Minas Gerais, a 7 de maio de 1905 (ou 1909, não há certeza), batizado com o nome completo de Joaquim Silvério de Castro Barbosa. Era irmão do cantor Luiz Barbosa e do humorista e igualmente cantor Barbosa Júnior, sendo que  os três eram filhos de um engenheiro que participara da construção da antiga estrada de ferro Rio-São Paulo. Ainda durante a infância de nosso Joaquim Silvério, a família se transfere para a então Capital da República, o Rio de Janeiro. Em 1924, ele passa a cursar uma escola comercial, formando-se em Contabilidade. Entre 1926 e 1928, trabalha na livraria Braga & Cia., mas em virtude de um acidente ferroviário que sofreu em Teresópolis, fica inativo por alguns meses.  Restabelecido, foi trabalhar na Companhia de Navegação Lóide Brasileiro, e nessa ocasião nem pensava em seguir carreira artística. Em 1930, porém, o cantor João Athos, que Castro Barbosa conhecera no Lóide, escutou-o cantarolar e viu que ele levava jeito. Athos o indica para um teste na Rádio Educadora (PRB-7), onde é apresentado a Almirante (“a maior patente do rádio”) , que o leva a seu programa. Castro também participa do ‘Programa Casé”, apresentado por Ademar Casé, avô paterno da atriz e apresentadora de TV Regina Casé.  Na emissora, Castro Barbosa trava conhecimento com os maiores cartazes da época, entre eles, Noel Rosa, Custódio Mesquita, Nonô e Francisco Alves.  No início de 1931, a convite do compositor André Filho (autor dos clássicos ‘Cidade maravilhosa” e “Alô,alô”), grava seu primeiro disco, na Parlophon, lançado em março desse ano, com o samba-canção “Tu hás de sentir”, de Heitor dos Prazeres, e a marcha “Uvinha”, de André. Nessa ocasião, grava com o Bando da Lua, na Brunswick, o samba “Tá de mona”, de Maércio e Mazinho. No carnaval de 1932, obtém seu primeiro grande sucesso, em gravação Victor (devidamente aprovado em teste pelo então diretor artístico da gravadora,o violonista Rogério Guimarães): a marchinha “Teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo e dos irmãos Raul & João Victor Valença, hoje um clássico, vendendo quinze mil cópias (cifra considerável  para a época, na qual os grandes cantores vendiam, em média, até mil discos).  Mais tarde, conhece João de Freitas Ferreira, o Jonjoca, e em uma festa na casa do cantor Jorge Fernandes, ambos fizeram um dueto de brincadeira, com Barbosa imitando Francisco Alves, o eterno Rei da Voz. Nascia a dupla Jonjoca e Castro Barbosa, que a Victor lança para competir com Chico Alves e Mário Reis, da Odeon, e grava inúmeros hits.  Barbosa gravaria, até 1954, 83 discos de 78 rpm com 150 músicas, várias delas de sucesso, mas,  em 1937, foi convidado por Renato Murce para substituir o ator Artur de Oliveira no “Programa Palmolive”, da lendária Rádio Nacional, atuando como cantor e humorista ao lado de Jorge Murad e Dircinha Batista. A partir daí, sua atuação como locutor e humorista passa a sobrepujar a carreira de cantor. Em 1939, é convidado por Lauro Borges para atuar no humorístico “PRV-8 Rádio X” (com o pseudônimo de Vasco Ferreira), embrião do que, em poucos anos, viria a ser a notória “PRK-30”, estreada em 1944 na Rádio Mayrink Veiga. Nos primeiros programas, porém, foi Pinto Filho quem atuou ao lado de Lauro Borges, e Castro Barbosa (ex-Vasco Ferreira) só entraria em cena a partir do programa de número 25 da série, interpretando o locutor português Megatério Nababo d’Alicerce, com Lauro no papel de Otelo Trigueiro, o “porigrota da voz lantijolada”.  Em 1946, a “PRK-30” transfere-se para a Rádio Nacional, tornando-se  uma das maiores audiências da emissora estatal da Praça Mauá,indo depois para a Tupi, sendo, a partir de 1951, apresentado também em São Paulo. Foram muitos anos de absoluto sucesso, e o programa iria inevitavelmente para a televisão, transmitido pelas TVs Rio e Paulista, repetindo o êxito no rádio. Em 1967, com a trágica morte do parceiro Lauro Borges (ele foi encontrado morto, com um tiro na cabeça, na garagem do edifício em que morava,no bairro paulistano da Vila Mariana), Castro Barbosa (mais tarde nome de rua no bairro carioca da Vila Isabel) decide deixar a vida artística, vindo a falecer no dia 30 de abril de 1975, no Rio de Janeiro, de aneurisma no estômago, deixando a viúva, Guilhermina Mendes, três filhos e cinco netos, entre estes últimos a hoje também atriz Renata Castro Barbosa, contratada da Rede Globo de Televisão.
Nesta edição do GRB, apresentamos 19 exemplos notáveis e expressivos da arte musical de Castro Barbosa, solo ou em dupla com outros. Abrindo a seleção, a clássica rumba “Aqueles olhos verdes (Aquellos ojos verdes)”, de Nilo Menéndez (cubano radicado nos EUA) e Adolfo Utrera, em versão de João de Barro,  o Braguinha. Gravação Parlophon de 30 de julho de 1932, matriz 131430, inicialmente lançada com o número 13431-A e, em março de 33, reeditada pela Odeon sob número 11005-A. Braguinha também é responsável pela faixa seguinte, a marchinha “Escravos de Jó”, adaptando famosa cantiga de roda, que Barbosa lança na Columbia em janeiro de 1942, para o carnaval desse ano, disco 55323-B, matriz 502. O fox “Julieta” é uma das raras exceções na obra essencialmente sambística de Noel Rosa, em parceria com Eratóstenes Frazão. Castro Barbosa o gravou na Odeon em 3 de agosto de 1933, com lançamento em outubro seguinte sob número 11063-B, matriz 4703. A marcha “Paris sorrirá outra vez” é de Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago,  e a Columbia o lança em novembro de 1942 (época em que a capital francesa era impiedosamente bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial), sob n.o 55382-A,matriz 565. Castro Barbosa demonstra em seguida seu talento de compositor no samba-canção ‘Tudo que a boca não disse”, que gravou na Victor em 13 de abril de 1937, com lançamento em julho do mesmo ano, disco 34182-B, matriz 80361, que apresentava do outro lado ‘Tua partida”, com Francisco Alves, então retornando à Odeon.  A marcha “Asas do Brasil”, da fértil parceria Braguinha-Alberto Ribeiro,é o lado B do disco Columbia de “Paris sorrirá outra vez”, de 1942, matriz 564, e aproveita a melodia de outra composição da dupla, a marcha-rancho “A flor e o vento”, que Francisco Alves lançara na mesma marca dois anos antes. Em seguida, a bela valsa “Dona Felicidade”, do flautista Benedito Lacerda em parceria com Nélson Tangerine, que Barbosa grava na Victor em 19 de abril de 1937, e é lançada em junho do mesmo ano com o n.o 34170-B, matriz 80371. O samba “Vou pegá Lampião”, de J. Thomaz (aquele maestro que regia de luvas brancas sem saber música, e teve de largar a bateria por se queimar com fogos de artifício), faz referência ao famoso e então temido cangaceiro, e Castro Barbosa o grava na mesma Victor em 3 de julho de 1931, com lançamento em agosto do mesmo ano, disco 33451-A, matriz 65183. Em dueto com Almirante, Castro Barbosa interpreta em seguida “A maior descoberta”, rara incursão carnavalesca de Cãndido “Índio” das Neves, compositor essencialmente romântico (“Noite cheia de estrelas”, “A última estrofe”, “Lágrimas”, “Dileta” etc.. Exaltando a mulata, “que venceu mais uma vez”, e é tida como a maior descoberta depois da do Brasil, é lançada pela Victor em fevereiro de 1934, em pleno carnaval, tendo a gravação sido feita a 12 de janeiro, disco 33758-A, matriz 65934. Em seguida, Barbosa interpreta, ao lado de Francisco Alves e Murilo Caldas (irmão de Sílvio), o samba “Desacato”, parceria de Murilo com Wilson Batista e Paulo Vieira, gravado na Odeon em 18 de julho de 1933, e lançado em agosto seguinte sob n.o 11042-B,matriz 4699, obtendo sucesso “desacatador”, segundo a edição impressa.  Em seguida vem o lado A, matriz 4693, gravado ainda em 7 de julho, dueto de Castro Barbosa com Francisco Alves: o clássico samba “Feitio de oração”, primeira música da parceria Noel Rosa-Vadico, que tornou antológicas os versos“Ninguém aprende samba no colégio” e “Quem suportar uma paixão/sentirá que o samba então/ nasce no coração”. Note-se o andamento mais rápido que o adotado em gravações posteriores. Depois, Barbosa, agora em dueto com Déo, “o ditador de sucessos”, interpreta o “Frevo n.o 1”, que na verdade, é o famoso “Vassourinhas”, de autoria de Matias da Rocha e Joana Batista Ramos, em adaptação de Almirante. Foi lançado pela Continental em pleno carnaval de 1945, em fevereiro,com o número 15279-B, matriz 1032. O clássico frevo, porém, ficaria mais conhecido a partir de 1950, numa gravação instrumental da Orquestra Tabajara de Severino Araújo. Da dupla de Castro Barbosa com Jonjoca vêm três sambas notáveis. O primeiro é o clássico “Adeus”, de Ismael  Silva, Noel Rosa e Francisco Alves, gravação Victor de 12 de abril de 1932, lançada em maio seguinte sob n.o 33548-B,matriz 65451. Da mesma santíssima trindade é “Dona do lugar”, gravação Odeon de 23 de dezembro de 1932, lançada um mês antes do carnaval de 33, janeiro, com o n.o 10966-B, matriz 4562. Em seguida, “Sinto falta de você”, de Jonjoca sem parceiro, gravado na Victor em 12 de junho de 1931 e lançado em julho do mesmo ano, disco 33447-A, matriz 65162. Vêm logo em seguida dois sambas de Raul Marques e Ernâni Silva, gravados por Castro Barbosa em dueto com Aracy de Almeida na Victor em 21 de dezembro de 1936, com lançamento em janeiro de 37, claro que para o carnaval: ‘Eu e você”, matriz 80303, e ‘Helena”, matriz 80304. Em dueto com Sônia Barreto, também radialista e atriz, Castro Barbosa interpreta  o fox “Você me enlouquece (You drive me crazy/What did I do?)”, de Walter Donaldson e Franz Skinner, em versão de Lamartine Babo (editada como “Estou ficando maluco por ti”), gravação Victor de 13 de janeiro de 1932, lançada em fevereiro seguinte sob n.o 33526-A,matriz 65360, e também gravado na Odeon por Francisco Alves dias depois. Para terminar, no maior alto astral, a divertida marchinha “Vou espalhando por aí”, de Assis Valente, um dueto de Castro Barbosa com Cármen Miranda, também gravação Victor, esta de 23 de abril de 1934,porém só lançada em junho de 35, quando Cármen já se transferira para a Odeon, sob n.o 33936-A, matriz 79612. Não poderia haver melhor final para esta expressiva retrospectiva que o GRB faz do trabalho musical de Castro Barbosa. Divirtam-se!
*Texto de Samuel Machado Filho

Carnaval B – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 92 (2014)

O carnaval continua aqui no Grand Record Brazil. Apresentamos nesta semana mais 14 músicas destinadas à folia de Momo, gravadas na era das 78 rotações por minuto. Várias delas clássicos inesquecíveis. E começamos com o pé direito, apresentando um clássico inesquecível: “Pastorinhas”, de João “Braguinha” de Barro e Noel Rosa. Esta composição havia sido lançada originalmente para o carnaval de 1935, na voz de João Petra de Barros, com o nome de “Linda pequena”, sem no entanto repercutir. Após o falecimento prematuro de Noel, em 1937, Braguinha resolveu relançar esta bela marcha-rancho para a folia do ano seguinte, fazendo uma ou outra alteração na letra e rebatizando-a “Pastorinhas”. Sílvio Caldas a imortalizou na Odeon em 13 de dezembro de 1937, com lançamento em janeiro de 38 sob n.o 11567-A, matriz 5733. E “Pastorinhas”, além de ser um sucesso inesquecível, venceria o concurso oficial de carnaval da prefeitura do Rio de Janeiro. A vencedora na categoria marcha tinha sido “Touradas em Madri”, também de Braguinha com Alberto Ribeiro, mas acabou sendo desclassificada sob a alegação de que se tratava de um passo-doble espanhol. Evidentemente, Braguinha não ficou sem o primeiro lugar entre as marchas, pois “Pastorinhas” subiu do segundo para o primeiro lugar! A faixa seguinte é mais uma clássica marchinha, esta do carnaval de 1932: “Teu cabelo não nega”, adaptação feita por Lamartine Babo para o frevo-canção “Mulata”, dos irmãos Raul e João Valença. Castro Barbosa levou a música a disco, tornado-a um sucesso permanente da folia de Momo, e a regravaria outras vezes. A versão desta edição, também gravada na RCA Victor, é de 17 de outubro de 1952, lançada em dezembro do mesmo ano sob n.o 80-1072-A, matriz SB-093524, e mantém sua famosa introdução instrumental. E tome marchinha clássica! Agora é “Mamãe, eu quero”, de Jararaca e Vicente Paiva, do carnaval de 1937, um sucesso que é lembrado até hoje e ultrapassou as fronteiras do Brasil (tocou até em desenho animado de Tom e Jerry!). O próprio Jararaca imortalizou a marchinha na Odeon em 17 de dezembro de 1936, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 11449-A, matriz 5499. Destaque, na gravação, para o hilariante diálogo inicial, em que o papel da mãe é feito por Almirante. Prosseguindo nosso desfile de clássicos carnavalescos, Orlando Silva, o eterno “cantor das multidões”,  nos brinda com a impecável marcha-rancho “Malmequer”, de Newton Teixeira e Cristóvão de Alencar, o “amigo velho”, hit inesquecível do carnaval de 1940. Gravação Victor de 4 de novembro de 1939, lançada um mês antes do tríduo momesco, em janeiro, sob n.o 34544-A, matriz 33248. O eterno e sempre bem-humorado Lamartine Babo volta à cena neste retrospecto carnavalesco, agora com a marchinha “Linda morena”, absoluta no carnaval de 1933, que ele próprio interpreta ao lado de Mário Reis. Gravação Victor de 26 de dezembro de 1932, lançada bem em cima da folia, em fevereiro, sob n.o 33614-A, matriz 65631. Destaca-se no coro, deste registro, uma voz feminina que parece ser a de Cármen Miranda. E falando em Cármen Miranda, ela aqui comparece com duas faixas. A primeira, da parceria Braguinha-Alberto Ribeiro, muitos conhecem na  interpretação de Gal Costa: é a famosa marchinha “Balancê”, de João “Braguinha” de Barro e Alberto Ribeiro, do carnaval de 1937. Cármen a gravou na Odeon em 19 de novembro de 1936, com lançamento um mês antes do carnaval, em janeiro, sob n.o  11430-A, matriz 5457. Apesar de ter obtido alguma aceitação, “Balancê” ficou esquecida com o passar do tempo, até que Gal Costa,  mais de 40 anos depois, a tirasse do esquecimento no LP “Gal tropical” e a transformasse em hit permanente de todos os carnavais a partir de 1980. A outra marchinha com Cármen Miranda nesta edição é a maliciosa “Eu dei…” (“O que foi que você deu, meu bem?”), do carnaval de 1938. Gravação Odeon de 21 de setembro de 1937, lançada ainda em dezembro com o número 11540-B, matriz 5670. No fim, descobre-se que a personagem havia dado um beijo, e quem canta os versos finais (“guarde para mim unzinho, que mais tarde pagarei com um jurinho”) é o próprio Ary Barroso! Aurora Miranda, irmã de Cármen, aqui comparece com outras duas marchinhas, ambas do carnaval de 1940, e em gravações Victor. A primeira é “Que horas são estas?”, de Antônio Almeida e Oswaldo Santiago, do carnaval de 1940. Foi gravada em 18 de outubro de 1939, e lançada ainda em dezembro sob n.o  34530-A, matriz 33191. Dias antes, a 3 de outubro de 39, Aurora já havia gravado “Não vejo jeito”, de Ismael Silva, lançada em novembro seguinte com o n.o 34519-B, matriz 33170. A carioca Dora Lopes (1922-1983), grande compositora e intérprete de sambas, comparece aqui com a divertida marchinha “Fila do gargarejo”, dela própria em parceria com José Batista e Nilo Viana. É do carnaval de 1958, lançada em fins do ano anterior pela Mocambo, gravadora do Recife que pertencia aos irmãos Rozenblit, sob n.o 15196-A, matriz R-910. As Irmãs Pagãs (Elvira e Rosina, esta falecida recentemente, anos depois de Elvira) apresentam-nos “Água mole em pedra dura”, marchinha do carnaval de 1940, de autoria de Sátiro de Melo e Manoel Moreira. Foi gravada na Columbia em 24 de outubro de 1939, e lançada ainda em dezembro com o número 55181-A, matriz 224. Dois inesquecíveis intérpretes se reúnem na faixa seguinte: Francisco Alves, o Rei da Voz, e Dalva de Oliveira, o Rouxinol do Brasil, interpretam a belíssima marcha-rancho “Andorinha”, de Herivelto Martins (então marido de Dalva) e Haroldo Barbosa, um dos sucessos do carnaval de 1946, conhecido como o “carnaval da vitória” por ter acontecido após o término da Segunda Guerra Mundial, com a vitória dos países aliados sobre os do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). A dupla a imortalizou na Odeon em 5 de dezembro de 1945, e o lançamento se deu um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 12660-A, matriz 7954. Para finalizar, trazemos a cantora Lolita França, sobre a qual pouquíssima coisa se sabe. Aqui ela revive a “marcha-canção” (como foi editada originalmente)“Taí” (cujo título original era “Pra você gostar de mim”), de Joubert de Carvalho,  com a qual Cármen Miranda despontou para o estrelato em 1930. A regravação de Lolita é de 7 de julho de 1939, lançada pela Victor em setembro do mesmo ano, disco  34486-B, matriz 33116. Lolita França gravou, entre 1939 e 1942, onze discos com vinte e duas músicas, e suas gravações obtiveram algum sucesso na Argentina. Enfim, esta é a segunda e última parte do retrospecto carnavalesco do Grand Record Brazil, por certo expressiva contribuição para a preservação da memória musical do Brasil. Divirtam-se!

* Texto de Samuel Machado Filho

Lamartine Babo – A Música Popular No Rio de Janeiro (1988)

Bom dia carnavalescos cultos e ocultos! Parece mentira, mas até o momento eu ainda não vi e nem saí no carnaval. Não vi pela televisão e nem nas ruas. Aliás, Belo Horizonte em termos de carnaval é um caso sério. Existe até a tradição, mas a turma por aqui não é muito animada. Neste ano, parece, estavam querendo ressuscitar os velhos blocos carnavelescos, mas eu não tenho visto muitas manifestações pela cidade. Acho que o problema por aqui é a chuva. Todo ano chove nessa época, daí o belorizontino prefere viajar e pular o carnaval na chuva de outra cidade. Aqueles que dizem que odeiam carnaval também fogem da cidade, procurando um retiro de paz no feriadão. Bobagem, melhor ficar por aqui mesmo. Eu adoro o carnaval, mas para ir para o agito prefiro sair com antecedência e voltar depois sem pressa. Se tem uma coisa que eu não tolero e pegar uma estrada cheia ou ficar mofando em salas de embarque de aeroporto. Como um bom mineiro, gosto de fazer as coisas sem afobação. Na pior das hipóteses, fico em casa. Faço o meu carnaval por aqui mesmo. Discos e músicas são o que não me faltam. Faço a festa e ainda de sobra mando ver aqui no Toque Musical.
Passar o Carnaval sem Lamartine Babo é o mesmo que assistir na Avenida dos Andradas ao desfile carnavelesco de Belô, uma tremenda frustração. Por isso, para salvar o dia e também a festa, vamos com um álbum do Lalá. Temos aqui este lp lançado pela Moto Discos, que a exemplo de outros selos como o Collectors, Revivendo e Filigranas Musicais, ajudou em muito no resgate e restauração de velhos fonogramas, dos primeiros discos e artistas da música popular brasileira. O álbum “Lamartine Babo – A música popular no Rio de Janeiro”, como diz o próprio texto da contracapa, procura prestar uma homenagem a um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos, reunindo algumas de suas famosas criações. As músicas selecionadas aqui são da década de 30, em gravações feitas pelo artista ou outros intérpretes como, Carmen Miranda, Francisco Alves, Aracy de Almeida, Castro Barbosa, Mario Reis, Almirante, Diabos do Céu e outros… Em todas as músicas temos, de alguma forma, a presença de Lalá, mesmo quando na música ele não é o astro principal. Ele intervém para dar a essa um definitivo ‘toque’ lamartinesco. Confiram…

linda morena
grau dez
a e i o u
babo… zeira
rapsódia lamartinesca
senhorita carnaval
teu cabelo não nega
moleque indigesto
aí heim?
boa bola
infelizmente
vaca oxigenê
chegou a hora da fogueira

Oswaldo Santiago (1973)

Olá eleitores brasileiros! Espero que tenham votado com consciência. Olá também aos demais que de algum lugar do mundo vieram parar aqui. Sejam bem vindos!
Depois daquela dose de ontem com Carlos Galhardo, me lembrei de um nome, que por certo muitos não conhecem ou esqueceram, me refiro à Oswaldo Santiago, um dos grandes letristas da música brasileira nos anos 30, 40 e 50. Foi o autor dos versos do Hino a João Pessoa, música de Eduardo Souto e gravado por Francisco Alves. Seu parceiro mais constante foi Paulo Barbosa e dos interpretes, Carlos Galhardo foi sem dúvida o seu maior porta-voz. Oswaldo se afastou da música para se dedicar às leis. Embora não fosse formado em Direito passou o resto de sua vida estudando questões de direito autoral. Chegou inclusive a escrever alguns livros sobre o assunto. (gostaria de saber qual é a opinião dele sobre tudo isso nos dias de hoje).O disco que temos aqui foi uma iniciativa louvável e muito importante por parte da RCA Victor para com a memória da música brasileira. O álbum foi lançado em 1973, trazendo os grandes sucessos de sua co-autoria. Carlo Galhardo está em quase todas. Confiram essa rara coletânea.

italiana – carlos galhardo
lenda árabe – carlos galhardo
lig, lig, lig, lé – castro barbosa
madame pompadour – carlos galhardo
cortina develudo – carlos galhardo
viver parate amar – vicente celestino
jóia falsa – gastão formenti
torre de marfim – carlos galhardo
vela branca sobre o mar – carlos galhardo
a princesa e a rosa – vicente celestino
roleta da vida – carlos galhardo
eternamente – gastão formenti