As Três Marias Com Leal Brito E Orquestra – Baião Vol. 1 (1953)

Ritmo popular especialmente no Nordeste do Brasil, o baião ou baiano provém de uma das modalidades do lundu – estilo musical gerado pelo retumbar dos batuques africanos produzidos pelos escravos bantos de Angola, trazidos à força para o Brasil. Foi em outubro de 1946 que o Brasil inteiro tomou conhecimento desse ritmo nordestino, quando foi lançada, na interpretação dos Quatro Ases e um Coringa, a primeira música do gênero de que se tem notícia: exatamente intitulada “Baião”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Assumindo nova tonalidade, com a incorporação um tanto inconsciente das características do samba e da conga cubana, o baião disseminou-se por todo o país e até alcançou êxito internacional. Além de Luiz Gonzaga, o “rei do baião”, vários outros cantores obtiveram sucesso no gênero, tais como Marlene, Emilinha Borba, Ivon Cúri, Ademilde Fonseca e Dalva de Oliveira (que gravou em Londres o clássico “Kalu”, de Humberto Teixeira).  Carmélia Alves era a “rainha do baião”, Claudette Soares, “a princesinha”, e Luiz Vieira, o “príncipe”.  O sucesso do baião até popularizou o acordeom, um dos instrumentos musicais utilizados em sua execução. Merece também ser lembrado Waldyr Azevedo, mestre do cavaquinho, que em 1950 lançou o baião instrumental “Delicado”, êxito em todo o mundo.  Depois de um período de relativo esquecimento, no decorrer dos anos 1960, o interesse pelo baião renasceu a partir do advento da Tropicália, com Gil e Caetano à frente, e marcante influência nos trabalhos de músicos nordestinos desde então. Até mesmo Raul Seixas, o maior astro do rock brasileiro em toda a sua história, criou o que chamava de “baioque”, mistura de baião e rock. Em 1953, quando o baião ainda estava no auge da popularidade, a Musidisc de Nilo Sérgio decidiu lançar uma série de LPs (naquele tempo, de dez polegadas) dedicados ao ritmo nordestino, com o título de “Baião”. É justamente o primeiro desses álbuns (depois vieram mais três) que o TM oferecer hoje a seus amigos cultos e ocultos. A interpretação coube ao grupo feminino As Três Marias, na época formado por Hedinar Martins (irmã de Herivelto), Consuelo Sierra e Maria Tereza, com acompanhamento da orquestra de Leal Brito, isto é, Britinho. Em suas oito faixas (duas músicas em cada uma delas!), reúnem-se  alguns dos baiões de maior sucesso, tipo “Paraíba”, o já citado “Delicado”, “Esta noite serenou”, “Pé de manacá”, “Saia de bico”, “Baião de dois”, “Ê boi”, “Adeus, adeus, morena”, o pioneiro “Baião”, assinados pelos mais expressivos compositores do gênero, como Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira e Hervê Cordovil. Com direito até a uma composição do próprio Britinho, “Marilu”, e outras três músicas transformadas em baião, “Maringá” e o clássico carnavalesco “Taí”, ambas de Joubert de Carvalho, mais o motivo folclórico mineiro “Peixe vivo”, canção predileta do então futuro presidente da República, Juscelino Kubitschek. Tudo isso faz deste “Baião número 1” um verdadeiro documento histórico, merecedor, com todas as honras, da postagem de hoje do TM. Confiram…

paraiba – delicado

baião vai baião vem – maringá

esta noite serenou – chuva miudinha

pé de manacá – ta-hi

eh boi – adeus adeus morena

marilu – macapá

saia de bico – baião

peixe vivo – baião de dois

*Texto de Samuel Machado Filho

No Mundo Do Samba Vol. 2 (1956)

Olá amigos cultos e ocultos! Este ano está realmente complicado para mim. Além do tempo sempre curto, me surgem também outros problemas como o meu computador central, que de uns tempos para cá resolveu apresentar defeitos. Depois de uma semana, consegui fazê-lo funcionar, mas a ‘inhaca’ continua. Se eu o desligar, dificilmente voltará a ativa. Assim, vou mantendo o bicho ligado até onde for possível ou enquanto não providencio outro computador. O chato disso tudo é ter que reinstalar os meus programas, alguns inclusive, nem rodarão numa versão mais nova do Windows. É quase como começar tudo de novo, saco…
Mas enquanto temos fôlego, vamos ao mergulho musical, de volta ao passado. Trago nesse início de madrugada mais um dos muitos lps de 10 polegadas lançado pela Musidisc, de Nilo Sérgio, Temos aqui o volume 2 da coletânea “No mundo do samba”, lançado em 1956. Entre os anos de 55 e 56 a gravadora publicou diversos títulos, inclusive a série “No mundo…” apresentando não apenas o samba, mas também o baião, o tango, a valsa e o bolero, como podemos ver na contracapa deste lp. Estão reunidos alguns artistas como o Leal Brito, Renata Fronzi, Trio Surdina e também Djalma Ferreira que aqui comparece em três faixas. Há também uma faixa com a gaúcha Horacina Corrêa, cantora que ficou famosa seguindo a linha e estilo de Carmem Miranda. Segundo informações, ela fazia na Argentina o mesmo sucesso que fez a Carmem nos ‘States’.
samba no perroquet – djalma ferreira
cabelos brancos / tu / feitiço da vila – leal brito
na madrugada – trio surdina
prometi – renata fronzi
corcovado – leal brito
quero ver você chorar – horacina correa
samba para americano – djalma correa
eu já não sei – djalma ferreira

Show (1953)

Olá, amigos cultos e ocultos! Aqui vai mais um disquinho que eu comprei do catador de papel. Alguns desses álbuns eu estou tendo, também, o prazer de conhecer e ouvir só agora. É o caso deste lp de 10 polegadas, um dos primeiros lançados pela Musidisc. Trata-se de uma coletânea, obviamente, de artistas da gravadora. Nomes como os que (quase) podemos ler na estampa da capa: Britinho; Léo Peracchi; Nuno Roland; Trio Surdina; Nilo Sérgio (cantando); Djalma Ferreira com Helena de Lima, que só aparece nos créditos do selo, a atriz Renata Fronzi como cantora e ainda a mexicana Elvira Rios. Realmente um show para a época. A qualidade da gravação é muito boa, comparada a de outras gravadoras naquele tempo. Porém, alguns arranhões e estalos são inevitáveis. São marcas de um disco com 58 anos de idade!

se eu morresse amanhã – renata fronzi
joaozinho boa pinta – trio surdina
volta – nuno roland
pensando em ti – leo peracchi
desencuentro – elvira rios
definição – nilo sergio
tarde demais – djalma ferreira e helena de lima
lilian – leal brito

Leal Brito E Seu Conjunto – Noel Rosa Sem Parceiros (1957)

Eis aqui um lp dos mais interessantes lançados pela Sinter em 1957. Após vinte anos da morte de Noel Rosa, a gravadora resolveu produzir este álbum com o pianista Leal Brito (o Britinho) e seu Conjunto executando um repertório de composições do Poeta da Vila sem parceiros. Me parece que na época andaram duvidando da excelência de Noel. Na capa, ao estilo de um jornal, temos o texto de Almirante, também na mesma linha, defendendo o artista. Britinho por sua vez não deixa por menos, criando arranjos que valorizam ainda mais as melodias de Noel. Ele escala um time de feras para tocar com ele além de seu conjunto, formado por Pedro Vidal Ramos (contrabaixo), Hugo Tagnin (bateria) e Tião Gomes (percussão). Tocam também neste disco o sax-tenor Sandoval Dias, José Menezes na guitarra elétrica, Abel Ferreira, Altamiro Carrilho e outros que vocês poderão conferir na contracapa. Maravilha de disco!

palpite infeliz
último desejo
x do problema
eu sei sofrer
não tem tradução
prá esquecer
com que roupa?
mulato bamba
até amanhã
silêncio de um minuto
quando o samba acabou
eu vou pra vila

Pierre Kolmann E Seu Conjunto – Para Dançar (1957)

Olá! Hoje resolvi mudar radicalmente o ritmo em que estávamos (prometo que ainda volto nele) em função de um comentário que reativa por aqui o enigmático Pierre Kolmann. Alimentando assim a polêmica, aqui vai mais um de seus discos, o de estréia “Para dançar”, que foi o álbum que gerou toda a confusão. Transcrevo abaixo o último comentário, que mesmo apesar de anônimo, me pareceu o mais esclarecedor e complementar. Se alguém tiver algo a acrescentar ou corrigir, faça-me o favor…

Os muitos nomes de Rubens Leal Brito.
Alguns artistas mudam seu nome durante a carreira (casos de Jorge Benjor e Sandra de Sá). Outros usam um ao cantar e outro ao compor (como Jamelão, que assina as composições com seu nome de batismo, José Bispo). Mas o pianista gaúcho Rubens Leal Brito é um sério candidato a recordista de nomes artísticos simultâneos. Assinava com seu próprio nome suas composições, feitas entre 1938 e 1951, sozinho ou em parceria com Jorge Faraj.
Como Britinho, além de gravar seus próprios discos com solo de piano – na Continental em 1956 e em LPs da Sinter em 1956 e 1957 -, acompanhava cantores, como na estréia em disco de João Gilberto (Copacabana, 1952). Também foi com este nome que gravou uma série de discos com outro pianista, Fats Elpídio (RCA, 1952-53). Assinou desta maneira algumas músicas, feitas entre 1952 e 1963 com os parceiros Fats Elpídio, Mesquita e Fernando César. Já era chamado Britinho em 1943, quando tocou na Rádio Farroupilha (Porto Alegre). Após alguns recitais, foi contratado para integrar a Orquestra Panfar, da emissora. Dirigiu por um período o Jazz da PRH-2, enquanto seguia atuando como pianista.
Algumas das músicas gravadas pelo pianista Britinho em discos Todamérica de 1951 eram de autoria de… João Leal Brito. Este também era o parceiro de Fernando César em “Noite Chuvosa” (1960). Seria um irmão de Rubens? Talvez, embora em 1953, o crédito do choro “Vê se te Agrada”, gravado por Gentil Guedes e sua Orquestra na Sinter, era para João Leal Brito “Britinho”. Assinando Leal Brito, gravou LPs na Musidisc (1955) e na Sinter (1956-57). Também teve músicas gravadas em 1955.
Teria havido outros nomes? É possível. Em abril de 1957, o radialista Almirante era convocado pela Justiça carioca para dar seu parecer como perito a respeito da ação da gravadora Rádio, que mantinha o pianista Waldir Calmon sob contrato e acusava a Musidisc de procurar iludir o consumidor, ao lançar o LP Para Dançar, gravado por Leal Brito com o pseudônimo de Pierre Kolman. Outra alegação se referia ao título do disco – Calmon tinha uma série de LPs com o nome de Feito para Dançar. Almirante concordou com a acusação. Talvez outro disco de “Kolman” tenha saído, pois o site do Dicionário Cravo Albim registra este pseudônimo, ao lado de outro – Franca Vila. Curiosamente, ali o nome de batismo de Britinho acabou sendo mencionado como “João Adelino Leal Brito”…

maracangalha
summertime in venice
que será será
conceição
inamorata
anema e core
night and day
canadian sunset
dolores
domani
none but a lonely heart
pensando em ti

PS.: Passados quase três anos, eis que aparece o autor verdadeiro do texto (definitivo) sobre a polêmica Leal Brito no Comentários. O cometarista, na época, apenas havia copiado o texto, de maneira anônima. Seu autor é o jornalista Fábio Gomes. Este texto foi publicado originalmente em seu site, Mistura e Manda.

Pierre Kolmann – Dance Com Musidisc Vol. 1 (1957)

Olá meus caríssimos amigos cultos e ocultos, vamos nós com a postagem do dia. No embalo das raridades, vamos hoje dançar. Tenho aqui um legítimo representante da onda dance no final dos anos 50. Como já falei em outra ocasião, nos anos 50 era muito comum os lp’s com músicas dançantes onde não haviam separação por faixas. As músicas tocavam sem interrupção durante todo um lado do disco. Quem tinha muitos discos nessa linha era o Waldir Calmon e suas séries feitas para dançar. Neste disco temos exatamente isso, porém entre uma música e outra há uma discreta pausa que permitiu separarmos este quase pout-porri dançante.
Bom, agora resta saber quem é esse tal de Pierre Kolmann. Para os que não sabem, este é um dos pseudônimos do compositor, pianista e ‘bandleard’ Britinho (João Adelino Leal Brito). Foi um artista bastante atuante na música por mais de três décadas. Gravou vários discos com sua orquestra, acompanhou outros tantos, tendo também suas composições interpretadas por diversos artistas. Como instrumentista super-requisitado, adotou o esquema, usado por outros músicos na época, de pseudônimos. Assim podia gravar em outros selos sem problemas contratuais. Este disco, por exemplo, não aparece na discografia de Britinho. Eles não eram considerados como álbuns de carreira.

deixa a nega gingar
depois do carnaval
olhos verdes
a flor do amor
nós e o mar
little white lies
destinos
samba toff
don’t blame me
vem pro samba