Círculo Sertanejo (1981)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Se tem uma coisa gostosa nessa vida é presentear e ser presenteado. Não há nada melhor que a gente ganhar algo que a gente tanto queria. E mais ainda, presentear alguém com algo que ela muito quer. Foi mais ou menos algo assim que aconteceu comigo. Eu estava a digitalizar alguns discos que ganhei e entre eles havia este, um box com três lps, reunindo uma série de fonogramas, clássicos da música sertaneja, dos arquivos da gravadora Chantecler, que foi o selo que mais investiu no gênero caipira. Eu estava no momento tocando o disco na minha ‘vitrola’, talvez um pouco alto, quando de repente a campainha de casa tocou. Era o vizinho, um senho já idoso e eu logo pensei, “puxa, devo estar incomodando o velho com o barulho”. Mas qual nada. Para a minha surpresa e estranheza ele estava chorando. Ele veio até a minha porta pedir para ouvir direito o que estava tocando. Ele também gosta de discos de vinil e tem um bocado. O velho ficou alucinado quando viu essa caixa. Ele a segurava como se não fosse soltar mais, via e revia por dentro e por fora. Lia a lista de músicas, segurava como se fosse um bichinho de estimação. Sabia todas as músicas e começou a me contar suas histórias. Eu já havia acabado o trabalho de digitalização, mas ele ficou ali, querendo ouvir mais… Como meu tempo era meio curto e mais ainda, vendo a satisfação daquele homem, não tive dúvida, virei para ele disse: “olha aqui, Seu João, leva este disco com o senhor, é um presente meu para você”. O velho ficou numa satisfação que não dá para descrever. Eu também, naquela hora tive uma satisfação por oferecer a alguém um presente. Confesso que alguns dias depois eu quase me arrependi. Não por ter lhe dado os discos, mas porque agora eu sou obrigado a ouvir isso diariamente. Não se trata de ser ruim, afinal o que temos nesse box com três lp são 39 clássicos da autêntica música sertaneja, trazendo o melhor do ‘cast’ e arquivos da gravadora, com duplas famosas tipo, Mariano e Caçula, Tonico e Tinoco, Liu e Léo, Tião Carreiro e Pardinho, Cascatinha e Inhana, Pedro Bento e Zé da Estrada, Torres e Florêncio, Mandy e Sorocabinha e também, Duo Guarujá, Irmãs Castro, Nhá Barbina, Miranda, Paraguassú, Zé Messias, Teixeirinha e mais um montão de artistas. Este box foi uma produção feita exclusivamente para os assinantes do Círculo do Livro. Uma seleção com os mais consagrados artistas da música caipira, autêntica sertaneja. Taí, uma oportunidade que os amigos não devem perder. Façam como o Seu João, vai na fonte… 😉

luar do sertão – tonico e tinoco
moda da mula preta – torres e florencio
menino da porteira – tião carreiro e pardinho
barbaridade – pedro bento e zé da estrada
chuá chuá – tonico e tinoco
cabecinha no ombro – duo guarujá
saudades de matão – tonico e tinoco
cana verde – tonico e tinoco
índia – cascatinha e inhana
pingo dágua – tonico e tinoco
chalana – irmãs castro
moda da pinga – nhá barbina
festa na roça – miranda
toada de multirão – zé messias e seus parceiros
bonde camarão – mariano e caçula
casinha pequenina – paraguassú
rei do gado – tonico e tinoco
rei do café – liu e leo
canoeiro – tonico e tinoco
coração de luto – teixeirinha
maringá – tonico e tinoco
meu primeiro amor – cascatinha e inhana
tristeza do jeca – tonico e tinoco
mágoas de boiadeiro – pedro bento e zé da estrada
no braço dessa viola – torres e florêncio
sodade do tempo véio – mandy e sorocabinha
estrada da vida – milionário e josé rico
roubei uma casada – lourenço e lourival
beijinho doce – irmãs castro
rio de lágrimas – tião carreiro e pardinho
disco voador – jaço e jacozinho
saudades do japão – irmãos kurimori
malandrinho – tião carreiro
saudade da minha terra – milionário e josé rico
orgulhoso – irmãs castro
seresta – alvarenga e ranchinho
caçando e pescando – cacique e pagé
boi soberano – zé carreiro e carreirinho
luar do sertão – renato andrade

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Vários – Seleção 78 RPM Do Toque Musical – Vol. 65 (2013)

E aqui vamos “nóis” para mais uma edição caipira do Grand Record Brazil, a de número 65, oferecendo, como já aconteceu anteriormente, uma parcela do rico acervo da música regional brasileira, a chamada música caipira, que, como os ouvintes irão perceber, é bem diferente do sertanejo dito “universitário” , tão divulgado pelos meios de comunicação nos dias atuais. São, como sempre, 13 gravações preciosas, representativas de um gênero e daqueles tempinhos “bãos” em que se ouvia músicas como essas no radinho, tomando o café da manhã…  E começamos justamente com os eternos “reis do riso”, Alvarenga e Ranchinho.  São duas gravações Odeon com a formação original da dupla, Murilo Alvarenga (Itaúna, MG, 1991-São Paulo, 1978) e o primeiro dos três Ranchinhos, Diésis dos Anjos Gaia  (Jacareí, SP, 1911-São Paulo, 1991). Eles aqui nos apresentam a moda de viola “Você já viu o cruzeiro?”, do Capitão Furtado, seu descobridor, mais outra dupla, Palmeira e Piraci, gravada a 15 de setembro de 1943 e lançada em novembro do mesmo ano com o n.o 12376-B, matriz 7384. É uma alusão à então nova unidade monetária brasileira, instituída um ano antes e que, após passar por mudanças e ser substituída até mesmo pelo cruzado, deixaria de existir em 1994, com o início do Plano Real. Também tem a primeira gravação com letra do clássico choro “Tico-tico no fubá”, de Zequinha de Abreu (1880-1935), feita por Alvarenga, tendo  como subtítulo “Vamos dançar, comadre”, datada de 27 de julho de 1942 e lançada em  outubro do mesmo ano com o n.o 12202-A, matriz 7021. A 10 de agosto desse mesmo ano, em seu primeiro disco, Ademilde Fonseca incluiu este choro clássico em seu primeiro disco, com os versos assinados pelo dentista Eurico Barreiros, e sua gravação foi talvez a de maior sucesso. Focalizamos em seguida a acordeonista Carmela Bonano, mais conhecida como Zezinha, nascida  em São Paulo no dia 16 de janeiro de 1928 e que formou com Luizinho e Limeira (os irmãos, também paulistanos,  Luiz  e  Ivo Raimundo) um trio ainda hoje lembrado com muitas saudades por seus contemporâneos. Zezinha gravou seu primeiro disco como solista de acordeon em 1951, na Todamérica, com duas composições suas em parceria com Luizinho: a valsa  “Brejeira” e a mazurca “Alegria”. Para este volume do GRB foram escalados o arrasta-pé “Oito baixos”, dela mesma e de Messias Garcia, gravação Odeon de 11 de março de 1960 lançada em outubro seguinte com o n.o 14681-A, matriz 50478 (relançado com a marca Orion sob n.o R-079),  e o baião “Saudade que machuca”, de Vicente Lia e do radialista Nino Silva, lançado pela Todamérica em agosto de 1955 com o n.o TA-5563-B, matriz TA-1315, ambas com vocais de Luizinho e Limeira, sem crédito nos selos. Na faixa 6, ela, agora com Luizinho e Limeira devidamente creditados, acompanha-os no arrasta-pé “Casamento é uma gaiola”, do Compadre Generoso, gravado na Odeon em 2 de abril de 1959 e lançado em junho seguinte sob n.o 14463-B, matriz 50158, depois relançado com a marca Orion sob n.o R-058. Música que seria regravada com sucesso  por Sérgio Reis, anos mais tarde. Com o falecimento de Luizinho, em 1982, Zezinha abandonou de vez a carreira, por isso muitas biografias dizem ter ela falecido nesse ano, a  11 de maio, em Perdizes, São Paulo (outras dizem que a morte da acordeonista aconteceu em 2002, nesse mesmo dia). A maranhense (de Viana) Dilu Mello (Maria de Lourdes Argolo Oliver, 1913-2000) também deixou sua contribuição para a história de nossa música popular. Tocava diversos instrumentos: sanfona, piano, violão, harpa, violino e até serrote, causando o maior escândalo ao executar nele uma peça de Schumann! É co-autora e intérprete da clássica toada “Fiz a cama na varanda”, que já apresentamos em edição anterior do GRB, e apenas uma de suas mais de cem composições.  Para esta edição, foi escalado o xote “Qual o valor da sanfona?”, composição sua em parceria com J. Portela (o jota seria de Jeová), gravação Continental de 31 de julho de 1948, porém só lançada em março-abril de 49 sob n.o 16024-B, matriz 10916. A faixa 7 nos apresenta a gravação original de uma balada humorística que muitos conhecem na interpretação dos irmãos Sandy e Júnior: é nada mais nada menos que “Maria Chiquinha”, de autoria de Geysa Bôscoli e Guilherme Figueiredo. Ela saiu pela RGE em agosto de 1961, sob n.o 10336-B, matriz RGO-2218, num divertido dueto entre Evaldo Gouveia (compositor, cearense de Orós, autor de vários hits, sobretudo em parceria com Jair Amorim, e que integrou como cantor o Trio Nagô) e a comediante Sônia Mamede (1936-1990), “a garota do biquíni vermelho”. Bonita e de corpo escultural, Sônia foi estrela das chanchadas da Atlântida (“Garotas e samba”, “De vento em popa”), tendo feito outros 14 filmes nesse e em outros estúdios,  e ficou famosa na televisão como a Ofélia do programa humorístico “Balança mas não cai”, da Globo (seu bordão era “eu só abro a boca quando tenho certeza!”), ao lado de Lúcio Mauro, o Fernandinho. “Maria Chiquinha” foi um sucesso absoluto em 1961, e nesse ano também seria gravada por Marinês, em dueto com Luiz Cláudio, na RCA Victor. Os trios Melodia (Albertinho Fortuna, Paulo Tapajós e Nuno Roland) e Madrigal (Edda Cardoso, Magda Marialba e Lolita Koch Freire) interpretam aqui, em ritmo de baião, “Maricota, sai da chuva”,  motivo folclórico adaptado por Marcelo Tupinambá, em gravação Continental de 19 de março de 1952, lançada em julho desse ano com o n.o 16600-A, matriz C-2813. A primeira gravação, ainda na fase mecânica, foi do Grupo O Passos no Choro, em 1919, apenas instrumental.  Recordaremos em seguida outra dupla sertaneja famosa: Silveira (Nivaldo Pedro da Silveira, 1934-1999) e Barrinha (Abílio Barra, 1929-1984) ambos mineiros, Silveira, de Uberaba, e  Barrinha, de Conquista.  Aqui eles interpretam a moda campeira “Coração da pátria”, de Silveira, Lourival dos Santos e do também radialista Sebastião Victor, em gravação RCA Camden  de 25 de maio de 1962, disco CAM-1133-A, matriz N3CAB-1712, uma exaltação ao estado de Goiás, que já abrigava, desde 1960, nossa atual capital, Brasília (lembrando que o Distrito Federal é um município nêutro). Teve regravações por Nalva Aguiar e até mesmo por Beth Guzzo, filha do humorista Valentino Guzzo (a Vovó Mafalda do programa do Bozo, lembram-se?). Apresentamos logo depois as duas músicas do primeiro dos três únicos 78 rpm da dupla Biá e Biazinho no selo Sertanejo da Chantecler, o PTJ-10087, gravado junto com o acordeonista Alberto Calçada, e lançado em maio de 1960, apresentando duas canções rancheiras ao estilo mexicano:  “Nunca mais” de Fernando Dias, matriz S9-173, e “Só Deus castiga”, de Nízio e Teddy Vieira, matriz S9-174. E reservamos para o final a joia da coroa desta edição: o único disco gravado por Tonico e Tinoco (“a dupla coração do Brasil”) junto com Aracy de Almeida (“ o samba em pessoa”, “a dama da Central”, “a dama do Encantado”), todos três já relembrados pelo GRB. Uma autêntica preciosidade que chega a nossos amigos cultos, ocultos e associados por generosa cortesia do amigo  Indalêncio, grande e notório restaurador de rádios antigos.  É o Continental  17251, gravado em 28 de julho de 1955, mas só lançado em fevereiro-março de 56, com dois cateretês. Abrindo-o, matriz 11764, “Ingratidão”, de autoria de Mário Vieira, parceiro de Hervê Cordovil no clássico “Sabiá na gaiola” e mais tarde fundador e proprietário da gravadora e editora musical Califórnia, que existe até hoje, no bairro paulistano do Tatuapé, dirigida pela terceira geração da família. Mário assina também o lado B, matriz 11765, “Tô chegando agora”, desta vez em parceria com Juracy Rago, primo do violonista Antônio Rago. Uma preciosidade que o Indalêncio mui gentilmente nos cedeu e que encerra com chave de ouro esta edição regional do GRB., para alegria e deleite dos “cumpades” e cumades” de todas as idades e deste Brasilzão!

*Texto de Samuel Machado Filho

Tonico E Tinoco 2 – Seleção 78 RPM Do Toque Musical – Vol. 34 (2012)

Ê trem bão… Eis a segunda parte da retrospectiva que o meu, o seu, o nosso Grand Record Brazil dedica aos eternos e inesquecíveis Tonico e Tinoco. Dupla que tem em seu respeitável currículo, inclusive, atuações no cinema. Estrearam na sétima arte em 1949, participando de “Luar do sertão”, primeiro filme brasileiro do italiano Mário Civelli (1923-1993), que teve um remake em 1971, sob a direção de Oswaldo de Oliveira, e do qual a dupla também participou. Também atuaram em “Lá no meu sertão” (1963), “Obrigado a matar” (1965), “Os três justiceiros” (1972), “A marca da ferradura” (do mesmo ano), “O menino jornaleiro” (1982) e “A marvada carne” (1983). Enfim, caipiras versatilíssimos.

Prosseguindo esta retrospectiva da eterna “dupla coração do Brasil”, apresentamos onze preciosos fonogramas, todos originalmente da Continental. Em ordem cronológica de lançamento são estes: para começar, a primeiríssima gravação da dupla: o cateretê “Em vez de me agradecer”, de autoria do Capitão Furtado (Ariowaldo Pires, sobrinho de Cornélio Pires, pioneiro na divulgação da música caipira em disco), em parceria com Jayme Martins e o violonista Aymoré. Feita em 26 de novembro de 1944, matriz 10324, era só um teste, uma “prova”, como se dizia na época. Quando eles foram gravar o verso do 78, cantaram tão alto (como faziam lá na roça)… que o microfone estourou! E a Continental os puniu com seis meses de aulas de canto para educar a voz e voltar a gravar… Para sorte deles, uma música que deveria entrar no último disco lançado pela dupla Palmeira e Piraci, que teria no lado B “Salada internacional”, foi proibida pela censura do Estado Novo, e o jeito foi usar justamente “Em vez de me agradecer” como lado A desse disco, o Continental 15385. Agradaram em cheio!

Depois apresentamos o lado B do primeiro disco completo da dupla, de n.o 15417,  gravado em 4 de agosto de 1945 e lançado em setembro seguinte, matriz 10453: a moda de viola “Porto Esperança”, mesmo nome de um distrito da cidade de Corumbá, Mato Grosso do Sul, onde se passa a narrativa.

O 78 seguinte é o de número 15447-B, gravado em 8 de agosto de 1945 e lançado em outubro do mesmo ano, matriz 10470: outra moda de viola das boas, “Moreninha”, de Tonico sem parceiro.

Temos depois as duas faixas do disco 15655, gravado em 10 de abril de 1946 e lançado em junho seguinte. O lado A, matriz 10581, é outro modaço de viola, “Destino de caboclo”, de Tonico e Aldo Renatti, No verso, a matriz 10580 nos traz o recortado mineiro “Ai, meu bem”, de Piraci e Geraldo Costa.

Completamos depois o disco 15706, gravado em primeiro de junho de 1946 e lançado em setembro seguinte, apresentando o lado B, correspondente à matriz 10605, o rasqueado “Adeus, morena, adeus”, de Piraci e Luiz Alex, este último não creditado no selo original como co-autor.

Nossa próxima faixa é o lado A do disco 15795, gravado em pleno feriado de Tiradentes, 21 de abril de 1947, e lançado em julho seguinte, matriz 10707, a moda de viola ”A cruz do caminho”, de Anacleto Rosas Júnior (autor de inúmeros hits do sertanejo de raiz, como “Baldrana macia”, “Os três boiadeiros” e “Burro picaço”) e Arlindo Pinto, outro compositor bastante considerado no gênero, tendo em seu currículo parcerias com Mário Zan (“Chalana”, “Balanceio”) e Palmeira (“Baile na tuia”). Confira em nossa edição anterior o lado B, que é o clássico “Tristeza do jeca”.

Passamos em seguida às duas músicas do Continental 15796, gravado também em 21 de abril de 1947, e lançado no mesmíssimo suplemento de julho daquele ano. No lado A, matriz 10705, Arlindo Pinto entra novamente em cena, desta vez assinando em parceria com Geraldo Costa a moda de viola “Boiadeiro entrevado”. No verso, matriz 10704, Geraldo Costa assina com o acordeonista Mário Zan (o consagrado autor de “Nova flor”, “Quarto centenário”, “Chalana”, “Festa na roça” etc.)o recortado mineiro “Que lucro dá?”, inclusive com o próprio Mário puxando o fole no acompanhamento.

Por fim, o disco que encerra esta nossa segunda parte é o de número 15819, gravado em 30 de junho de 1947 e lançado entre agosto e outubro do mesmo ano. No lado A, matriz 10727, o cateretê “Você sabe onde eu moro”, de Piraci e Geraldo Costa, de novo com a sanfona do mestre Mário Zan no acompanhamento, mais o violão do co-autor, Piraci. No verso, matriz 10726, a moda de viola “Destinos iguais”, de autoria do mesmo Capitão Furtado que os descobriu, em parceria com o professor Ochelcis Laureano, paulista de Sorocaba e autor do clássico “Marvada pinga”, um dos eternos carros-chefes de Inezita Barroso. Curiosa, aliás, é a composição de seu nome: “O” (artigo masculino), “chel” (segunda sílaba do nome da mãe, Rachel) e “cis” (sílaba do meio do nome do pai, Francisco), ficando “Ochelcis”. Com esta interessante curiosidade, encerramos esta resenha do segundo volume que o GRB dedica a Tonico e Tinoco, a eterna e insubstituível “dupla coração do Brasil”!

* TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO

Tonico & Tinoco – Seleção 78 RPM Do Toque Musical – Vol. 33 (2012)

E o Grand Record Brazil chega à “idade de Cristo” (rsrsrsrsrsrs…)… É porque já estamos na edição de número 33, apresentando a primeira parte de uma retrospectiva dos melhores momentos da eterna “dupla coração do Brasil”, Tonico e Tinoco.

Obviamente, os dois eram irmãos, filhos de imigrantes espanhóis. Tonico (João Salvador Perez) era de São Manoel, interior paulista, onde nasceu em 2 de março de 1917. Tinoco (José Perez), por sua vez, era um pouquinho mais novo, nascido em 19 de novembro de 1920 em uma fazenda em Botucatu, perto de São Manoel, que hoje pertence ao município de Pratânia. E foi ouvindo as músicas de Cornélio Pires que foram influenciados na arte de cantar. Ainda adolescentes, compraram suas violas e passaram a cantar em dupla em serenatas nas fazendas da região, sendo que a primeira música que aprenderam foi o clássico “Tristeza do Jeca”, de Angelino de Oliveira, que mais tarde gravariam (e está nesta seleção). Em fins de 1937, a família Perez, ao lado de outras, decidiu tentar a sorte em Sorocaba, Tonico foi ser servente na Pedreira Santa Helena e Tinoco virou engraxate na estação de trem da Sorocabana. Mas, a coisa não deu certo, e a família voltou ao campo, na Fazenda João Cintra, em São Manoel. Isso, porém, deu aos irmãos Perez a chance de se apresentar em rádio, mais precisamente a Rádio Clube de São Manoel, levados pelo administrador da fazenda, José Augusto Barros. Durante a semana eles trabalhavam na roça e aos domingos cantavam na rádio, sem nada ganhar, apenas por amor à arte.

Em 1943, já em São Paulo, os irmãos participaram de programas de calouros do rádio, sem êxito. Nessa ocasião, o Capitão Furtado (Ariowaldo Pires, sobrinho de Cornélio Pires), promoveu um concurso em seu programa “Arraial da Curva Torta”, na Difusora, para preencher uma vaga (o programa estava sem violeiros). É aí que os irmãos Perez, mais um primo, se candidatam como Trio da Roça. Classificam-se para a final, obtendo o primeiro lugar e, sem o primo, são batizados pelo Capitão Furtado com os nomes que os imortalizaram: Tonico e Tinoco.

A primeira gravação da dupla saiu pela Continental, em julho de 1945: o cateretê “Em vez de me agradecer”, do Capitão Furtado, Jaime Martins e Aimoré, lado B de “Salada internacional”, com Palmeira e Piraci (só saiu porque a outra música dessa dupla foi censurada!). Em setembro de 1945 é que sai o primeiro 78 completo de Tonico e Tinoco, gravado em 8 de agosto desse ano, apresentando as modas de viola “Tudo tem no sertão”, de Tonico (lado A, que aliás está aqui, matriz 10454-2), e “Porto Esperança”, de Tonico e Miguel Patetti.

Depois disso, todos sabem o que aconteceu: êxitos sobre êxitos em disco (cerca de mil gravações em 60 anos de estrada!), apresentações em todos os cantos do Brasil (até mesmo no Teatro Municipal de São Paulo, e chegaram até a cantar numa feira de moda junto com nossa rainha-mãe do rock, Rita Lee!), sempre mantendo a fidelidade ao velho e bom gênero caipira, sendo por isso considerada, com justiça, a mais importante dupla caipira brasileira, e a de maior referência no gênero. Ganharam, claro, inúmeros prêmios: Roquette Pinto, Prêmio Sharp de Música, Medalha Anchieta, Troféu Imprensa… Tiveram companhia circense, escrevendo e atuando em 25 peças, e atuaram no rádio paulistano durante mais de 50 anos, na Nacional (atual Globo), na Record e sobretudo na Bandeirantes (então “a mais popular emissora paulista”), onde apresentaram o programa “Na beira da tuia”. Também tiveram esse programa na televisão, nas redes Bandeirantes e SBT. Gravaram, além da Continental, na Chantecler, na RCA Victor, na Copacabana, na Philips e em sua sucessora, a Polygram, onde registraram seu último trabalho em disco.

O último show da dupla aconteceu na cidade matogrossense de Juína, em 1994. Seis dias mais tarde, a 13 de agosto, Tonico falece após uma queda na escada do prédio em que morava, no bairro paulistano da Moóca. Tinoco, porém, após dizer que deixaria de cantar, prosseguiu sozinho, apoiado pelos seus inúmeros fãs e homenageado até mesmo por Roberto Carlos, em 2010, no especial de TV “Emoções sertanejas”. E continuaria na ativa até falecer, em 4 de maio deste 2012, em São Paulo, de insuficiência cardiorrespiratória, aos 91 anos, tornando-se assim o artista sertanejo que mais atuou na história de nossa música.

O GRB começa a trazer um pouco da história musical dos inesquecíveis irmãos Tonico e Tinoco. As gravações que apresentamos são todas de sua primeira fase, na Continental, feitas entre 1945 e 1948. Em ordem de lançamento, são: a já citada “Tudo tem no sertão”; “Sertão do Laranjinha”, motivo popular adaptado pela dupla mais o Capitão Furtado, matriz 10453, tendo no verso do disco 15418, gravado em 22 de julho de 1945 e lançado em setembro seguinte, o cateretê “Percorrendo o meu Brasil”, de João Martins, matriz 10451. Temos depois a moda de viola “Cuiabana” de Tonico e Bonfim Pereira, gravada em 16 de agosto de 1945, com lançamento em outubro (15447-A, matriz 10469). Em seguida o disco 15681, gravado em 10 de abril de 1946 e lançado em agosto do mesmo ano, apresentando a valsa “Cortando estradão”, de Anacleto Rosas Jr., matriz 10578, e no lado B, matriz 10579, uma toada que todo mundo sabe de cor, embora pungente: “Chico Mineiro”, de Tonico e Francisco Ribeiro. Aliás, quando Tonico e Tinoco foram gravar a música, os dirigentes da Continental lhes informaram que esse seria o último disco deles na empresa, pois já haviam gravado outros cinco com nove músicas e os ouvintes reclamavam não entender a pronúncia caipira da dupla. É claro que isso não aconteceu, e, com o dinheiro resultante do sucesso de “Chico Mineiro”, eles conseguiram comprar sua primeira casa para viver com a família. Do Continental 15706, gravado em primeiro de junho de 1946 e lançado em setembro seguinte, vem o lado A, matriz 10606, apresentando a moda de viola “Peão vaqueiro”, de Tonico sozinho. E não há quem nunca tenha ouvido “Tristeza do jeca”, toada clássica de Angelino de Oliveira, originalmente lançada em 1926 por Patrício Teixeira. Esta é a primeira das muitas gravações que Tonico e Tinoco fizeram desta página antológica, em pleno feriado de Tiradentes (21 de abril) de 1947, matriz 10706, com lançamento pela Continental em julho sob n.o 15795-B. Na sequência vem a toada “Vingança do Chico Mineiro”, de Tonico e Sebastião de Oliveira, sequência natural do sucesso de “Chico Mineiro”. Saiu no lado A do Continental 15913, em gravação de 3 de maio de 1948, lançada no suplemento para o trimestre de julho a setembro desse ano, matriz 10867, tendo no verso, matriz 10866, a moda de viola “Goiana”, de Tonico e Teddy Vieira (autor do clássico “O menino da porteira”, entre outras), também aqui apresentada. E é assim que o GRB começa a reviver a gloriosa trajetória de Tonico e Tinoco nas 78 rotações por minuto. E olha: semana que vem tem mais. Combinado?

TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO.

Tonico & Tinoco – A Saudade Vai…(1961)

A saudade vai… vai ficar no meu coração. Justo no momento em que eu me preparava para fazer esta postagem, recebi a notícia do falecimento da minha tia-mãe. Sinceramente não sei dizer o que eu estou sentido neste momento. Há, sem dúvida um bocado de tristeza e aquele sentimento da perda de alguém que não volta mais. Porém, depois de ter presenciado os seus últimos oito anos presos numa cama, após um AVC, e mais ainda, seu martírio final neste último ano, sinto agora um alívio, uma paz… Sinto que Deus atendeu às minhas preces. Nunca pensei que um dia eu iria desejar a morte de uma pessoa, mais ainda de alguém que eu amo tanto. Mas tem sido este o meu pedido ao Papai do Céu. Foi este o meu presente de Papai Noel.
A escolha deste disco não tem nada a ver com a situação. Nem sei se minha tia gostava da dupla sertaneja Tonico e Tinoco. Mesmo assim resolvi manter o álbum programado, pois vejo nele muita coisa em comum com este meu sentimento, um misto de alegria e tristeza.
“A saudade vai…” foi um álbum de muito sucesso lançado pela dupla em 1961. Em 1964 ele foi novamente reeditado pelo selo Chantecler, dedicado à música caipira. A versão cd saiu em 2005 numa edição muito limitada, a qual já se encontra esgotada.

a saudade vai…
brasil sertanejo
gaucho alegre
zé da carolina
tempo bão
quere bem
joão boiadeiro
tarde janera
sonho de caboclo
pião arrespeitado
véio carreiro
carta de caboclo

Duplas Famosas – Coletânea Caipira (1988)

A postagem de hoje é muito especial. É uma singela homenagem à minha querida mãe falecida nesta data, a dois anos atrás. Nunca pensei que pudesse sentir tanta falta dela assim. Mãe é mãe. Um ser especial. Não é humano, não é mulher… é tão somente mãe. Me lembrei de algumas músicas que ela gostava de cantar. Na verdade eram tantas e de tão variado gosto musical, acho que foi daí que herdei isso dela. Duas das canções que ela gostava de cantar estão neste lp, “Meu primeiro amor” e “Índia”, com Cascatinha e Inhana. Sem dúvida, maravilhosas. Neste momento é inevitável que algumas lágrimas corram pelo meu rosto. Mãe é mãe…
Assim sendo, temos esta coletânea reunindo três da mais autênticas duplas, que eu chamaria carinhosamente de caipiras. São figuras das mais importantes no nosso cancioneiro popular. Não preciso nem repetir, está na capa, né? Este disco foi lançado pela Som Livre em 88. A capa, obviamente, não é esta. Sua criatividade também não fica longe dessa feita agora ‘a toque de caixa’. Somente no último minuto foi que encontrei a original. Mas vai ficar valendo a minha ‘arte’, hehehe… Quanto ao repertório, confira aí…

meu primeiro amor – cascatinha e inhana
desafio de perguntas – alvarenga e ranchinho
canoeiro – tonico e tinoco
la paloma – cascatiha e inhana
horóscopo – alvarenga e ranchinho
violeiro – tonico e tinoco
mister eco – alvarenga e ranchinho
triste destino – cascatinha e inhana
aparecida do norte – tonico e tinoco
soletrando – alvarenga e ranchinho
índia – cascatinha e inhana
berranteiro – tonico e tinoco

Tonico E Tinoco – Recordação Sertaneja (1968)

Olá! Como a semana começou com a Vanja Orico, acabei topando com as raízes sertanejas e me veio uma vontade danada de postar uns caboclinhos de ‘pé-vermeio’, umas toadas e umas moda de viola… Daí lembrei de uma das mais conhecidas duplas sertanejas, Tonico e Tinoco e deste disquinho que dá gosto até pela capa. “Recordações Sertanejas” foi um lp re-lançado em 1968 pela Continental em seu selo Caboclo, destinado à música caipira. O álbum originalmente é do final dos anos 50, um autêntico representante da música rural. Modelo que deveria ser seguido por essas ‘marmotas country’ de hoje em dia que se dizem sertanejos.

exemplo da fé
camisa preta
lar feliz
aí meu bem
morte da caboclinha
filho de carpinteiro
mãe, sempre mãe
canoeiro
adeus bela
você sabe onde moro
sertão do laranjinha
tempo de amor
a marca da ferradura
besta ruana