Seleção 78 RPM Do Toque Musical – Oscarito – Pimentinha E Arrelia (2013)

E  aqui estamos com mais uma edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil. É a de número 63, desta feita apresentando músicas cuja característica é o bom humor, interpretados por comediantes que marcaram época em nossa mídia. São treze gravações como sempre preciosas, que por certo vão deixar lembranças muitíssimo agradáveis em quem vivenciou a época deles, e surpresa igualmente agradável para quem não conhece, e tem à disposição, portanto, uma oportunidade rara de conhecer.
Muitos se lembram com saudade, inclusive eu próprio, do palhaço Arrelia, aliás, Waldemar Seyssel  (Jaguariaíva, PR, 1905-São Paulo, 2005). Ele começou a atuar no circo aos seis meses de idade, e não parou mais. Veio de uma família circense tradicional, cujo avô, Júlio Seyssel, era  nascido e residente na França, tendo sido até mesmo professor da famosa Universidade de Sorbonne.  Nessa ocasião, Júlio conheceu uma jovem espanhola, artista de circo, claro, que fazia acrobacias em cima de um cavalo. Os dois se casaram, e Júlio trocou a universidade pelo picadeiro.  O casal veio ao Brasil durante uma temporada do Grande Circo Inglês, dos irmãos Charles, e resolveu ficar por aqui mesmo. Já Arrelia (apelido que lhe foi dado por seu tio,  Henrique)começou no circo saltando, passando depois pelo trapézio, cama elástica e outras acrobacias.  Quando seu pai, cansado, deixou o picadeiro, passou a dedicar-se à arte de divertir o público. Seu primeiro parceiro foi o ator Feliz Batista, que fazia o palhaço de cara branca, vindo depois o irmão, Henrique Sobrinho.  Após anos de trabalho no picadeiro, Arrelia troca o circo pela televisão, por questões financeiras. Seu “Circo do Arrelia”, iniciado em 1953, passou pela TV Paulista (hoje Globo) e pela Record, e é aí que surge seu parceiro mais famoso:  seu sobrinho Walter Seyssel, o Pimentinha (Juiz de Fora, MG, 1926-Itu, SP, 1992). É com ele que Arrelia interpreta as faixas escaladas para esta edição do GRB. Para começar, a marchinha “Muito bem (Como vai?)”, utilizando um bordão famoso do grande Arrelia: “Como vai, como vai, vai, vai? Muito bem, muito bem, bem, bem!” O próprio Arrelia, mais Manoel Ferreira e Antônio Mojica, transformam esse bordão clássico em marchinha de sucesso no carnaval de 1957, lançada pela Copacabana em seu selo Carnaval, com o número 051-A, matriz M-1831. Um ano mais tarde, em janeiro de 1958, a Copacabana lança para a folia desse ano outra marchinha por eles interpretada: “Hom’essa!”, do próprio Arrelia e José Saccomani, matriz M-2075, curiosamente em dois 78 rpm diferentes: 5855 e 5861, ambos no lado A!  Temos ainda outros registros do Pimentinha em dueto: com Déo Maia (cantora e atriz que foi professora primária antes de se dedicar ao teatro de revista), ele canta o samba ‘Dengo”, de autoria do mestre Ary Barroso, gravação Odeon de 3 de junho de 1953, lançada em agosto seguinte com o n.o 13483-B, matriz 9747. Ainda com o tiozão Arrelia, ele interpreta outra marchinha, “Cacho de banana”, do próprio Arrelia mais José Saccomani e Ercílio Consoni, para o carnaval de 1958, e que a Copacabana lança em janeiro desse ano também em dois 78 rpm diferentes:  5855-B, e 5862-A, com a mesmíssima matriz, M-2094! Como solista, Pimentinha interpreta outra marchinha, por ele próprio assinada em parceria com José & Emílio Saccomani: “Na bodega”, para o carnaval de 1960, editada pela mesma Copacabana ainda em dezembro de 59 com o n.o  6067-B, matriz M-2548. Déo Maia ainda canta com ele o choro “Vou a Paris”, de Vicente Paiva e Luiz Peixoto, lado A do 78 de “Dengo”, o Odeon 13483, matriz 9745, e obviamente registrado na mesma sessão.  Encerrando sua participação neste volume, Pimentinha canta a “Marcha do Cacareco”,de Elzo Augusto, Edaor e Romaris,  lançada pela Copacabana no lado A de “Na bodega”, matriz M-2547, para o carnaval de 1960. O Cacareco em questão é um rinoceronte que foi trazido do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro para o de São Paulo, e houve uma polêmica generalizada na época sobre se ele deveria permanecer em Sampa ou voltar pro Rio. Enquanto isso, nas eleições de 1959, os paulistanos, decepcionados com os políticos candidatos  a vereadores (como até hoje), acabaram votando, em sinal de protesto, no Cacareco, que recebeu mais de 100 mil votos (todos nulos, claro), mais até que o vereador mais votado, que teve 95.000 votos! Isso aconteceria em 1978 com o jogador de futebol Biro-Biro, então no Corinthians, que mais tarde candidatou-se a vereador por São Paulo e se elegeu de verdade.  Dois casos impossíveis de se repetir nestes tempos de urna eletrônica…
Em seguida relembraremos Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Tereza Díaz (Málaga, Espanha, 1906-Rio de Janeiro, 1970), que ganhou a imortalidade com o pseudônimo de Oscarito.  Filho de pai alemão e mãe portuguesa, veio para o Brasil com um ano de idade, mas só se naturalizou brazuca em 1949. Começou nos picadeiros de circo, aos cinco anos (afinal ele, como Arrelia e Pimentinha, era membro de família circense), como palhaço, trapezista, acrobata e ator, além de aprender a tocar violino! Foi marcante figura no teatro de revista, onde começou em 1932 na peça “Calma, Gegê” (sátira a Getúlio Vargas) e no cinema, onde debutou três anos mais tarde, atuando em “Noites cariocas”. Seu nome está ligado à história da Atlântida, estúdio que se caracterizava por suas chanchadas, onde atuou em inúmeros filmes,  alguns em parceria com Grande Otelo, como “A dupla do barulho’ (1953) e “Matar ou correr” (1954). Outros títulos de destaque em sua filmografia são “Carnaval no fogo” (1949), “Aviso aos navegantes” (1950), “Barnabé, tu és meu” (1952), “Nem Sansão nem Dalila’ (1954), “De vento em popa” (1957), “Esse milhão é meu” (1958) e “Os dois ladrões” (1960). Seu último trabalho no cinema foi em “Jovens pra frente”,  de 1968. Foi casado com a também atriz Margot Louro, com quem teve dois filhos. Oscarito teve seu nome como paralelo aos maiores cômicos do cinema internacional, como o  americano Charles Chaplin e o mexicano Cantinflas. Evidentemente, Oscarito também gravou algumas músicas, predominantemente carnavalescas, que também interpretava em seus filmes. E eis aqui nesta edição do GRB seis delas. Pra começar, a famosa “Marcha do gago” (“Tá, tá, tá tá na hora/ Va-va-vale tudo agora”), de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas , indiscutivelmente seu maior sucesso musical, lançado em dezembro de 1949 pela Star com o número 177-A, e um dos maiores sucessos da folia de 1950, fazendo inclusive referência a Carlo Pintacuda, um famoso automobilista da época. Da mesma dupla, agora com o reforço de David Nasser, é o lado B, a marchinha “Greve no harém”, que apresentamos na faixa 10. O disco também saiu com o selo Carnaval, com o número 049, e ambas as músicas fizeram parte do filme ‘Carnaval no fogo”. Completando este programa, quatro gravações Sinter:  a marchinha “Toureiro de Cascadura” (faixa 12), de Armando Cavalcanti e David Nasser, matriz S-39, e o samba “Garota boa”, (faixa 9), de Saint Clair-Senna, matriz S-40, do disco 00-00.018, editado em dezembro de 1950 para a folia de 51, para a qual também saiu o disco 00-00.019, em seguida mesmo, com duas composições dos mesmos Armando Cavalcanti e Klécus Caldas: a famosa “Marcha do neném” (“Ié, ié, ié, faz o neném”, faixa 13), matriz S-41, e a também marcha “Pouca roupa” (faixa 11), todas quatro do filme “Aviso aos navegantes”, outro estouro de bilheteria na época.  Enfim, música e bom humor mais uma vez encontram-se nesta edição do GRB, para alguns lembrarem, outões conhecerem, e para todos se divertirem muito!
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO

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