Aracy De Almeida – Seleção 78 RPM Do Toque Musical – Vol. 64 (2013)

Muita gente se lembra de Aracy de Almeida apenas como a jurada ranzinza, implacável e exigente dos programas de calouros da televisão  (Chacrinha, Sílvio Santos, etc.), sempre imperdoável. Mas era um tipo que forçava mais para estimular a plateia a dar sonoras vaias, e o público, no fundo, a amava. Além disso, como cantora, a “Araca” escreveu um importantíssimo capítulo da história de nossa música popular. O próprio Noel Rosa (1910-1937) a considerava a melhor intérprete de suas composições, e foi quem primeiro a incentivou na carreira.
É justamente a Aracy-cantora que focalizamos nesta sexagésima-quarta edição do Grand Record Brazil. Aracy Teles de Almeida (ou d’Almeida, como aparecia sem seus primeiros discos)nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de agosto de 1914, no subúrbio do Encantado, no seio de uma família evangélica (era de confissão Batista).  Tanto que começou sua carreira cantando no coro de sua igreja, e para ser também fiel ao samba, também se apresentava em festinhas, escola de samba e até terreiro de candomblé!
Em 1932, levada por um amigo lá mesmo do Encantado, Aracy apresentou-se pela primeira vez numa estação radiofônica, a Rádio Educadora do Brasil, interpretando a marchinha “Bom dia, meu amor”, de Joubert de Carvalho, do repertório de Cármen Miranda. Sua estreia em disco dá-se na Columbia, que, em janeiro de 1934, lança para o carnaval duas marchinhas por ela interpretadas: “Em plena folia”, de Julieta de Oliveira, e “Golpe errado”, de Jaci, uma em cada disco. No terceiro e último disco de Aracy nessa marca, já aparece um samba de seu amigo Noel, “Riso de criança”.  Em 1935, vai para a RCA Victor, passando a lançar sucessos sobre sucessos, tanto de Noel (“Palpite infeliz”, “Triste cuíca”, “Cansei de pedir”, “Último desejo”, “Século do progresso”) quanto de outros autores (Wilson Batista, Cyro de Souza, Ary Barroso etc). Grava também na Odeon, na Continental, na Polydor, na Sinter (e sua sucessora, a Philips), na Elenco, enfim, em vários selos, lançando também LPs e compactos. Outros de seus hits são “Não me diga adeus” (Paquito, Luiz Soberano e João Corrêa da Silva), “Fez bobagem’ (Assis Valente), “Louco, ela é seu mundo’ (Wilson Batista e Henrique de Almeida), e mais os presentes nesta edição do GRB, que comentaremos a seguir. Embora fosse mestra da gíria e gostasse de frequentar a noite, Aracy não comentava sua vida sentimental. Teve um romance com o goleiro Rey, do Vasco da Gama, seu time de coração, e foi casada com um médico, do qual se separou amistosamente, sem filhos. Chamada de “O samba em pessoa” , receberia do estilista de moda Dener Pamplona de Abreu, seu grande amigo, um outro apelido, “Dama da Central”, pois ela só viajava de trem, por medo de acidente de avião.  “Araca” lia os melhores autores e gostava de um bate-papo inteligente.
Nos anos 1950, Aracy praticamente fez sua base em São Paulo, mas sem abandonar seu querido Encantado (tanto que era também “A dama do Encantado”, título de um álbum que Olívia Byington dedicou a ela).  Sempre muito querida e reverenciada, apresentava-se nas melhores casas noturnas paulistanas e cariocas, e tornou-se uma espécie de musa de círculos artísticos e sociais. Em 1954, por exemplo, foi-lhe oferecido um jantar comemorativo de seus 23 anos de carreira, do qual compareceu até mesmo o então governador paulista Lucas Nogueira Garcez.
Com o passar do tempo, a Aracy-cantora daria lugar à Aracy-jurada. Sempre foi muito grata a Sílvio Santos: “Bom patrão, é gente que sabe tratar. Esse é em cima. Tudo que a gente quer, ele dá”. Em 1988, Aracy tem um edema pulmonar e se interna em São Paulo, sendo transferida para o hospital do SEMEG, no bairro da Tijuca, em seu Rio de Janeiro natal. Após dois meses em coma, recuperou a lucidez, mas, após dois dias, a 20 de junho, tem um súbito aumento de pressão e vem a falecer,  deixando infelizmente para as novas gerações apenas a imagem da jurada de TV.
Pois nesta edição do GRB, apresentamos dezesseis dos melhores momentos  da Aracy cantora, que não pode nem deve ser esquecida,  sendo ontem, hoje e sempre, “o samba em pessoa”.  Começando a seleção com o pé direito, “Tenha penha de mim”, de Cyro de Souza e Babaú, gravação Victor de 17 de agosto de 1937 lançada em novembro desse ano com o número 34229-A, matriz 80596, e um dos maiores hits do carnaval de 38. Também da Victor e de um ano antes, é a faixa seguinte, “Contentamento”, de Bucy Moreira e Raul Marques, que ela gravou em  9 de setembro de 1936 com lançamento em novembro seguinte, disco 34106-A, matriz 80215. A faixa seguinte, o samba-rumba ou sambatuque “Nasci para bailar, nasci para sambar”, ostenta uma curiosidade: foi composta e gravada por Joel de Almeida na época em que ele morava na Argentina, período esse que ele próprio considerava o melhor de sua vida. Com letra em espanhol do próprio Joel e de Tasiro, recebeu versão por Fernando Lobo, que Aracy grava na Odeon em 19 de julho de 1948, com lançamento em setembro desse ano sob número  12876-A, matriz 8390. Um ano depois, Fernando Lobo escreveu novos versos para a música, e essa outra letra seria gravada por Marlene com o título reduzido para “Nasci para bailar”, e sem o nome de Tasiro no selo.  Retornando à Victor, temos uma dupla “braba”, Ataulfo Alves e Wilson Batista, assinando “Eu não sou daqui”, gravação de 3 de abril de 1941, lançada em julho do mesmo ano com o n.o 34757-A, matriz 52170. Wilson assina a faixa seguinte com Cyro de Souza, “Ganha-se pouco mas é divertido”, gravação de 2 de junho de 1941 lançada em agosto seguinte com o n.o 34780-A, matriz S-052232. Wilson Batista também fez com Rubens Soares “Gênio mau”, que Aracy imortaliza na marca do cachorrinho Nipper na mesma sessão de “Ganha-se pouco…” e é lançado em  setembro do mesmo ano no disco 34787-A, matriz S-052230. Não para por aí: também em 2 de junho de 1941 a “Araca” imortaliza “Falta de sorte”, de Geraldo Pereira e Marino Pinto, matriz S-052233, e será o lado B de “Ganha-se pouco mas é divertido”. Em janeiro de 1953, Aracy lança na Continental, para o carnaval desse ano, outro samba, “Por que é que você chora?”, de Bucy Moreira  e do cantor Ary Cordovil, com o número 16695-B, matriz C-3017. Retornando à Victor, temos “Oh! Dona Inês”, da dupla Wilson Batista-Marino Pinto, gravação de 27 de março de 1940 que vai para as lojas em junho com o n.o 34609-A, matriz 33364, disco do qual também foi escalado o verso, da mesma dupla, matriz 33365, “Brigamos outra vez”.  “Mal agradecida”, também de Wilson Batista, aqui com Bucy Moreira, por sinal neto da lendária Tia Ciata, é gravado na Odeon pela “Araca” em 9 de junho de 1948, com lançamento em julho sob n.o  12867-B, matriz 8378. Outro nome lendário do samba, João da Baiana, assina com o ex-pugilista Kid Pepe “Pra que tanto orgulho?”, batucada que Aracy grava na Victor em 2 de outubro de 1939 e lança em novembro sob n.o 34518-B, matriz 33169, visando o carnaval de 40. A faixa seguinte é um autêntico clássico do mestre Ary Barroso: “Camisa amarela”, imortalizado pela “Araca” na mesma Victor em 31 de março de 1939 com lançamento em junho seguinte sob n.o  34445-A, matriz 33047, e que o próprio Ary considerava a melhor gravação deste seu samba. Temos depois a sensível e comovente interpretação de Aracy para a “canção regional” “Mamãe baiana”, de Xerém e do teatrólogo Joracy Camargo, autor da famosa peça “Deus lhe pague”, imortalizada em 14 de fevereiro de 1940 com lançamento em abril do mesmo ano com o n.o 34586-A, matriz 33322. Foi também escalada outra canção, constante do verso desse disco e gravada na mesma sessão, matriz 33325: “Minha saudade”, concebida pelo violonista Laurindo de Almeida (1920-1995), que mais tarde passaria a residir nos EUA, onde desenvolveu uma carreira repleta de prestígio e prêmios. Encerrando esta seleção, um samba de Haroldo Barbosa, também jornalista, roteirista e produtor de programas de rádio e televisão, inclusive de cunho humorístico: “Quando esse nêgo chega”, gravação Odeon de 19 de julho de 1948, lançada em setembro desse ano com o n.o  12876-B, matriz 8389, o outro lado de ‘Nasci para bailar, nasci para sambar”. Uma seleção assinada, como se vê, por grandes autores, e que comprova a observação feita pelo pesquisador Abel Cardoso Júnior: “Se Aracy de Almeida não perdoava falsos valores, é porque ela mesma  jamais deu ao público nada menos que o melhor”. Ouçam e comprovem!
* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO
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