{"id":796,"date":"2010-07-02T13:08:00","date_gmt":"2010-07-02T13:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.toque-musicall.com\/?p=796"},"modified":"2010-07-02T13:08:00","modified_gmt":"2010-07-02T13:08:00","slug":"sergio-ricardo-estoria-de-joao-joana-1985","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.toque-musicall.com\/?p=796","title":{"rendered":"Sergio Ricardo &#8211; Est\u00f3ria De Jo\u00e3o-Joana (1985)"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_DSKVEvHtskc\/TC3k82PWa6I\/AAAAAAAAGuQ\/C-FJl8DaHhE\/s1600\/CAPA+P.JPG\"><img decoding=\"async\" style=\"TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 398px; CURSOR: hand\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5489295254837685154\" border=\"0\" alt=\"\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_DSKVEvHtskc\/TC3k82PWa6I\/AAAAAAAAGuQ\/C-FJl8DaHhE\/s400\/CAPA+P.JPG\" \/><\/a> Ol\u00e1 torcedores cultos e ocultos! Hoje \u00e9 sexta feira, dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo e tamb\u00e9m dia do disco\/artista independente aqui no Toque Musical. Ao contr\u00e1rio dos outros dias de jogos da nossa Sele\u00e7\u00e3o, eu hoje n\u00e3o farei nenhuma postagem relacionado ao tema futebol ou Copa do Mundo. Deixarei para fazer uma postagem especial se o Brasil se sagrar o campe\u00e3o, combinado?<br \/>Escolhi este disco por diversas raz\u00f5es, mas principalmente porque daqui a pouco come\u00e7a o jogo e eu acredito que depois n\u00e3o terei tempo nem cabe\u00e7a para faz\u00ea-lo. Da\u00ed, optei por um daqueles de gaveta, sempre prontos para as eventualidades. Eu at\u00e9 pensei que j\u00e1 houvesse postado este disco anteriormente. Felizmente vai ser ele que vai salvar o dia. Para n\u00e3o prolongar e tamb\u00e9m porque este trabalho merece mais aten\u00e7\u00e3o, decidi incluir logo a baixo o sempre providencial texto de Aramis Millarch. Esse \u00e9 o cara! Leiam&#8230;<br \/><em><\/em><br \/><em>Meu irm\u00e3o, o sucedido<br \/>Em Lages do Caldeir\u00e3o<br \/>\u00e9 o caso de muito ensino<br \/>Por isso \u00e9 que me apresento<br \/>Fazendo esta rela\u00e7\u00e3o<br \/><\/em>Curiosos os caminhos art\u00edsticos de S\u00e9rgio Ricardo. Paulista de Mar\u00edlia (18\/06\/1932), filho de um liban\u00eas que tocava ala\u00fade, se identificaria extraordinariamente com o Nordeste ao ponto de criar a mais baiana das trilhas sonoras &#8211; o cl\u00e1ssico escore de &#8220;Deus e o Diabo na Terra do Sol&#8221; (1963). Subindo ainda mais, no cinematogr\u00e1fico espa\u00e7o da Fazenda Nova, no agreste pernambucano (aonde anualmente acontece a magn\u00edfica representa\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o de Cristo), S\u00e9rgio ali rodaria um filme-cordel (&#8220;A Noite do Espantalho&#8221;, 1974), obra fascinante, imerecidamente pouco reconhecida na \u00e9poca.<br \/>Pianista de boate nos anos 50, sem curtir etilicamente as reuni\u00f5es da turma da Bossa Nova, faria dois elep\u00eas fundamentais do movimento (&#8220;N\u00e3o Gosto Mais de Mim&#8221;, 1960; &#8220;Depois do Amor&#8221;, 1961); para, em seguida, passar a uma fase extremamente social.<br \/>Cineasta, compositor, cantor, violonista, pianista, poeta, argumentista, o m\u00faltiplo S\u00e9rgio Ricardo se afastaria do consumismo industrial-art\u00edstico para viver alguns anos num barraco duma das favelas do Rio &#8211; mas sem deixar de possuir sua confort\u00e1vel casa na Urca. Sem poder realizar os projetos cinematogr\u00e1ficos de longa-metragem desejados, voltou-se, entretanto, para excelentes curtas-metragens e filmes publicit\u00e1rios.<br \/>Este m\u00faltiplo e sempre genial artista mostra que, aos 53 anos, ainda a apar\u00eancia jovem de 30 anos passados, continua em vigor de cria\u00e7\u00e3o. E apresenta uma obra maravilhosa, desenvolvida nada menos do que em parceria com Carlos Drumond de Andrade.<br \/><em>No ch\u00e3o de terra, essa terra<br \/>Que a todos n\u00f3s vai comer,<br \/>chorava uma criancinha<br \/>acabada de nascer,<br \/>e Jo\u00e3o, de peito desnudo,<br \/>acarinhava esse ser<br \/><\/em>Da leitura atenta de uma experi\u00eancia que o poeta maior Carlos Drumond de Andrade fez de fato acontecido no Nordeste h\u00e1 alguns anos &#8211; &#8220;Est\u00f3ria de Jo\u00e3o-Joana&#8221; &#8211; S\u00e9rgio Ricardo imaginou um grande bal\u00e9 brasileiro. Assim como havia feito h\u00e1 anos, ao musicar a obra-prima de seu amigo Ziraldo, &#8220;Flicts&#8221; (1), S\u00e9rgio colocou sua sensibilidade musical no cordel de Drummond, que fala de Jo\u00e3o que era Joana &#8211; um caso de mulher criada como homem, como outro contador de est\u00f3rias, o mineiro Guimar\u00e3es Rosa j\u00e1 havia colocado no personagem de sua obra mais famosa (&#8220;Grandes Sert\u00f5es: Veredas&#8221;, 1956).<br \/><em>Nem menino nem menina<br \/>era Jo\u00e3o quando nasceu<br \/>A m\u00e3e, sem saber ao certo,<br \/>o nome de Jo\u00e3o lhe deu,<br \/>dizendo: Vai vestir cal\u00e7a<br \/>e n\u00e3o saia que nem eu.<br \/><\/em>Aos poema-cordel de Drummond, S\u00e9rgio acrescentou a m\u00fasica. Pediu ao maior dos arranjadores brasileiros, Radam\u00e9s Gnattali para fazer a orquestra\u00e7\u00e3o. Entusiasmado, levou o projeto do bal\u00e9 &#8220;Est\u00f3rias de Jo\u00e3o-Joana&#8221; para uns amigos de muitos embates ideol\u00f3gicos &#8211; art\u00edsticos, Gianfrancesco Guarnieri, com quem trabalhou em &#8220;Ponto de Partida&#8221; e que hoje \u00e9 o secret\u00e1rio da Cultura de S\u00e3o Paulo. Guarnieri gostou do projeto e disse: &#8220;Toque em frente&#8221;. S\u00e9rgio fez: convocou Alexandre Gnattali, irm\u00e3o de Radam\u00e9s, para a reg\u00eancia, arregimentou quase 30 dos melhores m\u00fasicos do Rio e gravou uma bel\u00edssima trilha &#8211; com ele ao viol\u00e3o, piano e voz &#8211; mais ainda, fazendo os arranjos.<br \/>Trabalho pronto, a decep\u00e7\u00e3o: com mil e uma desculpas (esfarrapadas), Guarnieri tentou tirar o corpo fora. N\u00e3o havia verba, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f2es de bancar o espet\u00e1culo. Resultado: S\u00e9rgio amargou pesado preju\u00edzo.<br \/>Honrando o sangue de liban\u00eas de coragem, homem que n\u00e3o leva desaforo para casa &#8211; (remember sua m\u00e1scula atitude em outubro de 1967, quando quebrou o viol\u00e3o no palco da TV-Record, furioso porque o p\u00fablico vaiou &#8220;Beto Bom de Bola&#8221; no II Festival de MPB), S\u00e9rgio n\u00e3o se deu por vencido. Procurou outras f\u00f3rmulas de terminar o trabalho e, finalmente, &#8220;Est\u00f3ria de Jo\u00e3o-Joana&#8221; estreou no Teatro Jo\u00e3o Caetano, na noite de 2 de maio \u00faltimo, com o grupo N\u00f3s da Dan\u00e7a.<br \/>Entretanto, um espet\u00e1culo desta beleza n\u00e3o poderia ficar apenas no teatro, em poucas apresenta\u00e7\u00f5es. Seria injusto para com milhares de pessoas que tanto admiram ao multi-talento de S\u00e9rgio Ricardo.<br \/><em>Homem \u00e9 gr\u00e3o de poeira<br \/>na estrada sem horizonte;<br \/>mulher nem chega a ser isso<br \/>e tem de baixar a frente<br \/>ante as ruindades da vida,<br \/>da altura maior que um monte<br \/><\/em>&#8220;Est\u00f3ria de Jo\u00e3o-Joana&#8221; n\u00e3o poderia ficar sem o disco. E, felizmente, ele aconteceu. De forma independente, numa produ\u00e7\u00e3o de incr\u00edvel bom gosto e, seguramente, um \u00e1lbum para merecer o trof\u00e9u Chiquinha Gonzaga, o Grammy dos alternativos. Como todo disco independente n\u00e3o \u00e9 encontrado nas lojas e os interessados devem pedir diretamente a S\u00e9rgio: Rua S\u00e3o Salvador, 41\/ cob. 01 &#8211; Laranjeiras, CEP 22231 &#8211; Rio de Janeiro &#8211; Fone: 265-6279).<br \/>Dif\u00edcil dizer o que \u00e9 mais belo neste disco: se o cordel de Drummond, se a m\u00fasica e a voz de S\u00e9rgio ou se a orquestra\u00e7\u00e3o de Radam\u00e9s Gnattali. Longos momentos instrumentoia intercalando a voz forte e nordestina de [S\u00e9rgio], que conhecemos desde o lirismo de &#8220;O Nosso Olhar&#8221; aos gritos de guerra de &#8220;Te entrega corrisco\/eu n\u00e3o me entrego n\u00e3o\/Eu n\u00e3o sou passarinho\/para viver l\u00e1 na pris\u00e3o&#8221;.<br \/><em>Saibam quantos deste caso<br \/>houveram ci\u00eancia, que a vida<br \/>n\u00e3o anda, em favor e gra\u00e7a,<br \/>Igualmente repartida,<br \/>e que a dor ensombra a falta<br \/>de amor de paz e comida<br \/><\/em>&#8220;Est\u00f3ria de Jo\u00e3o-Joana&#8221; \u00e9 um canto-de-cordel, falando das coisas do povo. Mais do que um disco, \u00e9 um momento maior de brasilidade, numa embalagem de extremo bom gosto, com ilustra\u00e7\u00f5es t\u00e3o nordestinas de Ciro que fazem do encarte\/capa uma obra de arte visual.<br \/>A voz de S\u00e9rgio Ricardo \u00e9 \u00fanica e marcante, de uma for\u00e7a extrema. Drummond, neste poema-cordel, mostra uma face diferente &#8211; mas igualmente extraordin\u00e1ria. E arregimenta\u00e7\u00e3o de tantos bons m\u00fasicos numa sonoriza\u00e7\u00e3o colorida, faz com que tenhamos um daqueles exemplos de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica fora de s\u00e9rie, destinados a se tornarem raridades t\u00e3o logo esgote a edi\u00e7\u00e3o.<br \/><em>Meu amigo, meu irm\u00e3o,<br \/>eu nada te pe\u00e7o a ti<br \/>sen\u00e3o me ouvir com paci\u00eancia<br \/>de Minas ao Piau\u00ed;<br \/>tendo contado meu conto,<br \/>adeus me despe\u00e7o aqui.<br \/><\/em><br \/><span style=\"font-size:78%;\">*Artigo de Aramis Millarch originalmente publicado em 18 de agosto de 1985 no Jornal Estado do Paran\u00e1<\/span><br \/><span style=\"font-size:78%;\"><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size:78%;\"><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ol\u00e1 torcedores cultos e ocultos! 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