Cyro Monteiro – Seleção 78 RPM Do Toque Musical – parte 2 – Vol. 67 (2013)

 “Uma criatura de qualidades tão raras que eu acho improvável qualquer de seus amigos não se haver dito, num dia de humildade, que gostaria de ser Cyro Monteiro. Pois Cyro, pra lá do cantor e do homem excepcional, é um grande abraço em toda a humanidade”. Foi assim que o eterno Poetinha Vinícius de Moraes (1913-1980) se referiu ao “Formigão”, ou ainda “o cantor das mil e uma fãs”, na contracapa do LP “Senhor samba”, lançado em 1961 pela Columbia, hoje Sony Music.  Coincidentemente, estamos comemorando neste 2013 o centenário de ambos, Vinícius e Cyro.
E é com muita alegria e prazer que o GRB traz a segunda parte da retrospectiva que iniciamos semana passada, em comemoração ao centenário do nascimento de Cyro Monteiro.  Desta feita, apresentamos mais 16 preciosos e históricos fonogramas, todos da RCA Victor,  incluindo clássicos de seu repertório, e por tabela, da própria MPB.
Pois, mais uma vez, Cyro está aqui muitíssimo bem servido, apresentando composições de alguns dos monstros sagrados do samba nessa época. Caso, por exemplo, de Wilson Batista (outro cujo centenário estamos comemorando neste 2013).  Ele assina com mestre Ataulfo Alves de Miraí a faixa de abertura de nossa seleção da semana, “Você é o meu xodó”, gravação de 5 de junho de 1941 lançada em agosto do mesmo ano, disco 34781-B, matriz S-052235. Temos em seguida “Você está sumindo”, de Geraldo Pereira  (de quem Cyro foi assíduo freguês) e Jorge de Castro, gravado em 2 de abril de 1943 e lançado em junho do mesmo ano sob n.o 80-0085-A, matriz S-052742. De Alcides Rosa e Djalma Mafra  é “Abriu-se o pano”, gravação de 22 de janeiro de 1946, lançada em abril seguinte com o n.o 80-0389-A, matriz S-078417. “A mulher que eu gosto”, de Wilson Batista e Cyro de Souza, é um clássico do repertório do “Formigão”, que o imortalizou em 28 de março de 1941, com lançamento em junho desse ano sob n.o 34745-A, matriz 52164. Wilson assina depois, mais uma vez com mestre Ataulfo, “Mania da falecida”,  registro de 30 de maio de 1939, lançado em agosto com o n.o 34470-A, matriz 33077. Em seguida vem um clássico dos clássicos do samba brasileiro: “Falsa baiana”, obra-prima de Geraldo Pereira, em gravação de 3 de abril de 1944, lançada em junho seguinte sob n.o 80-0181-A, matriz S-052940. Obrigatório na lista dos maiores sambas de todos os tempos, foi inspirado na fantasia de baiana que a esposa do compositor Roberto Martins usava no carnaval do ano anterior, 1943. Ela não sabia sambar, e estava longe de ser uma baiana cem por cento. Foi o que levou Geraldo Pereira a fazer este clássico, inicialmente oferecido a Roberto Paiva, que não quis gravá-lo, estranhando seu ritmo “quebrado”. Azar dele, porque com Cyro Monteiro estourou! Tem várias regravações, inclusive de João Gilberto e Gal Costa. Geraldo assina, em parceria com Príncipe Pretinho (autor de outro samba clássico, “Só pra chatear”), a faixa seguinte, “Voltei  mas era tarde”, gravação do “Formigão” em 13 de setembro de 1944 lançada em novembro seguinte com o n.o 80-0228-B, matriz S-078053. Outro grande nome do samba, Ismael Silva (1905-1978), responsável por clássicos como “Se você jurar”, “Novo amor”, “Arrependido” e “Antonico”, assina aqui “Não vá atrás de ninguém”, gravação de 3 de setembro de 1941, lançada em novembro desse ano com o n.o 34822-B, matriz S-052346. Ernâni Alvarenga, conhecido como “o samba falado da Portela”, assina com Jardel Noronha “Linda Iaiá”, que o “Formigão” irá imortalizar no dia 14 de agosto de 1940, e será lançado em outubro do mesmo ano com o n.o 34666-A, matriz 33486. Cyro volta a interpretar Ismael Silva na próxima faixa, “Eu sou um”, que, como exceção ao repertório essencialmente sambístico desta edição, é uma marchinha, visando o carnaval de 1940, gravação de 11 de outubro de 39 lançada ainda em dezembro, disco 34529-A, matriz 33184. Ainda no setor carnavalesco, e voltando ao samba, temos “Golpe errado”, do trio Geraldo Pereira-Cristóvão de Alencar (o “amigo velho”)-David Nasser, da folia momesca de 1946, gravado em 4 de novembro de 45 e editado bem em cima dos festejos, em fevereiro, sob n.o 80-0383-A, matriz S-078405. Em seguida outro inesquecível clássico da parceria Ataulfo Alves-Wilson Batista: “O bonde São Januário”, hit absoluto no carnaval de 1941, gravado em 18 de outubro de 40 e lançado ainda em dezembro sob n.o  34691-A, matriz 52022. Foi inclusive o samba vencedor do concurso oficial de músicas carnavalescas promovido pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), da ditadura getulista, superando até mesmo “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, inscrito por motivos políticos. Até uma paródia foi feita ironizando os torcedores do Vasco; “O bonde São Januário/ leva um português otário/ pra ver o Vasco apanhar”…, Logo depois, Geraldo Pereira e Ari Monteiro assinam “Ai, mãezinha”, gravação de 28 de maio de 1946, lançada em setembro do mesmo ano com o n.o  80-0437-A, matriz S-078529. De Geraldo é também, parceria com J. Portela, “Até hoje não voltou”, gravado por Cyro na mesma sessão, matriz S-078530, sendo o lado B de “Ai, mãezinha”. Numa prova de que estava mesmo com a corda toda nessa época, Geraldo Pereira assina com Elpídio Viana outro clássico do samba, “Pisei num despacho”, que o “Formigão” imortaliza em 17 de abril de 1947 com lançamento em junho seguinte sob n.o 80-0518-A, matriz S-078745. É outra peça que tem regravações aos cachos, com destaque para as de Roberto Silva e Jackson do Pandeiro. E, para encerrar este autêntico show de criações do grande Cyro Monteiro, Wilson Batista e Germano Augusto assinam “Tá maluca”, gravação de 10 de maio de 1940, lançada em julho com o n.o 34627-B, matriz 33428. Esta é a justíssima homenagem do GRB ao grande Cyro Monteiro, para sempre um monstro sagrado do samba e da música popular brasileira!
* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO

Deixe uma resposta