Adelaide Chiozzo (parte B) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 126 (2014)

E aqui estamos mais uma vez com o meu, o seu, o nosso Grand Record Brazil. Esta semana concluímos a retrospectiva dedicada à cantora, atriz e acordeonista  Adelaide Chiozzo, uma verdadeira  estrela dos áureos tempos do rádio e dos filmes musicais.  Durante os 25 anos em que permaneceu na Rádio Nacional, Adelaide era anunciada de diversas maneiras, conforme o programa: “A Que Tem Simpatia Para Dar e Vender” (César de Alencar),  “A Bela e o Seu Acordeão” (Paulo Gracindo) e, aí já incluindo seu marido, o violonista Carlos Matos, “O Casal 20” (Manoel Barcelos).  Desta feita, o GRB oferece mais dez preciosas gravações da notável Adelaide. Abrindo a seleção desta semana, a polca “Zé da Banda”, de autoria do acordeonista (e também professor de acordeão)  Alencar Terra, em dueto com sua amiga e parceira de cinema  Eliana Macedo.  Saiu pela Star em maio-junho de 1952, sob número 345-A.  Em seguida, o belo baião “Nós três”, de autoria de Garoto, Fafá Lemos e Chiquinho do Acordeão, cujo título, por certo, se refere a eles mesmos.  A música surgiu pela primeira vez em disco, em versão apenas instrumental , em julho de 1955, na execução do acordeonista Ribamar. Logo em seguida, Adair Badaró, sem precisar mexer no título, escreve uma letra tendo em vista o nascimento de Creuza Maria, filha única de Adelaide Chiozzo e Carlos Mattos. Outros três… A versão cantada de Adelaide saiu pela Copacabana em outubro-novembro de 1955, sob número 5470-B, matriz M-1252. Temos depois a valsa junina “Casório lá do arraiá”, da conhecida dupla de autores Getúlio Macedo-Lourival Faissal, em que Adelaide é acompanhada por uma bandinha que parece ser a do mestre Altamiro Carrilho, à época (1954) também contratado da Copacabana, que lançou a composição sob n.o 5248-A, matriz M-808. A rancheira “Tempinho bom”, de autoria de outro grande mestre do acordeão, Mário Zan, em parceria com Sereno, é também gravação Copacabana de 1954, lançada pouco antes (disco 5201-B, matriz M-690), e Adelaide também a cantou no filme “O petróleo é nosso”, da Brasil Vita Filmes (em nosso volume anterior, está o lado A, a toada “Meu sabiá”, incluída no mesmo filme). Neste registro, o acompanhamento orquestral é de Alexandre Gnattali, irmão de Radamés.  O baião junino “Vai comendo, Raimundo…”, nossa faixa seguinte, também de 54, vem a ser o lado B de “Casório lá do arraiá”, matriz M-809, e foi composto por Petrus Paulus e Ismael Augusto.  Adelaide e Eliana  voltam a se encontrar em nossa sexta faixa, “Vapô de Carangola”, um coco muito animado, de autoria de dois grandes expoentes da MPB, ambos pernambucanos, Manezinho Araújo, “O Rei da Embolada”, e Fernando Lobo, jornalista e produtor,  pai do compositor-cantor Edu Lobo. É o lado B do disco de “Zé da Banda”, o Star 345, lançado em maio-junho de 1952. A rancheira “Tempo de criança”, de João de Souza e Ely Turquine, é o lado B do primeiríssimo disco de Adelaide Chiozzo, o Star 192,lançado em janeiro de 1950, e do qual já apresentamos o lado A, o clássico “Pedalando”.  A rancheira foi também apresentada por Adelaide no filme “E o mundo se diverte”, da Atlântida”, onde sua amiga e parceira Eliana Macedo (antes uma professora primária em Itaocara, interior fluminense, descoberta por seu tio, Watson Macedo, durante uma visita à cidade) também fez sua estreia no cinema, como atriz. O baião “É noite, morena” é dos irmãos Hervê e Renê Cordovil, lançado pela Star em julho-agosto de 1952, sob número 367-A. Temos depois um outro baião, este junino, “Papel fino”, de autoria de Mirabeau, Cid Ney e Don Madrid, que a Copacabana leva para as lojas em 1956, disco 5590-A, matriz M-1544. Encerrando esta seleção, a valsa “Meu papai”, outra composição de Getúlio Macedo e Lourival Faissal, feita, como indica o título, para o Dia dos Pais, data que começou a ser comemorada entre nós em 1953, no Rio de Janeiro, e dois anos mais tarde em São Paulo.  Cantada por Adelaide junto com o coro do programa “Clube do Guri”, então transmitido pela Rádio Tamoio do Rio de Janeiro, saiu pela Copacabana em 1956, sob número 5640-A, matriz M-1648. Portanto, aí está, para deleite de todos os que apreciam o que é bom e fica para sempre, a segunda e última parte do retrospecto dedicado pelo nosso GRB à notável Adelaide Chiozzo, estrela que deixou sua  marca indelével  na música e no cinema do Brasil.
* Texto de Samuel Machado Filho

Adelaide Chiozzo (parte 1) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 125 (2014)

Esta semana o Grand Record Brazil, o “braço de cera” do TM,  oferece a primeira de duas partes de uma retrospectiva dedicada a uma notável estrela dos áureos tempos do rádio e dos filmes musicais, extraordinária cantora, acordeonista e atriz: Adelaide Chiozzo. Nossa homenageada veio ao mundo em São Paulo, no dia 13 de maio de 1931, na Rua Martim Buchard, no bairro do Brás, tradicional reduto de italianos e seus descendentes. Residia perto das porteiras do Brás, nas quais costumava se dependurar quando elas se moviam para dar passagem ou impedir o trânsito, autêntico divertimento das crianças nessa época. Seu pai,Geraldo Chiozzo, era natural de Botucatu, interior paulista, e a mãe,Leonor Cavallini, era de Sorocaba. . Hábil marceneiro e mestre-entalhador, Geraldo Chiozzo era gerente da fábrica de móveis Paschoal Bianco. Mais tarde passou a trabalhar por conta própria, recebendo encomendas da mesma empresa.  Certa vez, uma loja de músicas pagou os serviços do “seu” Geraldo com um acordeão, que ele não conseguia tocar (o forte dele era o violão).  Quem acabou se interessando pelo  instrumento foi Adelaidinha, que às escondidas tirou a primeira música, a valsa “Saudades de Matão”, sem auxílio de professor.  Os quatro filhos de Geraldo e Leonor, aliás, tinham inclinação musical. Carolina, a mais velha, cantava e tocava violão. O segundo filho, Afonso, também era de acordeão. A filha caçula, Silvinha, cantava, e Adelaide,a terceira filha, é o que sabemos. Aos 11 anos, Adelaidinha se inscreveu num programa de calouros da PRH-9, Rádio Bandeirantes (então “a mais popular emissora paulista”), apresentado por Vicente Leporace, apenas solando músicas como “Branca” e “Saudades de Matão”.  Cumpridas  quatro etapas, ganhou o primeiro prêmio, em dinheiro, e o convite para atuar em um programa sertanejo matinal da mesma emissora, “Na Serra da Mantiqueira”, dirigido pelos Irmãos Mota, que também faziam seus números.  Para maior segurança da garota, seu pai, homem rígido, determinou que Afonso, com seu acordeão, fizesse dupla com ela: os Irmãos Chiozzo.  Durante alguns anos, eles passaram a excursionar pelo interior junto com os Irmãos Mota. E toda a família Chiozzo  ia em peso, inclusive “seu” Geraldo, de violão em punho,  e Dona Leonor, a única não incorporada à parte artística.  Durante uma apresentação na cidade mineira de Andradas, em 1945, alguém adentrou o recinto e anunciou, aos gritos, o fim da Segunda Guerra Mundial. Artistas e público imediatamente saíram às ruas, cantando, para comemorar. Em 1946, o pai de Adelaide Chiozzo se muda para Niterói e monta uma pequena fábrica de móveis. O compositor Irany de Oliveira, por acaso, redescobre a futura estrela e a leva ao prestigioso programa de calouros “Papel carbono”, de Renato Murce, na lendária Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Renato exigia uma imitação e ela escolhe a de Pedro Raimundo, “o gaúcho alegre do rádio”. Após quatro semanas, ganha o primeiro prêmio e um contrato da Nacional, mas apenas como acordeonista , pois acreditavam que ela tinha mesmo aquela voz imitativa. Assim passa a fazer parte do regional do flautista Dante Santoro, um dos melhores do Brasil, mesmo sendo mulher e jovenzinha, porém à altura daqueles músicos experientes. Um ano e meio depois, uma cantora falha durante a transmissão e Adelaide, que a acompanhava ao acordeão, a substitui na emergência. Só assim descobrem sua bela voz, passando a aproveitá-la também como cantora. Permaneceria na Rádio Nacional por 25 anos. Foi também Irany de Oliveira quem levou Adelaide, em 1946, com quinze anos, para um teste de cinema na Atlântida, sendo aprovada. Ela e o irmão Afonso acompanham o cantor-caubói Bob Nélson em dois filmes: “Este mundo é um pandeiro” (1947) e “É com esse que eu vou” (1948). Em “E o mundo se diverte” (1949), consegue um quadro só seu, interpretando a rancheira “Tempo de criança”, que mais tarde gravaria e estará em nosso próximo volume. Estreou como atriz no filme “Carnaval no fogo” (1949), onde também interpretou a polca “Pedalando”, que seria para sempre seu carro-chefe e consta deste volume.  Atuou também em “Aviso aos navegantes” (Atlântida, 1950), “O petróleo é nosso” (Brasil Vita Filmes, 1954) e “Garotas e samba” (Atlântida, 1957), entre outros filmes. Em janeiro de 1951, casou-se com o violonista e professor de violão Carlos Azevedo Matos (entre namoro, noivado e casamento foram apenas seis meses, pois “seu” Geraldo  não abria mão da marcação cerrada). Tiveram uma única filha, Cristina Maria, nascida em 1955, que lhe deu três netos, também músicos talentosos, que passariam também a acompanhar Adelaide em suas apresentações:  o baixista e guitarrista Bruno, o tecladista e cavaquinista Fábio Leandro, e o baterista Roberto.  O casamento durou até a morte de Carlos Matos, em 2006, aos 80 anos de idade. Por sugestão de Paulo Gracindo, a “Revista do Rádio” promoveu um concurso para escolher a Namoradinha do Brasil, por votação dos leitores. Adelaide ganhou, e ostentaria esse título para sempre, pois não houve outra eleição. Em 1975, seu espetáculo “Cada um tem o acordeão que merece” foi considerado pela crítica o melhor daquele ano. Em 2003, recebeu da Assembleia Legislativa do Ceará o título honorário de “cidadã cearense”. Adelaide Chiozzo gravou,em 78 rpm, 18 discos com 36 músicas, entre 1950 e 1958, sendo oito delas em dueto com Eliana Macedo, também atriz e sobrinha do cineasta Watson Macedo, e duas com sua irmã Sylvinha, todos pela Star e sua sucessora, a Copacabana.  Ainda gravou, em 1957, o LP “Lar… Doce melodia”, também na Copacabana.  Na televisão, atuou nas novelas “Feijão maravilha” (1979), “Cambalacho” (1986), “Deus nos acuda” (1992-93), todas pela Rede Globo, e na segunda versão de “Uma rosa com amor” (2010), pelo SBT.
Nesta primeira parte da retrospectiva que o GRB dedica a Adelaide Chiozzo, temos onze gravações históricas, nas quais, em sua maior parte, é acompanhada pelo conjunto do marido Carlos Matos.  Para começar, temos o clássico “Beijinho doce”, valsa ou corrido de José Alves dos Santos, o Nhô Pai, originalmente lançado pelas Irmãs Castro em 1945. Adelaide o interpretou junto com Eliana Macedo no filme “Aviso aos navegantes”, da Atlântida, e ambas repetiram o dueto em disco, o Star 263-A, em gravação de 1951. Na faixa seguinte, Adelaide recorda, em ritmo de baião (em moda na época),  a canção “Minha casa”, de Joubert de Carvalho, originalmente gravada por Sílvio Caldas em 1946. O registro de Adelaide saiu pela Star em julho-agosto de 1952, disco 367-B. Em seguida, a toada “Meu sabiá”, de Carlos Matos em parceira com Antônio Amaral. Saiu pela Copacabana  em 1954, sob número 5201-A, matriz M-689, sendo também cantada por Adelaide no filme “O petróleo é nosso”,  da Brasil Vita Filmes. A orquestração e a regência são de Alexandre Gnattali, irmão de Radamés.  “Sabiá na gaiola”, clássico baião de Hervê Cordovil e Mário Vieira, é outro duo de Adelaide com Eliana Macedo, que o interpretaram no filme “Aí vem o barão”, outra produção da Atlântida.  Originalmente lançado por Carmélia Alves, em 1950, seria regravado um ano mais tarde por Adelaide e Eliana na Star, disco 264-A. “Nossa toada”, feita para outro filme da Atlântida, “Garotas e samba” (onde Adelaide faz par romântico com o cantor Francisco Carlos, “El Broto”),  é gravação Copacabana de 1957, lançada com o número  5750-A, matriz M-1890. Foi composta por Carlos Matos em parceria com Luiz Carlos, um jovem compositor que logo faleceria sem poder assistir ao filme nem ouvir a gravação. Em seguida, temos a marchinha junina “Cada balão uma estrela”, de Zé Violão e Carrapicho, lançada pela Star em julho-agosto de 1952, disco 356-B. O clássico “Cabeça inchada”, outra composição de Hervê  Cordovil, foi originalmente lançado como balanceio, em 1949, por Sólon Sales. Aqui Adelaide Chiozzo e Eliana Macedo o recordam em ritmo de baião, em gravação lançada pela Star no lado B de “Beijinho doce”, disco 263, em 1951, mesmo ano do registro de Carmélia Alves pela Continental.  Adelaide e Eliana voltam a se encontrar nas duas faixas seguintes, lançadas em janeiro de 1953 para o carnaval,pela Copacabana, sob número 5026: o samba “Com pandeiro na mão” (lado B, matriz M-283), de Manoel Pinto,  D. Ayrão e Jorge Gonçalves, e a marchinha “Queria ser patroa” (lado A, matriz M-282), só de Manoel Pinto e D. Ayrão,  que Eliana interpretou solo no filme “Carnaval Atlântida”. A seguir, a música que consagrou Adelaide Chiozzo:  a polca “Pedalando”, com melodia do pianista Benê Nunes e letra do ator e futuro cineasta Anselmo Duarte. Adelaide a cantou no filme “Carnaval no fogo”, da Atlântida, sob a direção de Watson Macedo,  num cenário holandês, com moinhos de vento e tudo o mais. É a faixa de abertura de seu primeiro disco, o Star 192, lançado em janeiro de 1950, e aqui o acordeão que acompanha Adelaide é de Alencar Terra. Para terminar, outro clássico de Nhô Pai, agora em parceria com outro grande acordeonista, Mário Zan: o rasqueado “Orgulhoso”, criação das Irmãs Castro em 1947, e aqui apresentada em novo dueto de Adelaide com Eliana Macedo, que saiu pela Star em 1951, no lado B de “Sabiá na gaiola”, disco 264. Na próxima semana, concluiremos esta retrospectiva  que o GRB dedica a Adelaide Chiozzo. Até lá!
*Texto de Samuel Machado Filho

Sambas – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 123 (2014)

E prossegue a gloriosa trajetória do Grand Record Brazil. Já estamos na edição de número 123, e nela estamos apresentando uma seleção especialmente dedicada ao samba. São 15 gravações, com sambas de autores consagrados do gênero, interpretados pelos melhores cantores de sua época.  Abrindo esta edição, temos “Capital do samba”, de José Ramos (1913-2001), fluminense de Campos, que ajudou a fundar a ala de compositores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, na interpretação do sempre notável Gilberto Alves. Gravação Odeon de 9 de setembro de 1942, lançada em outubro do mesmo ano, disco 12214-A, matriz 7053. Dos cariocas João da Baiana (João Machado Guedes, 1887-1974) e Babaú da Mangueira (Waldomiro José da Rocha, 1914-1993) é “Sorris de mim”, a faixa seguinte, interpretada por Odete Amaral, “a voz tropical do Brasil”. Ela o gravou na Victor em 9 de julho de 1940,com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 34657-B, matriz 33463. De Paquito (Francisco da Silva Fárrea Júnior, 1915-1975) e do lendário Paulo da Portela  (Paulo Benjamin de Oliveira, 1901-1949), foi escalado “Arma perigosa”, na interpretação de Linda Rodrigues (Sophia Gervasoni, 1919-1995). É o lado A de seu terceiro 78, o Continental 15423, lançado em setembro de 1945, matriz 1136. Na quarta faixa, um clássico indiscutível do mestre Ary Barroso: é “Morena boca de ouro”,  na interpretação de Sílvio Caldas, que o imortalizou na Victor em 4 de julho de 1941, com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 34793-A, matriz S-052259. Foi várias vezes regravado,inclusive por João Gilberto, que o incluiu em seu primeiro LP, “Chega de saudade”, em 1959. O dito popular “Quem espera sempre alcança” dá título à nossa quinta faixa, mais uma composição do lendário Paulo da Portela. Quem canta este samba é Mário Reis, em gravação lançada pela Odeon em setembro de 1931, disco 10837-B, matriz 4272, com acompanhamento da Orquestra Copacabana, do palestino Simon Bountman. “Quem mandou, Iaiá?” é de Benedito Lacerda (também no acompanhamento com sua flauta mágica e inconfundível) e Oswaldo “Baiaco” Vasques, e foi lançado pela Columbia  para o carnaval de 1934, em janeiro desse ano, na voz de Arnaldo Amaral, disco 22262-A, matriz 1005. Também de Baiaco, em parceria com João dos Santos, é nossa sétima faixa, “Conversa puxa conversa”, gravação Victor de Almirante (“a maior patente do rádio”) em 24 de abril de 1934, lançada em julho do mesmo ano com o n.o 33800-A, matriz 79615, com acompanhamento da orquestra Diabos do Céu, formada e dirigida por Pixinguinha.  Babaú da Mangueira volta em nossa faixa 8, “Ela me abandonou”, samba do carnaval de 1949, em parceria com Taú Silva. Novamente aqui comparece Gilberto Alves, em gravação RCA Victor de 23 de dezembro de 48, lançada um mês antes da folia,em janeiro,disco 80-0591-B, matriz S-078852. Autor de clássicos do samba, Ismael Silva (1905-1978) mostra seu lado de intérprete em “Me deixa sossegado”, que assina junto com Francisco Alves e Nílton Bastos, e foi lançado pela Odeon em dezembro de 1931, disco 10858-B,matriz 4281. De família circense, sobrinho do lendário palhaço Piolim,  o comediante paulista Anchizes Pinto, o Ankito (1924-2009), considerado um dos cinco maiores nomes da era das chanchadas em nosso cinema, bate ponto aqui com “É fogo na jaca”, samba de Raul Marques, Estanislau Silva e Mateus Conde. Destinado ao carnaval de 1954, foi lançado pela Columbia (depois CBS e hoje Sony Music) em janeiro desse ano, sob n.o  CB-10017-B, matriz CBO-152. Paulo da Portela volta na faixa 11, assinando com Heitor dos Prazeres “Cantar pra não chorar”, do carnaval de 1938. Quem canta é Carlos Galhardo, “o cantor que dispensa adjetivos”, em gravação Victor de 15 de dezembro de 37, lançada um mês antes da folia, em janeiro, disco 34278-B, matriz 80634. Na faixa 12, volta José Ramos, agora assinando com o irmão, Marcelino Ramos, “Jequitibá”. Gravação de Zé e Zilda (“a dupla da harmonia”), em 1949, na Star, disco 151-B, por certo visando o carnaval de 50. A eterna “personalíssima”, Isaura Garcia, vem com o samba “Mulher de malandro”, de Hervê Cordovil.  Gravado na Victor em 23 de outubro de 1945, seria lançado apenas em  setembro de 46, sob n.o 80-0431-B, matriz S-078380. Ernani Alvarenga, o Alvarenga da Portela, assina “Fica de lá”, samba do carnaval de 1939, em gravação Odeon de Francisco Alves, datada de 16 de dezembro de 38 e lançada bem em cima da folia,em fevereiro, disco 11700-A,matriz 5995. Por fim, temos o samba “Não quero mais”, samba de autoria de Zé da Zilda (também conhecido por Zé com Fome e José Gonçalves) e Carlos Cachaça (Carlos Moreira de Castro, que apareceu no selo com o sobrenome errado, “da Silva”),  gravado na Victor por Aracy de Almeida  em 9 de setembro de 1936 e lançado em dezembro do mesmo ano, disco 34125-A, matriz 80214, certamente com vistas ao carnaval de 37. Note-se, a respeito deste samba, que Cartola tinha feito duas segundas partes, mas Zé da Zilda fez uma outra segunda parte por conta própria e, assim, eliminou Cartola da co-autoria. Enfim, é uma excelente seleção de sambas que o GRB  nos oferece, para apreciação de todos aqueles que apreciam o melhor de nossa música popular.

* Texto de Samuel Machado Filho

Sertanejos – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 122 (2014)

Já em sua edição de número 122, o Grand Record Brazil volta a oferecer significativa parcela do rico acervo da chamada música sertaneja de raiz aos amigos cultos, ocultos e associados do TM. Uma seleção de quinze preciosíssimas gravações, que por certo farão a alegria dos apreciadores do gênero,  especialmente aqueles que estão decepcionados com o dito “sertanejo universitário”, que tanto tem infestado a mídia nos dias correntes.

Abrindo esta seleção, um representante da música regional nordestina, Zé do Norte (Alfredo Ricardo do Nascimento, Cajazeiras, PB, 18/12/1908-idem, 2/10/1979). Ele nos apresenta aqui uma bela toada que fez em parceria com José Martins, “Lua bonita”, por ele mesmo interpretada no filme “O cangaceiro”, da Vera Cruz, êxito internacional que, no entanto, não impediu a falência do estúdio, pois tal repercussão beneficiou apenas sua distribuidora, a multinacional Columbia Pictures. Gravação RCA Victor de 29 de janeiro de 1953, lançada em abril do mesmo ano, disco 80-1100-B, matriz SB-093595. Conhecido como “a maravilha negra das Américas”, Edson Lopes (c.1930-?) aqui nos oferece o jongo “Cafuné”, assinado pelo campineiro Dênis Brean (Oswaldo Duarte Ribeiro) em parceria com Gilberto Martins. Originalmente lançado por Aracy de Almeida, em 1955, é revivido aqui por Edson em gravação Odeon de primeiro de fevereiro de 1957, lançada em maio do mesmo ano, disco 14202-A, matriz 11543. Da escassa discografia da dupla Coqueiro e Belinha (apenas cinco discos 78 com dez músicas), foi escalada a guarânia “Lei de um mandamento”, de Coqueiro sem parceria.  Foi gravada na Odeon em 13 de junho de 1960, e lançada emjulho do memso ano, disco 14639-A, matriz 50567, sendo que a “marca do templo” o reeditou mais tarde com o selo Orion, sob número R-072. Em seguida apresentamos as faixas do único 78 da dupla Ibirama e Maruí, o RCA Camden CAM-1092, gravado em 17 de outubro de 1961 e lançado em janeiro de 62,com músicas assinadas por Pavãozinho. No lado A, matriz M3CAB-1508, o xote “Linda gaúcha”, em que Pavãozinho tem a parceria de Sereno. No lado B, matriz M3CAB-1509, a canção rancheira “Deixe eu sofrer”, de Pavãozinho sem parceiro.  O “trio orgulho do Brasil”, Luizinho, Limeira e Zezinha, aqui bate ponto com o conhecidíssimo baião “Casamento é uma gaiola”, de autoria do Compadre Generoso (muita gente se lembra dessa música na voz do Sérgio Reis, e aqui vai o registro original) , por eles gravado na Odeon em 2 de abril de 1959 e lançado em junho do mesmo ano sob número 14463-B, matriz 50108, sendo depois relançado com o selo Orion sob número R-058, além de figurar em LP sem título.  A dupla Mariano e Cobrinha, ambos de Piracicaba, SP, apresentam aqui a toada “Mágoas de carreiro”, de autoria do comediante e ventríloquo Batista Júnior, pai das cantoras Linda e Dircinha Batista. Lançada em 1929 pelo próprio autor, é aqui apresentada em gravação feita por Mariano e Cobrinha na Continental em 6 de abril de 1948 e lançada em maio-junhoi do mesmo ano, disco 15902-B, matriz 10839. O próprio Batista Júnior, aliás, agradeceu pessoalmente a dupla por esta regravação. Do único 78 da dupla Oswaldinho e Vieirinha, o RCA Victor 80-1818, gravado em 25 de março de 1957 e lançado em julho do mesmo ano, aqui está o lado B, a toada “Canção do tropeiro”, de exclusiva autoria de Vieirinha, matriz 13-H2PB-0078. Temos em seguida, as faixas do único disco da dupla feminina Chiquita e Chinita,o Columbia CB-10280, lançado em outubro de 1956, ambas de autoria de Francisco Lacerda com parceiros, um em cada música. No lado B, o valseado ‘Cavalinho pampa”, matriz CBO-821, o parceiro de Lacerda é Ricardo Jardim, e no lado A, o tango “Parabéns, meu amor”, matriz CBO-820, o co-autor é José Maffei.  Outra dupla feminina de discografia escassa (seis discos 78 com doze músicas, todos pela Columbia), as Irmãs Cavalcanti (Noemi, que foi vocalista do Trio de Ouro em sua segunda fase,  e Odemi) aqui comparecem com as faixas do disco de estreia, número CB-10029. No lado A, delas próprias, matriz CBO-170, o baião “Lumiô, lumiô”, e no lado B, matriz CBO-171, a guarânia “Ponta Porã”, de Pereirinha e Jamir da Silva Araújo. As Irmãs Maria (Thereza Gadotti e Maria Aparecida Oliveira), também de curta carreira discográfica, aqui apresentam o huapango “Por te querer”, de Piaozinho e Maria Aparecida Oliveira, lançadopela Continental, selo Caboclo, em julho de 1961, disco CS-457-A.  Silveira e Barrinha, “a dupla dos 22 Estados”, nos oferece a clássica moda campeira “Coração da pátria”, de Silveira, Lourival dos Santos e Sebastião Victor, gravação RCA Camden de 25 de maio de 1962, disco CAM-1133-A, matriz N3CAB-1712. E, encerrando esta seleção, Zé Carreiro e Carreirinho, “os maiores violeiros do Brasil”, apresentam o cururu clássico “Saudades de Araraquara”, de exclusiva autoria de Zé Carreiro, gravado na Continental em 9 de maio de 1952 e lançado entre esse mês e junho do mesmo ano, disco 16580-A, matriz 11381. Enfim, a mais autêntica música do sertão brasileiro, para fazer a gente recordar, como diz meu colega de YouTube Adalésio Vieira, “um tempo em que realmente havia música sertaneja”…  Deliciem-se!

*Texto de Samuel Machado Filho

4 Ases & 1 Coringa (parte 2) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 121 (2014)

O Grand Record Brazil, em sua edição de número 121, apresenta a segunda parte de sua retrospectiva dedicada aos  Quatro Ases e um Coringa,  grupo vocal e instrumental cearense que, de fato, deu as cartas durante sua carreira, tanto no rádio quanto no disco.
São mais catorze gravações históricas e indispensáveis para quem estuda , pesquisa e cultua a música popular brasileira dessa época,  feitas pelo grupo cearense na Odeon e na RCA Victor. Abrindo esta seleção, o samba “Meu bairro canta”, de Waldemar Ressurreição, gravado na RCA Victor em 14 de abril de 1950 e lançado em julho do mesmo ano com o número 80-0663-B, matriz S-092658. A faixa seguinte é o clássico baião “Paraíba”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, lançado pouco antes por Emilinha Borba e regravado pelos Quatro Ases e um Coringa na marca do cachorrinho Nipper em 10 de agosto de 1950, com lançamento em outubro seguinte sob número 80-0698-B, matriz S-092732. Temos depois outro clássico, o samba “No Ceará é assim”, de Carlos Barroso, gravação Odeon de 14 de maio de 1942, lançada em agosto do mesmo ano, disco 12183-B, matriz 6565. O divertido samba “Coisas do carnaval”, de Ary Barroso (história de alguém que se apaixona por uma bela mulher e no fim… ) é gravação de 3 de março de 1942, que a “marca do templo” lança em abril seguinte com o número 12137-B, matriz 6909. Outro clássico que temos em seguida é a marchinha “Trem de ferro”, composta pelo cearense (e conterrâneo do grupo) Lauro Maia (1912-1950)e imortalizada na mesma Odeon em 3 de agosto de 1943 e lançado em setembro seguinte sob número 12355-A, matriz 7350. Foi regravada inclusive por João Gilberto, em seu terceiro LP, de 1961. Lauro Maia aqui comparece também com o batuque “Eu vi um leão”, sucesso inclusive na Argentina, onde os Quatro Ases e um Coringa se apresentaram durante uma excursão pelos países da região do Rio Prata. Foi por eles imortalizado na “marca do templo” em 16 de abril de 1942, e lançado em junho seguinte sob número 12160-A, matriz 6943. Voltando à RCA Victor, temos o samba “O dinheiro que ganho”, de Assis Valente,  gravação de14 de abril de 1951, lançada em julho do mesmo ano, disco 80-0791-B, matriz S-092954. Traduz muito bem as dificuldades financeiras por que passava Assis, que o levariam ao suicidio, em 1958 (ele bebeu uma mistura de guaraná com formicida), depois de várias tentativas.  “Garota dos discos”, de Wilson Batista e Afonso Teixeira, gravação de primeiro de julho de 1952 e lançado em setembro do mesmo ano, disco 80-0975-B, matriz SB-093343. A garota em questão trabalhava, logicamente, em uma loja de discos, tipo de estabelecimento comercial que praticamente perdeu força com o advento da internet e posterior surgimento de portais de aquisição de músicas, como o iTunes (hoje existem pouquíssimas lojas de discos no Brasil). A “Marcha do caracol”, de Peterpan e Afonso Teixeira, que os Quatro Ases e um Coringa também interpretaram no filme “Aviso aos navegantes”, da Atlântida, foi merecido sucesso no carnaval de 1951, mostrando que o problema da falta de moradia nas grandes cidades brasileiras vem de muito tempo.  Gravação RCA Victor de 4 de outubro de 1950, lançada ainda em dezembro sob número 80-0728-A, matriz S-092771. O samba “Maria Luiza”, de Pedro Caetano e Hélio Ribeiro, foi gravado na Odeon pelo conjunto cearense em 13 de abril de 1945, e lançado em junho do mesmo ano, disco 12585-A, matriz 7800. Em seguida temos o lado A do disco de estreia oficial dos Quatro Ases e um Coringa, o Odeon 12066, gravado em 23 de setembro de 1941 e lançado em novembro do mesmo ano, matriz 6794: é a marchinha “Os dois errados”, de Estanislau Silva, Álvaro Nunes e Nélson Trigueiro. O samba “Rendeira”, outra composição de Carlos Barroso,é gravação Odeon de 14 de maio de 1942, lançada em outubro seguinte sob número 12204-B, matriz 6967. Evenor Pontes (líder e fundador do grupo) e Luiz Assunção assinam a rancheira “Sá Mariquinha”, gravado na “marca do templo” em 18 de abril de 1947 e lançado em julho do mesmo ano, disco 12784-A, matriz 8212. Encerrando esta seleção, temos o clássico “Baião de dois”, outro grande produto da parceria Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira lançado por Emilinha Borba, em 1950, e que os Quatro Ases e um Coringa regravariam na RCA Victor logo em seguida, no lado A de “Paraíba”, matriz S-092731. Sem dúvida, uma merecida homenagem aos Quatro Ases e um Coringa, verdadeiro tributo ao legado de um dos mais expressivos conjuntos vocais e instrumentais que a música popular brasileira já teve!
*Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.

Elizeth Cardoso – Elvira Pagã – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 119 (2014)

E chegamos à edição de número 119 do nosso Grand Record Brazil, apresentando duas cantoras de diferentes estilos, mas ainda assim bastante representativas.
 A primeira delas é a também vedete e atriz Elvira Pagã (Elvira Olivieiri Cozzolino,  Itararé,SP, 6/9/1920-Rio de Janeiro, 8/5/2003), uma das personalidades mais ousadas de seu tempo, cuja beleza e sensualidade lhe deram fama e até resultaram em inúmeras prisões, um autêntico “sex symbol”. Já abordada pelo GRB em seu volume de número  59, Elvira volta aqui com seis gravações de sua carreira-solo que não haviam aparecido no mesmo, conseguidas bem depois de sua postagem pelo nosso companheiro, amigo e pesquisador Beto de Oliveira. Em seu segundo disco, o Continental  15251, lançado bem em cima do carnaval de 1945, em fevereiro, Elvira interpreta quatro marchinhas, duas em cada fonograma. No lado A, matriz 973, ela interpreta, de Gadé, Amado Régis e Almanyr Grego, “E o mundo se distrai”e “Meu amor és tu”. No lado B, matriz 974, ela nos traz “Cabelo azul” e “Briga de peru”, ambas de Herivelto e Roberto Martins (que não tinham qualquer parentesco, apesar do sobrenome ser o mesmo). Depois temos as faixas do Todamérica TA-5333, gravado em 14 de julho de1953 e lançado em setembro do mesmo ano, com dois sambas da própria Elvira: no lado A, matriz TA-508, “Reticências”, sem parceria, e, no verso, matriz TA-507, “Sou feliz”, parceria de um certo M. Zamorano. Elvira Pagã encerra sua participação neste volume do GRB com as músicas de seu derradeiro 78 (ela só gravou nesse formato),do extinto selo Marajoara, número MA-10012, com duas composições de sua autoria para o carnaval de 1959. No lado A, matriz M-23, o samba “Vela acesa”, que fez com Orlando Gazzaneo e Orlando Valentim.E no lado B, matriz M-24, a marchinha “Viva los toros”, esta em parceria apenas com Gazzaneo. Enfim, mais seis faixas com Elvira Pagã para enriquecer a coleção de nossos amigos cultos,ocultos e associados (ficou faltando apenas o samba-jongo “Batuca daqui, batuca de lá”, de 1950).
A outra intérprete deste volume do GRB é a eterna “Divina”, “Magnífica” e “Enluarada” Elizeth Cardoso (Rio de Janeiro, 16/7/1920-idem, 7/5/1990). Dela temos cinco faixas marcantes, a maioria de seu início de carreira. De seu primeiro disco,o Star 202, de 1950, provavelmente lançado em março desse ano (e retirado do mercado por “problemas técnicos” jamais esclarecidos), temos, na faixa 10, o lado B, “Mensageiro da saudade”, samba de Ataulfo Alves e José Batista, com acompanhamento de Acyr Alves e sua orquestra. Logo depois, Elizeth foi para a então nascente Todamérica, onde estreou no dia 27 de julho de 1950 gravando dois sambas (estruturalmente sambas-canções)  lançados em outubro seguinte no disco TA-5010. O lado A, matriz TA-19 e oitava faixa desta seleção, é “Complexo”, de Wilson Batista e Magno de Oliveira. Mas o hit maior estava no lado B, matriz TA-20 e faixa 7 de nossa sequência: “Canção de amor”, de Chocolate e Elano de Paula, que consagrou Elizeth, saudada como grande revelação de 1950, e tornou-se o carro-chefe da cantora para sempre. A penúltima faixa é a clássica toada “Prece ao vento”, de Alcyr Pires Vermelho, Gilvan Chaves e Fernando Luiz Câmara, lançada originalmente em 1954 pelo Trio Nagô. O registro de Elizeth Cardoso aqui incluído é de 1956, extraído do LP de 10 polegadas “Fim de noite”, selo Copacabana, relançado dois anos mais tarde em 12 polegadas e com quatro faixas a mais. Por fim, Elizeth nos apresenta “Venho de longe”, samba-canção de Dermeval Fonseca e Alberto Ribeiro,gravação Todamérica de 25 de janeiro de 1952, lançada em abril seguinte sob número TA-5145-B, matriz TA-238. Enfim, foi o que deu para o amigo Augusto selecionar para o GRB desta semana. Mas seu esforço, com certeza, sempre vale a pena… Divirtam-se!
Texto de Samuel Machado Filho
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Linda Batista, Elizeth Cardoso, Onilda Figueiredo & Carmen Barbosa – Seleçào 78 RPM Do Toque Musical Vol. 118 (2014)

E vai para o ar mais uma edição do Grand Record Brazil, a de número 118. É mais um volume dedicado às cantoras, apresentando quatro grandes intérpretes que fizeram história em nossa música popular.
Para começar, temos Linda Batista (Florinda Grandino de Oliveira, São Paulo, 14/6/1919-Rio de Janeiro,  17/4/1988),que marca presença no GRB desta semana com quatro faixas bastante expressivas, todas em gravações Victor. A primeira é a divertida marchinha “No boteco do José”, sucesso do carnaval de 1946, alusivo à conquista do campeonato carioca de futebol pelo Vasco da Gama (o time era então chamado “expresso da vitória”), no ano anterior, invicto, fazendo menção inclusive ao atacante Lelé (Manuel Pessanha, 1918-2003), artilheiro do certame, de chute fortíssimo.  Flamenguista convicto, Wilson Batista fez a marchinha em parceria com Augusto Garcez, e Linda a gravou em 21 de setembro de 1945, sendo lançada ainda em  novembro com o n.o 80-0348-A, matriz S-078294. Logo depois,ao lado das Três Marias, com acompanhamento da orquestra do maestro Passos,  Linda interpreta o clássico samba-canção “Bom dia”, de Herivelto Martins e Aldo Cabral, em gravação de 2 de julho de 1942, lançada pela marca do cachorrinho Nipper em setembro do mesmo ano, disco 34962-A, matriz S-052569. “Bom dia” tem inúmeras regravações, destacando-se as de Dalva de Oliveira e Maria Bethânia. Ruço do Pandeiro e Alfeu de Brito assinam o samba “Quem sabe da minha vida sou eu”, que Linda gravou em 13 de agosto de 1941, com lançamento em outubro seguinte sob n.o 34814-A, matriz S-052327. Linda Batista encerra sua participação neste volume com o divertido samba-de-breque “Eu fui à Europa”, de Chiquinho Sales. No enredo, Linda é uma cantora brasileira que vai se apresentar numa rádio europeia, mas é presa, confundida com uma espiã, e levada para a execução. Porém… tudo não passou de um sonho! Gravação de 10 de junho de 1941, lançada em agosto do mesmo ano com o n.o 34785-A, matriz S-052241. Nestas duas últimas faixas,o acompanhamento é creditado aos Diabos do Céu, mas estes não eram mais os integrantes da orquestra formada e dirigida por Pixinguinha, e sim os do regional de Benedito Lacerda, como sempre fazendo maravilhas com sua flauta inconfundível.  Como a denominação era de propriedade da Victor, outros grupos também podiam aparecer nos selos dos discos como Diabos do Céu, caso do regional de Benedito.
 A eterna “Divina”, “Enluarada” e “Magnífica” Elizeth Cardoso, nascida (16/7/1920) e falecida (7/5/1990) no Rio de Janeiro, intérprete de uma longa e vitoriosa carreira, bate ponto aqui com outras quatro faixas,todas gravadas em seu início de carreira. Primeiro, temos seu primeiro  sucesso maiúsculo, “Canção de amor”, samba do comediante Chocolate (Dorival Silva, 1923-1989) em parceria com Elano de Paula, que se tornaria para sempre carro-chefe de Elizeth. Saiu no disco de estreia da cantora na Todamérica, n.o TA-5010-B, gravado em 27 de julho de 1950 e lançado em outubro seguinte, matriz TA-20, do qual também apresentamos logo depois o lado A, “Complexo”, samba de Wilson Batista e Magno de Oliveira, matriz TA-19. Meses antes, porém, Elizeth  havia gravado seu primeiro disco na Star, futura Copacabana, número 202, do qual apresentamos o samba do lado B, “Mensageiro da saudade”, composto por Ataulfo Alves e José Batista, com acompanhamento da orquestra de Acyr Alves. Esse disco, lançado provavelmente em março de 1950, seria logo retirado das lojas pela gravadora, que alegou “problemas técnicos”, jamais esclarecidos devidamente. Por fim, Elizeth canta “Venho de longe”, samba-canção de Dermeval Fonseca e Alberto Ribeiro, gravação Todamérica de 25 de janeiro de 1952, lançada em abril do mesmo ano, disco TA-5145-B, matriz TA-238.
Natural do Recife, a capital pernambucana, Onilda Figueiredo, a cantora que apresentamos a seguir, deixou, segundo consta,  uma escassa discografia. Gravou, em 78 rpm, quatro discos com oito músicas, entre 1956 e 1958, todos pela Mocambo, gravadora que por sinal tinha sede no Recife, e pertencia aos irmãos Rozenblit.  Foi também contratada da Rádio Jornal do Commércio, e era presença constante nos programas de auditório da emissora recifense, cujo slogan era “Pernambuco falando para o mundo”.  Fez ainda uma participação na coletânea “Catorze maiorais em boleros” (Copacabana, 1964), interpretando “Duas cruzes”. Ei-la aqui com as faixas de seu 78 de estreia, o Mocambo 15094, lançado em junho de 1956, com dois boleros. Primeiro, o lado B, matriz R-695, “Desespero”, de autoria de Ângelo Iervolino. E, em seguida, o lado A, o clássico “Nunca! Jamais! (Nunca! Jamás!)”, matriz R-694, de autoria do mexicano Lalo Guerrero, em versão de Nélson Ferreira, também notável compositor e então diretor artístico da Mocambo. Enorme sucesso, “Nunca! Jamais!” seria mais tarde faixa de abertura do único LP da cantora, o 10 polegadas “A voz de Onilda Figueiredo”, sendo também gravado por outros intérpretes (Ivon Cúri, Ângela Maria, Rosa Pardini, Zezé Gonzaga etc.).
Finalmente, lembramos de uma cantora expressiva, que infelizmente partiu muito cedo: Cármen Barbosa. Carioca do bairro do Catumbi, nascida em 4 de setembro de 1912, ela faleceria em 3 de setembro de 1942, um dia antes de fazer trinta anos, vítima de grave doença. Ela aqui comparece com as quatro faixas finais de nossa seleção desta semana. De início tem “Banalidade”, samba de Gilberto Martins (nada banal,apesar do título), gravação Columbia de 19 de junho de 1939, lançada em julho seguinte sob n.o  55073-A, matriz 165. O samba-canção “Carnaval que passou” é do mestre Benedito Lacerda, que muito incentivou Cármen Barbosa em sua carreira e por sinal a acompanha com sua flauta mágica em todas as quatro faixas que ela interpreta aqui, à frente de seu regional.  Gravação Victor de 30 de abril de 1937, lançada em agosto do mesmo ano, disco 34192-A, matriz 80390 (aqui, o regional de Benedito Lacerda aparece com o nome de Boêmios da Cidade). O samba “Depois que ele partiu” é também de Benedito, agora em parceria com Gilberto Martins, e Cármen o gravou na Columbia em 8 de agosto de 1939, com lançamento em setembro sob n.o 55157-B, matriz 187. Por fim, temos outro bom samba, “Adeus, Favela”, de Nélson Trigueiro e Paulo Pinheiro, gravação Columbia de 13 de maio de 1939, lançada em junho seguinte sob n.o  55069-A, matriz 152. Enfim, uma edição em que o GRB revive quatro grandes cantoras da MPB, cujo legado é sempre desfrutável e imperdível. Até a próxima!
* Texto de Samuel Machado Filho
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A Música De Lupicinio Rodrigues – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol.117 (2014)

Esta semana o Grand Record Brazil prossegue a retrospectiva dedicada à obra de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), por certo o maior nome que o Rio Grande do Sul deu à nossa música popular. Depois de apresentarmos o próprio Lupi interpretando suas composições, temos agora catorze preciosas gravações de suas obras nas vozes de intérpretes diversos, a maior parte sambas e sambas-canções.
Para começar, temos o próprio Lupicínio interpretando “Sombras”, faixa que é o lado B do disco Star 353, editado em maio-junho de 1952 no álbum “Roteiro de um boêmio”. Eram quatro discos 78 embalados em capa especial, expediente às vezes comum nessa época, em que o LP estava em processo de implantação, e apenas começava a ser fabricado entre nós. Na faixa seguinte é “Triste história”, parceria de Lupi com Alcides Gonçalves, por este último interpretada,  gravação Victor de 3 de agosto de 1936, lançada em setembro do mesmo ano, disco 34089-B (o primeiro com gravações de músicas de Lupicínio), matriz 80188, samba que, por sinal, venceu, um ano antes, um concurso realizado em Porto Alegre por ocasião do centenário da Revolução Farroupilha (os autores abiscoitaram dois contos de réis).  Em seguida,o samba-canção “Divórcio”, só de Lupicínio,por ele composto numa ocasião em que o assunto estava na pauta das discussões, interpretado por João Dias, cantor que Francisco Alves indicara para sucedê-lo, dada a semelhança vocal. Gravação Odeon de 29 de janeiro de 1952,lançada em agosto do mesmo ano (um mês antes da trágica morte de Chico Viola em desastre automotivo),  sob n.o 13306-A, matriz 9233. O clássico “Vingança”, também só de Lupicínio, é a faixa seguinte, na gravação original do Trio de Ouro, então em sua segunda fase,  com Noemi Cavalcanti no lugar de Dalva de Oliveira, que se separara do fundador do grupo, Herivelto Martins, e mantendo Nilo Chagas (ainda que já tivesse divergências com Herivelto).  Gravado na RCA Victor em 10 de abril de 1951 e lançado em junho seguinte sob n.o 80-0776-B,matriz S-092932, “Vingança”, porém, teve sucesso muito maior posteriormente, na voz de Linda Batista, que fez da música um clássico, deixando este registro original esquecido. Ainda assim, o trazemos aqui para reavaliação.  O “rei do samba de breque”, Moreira da Silva, também mostrava algumas vezes sua faceta sentimental e romântica,como aqui, interpretando “Meu pecado”, parceria de Lupicínio com Felisberto Martins. Gravação Odeon de 3 de outubro de 1944,lançada em novembro do mesmo ano, disco 12516-B, matriz 7572. Na faixa seguinte, o primeiro grande hit nacional de Lupicínio como autor, e outra parceria com Felisberto Martins: o samba “Se acaso você chegasse”,verdadeiro clássico do gênero, que também projetou seu intérprete, o grande Cyro Monteiro.  Ele imortalizou esta obra-prima na Victor em 19 de julho de 1938, com lançamento em setembnro seguinte, sob n.o 34360-A, matriz 80844. Tocou até em um filme americano chamado ”Dançarina loira” e, em 1959, projetaria também a cantora Elza Soares.  A eterna “personalíssima”, Isaura Garcia, aqui comparece com “Eu não sou louco”, samba que Lupicínio fez com Evaldo Ruy, visando o carnaval de 1950. Foi gravado na RCA Victor em 14 de novembro de 49, e saiu um mês antes da folia, em janeiro, com o n.o 80-0625-B, matriz S-078984. Orlando Silva,o sempre lembrado “cantor das multidões”, vem com outro sucesso: “Brasa”,que Lupi compôs ao testemunhar as brigas domésticas de seu  irmão Francisco com a esposa, na ocasião em que residiu com eles. Novamente com a parceria de Felisberto Martins, foi imortalizado por Orlando na Odeon em  9 de março de 1945, e lançado em abril do mesmo ano,disco 12571-A, matriz 7772. Onofre Pontes é o parceiro do nosso Lupicínio em “Amigo ciúme”, lançado pela Copacabana em março de 1957, na voz da grande Sapoti, Ângela Maria, disco 5739-B, matriz M-1634. Felisberto Martins volta a ser parceiro de Lupicínio em “Feiticeira”. Afinal, Lupi era gastrônomo e cozinheiro de mão cheia, e as mulheres sabiam que o caminho para o seu coração também passava por uma boa mesa. Gravação de Homero Marques, lançada em 1952 pela Elite Special (coligada da Odeon), disco N-1081-A, matriz MIB-1131. “Quem há de dizer”, parceria de Lupicínio com Alcides Gonçalves, é outro clássico do samba-canção e da dor de cotovelo.  Alcides, nessa época, era pianista em casas noturnas portoalegrenses, e,  enquanto tocava, de certa feita observava enciumado o assédio dos fregueses da Boate Marabá à sua namorada,Maria Helena, bailarina da casa, o mesmo acontecendo com Lupicínio em relação à sua escolhida. Era preciso esperá-las cumprir sua obrigação profissional, o cabaré terminar. Francisco Alves imortalizou a música (letra de Lupi, melodia de Alcides) na Odeon em 25 de maio de 1948, com lançamento em julho do mesmo ano, disco 12863-A, matriz 8369. “Ponta de lança”, de Lupi sem parceiro, foi gravado na mesma Odeon por Dircinha Batista em 7 de fevereiro de 1952, com lançamento em abril seguinte no lado B em que saiu o clássico “Nunca”, também de Lupi, disco 13244, matriz 9249, e obtendo igualmente sucesso, ainda que em menor proporção.  Caco Velho (Mateus Nunes), “o sambista infernal”, e protoalegrense como Lupicínio, assina com ele o samba “Que baixo!”, e o interpreta com toda a bossa que lhe era peculiar nesta gravação Continental de 9 de agosto de 1945, lançada em setembro do mesmo ano, disco 15416-A, matriz 1154.Para finalizar a seleção desta semana, homenageamos o time de futebol de coração do mestre Lupicínio Rodrigues, apresentando o “Hino do Grêmio”, por ele mesmo composto em 1953, em meio a uma greve no transporte público de sua Porto Alegre (daí o verso inicial, “Até a pé nós iremos para o que der e vier”).  Tal obra, porém, só seria gravada efetivamente em 1971, pela Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro (então Estado da Guanabara), para o LP de selo Continental “Hinos do futebol brasileiro”. É este registro que apresentamos nesta edição do GRB, merecendo (e com louvor) figurar como exceção à regra de apresentarmos apenas gravações em 78 rpm. Afinal, o retrato de Lupicínio está  na Galeria dos Gremistas Imortais, no salão nobre do clube. Divirtam-se e até a próxima!
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Texto de Samuel Machado Filho

Lupicínio Rodrigues – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 116 (2014)

Chegando à sua edição de número 116, o Grand Record Brazil apresenta a primeira parte de uma retrospectiva dedicada ao centenário do maior compositor que o Rio Grande do Sul deu à música popular brasileira: Lupicínio Rodrigues.  Lupi, como era carinhosamente chamado, nasceu em Porto Alegre, no dia 16 de setembro de 1914, na Travessa Batista, 97, na Ilhota, bairro pobre da Cidade Baixa. Dia esse de chuva torrencial, a ponto de, com a inundação, a parteira vir de barco para atender a mãe, Dona Abigail. Foi quarto, e primeiro homem, de VINTE E UM (!) filhos, de uma família extremamente musical. Seu pai, Francisco Rodrigues (o “seu” Chico), era porteiro da Escola de Comércio. Aos seis anos de idade, o pequeno Lupi seria matriculado na Escola Complementar, estudando a seguir nas escolas Ganzo e Dom Sebastião.  Era um aluno de atenção muito distraída para a música e para o futebol.  Torcia para o Grêmio, e compôs, em 1953, o hino do tricolor gaúcho, que começa com ”Até a pé nós iremos”  (na época havia uma greve no transporte coletivo de Porto Alegre). Seu retrato está na Galeria dos Gremistas Imortais, no salão nobre do clube. Após o primário, Lupicínio faz o curso de mecânica na Escola Técnica Parobé, sendo admitido como aprendiz na companhia de bondes e, depois, como menino de recados na fábrica Micheletto.  Aos 14 anos, em 1928, compõe a marchinha “Carnaval”, para o Cordão Prediletos. Na esperança de afastar Lupi de uma vida boêmia precocemente adotada , com bebida, música e mulheres, “seu” Chico o obriga a alistar-se no Exército “voluntariamente”, com 18 anos incompletos.  De fato entrou na linha, mas apenas quando marchava com seus colegas de farda.  Em 1932, conheceu Noel Rosa, que fazia uma excusão pelo Sul com Francisco Alves e Mário Reis.  Noel ouviu algumas músicas de Lupi, e previu acertadamente: “Este garoto é bom! Este garoto vai longe!” Mais ou menos nessa  ocasião, quando estava no Sétimo Batalhão de Caçadores,  chegou um catarinense de bela voz, o futuramente célebre Nuno Roland. Lupi, então “crooner” do Jazz do Batalhão e tinha em Mário Reis seu  espelho de cantor, passa o ofício a Nuno, imediatamente seu amigo nas madrugadas. Quando estoura a Revolução Constitucionalista, em São Paulo, o 7.o BC é mandado para lá, desembarcando com Lupi cínio e Nuno. Durante a longa viagem de trem, foram cantado inúmeros sambas. Ainda em 32, foi transferido para Santa Maria, no interior rio-grandense, ocasião em que conheceu sua musa inspiradora, Inah, uma paixão que lhe deixaria cicatrizes pelo resto da vida, uma dor-de-cotovelo “federal”, como ele próprio a definia. O noivado teria fim com a volta de Lupi a Porto Alegre, em 1938. Ele deixaria a caserna em 1935, ano em que compôs, com Alcides Gonçalves,o samba “Triste história”, inscrito em um concurso realizado por ocasião das comemorações do centenário da Revolução Farroupilha, e ganhador do primeiro prêmio, de 2 contos de reis.  Mesmo com várias composições prontas, Lupi não se empenhava em divulgá-las, e  as duas primeiras que teve gravadas, na voz do parceiro Alcides Gonçalves, foram dois sambas, o já citado “Triste história” e “Pergunta aos meus  tamancos”, em 1936, sem que saísse da sua Porto Alegre (de onde nunca se afastaria, a não ser por uns meses, em 1939, mais para conhecer o ambiente musical carioca),pois Alcides viajara para o Rio.  Em 1938, Lupicínio consegue estabelecer uma ponte com Felisberto Martins, compositor, pianista e funcionário de gravadora no Rio, que ainda não conhecia pessoalmente, para divulgação de suas músicas em troca de parceria, o que foi bom para ambos. No mesmo ano,  acontece o primeiro grande sucesso de Lupi, o samba “Se acaso você chegasse”, que também projeta seu intérprete, Cyro Monteiro.  Entre 1935 e 1947, por interferência do pai, trabalhou como  bedel  da Faculdade de Direito porto-alegrense.  Composições como ‘Felicidade”, “Nervos de aço”, “Minha história”, ‘Vingança”, “Ela disse-me assim”, “Exemplo”, “Paciência” e “Nunca”, só para citar algumas, foram sucesso em todo o Brasil e até no exterior. Era procurado por cantores de sucesso e fez da sua Porto Alegre a ‘Capital do Samba-Canção”.  Em contraponto à imagem boêmia,Lupicínio foi dono de diversos bares, churrascarias e restaurantes com música (era também bom cozinheiro, especializado no trivial caprichado), que seguidamente ia abrindo e fechando, como a Churrascaria Jardim da Saudade, o Clube dos Cozinheiros e o Restaurante Batelão, este o mais famoso de todos, que elevou a ponto turístico da capital gaúcha. Tudo para, antes do lucro, ter um lugar para encontro com os amigos. Lupi não fazia músicas por encomenda, era um despreocupado comercial. Suas composições nasciam de fatos verídicos, observados ou vivenciados por ele mesmo.  Cada mulher que lhe fazia alguma “sujeira” lhe inspirava a compor algo… Deixou cerca de 150 músicas editadas, e compôs outras centenas que foram perdidas, esquecidas ou estão à espera de quem as resgate. Por muitos anos, exerceria o cargo de procurador do SDDA (Serviço de Defesa do Direito Autoral) e de representante da SBACEM (Sociedade Brasileira de Autores,Compositores e Escritores de Música).  Alma boa e caridosa, manteve, em propriedade sua, e sem fazer qualquer alarde,um abrigo para desprotegidos da sorte. Sua rotina se dividia entre a boemia e o lar, onde era perfeito chefe-de-família. No seu casamento com Dona Cerenita, apesar dessa combinação inusitada, reinava o amor.Tanto que,ao comemorar dez anos de casamento com ela, compôs o samba-canção “Exemplo”, sucesso de 1960 na voz de Jamelão (que o próprio Lupi considerava o melhor intérprete de seus trabalhos). Lupicínio Rodrigues faleceu em sua Porto Alegre natal, em 27 de agosto de 1974, coincidentemente um dia  chuvoso, como havia sido o de seu nascimento, vitimado por uma trombose. Sua obra, porém, ficou como legado para os que sentem que, apesar dos riscos, vale a pena amar demais,  venham as dores-de-cotovelo que vierem. Enquanto houver paixão. Lupi viverá e será amado. Apesar de sua enorme bagagem autoral, Lupicínio Rodrigues deixou escassa discografia como intérprete. Com voz débil e interpretação intimista, impressionava  mais ao vivo, por sua figura fiel ao que cantava. Nesta primeira parte do retrospecto que o GRB lhe dedica, apresentamos doze faixas com o Lupi cantor-compositor. Sua estreia como intérprete em disco aconteceu em 1952,quando gravou na Star, futura Copacabana, um álbum de quatro discos em 78 rpm com oito músicas, “Roteiro de um boêmio” (época em que o LP estava em fase de implantação), acompanhado por Enrico Simonetti (piano), Paulo Mezzaroma (violino) e Paulo Pês  (contrabaixo). Aqui temos algumas faixas desse álbum, lançado em maio-junho de 52. Pela ordem de apresentação original, temos:  do disco 352, os sambas-canções clássicos “Vingança” (faixa 8, sucesso retumbante no ano anterior com Linda Batista, maior que o do registro original,com o Trio de Ouro) e “Não sou de reclamar” (faixa  4, também gravado na época pelo cantor Francisco Carlos); e do disco 354, outros dois clássicos de Lupi sem parceria: o samba-canção “Nunca” (faixa 9, então já sucesso com Dircinha Batista) e, em ritmo de baião, a toada  “Felicidade” (faixa 5, que conta com o suporte vocal das Três Marias). Foi lançada originalmente pelo Quarteto Quitandinha, depois Quitandinha Serenaders, em 1947, mas aqui Lupi e as Três Marias o cantam com a letra completa, com estrofes eliminadas na primeira gravação por serem consideradas demasiado gauchescas.  No restante do programa, temos faixas extraídas do LP de 10 polegadas também intitulado “Roteiro de um boêmio”, lançado em 1955 já pela Copacabana (CLP-3014), igualmente com arranjo e regência de Simonetti, todas, claro, de autoria do próprio Lupi. Na primeira faixa,  vem o samba-canção “Nossa Senhora das Graças”, que no entanto obteria maior sucesso um ano mais tarde, na voz de Nélson Gonçalves.Na faixa 2 , o samba (então também  inédito) “Amor é um só”. Na faixa 3, o fox-canção “Inah”, inspirado na mulher que, como já informado, era a “dor-de-cotovelo federal” de Lupicínio.  Na sexta faixa,o samba-canção “Namorados”, lançado um ano antes por Léo Romano. A faixa 7 é o primeiro grande hit autoral de Lupicínio, o samba “Se acaso você chegasse” (parceria com Felisberto Martins),  que projetaria seu criador, Cyro Monteiro,em 1938, e, mas tarde, em 1959, Elza Soares. Na faixa 10, “Os beijos dela”, samba-canção originalmente lançado em 1953,por Lúcio Alves. Na faixa 11, “Aves daninhas”, outro samba-canção bastante conhecido, lançado originalmente por Nora Ney, em 1954. Por último, encerrando esta seleção, a valsa “Jardim da saudade”, que deu nome ao primeiro estabelecimento gastronômico-musical montado por Lupi, uma churrascaria, e foi originalmente lançada por Luiz Gonzaga, em 1952. A destacar que Lupicínio gravaria ainda dois discos 78 com quatro músicas, também pela Copacabana, visando o carnaval de 1953, um compacto de 45 rpm em 1960, com três músicas de cada lado (na mesma marca), e,em 1973, um ano antes de sua morte, lançaria seu segundo e último LP como intérprete, “Dor de cotovelo”, pela Chantecler (selo Rosicler), além de ter registrado  uma ou outra faixa esparsa.  Na próxima semana, apresentaremos composições de Lupicínio Rodrigues nas vozes de outros intérpretes. Até lá!
*Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.
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Carlos Galhardo – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 115 (2014)

Chegando à sua edição de número 115, o Grand Record Brazil apresenta a terceira e última parte da retrospectiva dedicada a Carlos Galhardo (1913-1985), sem dúvida um dos mais queridos e expressivos intérpretes de nossa música popular, um cantor que, de fato, como dizia seu slogan, dispensava adjetivos. Desta feita, estamos oferecendo a nossos amigos cultos, ocultos e associados onze preciosas gravações  de Galhardo, verdadeiras joias de seu repertório.  Abrindo o programa, temos “Vela branca sobre o mar”, ótimo fox de José Maria de Abreu e Oswaldo Santiago, gravação Victor de 18 de junho de 1937, lançada em setembro do mesmo ano, disco 34200-A, matriz 80469. Fiel às raízes italianas da família, Galhardo depois nos oferece “Guaglione”, palavra que em italiano quer dizer “rapazola” ou “garoto”.  É outro fox, este composto lá mesmo na Itália, por Nicola Salerno, o Nisa, e Giuseppe Fanciulli, com letra brazuca do radialista Júlio Nagib. Foi gravado na já então RCA Victor em 3 de dezembro de 1956, indo para as lojas em março de 57 com o n.o 80-1735-B, matriz BE6VB-1396 (curioso é que, um mês antes, a Odeon pôs nas lojas a gravação de Léo Romano, feita porém três dias depois desta de Galhardo, a 6 de dezembro de 56, sendo nosso focalizado, portanto, o primeiro a gravar a versão). Em seguida, a marchinha “Mercador”, de Wilson Batista e Ari Monteiro, do carnaval de 1953. Outra gravação RCA Victor, esta de 7 de agosto de 52, e que chegou às lojas ainda em dezembro sob n.o  80-1047-A, matriz SB-093392. Da safra de Galhardo na Odeon é “Morena faceira”, samba do mestre Ataulfo Alves, gravado em primeiro de junho de 1937 e lançado em  outubro do mesmo ano, disco 11522-B, matriz 5586. “Noite sem luar”, nossa faixa seguinte,  é uma das inúmeras e bem-sucedidas valsas dos  autores de “Boa noite, amor” (prefixo pessoal de Francisco Alves) , José Maria de Abreu e Francisco Matoso.  Abreu já era o “rei da valsa” entre os autores, e Galhardo, “rei da valsa” entre os intérpretes, imortalizando “Noite sem luar” na Victor  em 18 de junho de 1937, mas com lançamento apenas em março de 38 com o n.o 34299-A,matriz 80470. “Notícia de última hora”, de Benedito Lacerda e Darcy de Oliveira, é um samba do tempo da Segunda Guerra Mundial, em que um pracinha avisa que vai lutar com os países aliados na Itália e retornar vitorioso. De fato, os aliados derrotaram as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), marcando o fim do conflito, em 1945. Destinado ao carnaval de 1943, o samba foi gravado na Victor por Galhardo em 25 de setembro de 42, com lançamento ainda em dezembro, disco 80-0026-A, matriz S-052624. “O homem da valsa”, de Custódio Mesquita e David Nasser, por certo é uma referência ao próprio Galhardo, ele que a registrou na mesmíssima Victor em  11 de fevereiro de 1943, com lançamento em maio do mesmo ano sob n.o 80-0076-B, matriz S-052719. Do início da carreira do cantor é pinçado o samba que vem em seguida, “Para onde irá o Brasil?”, de autoria de Assis Valente, então também iniciante como Galhardo, que o gravou em seu segundo disco, o Victor 33627-A,em 2 de fevereiro de 1933, com lançamento em março do mesmo ano, matriz 65663. Assis havia composto o samba durante a Revolução Constitucionalista de 1932, e  foi intimado a dar explicações às autoridades policiais. Seu conteúdo,  porém, traz uma mensagem antibélica. O mestre Ataulfo Alves novamente aparece com outro de seus inspirados sambas, ‘Receita”, parceria com João Bastos Filho, gravação Victor de Galhardo em 20 de junho de 1938, porém só lançada em abril de 39, disco 34422-A, matriz 80832. O samba seguinte também é de Ataulfo, agora em parceria com o violonista Claudionor Cruz:  o clássico “Sei que é covardia (Mas…)”.  E  é também gravação Victor do nosso Galhardo, datada de 5 de dezembro de 1938, com lançamento em janeiro de 39 para o carnaval,  triunfalmente consagrado como um dos maiores hits dessa folia, disco 34401-A, matriz 80952. Finalizando, a belíssima valsa “Viena do meu coração”, de autoria de dois expoentes do gênero, Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago, que nosso “rei da valsa”, Carlos Galhardo, imortalizou na Odeon em 23 de março de 1937, com lançamento em julho do mesmo ano, disco 11492-A, matriz 5557. De fato, um belo fecho para o retrospecto de Carlos Galhardo feito por nosso GRB.  E nossas duas próximas edições serão dedicadas ao grande compositor Lupicínio Rodrigues, cujo centenário de nascimento comemoramos neste 2014. Até lá!

* Texto de Samuel Machado Filho

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Carlos Galhardo (parte 2) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 114 (2014)

E estamos de volta com o Grand Record  Brazil, em sua edição de número 114, apresentando a segunda parte da retrospectiva dedicada a Carlos Galhardo (1913-1985), “o Cantor que dispensa adjetivos”. São mais doze faixas preciosas e imprescindíveis para todos os que apreciam a arte de cantar no que ela tem de mais belo e expressivo.  Abrindo nossa seleção desta semana, Galhardo apresenta “Ai, amor”, samba de dois Robertos, Martins e Roberti, gravado na Victor em 25 de agosto de 1939 e lançado em novembro do mesmo ano sob n.o 34508-B, matriz 33153. Roberto Martins também assina, agora com Ari Monteiro, a faixa seguinte, “Vinte e três de abril”, data consagrada a São Jorge, e inspiradora deste samba que Galhardo imortalizou na já então RCA Victor em 27 de fevereiro de 1948, com lançamento em abril seguinte com o n.o 80-0579-A, matriz S-078829. Do carnaval de 1960 é a marchinha “Cachopa”, de Augusta de Oliveira e Madalena Correia, gravada em 14 de setembro de 59 e lançada ainda em dezembro sob n.o 80-2148-B, matriz 13-K2PB-0759, e no LP coletivo “Carnaval RCA Victor”, isso já numa época, sempre é bom frisar, de transição do 78 rpm para o vinil. Recuando no tempo, temos em seguida o samba “Cantar pra não chorar”, de autoria do lendário Paulo da Portela em parceria com um dos pioneiros do gênero,  Heitor dos Prazeres, que Galhardo grava na então Victor em 15 de dezembro de 1937, com lançamento bem em cima do carnaval de 38, em fevereiro, sob n.o 34278-B,matriz 80634. Mostrando que foi talvez o cantor do Sul do Brasil mais fiel ao frevo,gênero com o qual estreou em disco, Galhardo apresenta “O frevo é assim”. De autoria de Nélson Ferreira, um craque do gênero, em parceria com o também  pernambucano Nestor de Holanda, este frevo-canção do carnaval recifense de 1946 foi gravado na marca do cachorrinho Nipper em 23 de outubro de 45, sendo lançado ainda em dezembro com o número 80-0353-A,matriz S-078302, com acompanhamento da orquestra do maestro paulista Aristides Zaccarias, que também animava os bailes de carnaval pernambucanos.  A faixa seguinte, aliás, é do primeiríssimo disco de Carlos Galhardo, o Victor 33625.  É a “marcha pernambucana” (como então era chamado o frevo-canção) “Que é que há?”, de Nélson Ferreira sem parceiro., lado B desse histórico 78 do cantor, gravado em  26 de janeiro de 1933 e lançado em março seguinte, matriz 65659. Da primeira safra de Galhardo na Odeon (onde gravaria seus derradeiros discos, nos anos 1970) é a marchinha “Serpente do amor”, do carnaval de 1937. De autoria de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, foi gravada na “marca do templo” em 31 de outubro de 36, com lançamento ainda em dezembro sob n.o 11421-A, matriz 5433. Retornando à Victor, temos a valsa “Mares da China”, da profícua parceria João de Barro (Braguinha)-Alberto Ribeiro, que Galhardo imortaliza em 20 de junho de 1938, com lançamento em outubro do mesmo não,sob número 34365-A, matriz 80831. “Deus no céu, ela na terra”, samba de Wilson Batista e Marino Pinto, é uma daquelas manifestações à chamada mulher ideal, então comuns. Galhardoo imortalizou na marca do cachorrinho Nipper em 14 de junho de 1940, devidamente acompanhado de regional, com destaque para a expressiva clarineta do mestre Luiz Americano, indo para as lojas em agosto seguinte, sob n.o 34643-B,matriz 33443. “Flor do céu”, de autoria creditada a Rômulo Paes e Henrique de Almeida, é na verdade adaptação, em ritmo de fox, de uma modinha de cunho tradicional, “É a ti, flor do céu”, regravada até mesmo pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.  Esta versão foi gravada por Galhardo na já então RCA Victor em 8 de junho de 1956, sendo lançada em agosto seguinte com o número 80-1654-A, matriz BE6VB-1182. “Cármen”, valsa de Paulo Barbosa e Cristóvão de Alencar, o “amigo velho”, é o lado B do disco de “Cerejeira do Japão” (apresentada em nosso volume anterior), o Victor 34659, gravado em 16 de julho de1940 e lançado em outubro do mesmo ano, matriz 33473. Também de Paulo Barbosa, agora em parceria com Francisco Célio, é a valsa que encerra nossa seleção desta semana, “Quero a teus pés te adorar”, outra preciosidade da rica safra de Galhardo na Victor, gravada em 27 de janeiro de 1940 e lançada em março do mesmo ano, disco 34585-B, matriz 33320. Na próxima semana, encerraremos esta retrospectiva dedicada a Carlos Galhardo, um cantor que, de fato, dispensava qualquer adjetivo. Até lá!

Texto de Samuel Machado Filho

Carlos Galhardo (parte1) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 113 (2014)

Esta semana,o Grand Record Brazil apresenta a primeira de três partes de uma retrospectiva que homenageia um dos mais queridos cantores da música popular brasileira, considerado um dos “quatro grandes” da década de 1930, ao lado de Francisco Alves, Sílvio Caldas e Orlando Silva, e de carreira lôngeva e expressiva. Falamos, evidentemente, de Carlos Galhardo. Na pia batismal, nosso biografado recebeu o nome de Catello Carlos Guagliardi, e era filho de italianos,Pedro Guagliardi e Savéria Novello. Segundo Norma Hauer em seu livro “Uma voz que é um poema”, sua mãe engravidou no Rio de Janeiro, mas ele veio ao mundo na capital argentina, Buenos Aires, para onde toda a sua família se deslocou em busca de melhor sorte, em 24 de abril de 1913. Quando Galhardo tinha apenas dois meses de nascido, ele e seus familiares (também tinha dois irmãos, nascidos na Itália, e uma irmã, nascida no Rio) mudaram-se para São Paulo, onde permaneceriam apenas  outros dois meses, transferindo-se definitivamente para o Rio,  e fixando-se no Estácio de Sá, bairro da primeira escola de samba, a Deixa Falar.  Enquanto fazia o grupo escolar, o pequeno Catello foi encaminhado para a batalha da vida, como aprendiz de alfaiate. Por algum tempo, trabalhou como balconista de charutaria, ali cultivando uma amizade que seria útil para a primeira oportunidade de sua carreira, como veremos a seguir. Voltando à tesoura e à agulha, em seguida, chega a ser oficial de paletó, a ponto de confeccionar um jaquetão para Getúlio Vargas,quando chefe do governo provisório,  logo que assumiu o poder pela primeira vez, em 1930. Aos oito anos, Galhardo perde a mãe, e o pai, que trabalhava no ramo lotérico, casa-se de novo, tendo mais cinco filhos! Galhardo não conheceu dificuldade alguma na carreira artística. Já vinha cantando para os amigos, principalmente músicas italianas, fiel às origens. Numa festa familiar, a que compareceu Francisco Alves, canta exatamente uma página do repertório do Rei da Voz, a canção “Deusa”, de Freire Júnior. Foi devidamente aprovado por Chico Viola, mas precisava de uma oportunidade mais concreta. Aí é que entra em cena Maria Rita de Carvalho, a Mariazinha, manicure que conhecera em um salão de beleza, que funcionava em conjunto com a charutaria em que ele havia trabalhado. Mariazinha, por sua vez, conhecia uma pessoa relacionada com o compositor e violonista Bororó, que então trabalhava na Rádio Educadora do Brasil. Por esse intermédio, Galhardo foi ouvido por Bororó num ambiente inusitado e o mais sossegado naquele momento:  o banheiro da rádio! E foi logo escalado para cantar ao microfone da emissora.  Nessa apresentação, para sua sorte, estava Leslie Robert Evans, o Mister Evans da Victor, então diretor e engenheiro de gravações no selo do cachorrinho Nipper, que logo manda seu assistente, João Martins, em busca do futuro astro. E Galhardo, com apenas 19 anos de idade, é designado pela Victor para cantar no coro das gravações e ganhar alguma experiência. Finalmente, em janeiro de 1933, grava seu primeiro disco-solo, interpretando dois frevos para o carnaval recifense desse ano: “Você não gosta de mim” e “Que é que há?”.  No final desse ano, Galhardo obtém seu primeiro grande hit nacional: a marcha natalina “Boas festas”, de Assis Valente. Grava também na Columbia (futura Continental), e na Odeon, retornando à RCA Victor. Com voz emotiva e bem timbrada, revestida de uma maciez incomum, Galhardo brilhou por décadas em nosso cenário musical, atuando em emissoras de rádio, cassinos, cinema e televisão, percorrendo todo o Brasil, e, em 1952, fez uma vitoriosa excursão a Portugal.  Sem contar os LPs, foram cerca de 580 gravações em 78 rpm, e numerosos sucessos. Como “Rei da Valsa” e “O Cantor que Dispensa Adjetivos”, foi grande em todos os gêneros, na canção romântica, nos sambas e nas marchinhas, tanto no meio-de-ano como no carnaval, além de ter gravado as chamadas datas festivas (Natal, aniversários de nascimento e casamento, Dia dos Pais e das Mães, festas juninas…) mais do que qualquer outro intérprete de seu tempo. Residindo no Estácio, Galhardo era evidentemente torcedor do América Futebol Clube. Também teve cavalos no Jockey Club e um sítio, onde descansava da agitação do meio artístico. Casou-se com Eulália, em 1955, na maturidade dos seus 42 anos, dessa união nascendo três filhos: Carla Maria, Sandra Maria e Eduardo César. Era responsável  e tranquilo, como ser humano, o que só fazia aumentar a simpatia e a admiração de seus milhões de fãs, que até hoje cultuam carinhosamente sua memória.  Foi um dos fundadores, em 1962,  e presidente da Socinpro  (Sociedade Brasileira de Administração e Proteção dos Direitos Intelectuais). Seu último trabalho em disco foi o LP “Parabéns a mim por ter você”, lançado pela EMI-Odeon em 1978. Em 1983, Galhardo faz sua última apresentação artística, no espetáculo “Alá-lá-ô”, de Ricardo Cravo Albim, dedicado ao compositor Nássara (parceiro de Haroldo Lobo na marchinha homônima,  um dos inúmeros sucessos carnavalescos do intérprete, em 1941), realizado na Sala Funarte-Sidney Miller. Carlos Galhardo faleceu em 25 de julho de 1985, no Rio de Janeiro, aos 72 anos. De seu imenso legado na cera, o Grand Record Brazil oferece, para começar, 12 expressivas páginas, a maior parte gravadas na Victor, mais tarde RCA Victor. Abrindo esta seleção, “Linda butterfly”, fox-canção de Georges Moran (russo radicado no Brasil) e Oswaldo Santiago, registro de 26 de janeiro de 1939, que imediatamente vai para as lojas, em fevereiro, sob n.o 34415-A, matriz 80994. Revelando uma postura crítica em relação ao saudosismo de que as épocas sempre padeceram, a valsa ”Antigamente era assim”, de Custódio Mesquita e Ari Monteiro,é levada a disco por Galhardo em 11 de fevereiro de 1943, e a Victor a lança em maio do mesmo ano, disco 80-0076-A, matriz S-052718. Galhardo depois interpreta o fox “Sombras ao luar”, de José Maria de Abreu e Francisco Matoso, em gravação de 9 de abril de 1941, editada em  junho do mesmo ano com o n.o 34752-A, matriz 52174. Um dos maiores violonistas brasileiros, Dilermando Reis assina, em parceria com Jair Amorim, a valsa “Se ela perguntar”, imortalizada por Galhardo na já então RCA Victor em 18 de janeiro de 1952, e lançada em abril do mesmo ano com o número 80-0865-B, matriz S-093172. O disco vendeu cerca de duzentas mil cópias, principalmente porque do lado A estava “Mãezinha querida”, outro clássico do repertório de Galhardo, o que por certo ajudou “Se ela perguntar” a ser igualmente sucesso.  Na quinta faixa, outro fox, “Perfil”, da festejada parceria Roberto Martins-Mário Rossi (responsável também por outra famosa composição do gênero, “Adeus”, na voz de Gilberto Alves), que Galhardo grava em 16 de abril de 1943 e a Victor lança em junho com o número 80-0089-A, matriz S-052756. “Que importa?” é uma valsa do mesmo Mário Lago que deu a Galhardo os hits “Devolve”,  “Não quero saber” e “Será?”, gravação Victor de 13 de julho de 1942, lançada em setembro do mesmo ano, disco 34961-A, matriz S-052580. “Cerejeira do Japão”, fox-canção de Paulo Barbosa e Jorge Ronaldo, é uma nostálgica lembrança da terra do sol nascente bem antes das bombas atômicas que cairiam sobre Hiroshima e Nagasaki, pondo fim (embora trágico) à Segunda Guerra Mundial. Galhardo o imortalizou na Victor em 16 de julho de 1940, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco 34659-A,matriz 33472. “Beija-flor”, de Roberto Martins e Torres Homem, é outra das inúmeras valsas que Galhardo tornou clássicas, em gravação Victor de 25 de março de 1940, lançada em maio do mesmo ano, disco 34606-A, matriz 33360. Provando que era também o “Cantor das Efemérides”, Galhardo apresenta a seguir “Bodas de prata”, valsa até hoje lembrada e conhecida, de Roberto Martins e Mário Rossi, gravação de 23 de março de 1945 que a Victor lança em julho do mesmo ano, disco 80-0291-A,matriz S-078140. Tem inúmeras regravações, inclusive do próprio Carlos Galhardo.  “Indiferença” é outra valsa, esta de Georges Moran e J. G. de Araújo Jorge (escritor discutido mas muito lido), imortalizada por Galhardo na marca do cachorrinho Nipper em  4 de maio de 1944 e lançada em julho do mesmo ano, disco 80-0191-A, matriz S-052956. “Linda borboleta”, de João “Braguinha” de Barro e Alberto Ribeiro,é outra bela e graciosa valsa que Galhardo tornou célebre, em gravação Victor de 9 de agosto de 1938, lançada em outubro do mesmo ano com o n.o 34365-B, matriz 80859. Tão famosa a ponto de certa vez, quando Galhardo estava se apresentando em seu programa de rádio, alguém lembrar a ele:”Se você não cantar ‘Linda borboleta’, os ouvintes vão telefonar aqui pra emissora reclamando!” Por fim, o primeiro grande êxito romântico de Galhardo, a valsa-canção “Cortina de veludo”, de Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago, gravada na Columbia em 15 de maio de 1935, sendo lançada com o número 8156-A, matriz 1092, e ganhando mais tarde reedições com os números 55118 (ainda pela Columbia) e 15013 (já pela Continental). Em sua primeira fase na Victor, Carlos Galhardo só podia gravar sambas e marchinhas, e por isso transferiu-se para a Columbia, onde gravaria 20 discos com 19 músicas.  Foi quando teve a oportunidade, negada na marca do cachorrinho Nipper, de se lançar como cantor romântico, lançando justamente “Cortina de veludo”. Galhardo, um ano mais tarde, retornaria à Victor, agora registrando também hits românticos, sem se descuidar do samba e da marchinha. Nas próximas duas semanas, teremos mais páginas do repertório do inesquecível Carlos Galhardo. Aguardem!

* Texto de Samuel Machado Filho

 

Luiz Americano – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 112 (2014)

E prossegue a brilhante trajetória do Grand Record Brazil, agora em sua edição de número 112. Nela, apresentamos significativa parcela do legado de um clarinetista e saxofonista cuja história se confunde com o desenvolvimento de nossa música popular: Luiz Americano Rego. Nascido em 27 de fevereiro de 1900,em Itabaiana, Sergipe (e não na capital do Estado, Aracaju, como divulgado em sua biografia conhecida), Luiz Americano teve toda a sua cultura musical criada no seio de uma geração de grandes músicos de sopro. A começar por seu pai, professor e incentivador, o mestre de banda Jorge Americano (1860-1926), e seu primo, o maestro Antônio Melo (1902-2002, membro da renomada Filarmônica de Nossa Senhora da Conceição, hoje também conhecida como Orquestra Sinfônica de Itabaiana. Iniciou seus estudos de clarinete com o pai, aos 13 anos.  Em 1920, o Sr. Jorge traz a família (esposa e quatro filhos) para o Rio de Janeiro, em busca de um futuro melhor para todos, face à arte musical que ele e o filho Luiz (então já casado com Dulcineia Costa Rego) dominavam, além de fugir das péssimas condições de saneamento de Itabaiana.  Por essa época, Luiz Americano já estava no Exército,como músico instrumentista, largando a farda os 22 anos.Luiz  faz suas cinco primeiras gravações em 1925, ainda no processo mecânico, todas elas maxixes:  três de sua autoria (“Gozando a vida”, “Me deixa, Donzela” e ‘Tico-tico”), um de Freire Júnior (“Coração que bate, bate”) e outro do baterista Júlio Casado (“Nacionalista”).  Foi um pioneiro na utilização da clarineta no choro, angariando prestígio como solista durante as décadas de 1920, 30 e 40. Tornou-se o músico mais requisitado da época, inclusive para participar em inúmeras gravações, atuando, em discos e shows, com as mais importantes orquestras do período (Simon Bountman, Justo Nieto, Romeu Silva, Raul Lipoff etc.) e inúmeros grupos regionais. Após uma temporada de trabalho na Argentina, de volta ao Rio, Luiz Americano funda um dos primeiros conjuntos brasileiros de jazz. Não gostava de viajar, e por isso não acompanhou Cármen Miranda nos EUA. Ainda assim, ganhou elogios de Benny Goodman, outro mestre da clarineta. Afinal, o prazer de Luiz Americano era mesmo tocar, e a clarineta nunca foi um instrumento desafiador para ele, que impressionava com sua excepcional habilidade de improvisação e respiração. Também dominava o sax-alto, seu leal companheiro durante anos,  com virtuosismo, soprando-o com vigor e elegância, e produzindo um som claro e distinto, tendo deixado inúmeras obras inesquecíveis como compositor. Verdadeiro fenômeno!  Além de vasta discografia em 78 rpm, gravou dois LPs: “Chora, saxofone” (1958) e “Luiz Americano e seu Conjunto” (1959), ambos pela RCA Victor. Teve três filhas, todas do primeiro casamento, com Dulcineia:  Leda, Lysses e Iolanda. Após enviuvar, contraiu segundas núpcias  com Érika Romminger  (que assim passou a ser Érika Rego),  para quem compôs um belo choro, “Linda Érika”, já executado por músicos diversos, mas nunca se encontrou a gravação do autor. Por outro lado, ele e seu pai já vieram de Itabaiana contaminados pelo vírus da hepatite. E foi a evolução da hepatite (guloso, devorava os banquetes das festas em que tocava, mas nunca ingeria bebida alcoólica) que causou sua morte prematura (60 anos), no Rio de Janeiro,  em 29 de março de 1960, de cirrose, causando uma perda irreparável para a MPB.
Nesta edição do GRB, um pouco da magia e da arte de Luiz Americano, em 15 preciosas gravações. Abrindo-a, temos seu choro “Alma do Norte”, gravação Odeon de 3 de outubro de 1936, só lançada em abril de 37, disco 11459-A, matriz 5389. Depois, a bela valsa ‘Teu olhar”, de Getúlio “Amor” Marinho e João Bastos Filho, lado B da faixa anterior, matriz 5390. Um dos choros mais conhecidos de Luiz Americano, “É do que há” é apresentado nas duas gravações que ele fez do mesmo em 78 rpm: a primeira no lançamento, pela Odeon (faixa 3), de 5 de março de 1931, disco 10797-A, matriz 4169, e a segunda encerrando esta seleção, feita na Todamérica em 7 de abril de 1953 e lançada em junho do mesmo ano, disco TA-5298-B, matriz TA-442.  A quarta faixa é a conhecida valsa “Lágrimas de virgem”, gravação Odeon do mesmo disco original de “É do que há”, de 1931,sendo seu lado B, matriz 4168. Foi igualmente regravada por Luiz na Todamérica, na mesma sessão de 7 de abril de 53 em que reviveu “É do que há”, e este registro está na faixa 12, disco TA-5297-B, matriz TA-440, indo para as lojas igualmente em junho daquele ano.  Foi com o dinheiro resultante dos direitos de “Lágrimas de virgem”, inclusive, que Luiz Americano pôde comprar a casa em que morou, no bairro carioca de Brás de Pina.  O choro “Lysses” (faixa 5) homenageia a segunda filha do compositor-instrumentista, e saiu pela Odeon em abril de 1929, sob n.o 10362-B, matriz 2313. Na sexta faixa, um choro literalmente “das Arábias”: “Luiz Americano de passagem pela Arábia”, que ele gravou na mesma Odeon em 5 de setembro de 1933, mas só saiu em março de34, disco 11075-A,matriz 4721. Radamés Gnattali, pianista e maestro de renome, assina a faixa 7, o primoroso choro “Serenata no Joá”, executado por Americano em gravação Odeon de 24 de agosto de 1934, editada em novembro seguinte com o n.o 11171-A, matriz 4900. Depois temos outro choro do próprio executante, ‘Luiz Americano no Lido”, também registro Odeon, este de 8 de dezembro de 1934,que foi para as lojas em abril de 35 sob n.o 11212-A, matriz 4966. Violonista consagrado nos EUA,onde desenvolveu carreira de muito prestígio e prêmios, Laurindo de Almeida assina a faixa 9,o choro “Última lágrima”, da safra de Luiz Americano na Victor, gravação de 25 de julho de 1939, lançada em outubro do mesmo ano, disco 34499-B, matriz 33130. De outro músico renomado, o bandolinista Luperce Miranda, é o choro ‘Caboclo brasileiro”, que Americano, ao sax-alto,  grava na marca do cachorrinho Nipper em 11 de julho de 1940, com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 34649-A, matriz 33468. ‘Sossega, Juca” , choro do próprio Americano, é gravação Odeon de 19 de abril de 1940, disco 12133-B, matriz 6348, ao que parece, lançada apenas em 1942. “Sorriso de cristal” (faixa 13) é um choro de autoria da segunda mulher de Luiz Americano, Érika Rego, e ele o grava na Todamérica em  11 de maio de 1954, com lançamento em agosto seguinte sob n.o TA-5455-B, matriz TA-649. Por fim, na penúltima faixa (a última é a regravação de “É do que há”), Luiz Americano presta homenagem a outro grande compositor e saxofonista, Severino Rangel, o Ratinho (da dupla humorística com Jararaca), revivendo seu choro “Saxofone,por que choras?”, originalmente registrado pelo autor em 1930. A regravação de Americano é da Todamérica, datada de 7 de abril de 1953 e lançada em junho do mesmo ano, disco TA-5297-A, matriz TA-441. Enfim, uma amostra expressiva da arte, do talento e da versatilidade de Luiz Americano, clarinetista e saxofonista como poucos, merecendo por isso um lugar de destaque entre os grandes mestres da música instrumental do Brasil.
* Texto de Samuel Machado Filho

Castro Barbosa – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 111 (2014)

Já estamos na centésima-primeira edição do Grand Record Brazil, o “braço de cera” do Toque Musical, dedicado à era das 78 rotações por minuto. E nela oferecemos uma significativa amostra do trabalho de um expressivo cantor, compositor e também humorista da era de ouro do rádio: Castro Barbosa. Ele veio ao mundo na cidade de Sabará, interior de Minas Gerais, a 7 de maio de 1905 (ou 1909, não há certeza), batizado com o nome completo de Joaquim Silvério de Castro Barbosa. Era irmão do cantor Luiz Barbosa e do humorista e igualmente cantor Barbosa Júnior, sendo que  os três eram filhos de um engenheiro que participara da construção da antiga estrada de ferro Rio-São Paulo. Ainda durante a infância de nosso Joaquim Silvério, a família se transfere para a então Capital da República, o Rio de Janeiro. Em 1924, ele passa a cursar uma escola comercial, formando-se em Contabilidade. Entre 1926 e 1928, trabalha na livraria Braga & Cia., mas em virtude de um acidente ferroviário que sofreu em Teresópolis, fica inativo por alguns meses.  Restabelecido, foi trabalhar na Companhia de Navegação Lóide Brasileiro, e nessa ocasião nem pensava em seguir carreira artística. Em 1930, porém, o cantor João Athos, que Castro Barbosa conhecera no Lóide, escutou-o cantarolar e viu que ele levava jeito. Athos o indica para um teste na Rádio Educadora (PRB-7), onde é apresentado a Almirante (“a maior patente do rádio”) , que o leva a seu programa. Castro também participa do ‘Programa Casé”, apresentado por Ademar Casé, avô paterno da atriz e apresentadora de TV Regina Casé.  Na emissora, Castro Barbosa trava conhecimento com os maiores cartazes da época, entre eles, Noel Rosa, Custódio Mesquita, Nonô e Francisco Alves.  No início de 1931, a convite do compositor André Filho (autor dos clássicos ‘Cidade maravilhosa” e “Alô,alô”), grava seu primeiro disco, na Parlophon, lançado em março desse ano, com o samba-canção “Tu hás de sentir”, de Heitor dos Prazeres, e a marcha “Uvinha”, de André. Nessa ocasião, grava com o Bando da Lua, na Brunswick, o samba “Tá de mona”, de Maércio e Mazinho. No carnaval de 1932, obtém seu primeiro grande sucesso, em gravação Victor (devidamente aprovado em teste pelo então diretor artístico da gravadora,o violonista Rogério Guimarães): a marchinha “Teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo e dos irmãos Raul & João Victor Valença, hoje um clássico, vendendo quinze mil cópias (cifra considerável  para a época, na qual os grandes cantores vendiam, em média, até mil discos).  Mais tarde, conhece João de Freitas Ferreira, o Jonjoca, e em uma festa na casa do cantor Jorge Fernandes, ambos fizeram um dueto de brincadeira, com Barbosa imitando Francisco Alves, o eterno Rei da Voz. Nascia a dupla Jonjoca e Castro Barbosa, que a Victor lança para competir com Chico Alves e Mário Reis, da Odeon, e grava inúmeros hits.  Barbosa gravaria, até 1954, 83 discos de 78 rpm com 150 músicas, várias delas de sucesso, mas,  em 1937, foi convidado por Renato Murce para substituir o ator Artur de Oliveira no “Programa Palmolive”, da lendária Rádio Nacional, atuando como cantor e humorista ao lado de Jorge Murad e Dircinha Batista. A partir daí, sua atuação como locutor e humorista passa a sobrepujar a carreira de cantor. Em 1939, é convidado por Lauro Borges para atuar no humorístico “PRV-8 Rádio X” (com o pseudônimo de Vasco Ferreira), embrião do que, em poucos anos, viria a ser a notória “PRK-30”, estreada em 1944 na Rádio Mayrink Veiga. Nos primeiros programas, porém, foi Pinto Filho quem atuou ao lado de Lauro Borges, e Castro Barbosa (ex-Vasco Ferreira) só entraria em cena a partir do programa de número 25 da série, interpretando o locutor português Megatério Nababo d’Alicerce, com Lauro no papel de Otelo Trigueiro, o “porigrota da voz lantijolada”.  Em 1946, a “PRK-30” transfere-se para a Rádio Nacional, tornando-se  uma das maiores audiências da emissora estatal da Praça Mauá,indo depois para a Tupi, sendo, a partir de 1951, apresentado também em São Paulo. Foram muitos anos de absoluto sucesso, e o programa iria inevitavelmente para a televisão, transmitido pelas TVs Rio e Paulista, repetindo o êxito no rádio. Em 1967, com a trágica morte do parceiro Lauro Borges (ele foi encontrado morto, com um tiro na cabeça, na garagem do edifício em que morava,no bairro paulistano da Vila Mariana), Castro Barbosa (mais tarde nome de rua no bairro carioca da Vila Isabel) decide deixar a vida artística, vindo a falecer no dia 30 de abril de 1975, no Rio de Janeiro, de aneurisma no estômago, deixando a viúva, Guilhermina Mendes, três filhos e cinco netos, entre estes últimos a hoje também atriz Renata Castro Barbosa, contratada da Rede Globo de Televisão.
Nesta edição do GRB, apresentamos 19 exemplos notáveis e expressivos da arte musical de Castro Barbosa, solo ou em dupla com outros. Abrindo a seleção, a clássica rumba “Aqueles olhos verdes (Aquellos ojos verdes)”, de Nilo Menéndez (cubano radicado nos EUA) e Adolfo Utrera, em versão de João de Barro,  o Braguinha. Gravação Parlophon de 30 de julho de 1932, matriz 131430, inicialmente lançada com o número 13431-A e, em março de 33, reeditada pela Odeon sob número 11005-A. Braguinha também é responsável pela faixa seguinte, a marchinha “Escravos de Jó”, adaptando famosa cantiga de roda, que Barbosa lança na Columbia em janeiro de 1942, para o carnaval desse ano, disco 55323-B, matriz 502. O fox “Julieta” é uma das raras exceções na obra essencialmente sambística de Noel Rosa, em parceria com Eratóstenes Frazão. Castro Barbosa o gravou na Odeon em 3 de agosto de 1933, com lançamento em outubro seguinte sob número 11063-B, matriz 4703. A marcha “Paris sorrirá outra vez” é de Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago,  e a Columbia o lança em novembro de 1942 (época em que a capital francesa era impiedosamente bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial), sob n.o 55382-A,matriz 565. Castro Barbosa demonstra em seguida seu talento de compositor no samba-canção ‘Tudo que a boca não disse”, que gravou na Victor em 13 de abril de 1937, com lançamento em julho do mesmo ano, disco 34182-B, matriz 80361, que apresentava do outro lado ‘Tua partida”, com Francisco Alves, então retornando à Odeon.  A marcha “Asas do Brasil”, da fértil parceria Braguinha-Alberto Ribeiro,é o lado B do disco Columbia de “Paris sorrirá outra vez”, de 1942, matriz 564, e aproveita a melodia de outra composição da dupla, a marcha-rancho “A flor e o vento”, que Francisco Alves lançara na mesma marca dois anos antes. Em seguida, a bela valsa “Dona Felicidade”, do flautista Benedito Lacerda em parceria com Nélson Tangerine, que Barbosa grava na Victor em 19 de abril de 1937, e é lançada em junho do mesmo ano com o n.o 34170-B, matriz 80371. O samba “Vou pegá Lampião”, de J. Thomaz (aquele maestro que regia de luvas brancas sem saber música, e teve de largar a bateria por se queimar com fogos de artifício), faz referência ao famoso e então temido cangaceiro, e Castro Barbosa o grava na mesma Victor em 3 de julho de 1931, com lançamento em agosto do mesmo ano, disco 33451-A, matriz 65183. Em dueto com Almirante, Castro Barbosa interpreta em seguida “A maior descoberta”, rara incursão carnavalesca de Cãndido “Índio” das Neves, compositor essencialmente romântico (“Noite cheia de estrelas”, “A última estrofe”, “Lágrimas”, “Dileta” etc.. Exaltando a mulata, “que venceu mais uma vez”, e é tida como a maior descoberta depois da do Brasil, é lançada pela Victor em fevereiro de 1934, em pleno carnaval, tendo a gravação sido feita a 12 de janeiro, disco 33758-A, matriz 65934. Em seguida, Barbosa interpreta, ao lado de Francisco Alves e Murilo Caldas (irmão de Sílvio), o samba “Desacato”, parceria de Murilo com Wilson Batista e Paulo Vieira, gravado na Odeon em 18 de julho de 1933, e lançado em agosto seguinte sob n.o 11042-B,matriz 4699, obtendo sucesso “desacatador”, segundo a edição impressa.  Em seguida vem o lado A, matriz 4693, gravado ainda em 7 de julho, dueto de Castro Barbosa com Francisco Alves: o clássico samba “Feitio de oração”, primeira música da parceria Noel Rosa-Vadico, que tornou antológicas os versos“Ninguém aprende samba no colégio” e “Quem suportar uma paixão/sentirá que o samba então/ nasce no coração”. Note-se o andamento mais rápido que o adotado em gravações posteriores. Depois, Barbosa, agora em dueto com Déo, “o ditador de sucessos”, interpreta o “Frevo n.o 1”, que na verdade, é o famoso “Vassourinhas”, de autoria de Matias da Rocha e Joana Batista Ramos, em adaptação de Almirante. Foi lançado pela Continental em pleno carnaval de 1945, em fevereiro,com o número 15279-B, matriz 1032. O clássico frevo, porém, ficaria mais conhecido a partir de 1950, numa gravação instrumental da Orquestra Tabajara de Severino Araújo. Da dupla de Castro Barbosa com Jonjoca vêm três sambas notáveis. O primeiro é o clássico “Adeus”, de Ismael  Silva, Noel Rosa e Francisco Alves, gravação Victor de 12 de abril de 1932, lançada em maio seguinte sob n.o 33548-B,matriz 65451. Da mesma santíssima trindade é “Dona do lugar”, gravação Odeon de 23 de dezembro de 1932, lançada um mês antes do carnaval de 33, janeiro, com o n.o 10966-B, matriz 4562. Em seguida, “Sinto falta de você”, de Jonjoca sem parceiro, gravado na Victor em 12 de junho de 1931 e lançado em julho do mesmo ano, disco 33447-A, matriz 65162. Vêm logo em seguida dois sambas de Raul Marques e Ernâni Silva, gravados por Castro Barbosa em dueto com Aracy de Almeida na Victor em 21 de dezembro de 1936, com lançamento em janeiro de 37, claro que para o carnaval: ‘Eu e você”, matriz 80303, e ‘Helena”, matriz 80304. Em dueto com Sônia Barreto, também radialista e atriz, Castro Barbosa interpreta  o fox “Você me enlouquece (You drive me crazy/What did I do?)”, de Walter Donaldson e Franz Skinner, em versão de Lamartine Babo (editada como “Estou ficando maluco por ti”), gravação Victor de 13 de janeiro de 1932, lançada em fevereiro seguinte sob n.o 33526-A,matriz 65360, e também gravado na Odeon por Francisco Alves dias depois. Para terminar, no maior alto astral, a divertida marchinha “Vou espalhando por aí”, de Assis Valente, um dueto de Castro Barbosa com Cármen Miranda, também gravação Victor, esta de 23 de abril de 1934,porém só lançada em junho de 35, quando Cármen já se transferira para a Odeon, sob n.o 33936-A, matriz 79612. Não poderia haver melhor final para esta expressiva retrospectiva que o GRB faz do trabalho musical de Castro Barbosa. Divirtam-se!
*Texto de Samuel Machado Filho

Marlene – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 110 (2014)

Depois de Emilinha Borba, na semana passada, nada mais justo que o Grand Record Brazil dedique este seu centésimo-décimo volume àquela que foi durante anos apontada como sua rival, sem nunca tê-lo sido. E nossos amigos cultos, ocultos e associados por certo já perceberam que estamos falando de Marlene, aliás uma das inúmeras perdas importantes deste ano de2014, ainda em curso. Batizada como Victoria Bonaiutti de Martino, nossa focalizada veio ao mundo no dia 22 de novembro de 1922, em São Paulo, na Bela Vista (o velho e bom Bixiga), bairro central tipicamente italiano, com características tradicionais ainda conservadas em parte.  Os  pais,claro, eram italianos, e Vitória era a caçula de três filhas, as demais eram Marieta e Geni. Seu nome vem do pai, Victorio, falecido sete dias após seu nascimento. A mãe, Dona Antonieta, não se casaria outra vez, e por isso teve de arcar sozinha com a manutenção e a educação das filhotas. Alfabetizava no Instituto de Surdos e Mudos e trabalhava como costureira. Como pertencesse à Igreja Batista, D. Antonieta conseguiu que Victorinha fosse internada, pagando apenas uma taxa, no Colégio Batista Brasileiro, com mensalidades dispensadas, em troca  de a futura estrela executar  serviços gerais, como a arrumação dos dormitórios.  Nesse colégio, frequentado por meninos e moças da alta sociedade, Victorinha estudou dos 9 aos 15 anos, destacando-se nas equipes esportivas, e no coro juvenil da igreja. Sabia também declamar, e cantava se acompanhando ao violão. Mais tarde, Victoria vai cursar a Faculdade de Comércio, na Praça da Sé, a fim de se tornar contadora. Ao mesmo tempo, necessitando trabalhar, emprega-se, durante o dia, em um escritório comercial, e começa a participar de uma entidade estudantil recém-formada, a qual passa a dispor de um espaço na PRH-9. Rádio Bandeirantes (então “a mais popular emissora paulista”), “A hora do estudante”, onde seria cantora. Nessa ocasião,seus colegas estudantes escolhem o nome artístico que a imortalizou, Marlene, por certo em homenagem à atriz e cantora alemã Marlene Dietrich. Mais tarde, acompanhando a sambista Jeanette Thadeu, “a garota do chapéu-de-palha”, vai conhecer a PRG-2, Rádio Tupi (“a mais poderosa emissora paulista”), sendo admitida com salário de 200 mil-réis mensais.  Cansada da desaprovação e dos temores de sua família (que não podia admitir nenhuma incursão no setor artístico, por razões sociais e religiosas então vigentes), Marlene soube que o empresário e radialista Armando Silva Araújo (Domanar) poderia lhe proporcionar um teste para crooner no Cassino Icaraí, em Niterói. Aí, toma o trem, e vai para o Rio de Janeiro, faz o teste no Icaraí com o maestro Vicente Paiva e é aprovada. Passa depois a ser crooner da orquestra de Carlos Machado, no Cassino da Urca, o mais famoso do Brasil e o preferido dos turistas, pelo qual passavam grandes cartazes internacionais.  E Marlene (“a que canta o samba diferente”) foi logo se constituindo em uma das atrações do cassino. Mas, em abril de 1946, o então presidente Dutra proíbe o jogo no Brasil, com o consequente fechamento dos cassinos e desemprego de artistas. Para Marlene, porém, houve compensação, pois seguiu com a orquestra de Carlos Machado para a boate Casablanca. Vai depois para o sofisticadíssimo Copacabana Palace, hotel dos irmãos Guinle, promovida a estrela da casa. Em 1947, atua na Rádio Mayrink Veiga e, depois, na Rádio Globo. Pouco antes, lançou pela Odeon seu primeiro disco, interpretando “Swing no morro” e “Ginga, ginga, moreno”,obtendo mais tarde seu primerio hit maiúsculo, no carnaval daquele ano, a marchinha “Coitadinho do papai”, premiada no concurso oficial da prefeitura do Rio. Já estreara no cinema, em 1944, atuando na comédia “Corações sem piloto”, e em seguida nos filmes carnavalescos “Pif-paf” (1945), “Caídos do céu” (1946) e “Esta é fina” (1947). Em 1948, assina contrato com a lendária Rádio Nacional, para atuar no programa de César de Alencar, logo tornado-se uma das estrelas da emissora da Praça Mauá. Um ano mais tarde, vence espetacularmente o concurso de Rainha do Rádio, derrotando Emilinha Borba,franca favorita, com o apoio da Antarctica, que então lançava o guaraná Caçula, sendo esse concurso a origem da eterna rivalidade entre seus fãs e os de Emilinha. A partir daí, todos sabem o que acontece: sucessos sem conta no disco (grava também na Star, Continental, RCA Victor, Todamérica, Sinter,  RGE…), e excursões pelo Brasil e no exterior. Vai a Paris (ficou quatro meses e meio em cartaz no famoso teatro Olympia), Nova York , Chicago, Santiago do Chile, Buenos Aires (na Argentina, em 1954, atuou no filme “Adeus, problemas”), e se apresenta em Cannes, na França, a convite do duque e da duquesa de Windsor. Em 1952, casa-se com o também ator Luiz Delfino, que conhecera durante as filmagens de ”Tudo azul”, e o enlace, na Igrejinha do Outeiro da Glória, é um verdadeiro acontecimento. Ao lado dele, dedica-se ao teatro, sua maior e declarada paixão, consagrada pelo público e crítica como atriz, e ambos fazem sucesso no rádio e na TV com o programa “Marlene, meu bem”, escrito por Mário Lago,versão brazuca da sitcom americana “I love Lucy”, satirizando episódios da vida a dois. . Atuou em espetáculos como “Carnavália”, “É a maior”, “Te pego pela palavra”, “Botequim” e “Ópera do malandro”, a maior parte registrados  em disco.  Como compositora, fez o samba-canção ‘A grande verdade” (parceria com Luiz Bittencourt), gravado em 1951 por Dalva de Oliveira. Enfim, uma artista completa. Marlene faleceria em 13 de junho de 2014, no Rio, aos 91 anos, de falência múltipla de órgãos. Ela estava internada no hospital Casa de Portugal, em virtude de uma queda sofrida dias antes, em casa. Para sempre “a maior”, “a incomparável” e “aquela que não perde a majestade”,  Marlene recebe a homenagem do GRB, nesta edição em que apresentamos catorze de suas melhores gravações,  nas quais se mostra uma intérprete versátil e personalíssima. Abrindo esta seleção, que contou inclusive com a preciosa colaboração deste que vos escreve, a marchinha “Vou nas águas”, de Raul Sampaio e Benil dos Santos, para o carnaval de 1959, gravação Odeon de 6 de novembro de 58, lançada ainda em dezembro, disco  14398-B, matriz 13037. Em seguida,o baião “Estrela Miúda”, primeira composição gravada do maranhense (de Pedreiras)  João do Valle, em parceria com Luiz Vieira, gravação Todamérica de 26 de março de 1953, lançada em junho do mesmo ano sob n.o TA-5293-B, matriz TA-432. Nessa ocasião, João do Valle era servente de pedreiro, de dormir na obra e tudo o mais, e uma mulher que morava lá perto tocava esse disco sem parar,o dia todo. João não tinha coragem de dizer que a música era dele. Um dia, não dando mais para segurar a coisa, ele se chegou para seu chefe e perguntou: “Tá ouvindo essa música?” “Sim, é Estrela Miúda”, respondeu ele. “Sabe quem canta?”, perguntou João. “Sei, é a Marlene”. “E quem é o autor?” O chefe não sabia, e ao ouvir de João do Valle que o autor era ele, nem acreditou: “Que é isso, neguinho, tá delirando? Traz massa, neguinho, traz massa!” Depois vem o samba “Gabi morena”, de autoria de outro expressivo compositor nordestino, o pernambucano Luiz Bandeira (também autor de”Na cadência do samba”,o famoso “Que bonito é”), gravado na Continental pela “maior” em 2 de junho de1954, com lançamento em junho-julho desse ano, disco 16991-A, matriz C-3380. Temos em seguida a divertida marchinha-crônica “Ibrahim piu-piu (Marcha do Ibrahim)”, um dos hits do carnaval de 1956, de autoria de Miguel Gustavo, sem dúvida um cronista musical de seu tempo. Lançada pela Sinter ainda em novembro-dezembro de 55 sob n.o 00-00.440-B, matriz S-1002, faz referência ao colunista social Ibrahim Sued, muito popular na imprensa e na televisão, com bordões que marcaram época: “Depois eu conto”, “De leve…”, “Bola branca”, “Bola preta”, “Alô, panteras e panterinhas”, “E ademã que eu vou em frente” etc. O lírico e expressivo samba-canção “Luz de vela”, de Luiz Antônio, é lançado por Marlene, na Continental, em maio-junho de 1952, com o n.o 16563-B,matriz C-2822. Sucesso no carnaval de 1953, a “Marcha do sapinho”, de Humberto Teixeira e Norte Victor, é lançada pela mesma Continental na voz da “incomparável” em janeiro desse ano, com o n.o 16670-B, matriz C-2990, sendo interpretada também por Oscarito e Maria Antonieta Pons no filme “Carnaval Atlântida”.  “Canta, menina, canta”, samba de Monsueto e Arnaldo Passos,é lançado pela Sinter em maio-junho de1955 sob n.o 00-00.395-A, matriz S-893, entrando mais tarde no LP de dez polegadas “Vamos dançar com Marlene e seus sucessos”. João “Braguinha” de Barro, Nássara e Antônio Almeida assinam a marchinha “Sereia da areia”, do carnaval de 1952, que a Continental põe nas lojas um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, disco 16509-B, matriz C-2777, e é também interpretada por Marlene no já citado filme “Tudo azul”, da Flama Filmes, último trabalho do cineasta Moacyr Fenelon.  Do mesmo suplemento Continental de “Luz de vela”, maio-junho de 1952, é o baião junino “Canção das noivas”, de Haroldo Lobo e Rômulo Paes, que é catalogado com o número 16556-B, matriz C-2843. “Quero sambar”, de autoria de Zé Kéti, é gravado na RCA Victor pela nossa Marlene em 30 de agosto de 1957, sendo lançado em novembro seguinte sob n.o 80-1862-A,matriz 13-H2PB-0207. Marlene também o interpreta no filme “O cantor e o milionário”, da Cinematográfica Guarujá”, no qual atua como atriz, interpretando a si mesma, ao lado do marido, Luiz Delfino. Norival Reis,o Vavá, que também era técnico de gravação da Continental, assina com Rutinaldo Silva “Vamos à valsa”, que Marlene lança pela gravadora dos irmãos Byington em maio-junho de 1951, sob n.o 16406-A,matriz 2610. Também na Continental, agora tendo ao lado o então nascente conjunto vocal Os Cariocas, e com acompanhamento impecável da Orquestra Tabajara de Severino Araújo, Marlene lança, entre outubro e dezembro de 1949, no disco 16125, dois baiões clássicos da parceria Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira, que o próprio Gonzagão só irá gravar posteriormente. No lado A, matriz 2166, “Macapá”, e no verso, matriz 2167, “Qui nem jiló”, originalmente valsa,mas que Humberto Teixeira transforma no então ritmo da moda, alcançando expressivo êxito. Esta faixa encerra nosso retrospecto marleniano, mas, antes dela, iremos encontrar a divertida valsa ‘Marlene, meu bem”, de Mário Lago, em dueto com o entoa marido Luiz Delfino, e inspirada no já citado programa de rádio e TV de mesmo nome, escrito justamente por Mário Lago. Foi lançado pela Sinter em setembro-outubro de 1955, sob n.o 00-00.425-A, matriz S-975.Enfim, esta é a homenagem do GRB àquela que foi, é e será eternamente A MAIOR!
* Texto de Samuel Machado Filho

Emilinha Borba – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 109 (2014)

E aí vai, para nossos amigos cultos, ocultos e associados, a centésima-nona edição do Grand Record Brazil. Desta vez, apresentamos uma das mais queridas cantoras do Brasil, autêntico ídolo da fase áurea do rádio brasileiro e um fenômeno de popularidade como poucos:  Emilinha Borba. O nome completo de nossa focalizada era Emília Savana da Silva Borba. Ela veio ao mundo na Estação de Mangueira, no Rio de Janeiro, no dia 31 de agosto de 1923, filha do engenheiro agrônomo Eugênio Jordão da Silva Borba, por sinal proprietário da Vila Savana, onde nasceu e morava Emilinha, e Edith da Silva Borba. A família teve ao todo sete filhos, sendo seis mulheres  (Maria de Lourdes, Xezira, Salete, Emília, Ely e Terezinha)e apenas um homem, José Maria, qual Emilinha era irmã gêmea.  A prodigalidade do pai acabou por deixar a todos, quando faleceu prematuramente,em situação bem difícil.  E Dona Edith precisou distribuir os filhos pelas casas dos parentes, e nossa Emilinha foi para a residência da avó, Dona Bela. Desde muito pequena, Emilinha demonstrou estar fadada a trilhar o caminho da arte, passando a frequentar as emissoras de rádio. Apresentando-se no programa “De graça para todos”, da PRG-3, Rádio Transmissora, produzido por Oscar Gomes Cardim, em 1937, recebia cachês de 20 mil-réis.  Passou também pelo “Programa juvenil”, da PRD-2, Rádio Cruzeiro do Sul, e até mesmo pelo programa de calouros do sempre exigente Ary Barroso, onde conquistou o primeiro prêmio, feito do qual se orgulharia para o resto da vida.  Na Cruzeiro do Sul,conheceu Bidu Reis, com quem formaria o duo As Moreninhas. Xezira Borba,irmã de Emilinha, também chegou a esboçar carreira de cantora, com o pseudônimo de Nena Robledo, gravando dois discos com três músicas, mas abandonou o canto ao se casar com o compositor Peterpan (José Fernandes de Paula). Dona Edith, mãe de Emilinha, em 1938, trabalhava como faxineira do Cassino da Urca, e despertou a atenção de Cármen Miranda, então grande atração da casa. Ao saber da reviravolta na vida dos Borbas, Cármen se ofereceu para ajudar, caso alguma das filhas da Dona Edith pudesse ser aproveitada no espetáculo. Esta então indicou Emilinha, que, com roupas fornecidas por Cármen, fez um teste perante o mineiro Joaquim Rolas,dono do cassino. Percebendo o nervosismo da menina, que teve sua idade aumentada em dois anos, Cármen desviava a atenção de Rolas com uma conversa sem fim enquanto Emilinha cantava. Além de ser uma das “crooners” da Urca, a futura “Favorita” atuava na Rádio Cajuti. Em fevereiro de 1939, apresentou-se pela primeira vez em São Paulo, através da Rádio Record, no Teatro Coliseu, ao lado de Orlando Silkva, Almirante e Sílvio Caldas. No mesmo ano, ainda como Emília Borba, estreia em disco, na Columbia, interpretando a marchinha “Pirulito”, ao lado de Nílton Paz,  e, embora só este  aparecesse como intérprete no selo, sua voz se evidenciava, e bem. Até 1940, ela faria mais quatro discos na Columbia, e um ano depois, teve curta passagem pela Odeon, aparecendo pela primeira vez no selo do disco como Emilinha Borba. Ela foi também a cantora que mais participou de filmes  em toda a história do cinema brasileiro, cerca de 40, todos eles musicais: “Vamos cantar” (1940), “Tristezas não pagam dívidas” (1944), “Não adianta chorar” (1944), “Segura esta mulher” (1946), “Estou aí?” (1948), “De pernas pro ar” (1957), etc.  Em 1944, Emilinha ingressa na lendária Rádio Nacional, onde atua por 27 anos, e volta a gravar na Columbia, já com o nome de Continental, onde fica até 1958, quando ingressa em outra Columbia, a futura CBS, hoje Sony Music. É aí que tudo acontece: sucessos sobre sucessos em disco, programas de auditório (inclusive o de César de Alencar, seu apresentador oficial, então líder de audiência nas tardes de sábado), faixas, troféus, a propalada rivalidade com Marlene…  Esta começou em 1949, quando Marlene venceu o concurso de Rainha do Rádio (Emilinha só ganharia o título em 1953). A “Favorita” teve até sua própria página na “Revista do Rádio”, o “Diário de Emilinha”, e o simples anúncio de sua presença em qualquer cidade ou lugarejo do Brasil era feriado local, com desfile em carro aberto, outorga da chave da cidade etc. Até agosto de 1995, foi a personalidade que mais apareceu em capas de revistas, aproximadamente 350! Entre 1968 e 1972, Emilinha esteve inativa por causa de um edema nas cordas vocais, voltando a cantar após três cirurgias e um longo estudo de reeducação da voz. Em toda a carreira, gravou, em 78 rpm, 117 discos com 216 músicas, e cerca de dez LPs.  Nos três últimos anos de vida, continuou se apresentando por todo o país, inclusive animando bailes carnavalescos. Em 2003,após 22 anos sem gravar, lançou o CD independente “Emilinha  pinta… e Borba”, que ela mesmo vendia de forma bem popular, em contato com o público.  No início de 2005, lançou seu último trabalho em disco, o CD “Na banca da folia”, para o carnaval desse ano. Emilinha Borba morreu na tarde do dia 3 de outubro de 2005, aos 82 anos, de infarto fulminante, enquanto almoçava em seu apartamento, no bairro carioca de Copacabana, mas continua até hoje lembrada por sua voz, popularidade e extremo carisma.  E o GRB reverencia sua memória apresentando dezoito faixas gravadas em 78 rpm, uma amostragem de alguns de seus melhores momentos, que os fãs da cantora por certo reconhecerão aos primeiros acordes. Abrindo esta seleção, a batucada “A louca chegou”, do carnaval de 1953, de autoria de Rômulo Paes, Henrique de Almeida e Adoniran Barbosa, em dueto com o também “bandleader” Ruy Rey, lançada pela Continental em janeiro desse ano com o n.o 16692-B, matriz C-3005 (nessa ocasião também gravada na Copacabana por Elza Laranjeira). A maior parte das faixas com a ‘Favorita” aqui incluídas foi por sinal gravada na Continental. Em seguida, um verdadeiro clássico: o baião “Paraíba”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, por ela imortalizado em primeiro de março de 1950, com lançamento em abril, disco 16187-B, matriz 2256 (Gonzagão só fez seu próprio registro em 1952). No acompanhamento,o regional de Canhoto (Waldiro Frederico Tramontano) e o coro Os Boêmios. A música iria criar, por sinal, um neologismo significando mulher masculinizada, mas a expressão “Paraíba masculina, mulher macho, sim senhor” significava que a Paraíba era um estado, mas com nome feminino.  A faixa 3 apresenta o choro ‘Divagando”,  de Nélson Miranda e Luiz Bittencourt, com Emilinha acompanhada pelo conjunto Bossa Clube, e lançado pela Continental em novembro de 1945,disco 15473-B, matriz 1299. “Quando tu não estás (Cuando tu no estás)” é uma versão de Haroldo Barbosa, em ritmo de bolero, para um tango de Carlos Gardel, Alfredo Le Pera e Battistella, que Francisco Alves interpretava em seus programas de rádio. Mas foi Emilinha quem a gravou comercialmente, na Continental, menos de um ano depois da morte trágica do Rei da Voz, em 15 de abril de 1953, com lançamento em julho-agosto seguintes sob número 16796-A,matriz C-3113. A faixa seguinte traz a toada junina “Capelinha de melão”, motivo popular adaptado por João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro, com lançamento  pela então “marca dos sininhos” em março-abril de 1949, disco 16041-A, matriz 2058. Desse mesmo suplemento bimestral da Continental  é o samba “Deixa que amanheça (Como nos versos de Bilac)”, de autoria de Oswaldo Santiago, catalogado com o número 16036-A,matriz 2041. A faixa 7 é um verdadeiro clássico de Emilinha e do carnaval: a marchinha “Chiquita Bacana”, de Braguinha e Alberto Ribeiro, lançado em janeiro de1949 com o número 15979-A,matriz 2001, época em estava em moda o chamado Existencialismo, cuja figura de proa era a atriz francesa Juliette Greco. Emilinha também a interpretou no filme “Estou aí?”, de Moacyr Fenelon. “Dançando a rumba”, de Ayrton Amorim e Mário Menezes,  é outro dos conhecidos hits da “Favorita”, e a Continental o lançou entre julho e setembro de1951, disco 16416-A, matriz 2680. Em seguida, temos o fox “Deixa eu, nêgo (Let me go, lover)”, de Jenny Lou Carson e All Hill, com letra brasileira de Giuseppe Ghiaroni, escritor, jornalista e então colega de Emilinha na Rádio Nacional, onde escreveu inúmeras novelas e programas. A gravação da ‘Favorita” foi lançada pela Continental em maio-junho de 1955, sob número 17123-A, matriz C-3609, imediatamente após a de Violeta Cavalcanti com o Trio Irakitan, pela Odeon.  Depois , do primeiro disco-solo de Emilinha, então Emília Borba, o Columbia 55048, temos o lado A, o samba-choro “Faça o mesmo”, de Nássara e Eratóstenes Frazão, gravado em 2 de março de 1939 e lançado em maio do mesmo ano, matriz 145. Voltando à Continental, ou melhor, permanecendo nela, já que era a antiga Columbia, temos o samba “Jurei”, também de Nássara, agora em parceria com Waldemar “Dunga” de Abreu, lançado em setembro-outubro de 1950 sob n.o 16295-B, matriz 2417. A seguir, outra marchinha carnavalesca conhecidíssima: a famosa “Vai com jeito”, de exclusiva autoria do grande Braguinha, que a “Favorita” imortalizou em 19 de outubro de 1956, com lançamento em janeiro de 57, sob n.o 17372-B, matriz C-3869, abrindo também o LP coletivo “Carnaval de 1957”, em 10 polegadas. “Vai com jeito”,aliás, dominou essa folia, sendo também apresentada no filme ‘Garotas e samba”, da Atlântida.  “Você e o samba”, de Peterpan (cunhado de Emilinha) e Ari Monteiro, saiu pela “marca dos sininhos” em outubro de 1945, sob número 15455-B, matriz 1215. O fox-samba “Istambul”, de Norman Simon e Jimmy Kennedy, tem letra brasileira de Lourival Faissal, gravada por Emilinha em 2 de agosto de 1955 e lançada em outubro seguinte com o n.o 17177-A, matriz C-3675. Chegaria até mesmo ao LP, na compilação  “Seleções Continental n.o 1”, por sinal o primeiro da gravadora no formato-padrão de 12 polegadas. Ainda do cunhado Peterpan, agora em parceria com José Batista, é o bolero ‘Noite de chuva”, que Emilinha imortaliza na Continental de sempre em 7 de junho de 1954, para lançamento no suplemento do bimestre junho-julho, disco 16990-B, matriz C-3361, sendo também apresentado no filme “Capricho de amor”, da Bandeirante Filmes.  Outro inesquecível hit carnavalesco de Emilinha aqui incluído é a marchinha “Tomara que chova”, de Paquito e Romeu Gentil, que dominou a folia de 1951. Inicialmente gravado na Odeon pelos Vocalistas Tropicais, ganha também registro de Emilinha pela Continental, em 25 de outubro de 50, com lançamento um mês antes do carnaval, janeiro, sob n.o 16339-B, matriz 2479. A “Favorita” igualmente a interpretou no filme “Aviso aos navegantes”, da Atlântida.  A lírica toada “Não é só o luar”, de José Batista, é lançada pela “marca dos sininhos” em  abril-maio de 1956, sob n.o 17273-A, matriz C-3408. Para encerrar, temos justamente a estreia de Emilinha em disco, em dueto com Nílton Paz: a marchinha “Pirulito”, composta por João “Braguinha” de Barro e Alberto Ribeiro, com estribilho oriundo do folclore português, para o filme “Banana da terra”, da Cinédia, em substituição ao samba ‘Boneca de piche”, de Ary Barroso, que seria interpretado por Almirante e Cármen Miranda com os rostos pintados de preto, como malandros da Lapa. Como não houve acordo financeiro com Ary, Almirante e Cármen filmaram “Pirulito” com essa mesma caracterização.  A gravação, porém, coube a dois estreantes em disco, o maranhense (de Caxias) Nílton Paz, em dupla com nossa Emilinha, na Columbia, em 3 de janeiro de 1939, com lançamento em plena folia, fevereiro, sob n.o  55013-A, matriz 120, e com estrondoso sucesso, um fecho realmente de ouro para esta seleção. Com vocês, a minha, a sua, a nossa favorita…. Emilinha Borba!
Texto de Samuel Machado Filho

A Música De Alvaiade E De Djalma Mafra – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol.108 (2014)

Dois grandes compositores cariocas abrilhantam a centésima-oitava  edição do Grand Record Brazil: Alvaiade e Djalma Mafra. Alvaiade, na pia batismal Oswaldo dos Santos,  nasceu na Estrada da Portela, no subúrbio carioca de Oswaldo Cruz, a 21 de dezembro de 1913. Órfão de pai aos cinco anos, começou a trabalhar aos treze, como empregado de uma tipografia, assim sustentando a família. Desde criança interessou-se por música, e sua primeira composição data de 1926: o choro “O que vier eu traço”,em parceria com Zé Maria, só gravado em 1945 por Ademilde Fonseca.  Em 1928, a convite de Paulo da Portela, deixou o pequeno bloco carnavalesco  de que participava em Oswaldo Cruz para integrar a escola de samba dirigida por Paulo, a Vai Como Pode, que mais tarde se transformou na atual Portela. Inicialmente, Alvaiade (apelido que recebeu de companheiros de futebol, tendo jogado no time da própria Portela e na Associação Atlética Portuguesa) apresentava-se fazendo um cavaquinho (que tocava de ouvido) de centro,  acompanhando o samba, e mais tarde passou a compor para a escola. Era também percussionista. Na Portela, desempenhou funções várias, inclusive administrativas, e tendo também lançado compositores como Manaceia, Walter Rosa, Candeia e Chico Santana. Apresentou-se nas rodas de samba do Teatro Opinião, na década de 1970, fez parte da ala de compositores da Portela e foi um dos fundadores da UBC (União Brasileira de Compositores). Alvaiade faleceu em seu Rio natal em 23 de junho de 1981, já aposentado da UBC e dos serviços tipográficos, e seu corpo permaneceu dois dias no IML (Instituto Médico Legal), antes de ser reconhecido, sendo depois sepultado no cemitério do Irajá. E foi justamente o bairro carioca do Irajá o berço natal de Djalma Mafra, que veio ao mundo no dia 2 de novembro de 1916, e faleceu, também no Rio de Janeiro, em plena véspera de Natal de 1974, ou seja, a 24 de dezembro. Djalma sempre esteve muito ligado ao carnaval, especialmente de Madureira, do qual foi grande folião. Teve inúmeras composições gravadas, especialmente sambas e marchinhas,  em parceria com outros nomes de prestígio:  Geraldo Pereira, o próprio Alvaiade, que também abordamos aqui, Ataulfo Alves, Joel de Almeida, etc. Nesta edição do GRB, um pouco do expressivo legado de Alvaiade e Djalma Mafra, em catorze preciosas gravações. Abrindo-a, o samba “O coração ordena”, de Alvaiade e Paquito, do carnaval de 1939, gravação Victor de J. B. de Carvalho, em 27 de setembro de 38, lançada ainda em dezembro sob n.o 34392-A, matriz 80906. Do carnaval seguinte é outro samba de Alvaiade, agora em parceria com Alcides Lopes, “Eu chorei”, gravado na Odeon por Joel e Gaúcho em 4 de dezembro de 1939 e lançado um mês antes da folia de 40, em janeiro, disco 11820-B, matriz 6286. De ambos os nossos focalizados, Alvaiade e Djalma Mafra, em parceria, é o samba-canção “Brigas de amor”, gravado na Sinter por Flora Matos (não confundir com a “rapper” brasiliense), com lançamento em maio-junho de 1955, disco 00-00.400-A,matriz S-889. Flora, também compositora, gravou 16 discos 78 com 32 músicas, entre 1946 e 1960, e participou de LPs coletivos. De Alvaiade e Ari Monteiro é o samba “De sol a sol”, do carnaval de 1942, gravação Victor de Linda Batista em  12 de novembro de 41, lançada um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, com o n.o 34860-B, matriz S-052419. De Djalma Mafra sem parceiro é o samba “Banco de réu”, que o mestre de Miraí, Ataulfo Alves, com suas Pastoras a tiracolo, lança pela Star em  maio de 1949, disco 132-B. Logo em seguida, acompanhado por sua Academia de Samba, Ataulfo interpreta outro samba, “Deus me ajude”, do carnaval de 1943, de autoria de Alvaiade, Estanislau Silva e Humberto de Carvalho, gravação Odeon de 11 de setembro de 42, lançada ainda em dezembro, disco 12232-A, matriz 7063. Novamente com as Pastoras, Ataulfo interpreta em seguida “Brasil”, outro samba de Alvaiade, agora com a parceria de Nílson Gonçalves, do carnaval de 1945, também gravado na “marca do templo” em 19 de outubro de 44 e lançado ainda em dezembro, disco 12525-A,matriz 7682. O paulista Risadinha (Francisco Ferraz Neto, 1921-1976), interpreta depois um samba só de Alvaiade, “Eu ainda sou eu”,  outra gravação Odeon, esta de 14 de abril de 1952, lançada em maio do mesmo ano com o n.o 13292-B, matriz 9282. Na faixa 9, volta Ataulfo Alves, com sua Academia de Samba, agora para interpretar o samba “Leonor”, dele próprio com Djalma Mafra, em registro Odeon de 9 de setembro de 1943, lançada em novembro seguinte sob n.o 12372-B, matriz 7376. Djalma Mafra assina em seguida,com Joel de Almeida, a marchinha ‘Cavalinho bom”, do carnaval de 1944, que Joel grava com Gaúcho na mesmíssima Odeon em 5 de agosto de 43 com lançamento ainda em novembro, disco 12373-B, matriz 7354. Marilu (Maria de Lourdes Lopes), carioca da Vila Isabel, aqui comparece com o samba “Réu primário”, de Djalma Mafra e Amaro Silva, também destinado ao carnaval de 1944. Gravação Victor de 12 de outubro de 43, lançada ainda em dezembro com o n.o 80-0137-A,matriz S-052854. O eterno ‘Formigão”, Cyro Monteiro,  interpreta em seguida o samba “Dentro da capela”, parceria de Djalma Mafra com Alcides Rosa, gravado na RCA Victor ao apagar das luzes de 1946, 20 de dezembro, indo para as lojas em março de 47 com o n.o 80-0502-B, matriz S-078703. O cantor José Ribamar, que deixou uma escassa discografia (apenas cinco discos 78 com dez músicas, entre 1954 e 1958), vem aqui com o lado B de seu primeiro disco, o Todamérica TA-5479: o samba “Falsidade”, de Djalma Mafra e João Pereira de Lucena, gravado em 17 de agosto de 1954 e lançado em outubro do mesmo ano, matriz TA-720. Para encerrar, o  trombonista  e maestro Astor Silva, à frente do grupo Rio Melodian’s, executa o choro “Comprando barulho”, de Djalma Mafra e Jorge Tavares, gravação da marca Rio, de existência efêmera, disco 10-0034-B, datado de 1951. Aqui fica a homenagem do GRB a estes compositores que muito contribuíram para nossa música popular, Alvaiade e Djalma Mafra, para a alegria e o deleite de todos os que apreciam o que é bom!
* Texto de Samuel Machado Filho

Nuno Roland – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 107 (2014)

A centésima-sétima edição do Grand Record Brazil é dedicada a um dos maiores cantores da era de ouro do rádio brasileiro. Estamos falando de Nuno Roland. Nosso focalizado veio ao mundo na cidade de Joinville, Estado de Santa Catarina, no dia primeiro de março de 1913, batizado com o nome de Reinold Correia de Oliveira. Ainda menino, ele tocava tarol e caixa na banda da cidade de Teixeira Soares, no Paraná. Aos 13 anos, mudou-se com a família para outra cidade catarinense, Porto União, tendo trabalhado como balconista, telegrafista e bancário. Após servir o exército, em 1931, transferiu-se para a cidade gaúcha de Passo Fundo, onde começou sua carreira, conseguindo emprego de cantor e baterista em um cassino, e apresentando-se com seu nome verdadeiro, Reinold de Oliveira. Em 1932, alistou-se como voluntário no Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, para entrar em combate na Revolução Constitucionalista daquele ano. Veio com sua tropa para São Paulo, e na ocasião fez amizade com outro soldado, então crooner da jazz band do batalhão: nada mais nada menos que Lupicínio Rodrigues, posteriormente célebre compositor. Encerrada a Revolução, o cantor voltou a Porto Alegre, e, com apenas 19 anos, assinou seu primeiro contrato profissional, com a Rádio Gaúcha, posto ter se destacado como cantor em uma apresentação radiofônica da jazz band do batalhão em que estava lotado. Em 1934, muda-se para São Paulo, onde fez sucesso apresentando-se inicialmente na Rádio Record (então “a maior”), recebendo pequenos cachês. Mais tarde,com o apoio do violonista Garoto, consegue um contrato com a Rádio Educadora Paulista.  E é nessa ocasião que passa a adotar o nome artístico pelo qual ficou conhecido em todo o Brasil: Nuno Roland.  Ainda em 1934, grava seu primeiro disco, na Odeon, com duas composições de Sivan Castelo Neto (pseudônimo de Ulysses Lelot Filho):  a valsa “Pensemos num lindo futuro” e a canção “Cantigas de quem te vê”.  Dois anos mais tarde, Nuno muda-se para o Rio de Janeiro e torna-se um dos pioneiros da PRE-8, Rádio Nacional, onde estreia no dia de sua inauguração, 12 de setembro de 1936. Durante onze anos foi também crooner da orquestra do Copacabana Palace Hotel.  Em cerca de quarenta anos de carreiro, Nuno Roland gravou ainda nos selos  Columbia, Victor, Belacap, Carroussel, Caravelle, Todamérica  e Continental. Nesta última marca, ele viveu a melhor fase de sua carreira, registrando inúmeros sucessos, no carnaval e no meio-de-ano. Seu currículo também inclui duetos com Cármen Miranda, Linda Batista e Emilinha Borba. Integrou ainda, juntamente com Albertinho Fortuna e Paulo Tapajós,o Trio Melodia, formado na Nacional para apoio do superprograma “Um milhão de melodias”, e as carreiras individuais de seus integrantes prosseguiriam sem quaisquer problemas. As participações de Nuno nos programas musicais da emissora da Praça Mauá eram consideradas de alta qualidade artística. Sua atividade artística declinou na década de 1960, gravando esporadicamente nesse período. Em 1968, participou, ao lado de Marlene e Blecaute, do espetáculo “Carnavália”, que ficou em cartaz no Rio por quase um ano.  Nuno Roland faleceu em 20 de dezembro de 1975, também no Rio, aos 62 anos. De sua gloriosa trajetória fonográfica, o GRB foi buscar dezoito faixas, notáveis exemplos de sua arte, assinadas por alguns de nossos maiores compositores populares.  Pedro Caetano, por exemplo, assina a faixa de abertura, “Guarapari”, célebre canção que homenageia a cidade do litoral do Espírito Santo famosa pelas suas praias com areias monazíticas. Nuno Roland a imortalizou na Todamérica em 8 de março de 1951, com lançamento em abril seguinte sob n.o TA-5053-B, matriz TA-102.  A faixa seguinte é um clássico imortal do carnaval brasileiro: a marchinha “Pirata da perna de pau”, uma das mais expressivas contribuições do grande João de Barro, o Braguinha, para o repertório momesco , aliás Nuno Roland  foi um dos melhores intérpretes do compositor. Imortalizada por ele na Continental em 3 de setembro de 1946, com lançamento em novembro seguinte sob n.o 15727-A,matriz 1591, “Pirata da perna de pau” foi merecido sucesso no carnaval de 47, sendo lembrada até hoje com muita, muita justiça. “Cai, sereno”, a faixa 3,é um batuque assinado por outro mestre, Assis Valente: “Cai, sereno”, que Nuno registrou na Odeon em 18 de maio de 1939, com lançamento em julho do mesmo ano, disco 11734-A, matriz 6094. O samba “Covardia”, que encontraremos logo em seguida, é de uma dupla “braba”, Ataulfo Alves e Mário Lago. Foi, aliás,o primeiro trabalho conjunto deles, de uma série de oito, entre eles os clássicos “Ai, que saudade da Amélia” e “Atire a primeira pedra”. Nuno gravou “Covardia”,também na Odeon, em 16 de agosto de 1938, com lançamento em outubro seguinte sob n.o 11646-B, matriz 5903. E quem nunca entoou aquela famosa música do “Lobo mau” (“Eu sou o lobo mau, lobo mau,lobo mau”…), da história de Chapeuzinho Vermelho, tão bem adaptada e musicada por Braguinha? Pois ele a reaproveita, junto com Antônio Almeida, na faixa 5, como marchinha para o carnaval de 1951, que Nuno Roland, à frente do já citado Trio Melodia, lançará na Continental em janeiro desse ano, disco 16344-A, matriz 2475. Outro presente de Ataulfo Alves para Nuno, agora tendo Jorge Faraj na parceria, é essa joia de valsa, “Mil corações”, que o cantor grava na Odeon em  28 de março de 1938,com lançamento em julho do mesmo ano, disco 11603-A,matriz 5747. O beguine “Ballerina”, de Carl Sigman e Bob Russell, foi publicado nos EUA em 1947, tendo merecido gravações por Nat King Cole e Bing Crosby, entre outros.  Dois anos mais tarde, Oswaldo Santiago escreve a letra brasileira, com o título de “Bailarina” mesmo, para Nuno Roland gravar na Continental, com lançamento entre julho e setembro de 1949,sob n.o 16087-A, matriz 2102. Raridade absoluta é também o samba  “Dia dos meninos”,  da parceria Wilson Batista-Jorge de Castro, provavelmente gravado por Nuno Roland em 1960, numa etiqueta de curta duração, a Popular, tendo o disco recebido o número 0011-A,matriz DPM-21. “Peixe vivo”, motivo do folclore mineiro, e por sinal a música favorita de Juscelino Kubitschek de Oliveira, político nascido em Diamantina que chegou à presidência da República (governou de 1956 a 1961), é aqui apresentada por Nuno Roland em tempo de baião, ritmo então na moda, num arranjo de Antônio Almeida. Gravação Todamérica de 26 de junho de 1951, lançada em agosto seguinte com o número TA-5084-A, matriz TA-169. A dupla Alcebíades “Bide” Barcellos-Armando Marçal , responsável por clássicos como “Agora é cinza”, “Ando sofrendo” e “Barão das cabrochas”, aqui comparece com o samba “Perdão, meu bem”, que Nuno Roland grava na Odeon em 3 de novembro de 1939 para o carnaval de 40, sendo lançado um mês antes da folia, em janeiro, com o número 11807-B, matriz 6245. O famoso tango “Por ti eu me rasgo todo (Por vos yo me rompo todo)”, do uruguaio Francisco Canaro  (que, a exemplo do francês Carlos Gardel, fez carreira na Argentina), ganha aqui uma versão em ritmo de samba, com letra brazuca de César Siqueira, que Nuno Roland irá registrar também na Odeon em 5 de setembro de 1939, indo para as lojas em novembro com o n.o 11781-A,matriz 6191. Em seguida, por intermédio de Luiz Bittencourt e Murilo Caldas (irmão de Sílvio), Nuno Roland pergunta em ritmo de samba: “Quem  é que está com a razão?” Gravado na Continental em 3 de setembro de 1946, permaneceu, no entanto, quase um ano na gaveta, e só saiu em julho de 47 sob n.o 15787-A, matriz 1590. O samba do lado B, que vem logo em seguida, foi gravado em 2 de maio de 1947, matriz 1655, é mais um clássico imortal de Braguinha, aqui com seu inseparável parceiro Alberto Ribeiro: o belíssimo “Fim de semana em Paquetá”, sob medida para a notável interpretação de Nuno Roland, devidamente acompanhado pela orquestra de cordas de Eduardo Patané (a mesma do registro original de “Copacabana”, com Dick Farney). Até hoje é bastante conhecido e tem inúmeras regravações. Também de Braguinha e Alberto Ribeiro é outra antológica marchinha carnavalesca: “Tem gato na tuba”, da folia de 1948, que Nuno Roland imortaliza na mesma Continental em 23 de setembro de 47, com lançamento ainda em dezembro sob n.o 15843-B, matriz 1727. Vencedora do concurso oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, “Tem gato na tuba” foi também interpretada por Nuno Roland no filme “Esta é fina”, e jamais seria esquecida, tendo regravação até mesmo pela Turma do Balão Mágico!  Outra raridade é “Volta”, samba-canção de Radamés Gnattali e Luiz Bittencourt, que Nuno Roland lança em 1953 no LP coletivo de dez polegadas “Show”, da Musidisc  de Nilo Sérgio, por sinal uma das gravadoras pioneiras do vinil, e que encerrou definitivamente suas atividades em 2013. Braguinha, agora sem parceiro, é o responsável por outra imortal página carnavalesca:  a marchinha “Serenata chinesa”, um dos hits da folia de 1949, que Nuno imortaliza na Continental em 13 de outubro de 48 e vai para as lojas um mês antes do carnaval, em janeiro, com o número 15971-A, matriz 1983. Da santíssima trindade Wilson Batista-Claudionor Cruz-Pedro Caetano é o samba “Senhor do Bonfim te enganou”, dueto de Nuno Roland com Dircinha Batista, em gravação Odeon de 5 de outubro de 1939, só lançada em maio de 40, disco 11834-B, matriz 6240. Para encerrar com chave de ouro, outro grande hit carnavalesco de João “Braguinha” de Barro: “Tem marujo no samba”, em que Nuno Roland tem a notável companhia da eterna “Favorita”, Emilinha Borba.  Um dos hits do carnaval de 1949, por sinal um dos mais ricos musicalmente, foi gravado na Continental em 13 de outubro de 48, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 15980-B, matriz 1994, tendo sido também apresentada no filme “Estou aí?”, de Moacyr Fenelon. Não poderia haver melhor fecho para esta brilhante retrospectiva que o GRB dedica a Nuno Roland. Divirtam-se e até a próxima!
Texto de Samuel Machado Filho

João Petra De Barros – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 106 (2014)

Já estamos na centésima-sexta edição do Grand Record Brazil, o “braço de cera” do Toque Musical.  E prosseguimos esta brilhante e vitoriosa trajetória focalizando mais um grande nome da era de ouro de nossa música popular, cujo centenário de nascimento celebramos neste 2014: João Petra de Barros. Nosso focalizado veio ao mundo no dia 23 de junho de 1914, no Rio de Janeiro, e era irmão do também cantor Mário Petra de Barros. Começou sua carreira no início dos anos 1930 no “Programa Casé”, apresentado por Ademar Casé (avô de Regina Casé) na PRAX, Rádio Philips, que pertencia ao grupo holandês de mesmo nome. Em pouco tempo, João Petra se notabilizou por ter  timbre de voz parecido com o de Francisco Alves, grande astro do rádio e do disco nessa época, logo sendo cognominado  “a voz de dezoito quilates”.  Era figura constante em rodas de samba, ao lado de “cracões”  tipo Noel  Rosa, Custódio Mesquita , Chico Alves, Lamartine Babo, Benedito Lacerda, e com eles frequentava o então célebre Café da Uma Hora, na Rua São Francisco Xavier, zona norte carioca. A estreia de João Petra em disco acontece em 1933, na Odeon, com dois sambas para o carnaval desse ano,  ambos neste CD: “Quero falar com você” (Lauro dos Santos) e o clássico “Até amanhã” (Noel Rosa), ambos presentes nesta seleção e dos quais daremos mais detalhes a seguir. Um ano mais tarde, participa de um recital em benefício do Sindicato Brasileiro de Artistas de Rádio, ao lado de outros grandes cartazes da época, tais como Cármen Miranda e Custódio Mesquita, com eles também se apresentando em inúmeros programas radiofônicos  e espetáculos teatrais. Seria um dos pioneiros da Rádio Globo, fundada no Rio de Janeiro em 1944, em substituição à Rádio Transmissora, adquirida anos antes junto à antiga proprietária, a multinacional americana RCA Victor.  Mas essa carreira promissora e auspiciosa sofreria um abalo de monta exatamente no dia 22 de julho de 1946.  João Petra de Barros viajava no estribo de um bonde pela Rua da Assembleia, a caminho da Praça XV. De repente, uma caminhonete da Escola de Aeronáutica choca-se com o bonde, e atinge o terço médio da perna direita de João Petra. O cantor é logo atendido nem um pronto-socorro, mas tem sua perna amputada, fato que o traumatiza e o deixa inconsolável, a ponto de retirar-se da cena artística. Sabedora da tragédia nos EUA, onde então residia, sua amiga e colega Cármen Miranda chegou a lhe oferecer tratamento médico por lá, mas não foi possível salvá-lo. Após duas tentativas, João Petra de Barros suicidou-se no dia 11 de janeiro de 1947, com apenas 32 anos de idade. Em sua curta carreira, João Petra de Barros gravou 48 discos com 94 músicas. Desse legado, o Grand Record Brazil foi buscar as vinte e quatro faixas desta edição, muitas delas sucessos inesquecíveis, interpretados por ele com profundo sentimento. Abrindo-a, o samba “Quero falar com você”, de Lauro “Gradim” dos Santos,lado A de seu primeiro disco, o Odeon 10950, gravado em 19 de outubro de 1932 e lançado para o carnaval de 33, em janeiro, matriz 4526. Na faixa 12 está o verso do disco, um verdadeiro clássico do samba: “Até amanhã”, de Noel Rosa, matriz 4528. Noel o compôs durante uma excursão que fez pelo Sul do pais, como integrante do grupo Ases do Samba,inspirado em uma moça de cabaré por quem se apaixonou, na passagem por Porto Alegre. Sucesso estrondoso na folia de 1933, “Até amanhã” foi executado durante anos para encerrar os bailes carnavalescos. Na faixa 2, temos a valsa “Último sonho”, de Afonso Teixeira e Ari Monteiro, gravação Victor de 12 de maio de 1942, lançada em julho do mesmo ano, disco 34942-A, matriz S-052515. A faixa 3, “Canção ao microfone”, é um fox de Custódio Mesquita em parceria com o jornalista e médico Paulo Roberto, gravação Odeon de 15 de agosto de 1933, lançada em outubro do mesmo ano, disco 11058-A, matriz 4714. “Você prometeu”, a faixa seguinte, é um samba do mestre Ismael Silva em parceria com o jornalista Dan Mallio Carneiro, e João Petra o gravou na Odeon em 12 de junho de 1935, com lançamento em novembro seguinte para a folia de 36, disco 11281-B, matriz 5069. O lado A, que você vai encontrar na faixa 15, tem uma curiosidade. Trata-se da marcha-rancho “Linda pequena”, parceria de João de Barro, o Braguinha, com Noel Rosa, e que já estava gravada desde o dia 8 de dezembro de 1934, matriz 4965, ficando engavetada por quase um ano, e obtendo pouca ou nenhuma repercussão na folia de 36. Após o falecimento de Noel, em 1937, Braguinha, não entendendo o porquê da não-aceitação da música,  decide relançá-la para o carnaval de 38, com uma ou outra alteração na letra, e o novo título de “Pastorinhas”, na voz de Sílvio Caldas, obtendo desta vez o êxito merecido, e vencendo o concurso da prefeitura carioca na categoria marcha. A faixa 5, “Sou eu quem volta”, é um fox de Olga  Maria e Ribeiro Filho, e João Petra o imortaliza na Victor em 5 de junho de 1943,com lançamento em setembro do mesmo ano sob n.o 80-0111-B, matriz S-052787. O lado A, matriz S-052786, é justamente a faixa seguinte, a valsa ‘Quem será?”, de Custódio Mesquita e David Nasser. Para o carnaval de 1944, “a voz de dezoito quilates” grava dois sambas na mesma Victor, em 2 de dezembro de 43, e que são lançados bem em cima da folia, em fevereiro, com o n.o 80-0159: o lado A, sétima faixa desta edição, é “Depois de um longo inverno”, de Francisco Malfitano e Humberto deCarvalho, matriz S-052898. O lado B está na faixa 9: “Agora é tarde”, da parceria Alcyr Pires Vermelho-Pedro Caetano, matriz S-052899. A faixa 8, “Conto da carochinha”, é um samba-canção também de Custódio Mesquita, agora sem parceiro, gravação Victor de 14 de junho de1933 e lançado em agosto do mesmo ano, disco 33692-B, matriz 65776. Também de 1933 são dois foxes que João Petra grava na marca do cachorrinho Nipper em 25 de julho e são lançados em setembro seguinte com o n.o  33693. No lado B, faixa 10, ‘Sonho bonito”, de Joaquim Medina e Monte Branco, matriz 65822. Na faixa 23, você vai encontrar o lado A, “Dor de uma saudade”, matriz 65821, também de Joaquim Medina (e com ele em dueto com João Petra), agora tendo como parceiro nada mais nada menos que o Poetinha Vinícius de Moraes, então dando seus primeiros passos na MPB. A faixa 11 traz o maior hit da carreira de João Petra de Barros: a valsa “Última inspiração”, do alagoano  Peterpan (José Fernandes de Paula), imortalizada na mesma Victor em 16 de abril de1940 e lançada em junho seguinte sob n.o 34615-B, matriz 33382. É um clássico até hoje e tem várias regravações. Na faixa 12, o fox-canção “Cantor do rádio”, da parceria Custódio Mesquita-Paulo Roberto, gravação Odeon de 17 de agosto de 1933, lançada em setembro do mesmo ano, disco 11056-A, matriz 4713. O lado B está na faixa 18:  “Veio d’água”, canção de Francisco Alves e Luiz Iglésias, matriz 4712. A faixa 14 é um outro clássico do samba: “Feitiço da Vila”, da parceria Noel Rosa-Vadico, aquele da famosa definição “São Paulo dá café. Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba”. Gravação Odeon de 22 de outubro de 1934, lançada em dezembro seguinte para o carnaval de 35, disco 11175-A, matriz 4938, na qual Noel faz a segunda voz, porém não foi creditado no selo como intérprete.  A faixa 16, “Santo Antônio amigo”, é um samba junino, como às vezes também se fazia, em gravação Victor de 9 de maio de 1941, lançada em julho seguinte sob n.o 34766-A, matriz 52208, nela ouvindo-se a inconfundível  flauta do mestre Benedito Lacerda  no acompanhamento.  Na faixa 17, outra bela valsa, ‘Teatro de revista”, de Marino Pinto e Pandiá Pires, gravação Victor de 28 de janeiro de 1942, lançada em abril do mesmo ano, disco 34889-A, matriz S-052467. A faixa 19 é o fox “Ninon  (Quando tu sorris)”, de Bronislau Kaper e e Walte Jurman, em versão de João ‘Braguinha” de Barro, gravação Odeon de 21 de setembro de 1934, lançada em novembro do mesmo ano, disco 11163-A, matriz 4917. É do filme alemão “Uma canção para você (Einlied fur dich”), de 1933, sendo nele cantado por Jan Kiepura.  A faixa 20, “Isso não se faz”, é outro samba do mestre Ismael Silva, agora em parceria com Noel Rosa e Francisco Alves, gravado na “marca do templo” em 2 de maio de 1933 e lançada em julho do mesmo ano, disco 11031-B, matriz 4661. Na faixa seguinte está o lado A, ‘Sorrindo sempre”,  outro samba dos mesmos autores mais Lauro “Gradim” dos Santos, matriz 4660. Na faixa 22, o fox “O que o teu piano revelou”, da parceria Custódio Mesquita-Orestes Barbosa, gravação Odeon de 12 de janeiro de 1935, lançada em maio do mesmo ano, disco 11222-A,matriz 4995. O lado B é a faixa de encerramento desta seleção, a canção “Tapera”, também de Custódio Mesquita, agora em parceria com Alberto Ribeiro, gravada em 11 de agosto de 1934 e que ficou nove meses engavetada, matriz 4892. Enfim, uma seleção vasta e primorosa que dá uma visão panorâmica da curta carreira de João Petra de Barros, e representa uma digníssima homenagem ao centenário de seu nascimento. Simplesmente imperdível!
* Texto de Samuel Machado Filho

A Música De Henricão – Seleção 78 RPB Do Toque Musical Vol. 104 (2014)

Apresentamos anteriormente, aqui no Grand Record Brazil, várias composições de Henricão (Henrique Felipe da Costa, Itapira, SP, 1908-São Paulo, 1984), inclusive duetos dele com Cármen Costa, cantora que ele próprio lançou,na edição de número 75, e que conseguiria maior sucesso de mídia que ele. Como bem se lembram os amigos cultos, ocultos e associados do TM, apresentamos na ocasião um esboço biográfico da obra deste compositor, que ganhou o apelido por causa de sua exagerada estatura (quase dois metros de altura) e, pouco antes de falecer, ficou na história  como o primeiro Rei Momo negro do carnaval de São Paulo. Também marcou presença como ator de cinema e televisão e, apesar de ter feito inúmeras composições de sucesso e de toda a sua fama, vivia em dificuldades financeiras, até passando fome, mas sempre ajudado pelos amigos e encarando a vida com otimismo e esperança. Pois nesta centésima-quarta edição do GRB, apresentamos mais um pouco do legado do notável Henricão,tanto como autor quanto apenas intérprete,  com uma seleção de nove gravações de valor artístico e histórico inquestionáveis.  Abrimos a seleção desta semana com três duetos do compositor com a carioca Sarita, cuja biografia é um mistério para muitos pesquisadores, em gravações Odeon. O primeiro é “Moreninha do sertão”, toada do acordeonista Antenógenes Silva , evidentemente com a participação dele mesmo no acompanhamento (sua popularidade era tão grande que seus discos, mesmo quando cantados, tinham seu nome acima dos de quem interpretava as músicas). A gravação é de 9 de maio de 1936, tendo sido lançada em outubro do mesmo ano com o número 11398-B, matriz 5340. A segunda faixa com Henricão e Sarita é “Noiô noiô”, maracatu dos irmãos Paulo e Sebastião Lopes (autores também de um clássico do gênero, “Coroa Imperial”), destinado ao carnaval pernambucano de 1937. A gravação data de 15 de dezembro de 36, sendo lançada um mês antes dos festejos momescos pela “marca do templo” com o número 11447-A,matriz 5494. Escalou-se também, na faixa seguinte, o lado B, outro maracatu, este de Benigno Gomes e Franz Ferrer, “Chora, meu goguê”, matriz 5495. Em seguida, como solista, Henricão nos traz o samba “Pra que tanto ciúme?”, de Bucy Moreira e Lacy Martins (irmão de Herivelto),.também gravação Odeon, datada de 10 de dezembro de 1937, com lançamento em fevereiro de 38 (para o carnaval, “of course”), disco 11565-A,matriz 5731. O lado B, matriz 5732, também aqui está, e também é samba: “Qual foi o mal que te fiz?”, de Getúlio “Amor” Marinho e O. Patrício. O samba-choro “Casinha da Marambaia”, de Henricão e Rubens Campos (sequência de “Só vendo que beleza”, de 1942), originalmente lançado por Cármen Costa em 1944, é aqui revivido ao solovox  (considerado o primeiro sintetizador monofônico da história musical) pelo também maestro Roberto Ferri, à frente de seu conjunto, em raríssima gravação do selo Califórnia (gravadora fundada pelo compositor Mário Vieira e até hoje em atividade, dirigida pela terceira geração da família), datada de 28 de novembro de 1960, disco TC-1191-B, matriz TC-502. A “Marcha dos Democráticos”, interpretada solo por Henricão na faixa seguinte, é de Sátiro de Melo, José Alcides e Tancredo Silva, mesmos autores do clássico “General da Banda”. Só se sabe que é gravação RCA Victor, possivelmente de disco promocional, não-comercializado. “Não me abandone”, samba  do carnaval de 1944, que Henricão fez com Rubens Campos e José Alcides, é interpretado pela cantora que o compositor apadrinhou, Cármen Costa, em gravação Victor de 24 de novembro de 43, lançada um mês antes da folia, em janeiro, disco 80-0153-B, matriz S-052889. O multi-instrumentista Garoto (Aníbal Augusto Sardinha, 1915-1955) executa ao cavaquinho, em ritmo de baião, “Está chegando a hora”, adaptação de Henricão e Rubens Campos para a valsa mexicana “Cielito lindo”, escrita em 1882 por Quirino Mendoza y Cortés. A música teve seu título mudado para “Chegou a hora” nesta gravação Odeon de 26 de maio de 1953, lançada em  julho seguinte sob número 13472-B, matriz 9716. A faixa seguinte, “Dever de um brasileiro”, com o próprio Henricão, outra parceria sua com Rubens Campos, é um samba da época da Segunda Guerra Mundial, relatando a despedida de um pracinha da FEB (Força Expedicionária Brasileira) para lutar na Itália, Gravação Victor de 4 de maio de 1943, lançada em julho do mesmo ano, disco 80-0095-A, matriz S-052762. Por fim, “Será possível?”, samba também de Henricão e Rubens Campos e outra gravação Victor, agora do “Formigão’ Cyro Monteiro, datada de 5 de junho de 1941 e lançada em agosto seguinte com o número 34781-A, matriz S-052234. É a faixa que encerra esta pequena-grande retrospectiva de Henricão, apresentando músicas seja de outros autores, por ele interpretadas solo ou acompanhado, e composições próprias apresentadas por outros expressivos nomes da MPB. Divirtam-se!

Texto de Samuel Machado Filho

Sylvinha Mello – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 103 (2014)

Nesta semana, em sua centésima-terceira ediçã o, o Grand Record Brazil resgata uma cantora hoje esquecida, mas que deixou um legado importantíssimo, tanto artística quanto historicamente, para nossa música popular. Estamos falando de Sylvinha Mello. Nossa biografada, evidentemente batizada como Sylvia Mello, nasceu  em Vitória, capital do Espírito Santo, no dia 23 de fevereiro de 1914, filha de pernambucanos. Aos nove anos de  idade, chegou ao Rio de Janeiro. Iniciou sua carreira artística interpretando peças folclóricas em teatros e cassinos do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras. Ao atingir a maioridade (dezoito anos), Sylvinha apresentou-se no programa radiofônico de César Ladeira, o que lhe permitiu atuar ao lado de três grandes cartazes da época: Francisco Alves, Cármen Miranda e Sílvio Caldas. Gravou seu primeiro disco em 1931, na Victor, com duas canções de Hekel Tavares: “Chove, chuva” (parceria com o poeta Ascenso Ferreira) e “O pequeno vendedor de amendoim” (com versos do teatrólogo Joracy Camargo), esta última incluída nesta edição do GRB. Como atriz, participou de três filmes: “Estudantes” , “O grito da mocidade” e “Estrela da eterna esperança”.  Sua discografia compreende dez discos com dezenove músicas, oito deles pela Victor, e os outros dois pela Columbia, interpretando composições de Hekel Tavares, Joubert de Carvalho e Custódio Mesquita, entre outros, com estilo marcadamente romântico, predominando as canções e as valsas. Mais tarde, Sylvinha mudou-se para Nova York, onde viveu dois anos como estudante, conseguindo, pouco depois, emprego no consulado brasileiro.  Foi uma das primeiras brasileiras a fazer sucesso nos EUA, obtendo grande aceitação com suas interpretações de músicas de Ary Barroso, em emissoras de rádio e boates daquele país, inclusive a Blue Angel, de Nova York. Após se separar de um primeiro casamento, Sylvinha contraiu novas núpcias, agora com um diplomata francês, passando, então, a residir em Paris. Sylvinha morreu ali mesmo na capital francesa, por volta de 1978. Para esta edição do GRB, foram escolhidos nove exemplos da arte de Sylvinha Mello. Abrindo esta seleção, o lado A de seu derradeiro disco, o Columbia 55001, lançado em dezembro de 1938: a canção “Soldadinhos de chumbo”, de Marcelo Tupinambá e Galda de Paiva, matriz 3721, música originalmente gravada em 1930, por Edgard Arantes. As oito faixas seguintes foram todas gravadas  na Victor. Do disco 33956, foi escalado o lado B, o samba-canção “Perto do céu”, de autoria do pianista Romualdo Peixoto, o Nonô (tio dos cantores Cyro Monteiro e Cauby Peixoto) com versos de Francisco Matoso, gravação de3 de abril de 1935, lançada em agosto do mesmo ano, matriz 79859. Na faixa 3, temos a valsa “Os teus olhos me falam de amor”, de Joubert de Carvalho, gravada em 30 de agosto de 1935 e lançada em outubro seguinte sob número 33984-A, matriz 80023. Na faixa 6 está o lado B, matriz 80022, a canção “Mariblanca”, também de Joubert em parceria com Luiz de Gongora.  Na faixa 4, do primeiro disco de Sylvinha, o Victor 33489, foi escalada a canção “O pequeno vendedor de amendoim”, de Hekel Tavares e Joracy Camargo,o lado B, gravado em 14 de outubro de 1931 e lançado ao apagar das luzes desse ano, em dezembro, matriz 65254. A seguir, outras quatro  composições de Joubert de Carvalho, autor com quem Sylvinha obteve seus maiores hits.  Na faixa 5, a valsa “A carícia de suas mãos”, disco Victor 33972-A, gravação de 15 de julho de 1935, lançada em setembro desse ano, matriz 79981. Na faixa 8 está o lado B, a canção “Teu retrato”, matriz 79990, gravada três dias depois da “Carícia”, ou seja em 18 de julho de 1935. Na faixa 7, a valsa “Viver para o amor”, gravação de 15 de julho de 1935 que a marca do cachorrinho Nipper lançará em agosto seguinte com o número 34079-A,matriz 79982 (curiosamente, no lado B, apareceu a valsa “Italiana”, clássico na voz de Carlos Galhardo!).  Por fim, o fox “Canção das águas”, outra página do autor de “Taí” e “Maringá”, que Sylvinha gravou na Victor em 26 de maio de 1936 e foi lançada em julho seguinte com o número 34070-B, matriz 80166. Enfim, uma expressiva amostra, “curta e grossa”, do expressivo legado deixado por Sylvinha Mello para a nossa música popular. Ouçamos e recordemos
Texto de Samuel Machado Filho

Dick Farney – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 102 (2014)

Prosseguindo sua longa e auspiciosa trajetória de sucesso, o Grand Record Brazil, “braço de cera” do Toque Musical, chega à sua centésima-segunda edição reverenciando mais um grande nome de nossa música popular, criador de páginas inesquecíveis de nosso cancioneiro e autêntico precursor da bossa nova. Estamos falando de Dick Farney.  Farnésio Dutra e Silva (seu nome de batismo) nasceu no Rio de Janeiro em 14 de novembro de 1921. Oriundo de família rica, teve apenas um irmão, Cyleno, que viria a ser famoso galã do cinema tupiniquim com o nome de Cyll Farney e chegou a tocar bateria nos primeiros conjuntos do jovem Dick. Seus pais cultivavam a música clássica: o pai era pianista, e a mãe cantava. Dick faria o curso de teoria musical na Escola Nacional de Música, e estudaria canto com Diva Pasternack. Essa formação clássica não o impediria de se passar para o piano jazzístico, já que sempre foi um apaixonado pela música norte-americana, com influências especialmente do piano de Nat King Cole e da voz de Bing Crosby. Em 1934, com 12 anos, o pré-adolescente Dick se apresentou na Rádio Guanabara, executando o “Prelúdio n.o 7” de Chopin. Em 1936, no programa “Picolino”, de Barbosa Júnior, tocou a “Dança ritual do fogo”, de Manuel  de  Falla, e a “Canção da Índia”,  de Korsacov. Um ano depois, estreia como cantor, na  Rádio Cruzeiro do Sul, interpretando “Deep purple”, de  David Rose. Em 1938, foi até a Rádio Mayrink Veiga, levando um disco seu particular, ouvido por César Ladeira, então diretor artístico da emissora (ele pensou que estava ouvindo Bing Crosby, tal a semelhança vocal). A coisa, claro, resultou em contrato, de quatrocentos mil-réis por mês, e um programa exclusivo, “Dick Farney, a voz e o piano” . Dois anos mais tarde, transferiu-se para a poderosa e lendária PRE-8, Rádio Nacional. Entre 1941 e 1944, Dick também se integrou à orquestra de Carlos Machado, no Cassino da Urca, como pianista e cantor. Ainda em 44, gravou seu primeiro disco, pela Continental, com músicas norte-americanas, ao qual seguiram-se mais quatro em inglês. Seu primeiro disco com música brasileira, o sexto, só viria agosto de 1946, com o clássico “Copacabana” (nesta seleção), pontapé inicial para inúmeros outros hits, entre os quais estão “Ponto final”,”A saudade mata a gente”, “Marina”, “Somos dois”, “Um cantinho e você”, “Alguém como tu”, “A fonte e o teu nome’, “Grande verdade”, “Este seu olhar”, “Perdido de amor”, “Tereza da praia” (dueto com Lúcio Alves), “Você” (dueto com Norma Bengell) e os presentes nesta edição do GRB, muitos dos quais regravados por ele mesmo inúmeras vezes. Em fins de 1946, após um encontro com o maestro Bill Hitchcock e o pianista Eddie Duchin no Copacabana Palace Hotel, Dick Farney embarca para os EUA, onde permanece por dois meses, visando conhecer o ambiente musical  de lá e travar amizade com vários artistas, seus ídolos. Quase em seguida, meados de 1947, volta à terra do Tio Sam, preso a um contrato de 56 semanas com os cigarros Philip Morris, então patrocinador de programas da NBC (National Broadcasting Company), entre eles o do prestigiado comediante Milton Berle, no qual atua como intérprete fixo. Nessa ocasião, Dick Farney grava alguns discos na Majestic, vindo a ser o criador de um clássico norte-americano, o  fox “Tenderly”, de Jack Lawrence e Walter Gross. Ao desembarcar no Rio de Janeiro, já um astro, Dick assina vultoso contrato com a PRG-3, Rádio Tupi (“o cacique do ar”), recebendo a soma de trinta mil cruzeiros por mês! Em 1948, admiradores do jazz norte-americano fundaram o Sinatra-Farney Fã Clube, histórico reduto pré-bossanovista, tendo entre seus frequentadores ilustres o compositor e pianista João Donato, e a cantora Nara Leão. Dick atuou também no cinema, participando dos filmes  “Somos dois” (Cinédia, 1950), no qual contracenava e cantava, mas que não lhe deixaria boas lembranças, “Carnaval Atlântida” (1952) e “Perdidos de amor” (Cinelândia Filmes, 1953). O currículo internacional de Dick Farney inclui também a Argentina, onde esteve duas vezes, em 1949 e 1951, atuando na Rádio El Mundo e na Boate Embassy de Buenos Aires, sendo conhecido pelos portenhos como “el Bing Crosby brasileño”. Em 1956/58 retorna a Nova York, EUA, a fim de se apresentar no Hotel Waldorf Astoria. Durante seis meses, ainda se apresentou  em Cuba, República Dominicana e Porto Rico. Nos anos seguintes, continua somando mais e mais admiradores, com uma discografia de mais de vinte LPs, e apresentações principalmente na noite, chegando até a ser dono de casas noturnas, a Farney’s e a Farney’s Inn, ambas em São Paulo, cidade para a qual se muda em 1959. Nessa época, apresenta o programa “Dick Farney show”, na TV Record, e mais tarde constrói uma bela casa nas cercanias da Represa Billings, projetada por ele mesmo e sua terceira mulher.  É também um dos pioneiros da TV Globo do Rio de Janeiro, inaugurada em 1965, apresentando, ao lado da atriz Betty Faria, o programa ‘Dick e Betty”. Por volta de 1979, Dick Farney deixa de atuar na noite, por achar que o público não era mais o mesmo, porém continuando a gravar e a se apresentar em ocasiões especiais, como em 1981, no Ópera Cabaré, em São Paulo,numa noite recebendo seu amigo Lúcio Alves, com quem gravara, em 1954, o clássico “Tereza da praia”, de Tom Jobim e Billy Blanco. Por essa época, já se dedicava à pintura, uma antiga paixão que finalmente podia desenvolver, e com talento. Dick Farney morreu no dia 4 de agosto de 1987, em São Paulo, aos 65 anos, de edema pulmonar. Deixou, porém, um invejável legado musical. Dele, o GRB foi buscar 14 gravações de seus primeiros anos de carreira, todas feitas na Continental, sua primeira gravadora.  Abrindo a seleção desta semana, temos o fox “What’s new?”, de Bob Haggart e Johnny Burke, de seu segundo disco, número 15186-A, lançado em agosto de 1944, matriz 819, grande hit na voz de Farney entre nós. Do primeiro disco, n.o 15180, lançado em junho do mesmo ano, foi escalado outro fox, também lado A, “The music stopped”, de Harold Adamson e Jimmy McHugh, matriz 839. A faixa 3, já com música brasileira, é o samba-canção “Ela foi embora”, do organista Djalma Ferreira em parceria com Oscar Belandi, lançado pela então “marca dos sininhos” em setembro de 1946, matriz 1543. Na faixa 4, o clássico que abriu definitivamente as portas do sucesso para Dick Farney: “Copacabana”, de João de Barro (Braguinha) e Alberto Ribeiro, gravado em 2 de junho de 46 e lançado em agosto do mesmo ano com o número 15663-A, matriz 1509. O samba tinha sido feito sob encomenda para um filme norte-americano de mesmo nome,mas acabou não entrando no mesmo. Claro que os puristas consideraram a interpretação de Dick Farney por demais americanizada, calcada em Bing Crosby, mas a interpretação e o acompanhamento, feito por orquestra de cordas, com regência de Eduardo Patané, passaram a se constituir modelo de sofisticação para nossa música popular. “Foi e não voltou”, de Oscar Belandi e Chuca-Chuca, é outro samba-canção típico dessa época, que Dick Farney gravou acompanhando-se ao piano em 19 de abril de 1947, com lançamento em junho seguinte sob número 15783-B, matriz 1655. O que ocorre também na faixa seguinte, “Esquece”, de autoria do cantor Gilberto Milfont, sendo que desta vez Dick está acompanhado de Betinho (Alberto Borges de Barros, autor e intérprete de “Enrolando o rock” e do fox “Neurastênico”, entre outras) e Juvenal. Também samba-canção, gravado em 29 de maio de 1948 e lançado entre julho e setembro do mesmo ano, disco 15927-A, matriz 1869. “Meu Rio de Janeiro”, uma das muitas homenagens musicais já prestadas  à “cidade maravilhosa” e então capital do Brasil, é um samba de Oscar Belandi e Nélson Trigueiro, em registro feito na mesma sessão de “Esquece” e editado pela Continental  no mesmíssimo suplemento, sob número 15917-A, matriz 1867. A 24 de maio desse mesmo ano de 1948, Dick grava o samba-canção “Ser ou não ser”, de José Maria de Abreu (também regente da orquestra que o acompanha) e Alberto Ribeiro, outra expressiva página de seu repertório, que a Continental lançará também entre julho e setembro desse ano, com o número 15916-A,matriz 1858. Cinco dias depois, na mesmíssima sessão de “Meu Rio de Janeiro” e “Esquece”, Dick imortaliza o samba “Olhos tentadores”, de Oscar Belandi e  Chico Silva, matriz 1868, mas que a Continental só traz para as lojas em março-abril de 1949, com o número 16008-B. Entre julho e setembro desse mesmo ano de 49, é lançado pela “marca dos sininhos” outro clássico do samba-canção (então predominante nessa época pré-bossa nova, como percebem), “Sempre teu”, da festejada dupla José Maria de Abreu-Jair Amorim, com o número 16083-B, matriz 2099. Para os festejos natalinos desse 1949, entre outubro e dezembro, Dick Farney lança uma canção muito apropriadamente chamada “Feliz Natal” (mais conhecida como “Noite azul”, primeiro verso da letra),um dos inúmeros hits da dupla Klécius Caldas-Armando Cavalcanti, com o número 16123-A,matriz 2173, que a Continental relançará em 1955 sob número 17230-B. Do multi-instrumentista Garoto (Aníbal Augusto Sardinha), verdadeiro mágico das cordas, é o samba-canção seguinte, parceria com José Vasconcelos (seria o humorista?), “Nick Bar” (também  nome de peça teatral e de um bar de São Paulo, então instalado na  Rua Major Diogo, ao lado do TBC, Teatro Brasileiro de Comédia, onde os artistas que lá se apresentavam sempre apareciam para tomar um drinque após as funções). O próprio Garoto está no acompanhamento deste registro de Farney, ao lado de Vero (Radamés Gnattali), Vidal e Trinca, com lançamento pela Continental entre outubro e dezembro de 1951, disco 16479-B, matriz 2718. “Ranchinho de palha”, samba romântico, igualmente tendendo para o samba-canção, é de outro violonista e compositor de renome, Luiz Bonfá, e Dick Farney o imortalizou na Continental em 27 de março de 1951, com lançamento em maio-junho seguintes, sob n.o 16412-A, matriz 2596. Para finalizar, uma gravação feita por Dick em Buenos Aires, capital da Argentina, nos estúdios da TK, gravadora que então representava a Continental naquele país (e que a empresa brazuca, por tabela, representava aqui). É outro samba-canção de Luiz Bonfá, “Sem esse céu”, lançado no Brasil entre setembro e dezembro de 1952 com o número 16659-A, matriz IB-260/52, tendo no acompanhamento o organista Jorge Kenny. Enfim, um pouco do vasto e expressivo legado de Dick Farney, com justiça um dos imortais de nossa música popular.
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO

Trio De Ouro – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 101 (2014)

Ultrapassando a barreira das 100 edições , o Grand Record Brazil chega justamente à centésima-primeira.  E, para abrilhantá-la em grande estilo, eis aqui um dos grupos vocais mais queridos e populares de nossa música popular: o Trio de Ouro.  A história do trio começa em 1932, ocasião em que Herivelto Martins e Francisco Sena faziam parte do Conjunto Tupi, de J. B. de Carvalho, e ao mesmo tempo formaram a Dupla do Preto e do Branco. Com a morte prematura de Sena, em 1935, Herivelto reorganiza a dupla, agora com Nilo Chagas.  No ano seguinte, Herivelto conhece Dalva de Oliveira, e esta, a seu convite, passa cantar junto com o duo. Inicialmente conhecidos como Dalva de Oliveira e Dupla Preto e Branco, foram depois rebatizados como Trio de Ouro. O grupo estreou em gravações na Victor, em 1937, interpretando “Ceci e Peri” e “Itaquari”. Nessa ocasião, Herivelto e Dalva se casam, e dão a seu primeiro filho o nome de Pery (o excelente cantor Pery Ribeiro), tirado justamente da marchinha “Ceci e Peri” (se fosse menina, claro, seria Ceci, conforme combinado com os ouvintes de rádio).  O Trio de Ouro, em sua primeira fase, deixou um acervo de mais de 50 gravações, a maioria na Odeon, com passagem também pela Columbia, futura Continental, repertório esse de grande valor artístico, sem as exigências comerciais que se registrariam tempos depois. Entretanto, o grupo se desfez em 1949, com a ruidosa separação de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Um ano mais tarde, o Trio de Ouro retoma suas atividades, ainda com Nilo Chagas (já com as relações bastante estremecidas com Herivelto) e, agora, com Noemi Cavalcanti, descoberta por Príncipe Pretinho, que a ouvira no programa de César de Alencar, na Rádio Nacional, levada pelo também compositor  Raul Sampaio, capixaba de Cachoeiro de Itapemirim.  Ele desempenhou papel decisivo para que o trio não acabasse de vez com a retirada de Dalva, e tem mais de 250 músicas gravadas como autor,  entre elas clássicos como “Eu chorarei amanhã”, “Nono mandamento” e “Meu pequeno Cachoeiro” (que seu conterrâneo Roberto Carlos converteu em hit nacional, em 1970). O primeiro disco dessa segunda formação, lançado em agosto de 1950, trouxe o samba “A Bahia te espera” e o samba-canção “Caminho certo”.  Essa fase, porém, dura pouco, pois, no começo de 1952, Nilo Chagas e Noemi Cavalcanti abandonam Herivelto Martins em definitivo, deixando um saldo artístico de 15 discos gravados, todos pela RCA Victor. Uma noite, Herivelto Martins e Raul Sampaio foram à casa de Nélson Gonçalves, a fim de entregar uma nova composição de Herivelto para o “metralha do gogó de ouro” gravar. É quando a então mulher de Nélson, Lourdinha  Bittencourt, se oferece para cantar no Trio de Ouro.  Assim começa a terceira fase do grupo vocal, com Lourdinha, Herivelto e Raul. O primeiro disco do novo trio sai pela RCA Victor em agosto de 1952, trazendo uma regravação do clássico “Ave-Maria  no Morro”, e o bolero “Se a saudade falasse” (este último aqui incluído). Aqui, já se registra, de forma mais acentuada, a necessidade de sucesso imediato, e até versões como “Índia”, “Luzes da ribalta” (ambas nesta seleção) e “Vaya com Diós” são gravadas pelo trio, atendendo a interesses comerciais, mas o grupo nunca deixou de cultivar nossas origens. Nessa  fase, o Trio de Ouro gravou 32 discos em 78 rpm, quase todos pela RCA Victor, e a  formação duraria bem mais tempo: até 1979,com o falecimento de Lourdinha  Bittencourt. Contudo, para matar as saudades de seus fãs, Herivelto e Raul continuaram a recompor o Trio de Ouro em ocasiões especiais, com a colaboração da excelente cantora Shirley Dom. A morte de Herivelto  Martins, em 1992, encerraria definitivamente a longa trajetória do Trio de Ouro. Trajetória esta que agora o GRB revive,  apresentando 13 gravações de suas três fases (principalmente da primeira, com Herivelto, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas), sempre se mantendo em alto nível artístico. A seleção abre com uma gravação da terceira fase, a conhecidíssima guarânia paraguaia “Índia”,de José Asunción Flores e Manuel Ortiz Guerrero, em versão de José Fortuna. Como todos sabem, este foi um dos carros-chefes da dupla Cascatinha e Inhana, que lançou a versão com êxito arrebatador em 1952. Aqui, a gravação do terceiro Trio de Ouro, na RCA Victor, datada de 13 de março de 1953, e lançada em maio seguinte com o número 80-1120-A, matriz BE3VB-0045. Pulamos depois para a primeira fase, com o batuque “Lamento negro”, de Constantino “Secundino” Silva e Humberto Porto (este falecido prematuramente, em 1943, aos 35 anos), lançado pela Columbia em maio de 1941, sob número  55270-B, matriz 385. Lourdinha Bittencourt e Raul Sampaio voltam a cantar com Herivelto na faixa seguinte, “Luzes da ribalta” (“Limelight”), de Charles Chaplin, do filme de mesmo nome, o último em que ele interpretou Carlitos, só lançado nos EUA em 1972, uma vez que o comediante estava na lista negra do macartismo. A versão de Antônio Almeida e João de Barro, o Braguinha, teve inúmeros registros, e o do Trio de Ouro, na RCA Victor, em ritmo de bolero,  é de 14 de agosto de 1953, lançada em outubro seguinte com o número 80-1216-A, matriz BE3VB-0239. Já do final da primeira fase do trio é a marchinha “Minueto”, sucesso do carnaval de 1948. De autoria de Herivelto Martins e Benedito Lacerda, é gravação Odeon de 27 de novembro de 47, lançada um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, disco 12830-A,matriz 8299. Dessa fase também é o samba “Calado venci”, que, segundo o próprio Herivelto Martins, foi a única parceria dele com Ataulfo Alves. É do carnaval de 1947, gravado na Odeon em 6 de dezembro de46, lançada bem em cima da folia, em fevereiro, sob número 12758-B, matriz 8145. Waldemar de Abreu, o Dunga, e Mário Rossi assinam o samba “Fantasia”, que o Trio de Ouro grava na “marca do templo” em 2 de outubro de 1945 e é lançado em novembro do mesmo ano com o número 12644-A,matriz 7915. Lauro “Gradim” dos Santos e Príncipe Pretinho vêm em seguida com outro samba, “Sorri”, para o carnaval de 1941, que o trio grava na Columbia em 11 de novembro de 1940, com lançamento ainda em dezembro, disco 55252-B, matriz 343. “Adeus, Estácio”,outro samba, é de Benedito Lacerda e Gastão Viana,para o carnaval de 1939, numa gravação Odeon do primeiro Trio de Ouro, feita em 8 de dezembro de 38 e lançada bem em cima da folia momesca, em fevereiro, disco 11696-B, matriz 5989. Da terceira fase do grupo é a regravação, em ritmo de baião, do samba-canção “Um caboclo apaixonado”, da parceria Herivelto Martins-Benedito Lacerda, originalmente lançado em 1936 por Sílvio Caldas. Herivelto, Raul Sampaio e Lourdinha Bittencourt o reviveram na RCA Victor em 13 de março de 1953, com lançamento em maio do mesmo ano, disco 80-1120-B, matriz BE3VB-0046. Voltando à primeira fase, temos o interessante samba-crônica “Bom dia, Avenida”, dando boas vindas à Avenida Rio Branco, antiga Central, como novo palco dos desfiles das escolas de samba cariocas, em substituição à Praça Onze de Junho, demolida para dar lugar a outra avenida, a Presidente Vargas (nem se sonhava com o atual Sambódromo da Rua Marquês de Sapucaí!). De autoria de Herivelto Martins e do ator Grande Otelo (Sebastião Bernardes de Souza Prata), que também fizeram pouco antes o clássico “Praça Onze” (glosando tal demolição), foi gravado pelo trio na Odeon em 23 de novembro de 1943, sendo lançado um mês antes do carnaval de 44, janeiro, disco 12406-B, matriz  7425. Voltando à terceira fase, temos outro samba de Herivelto, agora em parceria com David Nasser: “Maria Loura”, gravação RCA Victor de 14 de agosto de 1953, lançada em outubro seguinte com o número 80-1216-B, matriz BE3VB-0240. Da segunda fase do trio (Herivelto, Nilo Chagas e Noemi Cavalcanti) é a penúltima faixa, o samba-canção “Vingança”, de Lupicínio Rodrigues, gravado na mesmíssima RCA Victor em 10 de abril de 1951, e lançado em junho do mesmo ano, disco 80-0776-B, matriz S-092932. Este registro original, porém, passou em branco, pois, como todos sabem, “Vingança” só fez sucesso meses mais tarde, na interpretação de Linda Batista, que o tornou um clássico, sendo talvez o maior de todos os hits de Lupicínio como autor (com os direitos autorais da música, ele até comprou um carro que apelidou de “Vingança”!).  Foi inspirado numa mulher com quem Lupi viveu seis anos, e a quem ele abandonou ao descobrir que ela o traía (quando ela tentou uma reconciliação, Lupi compôs “Nunca”, hit de Dircinha Batista, irmã de Linda, um ano mais tarde). Encerrando esta seleção do GRB, temos justamente o lado A do primeiro disco da terceira fase do Trio de Ouro, o RCA Victor 80-0957, do qual falamos lá atrás:  o bolero “Se a saudade falasse”, de Herivelto sem parceiro, gravação de 11 de junho de 1952, lançada em agosto do mesmo ano, matriz SB-093321. Uma seleção que traz aos amigos cultos, ocultos e associados do GRB e do TM um pouco da trajetória do Trio de Ouro, que, durante todos esses anos, sempre fez por merecer seu nome. Ouçam e confirmem!

 

* Texto de Samuel Machado Filho

Maysa – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 100 (2014)

Com muito orgulho, chegamos à centésima edição do Grand Record Brazil. Uma trajetória brilhante e bastante expressiva. Isto só foi possível graças ao prestígio e à acolhida de nossos amigos cultos, ocultos e associados, a quem eu e o Augusto agradecemos de todo o coração. E nesta edição de número 100, reverenciamos a memória de uma das melhores cantoras e compositoras que a música popular brasileira já teve: Maysa.
Batizada como Maysa Figueira Monjardim, nossa focalizada veio ao mundo no dia 6 de junho de 1936, segundo algumas fontes no Rio de Janeiro, no bairro de Botafogo e, segundo outras, em São Paulo, oriunda de família rica e tradicional do Espírito Santo, filha de Inah e Alcebíades Monjardim, este último Fiscal de Rendas. Esta indefinição quanto ao local de nascimento da futura estrela talvez se deva ao fato de seus pais terem fugido de seu estado natal para o Rio de Janeiro, após se casarem, pois a família de sua mãe se opunha ao matrimônio, dada a boemia de Alcebíades. Residiram também em Bauru, interior paulista, voltando depois para a capital bandeirante, onde, mesmo fixando-se na mesma, trocaram de endereço várias vezes. Maysa estudou nos tradicionais colégios paulistanos Assunção, Sacre-Couer de Marie e no Ginásio Ofélia Fonseca (onde foi reprovada por suas notas e comportamento). Sempre foi rebelde e chegava a comparecer às aulas sem uniforme e com trajes ousados, sendo por isso proibida de frequentar os bancos escolares. Bilhetes eram enviados aos pais de Maysa e, como estes viviam na boemia, era difícil encontrá-los, e ela chegava a ficar três dias sem ir à escola, aguardando a assinatura deles.  Tentou se matricular, depois, no Mackenzie, mas foi recusada em virtude de seu currículo, e por isso Maysa parou os estudos na segunda série ginasial. As férias  ela passava em Vitória, onde ia rever seus tios e primos. Seu envolvimento com a música começou bem cedo: aos 12 anos, compôs sua primeira música, o samba-canção “Adeus” (primeira de uma série de 26), e desde a adolescência já gostava de cantar em festas familiares, além de tocar piano. Aos 17 anos, em 1955, Maysa casou-se com o empresário André Matarazzo, 17 anos mais velho que ela, e amigo de seus pais, da união resultando seu único filho, Jayme Monjardim Matarazzo, criado pela avó e posteriormente num colégio interno na Espanha, que iria se converter em  talentoso diretor  de cinema e televisão, realizando novelas e minisséries na extinta TV Manchete e depois na Globo (onde dirigiu inclusive a famosa minissérie sobre a vida de sua mãe, “Maysa – Quando fala o coração”, de 2009, com excelente desempenho de Larissa Maciel no papel-título). Ela não teve mais filhos por complicações no parto. Ainda grávida, Maysa conheceu o produtor Roberto Corte Real, que ficou encantado com sua voz. Combinaram então que, assim que Jayme nascesse, ela gravaria seu primeiro disco. Corte Real tentou, sem êxito, a contratação de Maysa pela Columbia, hoje Sony Music, e o jeito foi lançá-la em disco por uma nova gravadora: a RGE (Rádio Gravações Especializadas), de propriedade de José Brasil Ítalo Scatena, até então apenas um estúdio de jingles publicitários. E é pela RGE que a cantora-compositora  lança, em novembro de 1956, seu primeiro LP, o histórico dez polegadas “Convite para ouvir Maysa”, com oito músicas de sua autoria, e cuja renda foi revertida para o Hospital do Câncer de São Paulo.  Depois, claro, viria muito mais, tendo também gravado em outros selos, inclusive um álbum na mesma Columbia que a recusara, em 1961. Foi inclusive contratada das Emissoras Unidas (Rádio e TV Record). André, porém, se opunha à carreira musical de Maysa, e ao temperamento boêmio que ela herdou de seu pai, daí resultando sua ruidosa separação (em 1958, aos 22 anos, ela chegou a tentar suicídio cortando os pulsos, uma das inúmeras tentativas de liquidar a própria vida, aliás). Namorou depois o jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli (tendo-se mudado, em 1960, para o Rio de Janeiro, a convite dele), o empresário Miguel Azanza (seu segundo marido), o maestro Júlio Medaglia e o ator Carlos Alberto, entre outros. Fez inúmeras temporadas em casas noturnas de São Paulo (como o Juão Sebastião Bar, o restaurante Urso Branco  e as boates Cave, Oásis e Igrejinha) e  Rio de Janeiro (como Au Bon Gourmet e Canecão). O alcoolismo e o uso de moderadores de apetite deixavam seu temperamento instável, o que causou notórios escândalos  em hotéis e aviões de diversos países em que se apresentou. Manteve contato com inúmeros nomes da bossa nova, com os quais pôde expandir experiências musicais. Excursionou pela América Latina, passando várias vezes por Buenos Aires (Argentina), Montevidéu (Uruguai) e Lima (Peru), e cumpriu temporadas no Olympia de Paris (França),  Lisboa (Portugal), onde ficou bastante tempo em cartaz no Cassino Estoril, Tóquio (Japão) e  Luanda (Angola), além de ter residido na Espanha. No exterior, Maysa era conhecida como “a condessa descalça”, por sempre tirar os sapatos quando cantava. Participou também de algumas edições do FIC (Festival Internacional da Canção), que aconteceu no Maracanãzinho do Rio de Janeiro entre 1966 e 1972, e ninguém ousava lhe dar uma só vaia, o que a tornou uma das cantoras mais queridas do certame.  Sua discografia abrange 17 LPs no Brasil (e um nos EUA, nunca editado entre nós), sem contar as coletâneas, 21 discos 78 rpm com 41 músicas, e alguns compactos. Maysa faleceu em 22 de janeiro de 1977, em trágico acidente automobilístico na Ponte Rio-Niterói, quando dirigia sua Brasília azul em alta velocidade (estava a caminho de sua casa em Maricá, litoral fluminense). Supõe-se que o efeito de anfetaminas somado à ingestão de álcool tenha causado o desastre, perdendo, assim, a música popular brasileira, uma de suas personalidades mais singulares. Para esta edição em que o GRB reverencia a memória de Maysa, foram selecionadas dez gravações preciosas e importantes histórica e artisticamente. As oito primeiras saíram em LP e também em 78 rpm  (não esquecendo que era uma época de transição de formatos), todas sambas-canções e editadas por sua primeira gravadora, a RGE.  Abrindo esta seleção, o clássico samba-canção “Meu mundo caiu”, uma de suas composições mais conhecidas, lançado em março de 1958 com o número 10083-A, matriz RGO-484, que ela também interpretou no filme “O batedor de carteiras”, da Nova América, distribuído pela Pelmex e estrelado por Zé Trindade (pouco antes de sua morte, em 1976, foi revivido na novela global “Estúpido  Cupido”, de Mário Prata). O lado B, matriz RGO-486, é a faixa 8, “Buquê de Isabel”, também samba-canção e praticamente o primeiro grande sucesso do compositor Sérgio Ricardo (mais tarde famoso como “o homem do violão quebrado” daquele festival da Record, o de 1967). Ambas as músicas saíram, apenas alguns dias depois,também no LP “Convite para ouvir Maysa  número 2” (o terceiro álbum de carreira, apesar do título, e o primeiro da intérprete em doze polegadas).  A faixa 2 é outro clássico indiscutível de e com Maysa, o famoso “Ouça”, lançado em maio de 1957 sob número 10047-A, matriz RGO-220, inesquecível hit por ela também interpretado no filme ‘O camelô da Rua Larga”, da Cinedistri, também estrelado por Zé Trindade, sendo o lado B a faixa 6, “Segredo”, ambas constantes do também do segundo LP da vcantora-compositora, ainda em 10 polegadas e intitulado apenas ‘Maysa”. Na faixa 3, aparece “Suas mãos”, clássico de Pernambuco (Ayres da Costa Pessoa) e Antônio Maria, editado em setembro de 1958 com o número 10117-A,matriz RGO-767.  O lado B está na faixa 5, “Mundo vazio”, de Amaury Medeiros e Antônio Bruno, matriz RGO-774, ambas também incluídas no terceiro volume de “Convite para ouvir Maysa”, sendo “Mundo vazio” a faixa de abertura do vinil.  A faixa  4, originalmente abrindo o segundo LP de Maysa, de 1957, é o clássico “Se todos fossem iguais a você”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, lançado na peça teatral “Orfeu da Conceição” e originalmente gravado por Roberto Paiva. O registro de Maysa foi relançado na cera pela RGE em dezembro  de 57 com o número 10074-A, matriz RGO-295. Para o lado B, foi escalado “Tarde triste”, da própria Maysa, matriz RGO-123, que originalmente foi editada em vinil no primeiro “Convite para ouvir Maysa”, de 10 polegadas, em novembro de1956. Completando esta seleção, duas raríssimas faixas extraídas de um compacto duplo gravado por Maysa na marca francesa Barclay, número 70526,  durante uma temporada em Paris, em 1963: o clássico bossanovista “Chega de saudade” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e “Cent-mille chansons”, de Eddy Mamay e Michel Magné, do filme “O repouso do guerreiro”, de Roger Vadim. Enfim, uma seleção que apresenta alguns dos melhores momentos de Maysa, abrilhantando esta centésima edição do nosso GRB (e pretendemos, claro, ir muito além). Ouçam e recordem conosco estes agradáveis momentos!
*Texto de Samuel Machado Filho

Jackson Do Pandeiro – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 99 (2014)

Estamos de volta com o Grand Record Brazil, em sua edição de número 99, apresentando a segunda e última parte da retrospectiva que dedicamos ao “rei do ritmo”, Jackson do Pandeiro. Aqui encontraremos mais 14 gravações históricas deste que foi sem dúvida um dos mais expressivos intérpretes da música regional nordestina. Abrindo a seleção desta semana, temos “O desordeiro”, samba de autoria de Maruim (Ricardo Lima Tavares), lançado pela Philips em junho de 1962 com o número P61135H-B, sendo também faixa de abertura do LP “A alegria da casa!”. Em seguida, as músicas do 78 de estreia de Jackson na Philips, número P61021H, lançado em julho de 1960, ambas composições suas: o baião “Os cabelos de Maria”, que fez com Rosil Cavalcanti (lado B), e o rojão (tipo mais acelerado de baião) “O povo falou”, parceria com Elias Soares (lado A), ambas também incluídas no compacto duplo de 45 rpm “O sucesso do momento”. Da safra de Jackson do Pandeiro na Columbia são as faixas seguintes, ambas lançadas por volta de maio de 1959 sob número CB-11146: no lado A, o chamego ‘Forró na gafieira”, de Rosil Cavalcanti, matriz CBO-2025, e no verso, matriz CBO-2027, o baião “Cantiga do sapo”, do próprio Jackson em parceria com o misterioso Buco do Pandeiro. Ambas as músicas também integraram o primeiro LP do “rei do ritmo” na Columbia, sem título (LPCB-37056), e que abre justamente com “Forró na gafieira”. Depois temos um autêntico clássico: o batuque “O canto da ema”, de João do Valle, Ayres Viana e Alventino Cavalcanti, lançado pela Copacabana em 1956 com o número 5661-B, matriz M-1678, regravado inclusive por Gilberto Gil. E, na faixa seguinte, você tem o lado A, “Coco social”, de Rosil Cavalcanti (crônica interessante a respeito da aceitação dos ritmos nordestinos na chamada alta sociedade, citando até mesmo Jacinto de Thormes, colunista social muito lido na época), matriz M-1677, ambas também incluídas no LP de 10 polegadas “Os donos do ritmo” (isto é, Jackson do Pandeiro e Almira Castilho), que abre com “O canto da ema”. O rojão “Ele disse”, de Edgar Ferreira, é uma homenagem ao ex-presidente Getúlio Vargas, e foi lançado pela Copacabana em 1956, dois anos após o trágico suicídio do chefe da Nação, sob número 5579-A, matriz M-1503. A música cita inclusive uma frase da carta-testamento de Getúlio: “O povo de quem fui escravo jamais será escravo de ninguém”. Do Copacabana 5553, também de 1956, são as faixas seguintes, o coco “Falso toureiro”, do próprio Jackson com Heleno Clemente (lado B, matriz M-1415), e o baião “Rosa”, de Ruy de Moraes e Silva (lado A, matriz M-1416). Ambas as faixas, mais “Ele disse”, saíram também no LP de 10 polegadas “Forró do Jackson”, sendo “Falso toureiro” a faixa de abertura do mesmo. Nesse vinil também está nossa próxima faixa, “Coco do Norte”, composição de Rosil Cavalcanti lançada em agosto-setembro de 1955 no 78 número 5444-B, matriz M-1168. Depois temos as faixas do primeiríssimo disco de Jackson, o Copacabana 5155, lançado em outubro-novembro de 1953, ambas clássicos inesquecíveis: o rojão “Forró em Limoeiro”, de Edgar Ferreira, matriz M-578, e o divertido coco “Sebastiana”, de Rosil Cavalcanti, matriz M-579. E, encerrando com chave de ouro, e aproveitando o atual clima de Copa do Mundo, o rojão “Um a um”, de Edgar Ferreira, lançado em 1954 com o número 5234-A, matriz M-750, curiosamente às vésperas de uma outra Copa, que aconteceu na Suécia, e na qual o Brasil foi eliminado pelo então supertime da Hungria (apesar disso, os húngaros acabaram perdendo o título para a antiga Alemanha Ocidental). Enfim, uma impecável seleção com momentos inesquecíveis do legado de Jackson do Pandeiro, para colecionadores e apreciadores da melhor música nordestina e brasileira. Até a próxima, pessoal!
* Texto de Samuel Machado Filho

Jackson Do Pandeiro – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 98 (2014)

Em sua nonagésima-oitava edição, e prosseguindo em sua brilhante e expressiva trajetória, o Grand Record Brazil tem a honra de apresentar a primeira de duas partes de uma retrospectiva dedicada a um dos nomes mais expressivos da música regional nordestina. Estamos falando de Jackson do Pandeiro.  Nosso focalizado recebeu na pia batismal o nome de José Gomes Filho, e foi o primeiro grande artista paraibano surgido em plena era do rádio. Veio ao mundo na cidade de Alagoa Grande, no dia 31 de agosto de 1919, filho de José Gomes e de Flora Maria da Conceição, uma cantora de cocos que usava o pseudônimo de Flora Mourão, e lhe deu de presente  o primeiro instrumento musical: um pandeiro, é claro. Seu nome artístico veio de um apelido dado por ele mesmo: Jack, inspirado em um mocinho de filmes de faroeste americanos, Jack Perry. Cantava no interior da sua Paraíba natal desde a adolescência, e fez algumas duplas antes de se consagrar como artista-solo, a primeira com Zé Lacerda, em Campina Grande, ainda como Jack do Pandeiro. Em 1947, às vésperas de começar a ganhar popularidade nas rádios locais, e de ser rebatizado artisticamente como Jackson do Pandeiro (por sugestão de um diretor de programa de rádio, pois ficaria mais sonoro e causaria mais efeito quando fosse anunciado), formou a dupla Café com Leite, com Rosil Cavalcanti, em João Pessoa. Esse duo teve apenas um ano de existência, mas a amizade e a parceria refletiriam no início da carreira-solo de Jackson.  Em 1953, foi contratado pela Rádio Jornal do Commercio, do Recife,  (que tinha o slogan “Pernambuco falando para o mundo”), pertencente à família Pessoa de Queiroz. Foi lá que conheceu Almira Castilho de Albuquerque, com quem se casou em 1956, e viveu até 1967. A segunda esposa de Jackson foi a baiana Neuza Flores dos Anjos, de quem ele também se separou pouco antes de morrer.  Ainda em 1953, já ganhando notoriedade nacional e despertando o interessa das gravadoras, Jackson conhece Luiz Gonzaga, que imediatamente propõe encaminhá-lo à direção da RCA Victor. Porém, Jackson acaba preferindo a Copacabana, por ter escritório no Nordeste. Antes do Natal de 1953, sai seu primeiro disco, um 78 com “Forró em Limoeiro” (Edgar Ferreira) e “Sebastiana” (Rosil Cavalcanti), com êxito imediato. E seguiram-se inúmeros outros sucessos, tais como “O canto da ema”, “O crime não compensa”,  “Lapinha de Jerusalém”, “Chicletes com banana”, “Um a um”, “Cantiga do sapo”, além dos que foram reunidos neste primeiro volume e comentaremos a seguir. Após serem agredidos fisicamente durante uma passagem pelo Recife, Jackson e Almira  decidem residir no Rio de Janeiro, onde são contratados pela então poderosa Rádio Nacional, “a estação das multidões”. Mesclando com sabedoria temas carnavalescos, juninos e até natalinos, os discos de Jackson animavam qualquer ocasião, e deixavam os críticos abismados  com sua facilidade em cantar gêneros variados. O longo tempo em que Jackson tocou em cabarés aprimorou sua capacidade jazzística, sendo também famosa  sua maneira de dividir a música. Diz-se até que o próprio João Gilberto aprendeu a dividir com Jackson, que é considerado por muitos o maior ritmista da música popular brasileira, tanto que era conhecido como “o rei do ritmo”. Além de vários 78 rpm, sua discografia inclui mais de 30 LPs, o último deles, “Isso é que é forró”, lançado em 1981. Foram 29 anos de carreira, tendo passado também pelas gravadoras Columbia (e sua sucessora, a CBS), Philips, Continental e Cantagalo, tendo também participado de inúmeros projetos coletivos. Diabético desde os anos 1960, Jackson do Pandeiro faleceu em 10 de julho de 1982, na Casa de Saúde Santa Lúcia, em Brasília, DF, em decorrência de complicações de embolia pulmonar e cerebral. Ele tinha participado de um show na Capital Federal uma semana antes, e no dia seguinte passou mal no aeroporto antes de embarcar para o Rio de Janeiro. Seu corpo foi sepultado no Cemitério do Caju, no Rio, e hoje seus restos mortais encontram-se em sua cidade natal, Alagoa Grande, em um memorial que a população do município preparou em sua homenagem. Alceu Valença costuma dizer que Luiz Gonzaga é o Pelé da música, e Jackson do Pandeiro, o Garrincha. É o que comprovaremos na seleção deste primeiro volume que o GRB lhe dedica, com 16 gravações, evidentemente preciosas e de valor histórico, a maior parte delas editadas em 78 rpm pela Copacabana, e reunidas depois em LPs de 10 e 12 polegadas. Abrindo este volume, o coco “A mulher do Aníbal”, de Genival Macedo e Nestor de Paula, lançado por volta de abril de 1954 com o n.o 5234-B, matriz M-749. A faixa seguinte é o xote “Cremilda”, de Edgar Ferreira, bem divertido e malicioso, lançado em maio de 1955 sob n.o 5412-A, matriz M-1014. O outro lado, matriz M-885-2, está na faixa 8: é o samba “Falsa patroa” de Geraldo Jacques e Isaías Ferreira. A faixa 3 é da fase de Jackson na Philips, o “Frevo do bi”, de Brás Marques e Diógenes Bezerra, alusivo à conquista do bicampeonato mundial de futebol (Copa do Mundo) pela Seleção Brasileira no Chile, lançado em junho de 1962, disco P61135H-A (inquebrável e de vinil!), e que nessa ocasião também foi gravado na Continental por um certo Papi Galan. Na quarta faixa, voltando à Copacabana, temos o rojão (tipo de baião mais acelerado) “Cabo Tenório”, de Rosil Cavalcanti, por certo inspirado em um polêmico político dessa época, o alagoano Tenório Cavalcanti (1906-1987), aliás interpretado pelo recém-falecido José Wilker no filme ‘O homem da capa preta”, em 1986. O disco recebeu o número 5741-B, e foi lançado por volta de março de 1957, matriz M-1866. Em seguida você tem justamente o lado A, o “Xote de Copacabana”, do próprio Jackson do Pandeiro (que assina com seu nome verdadeiro, José Gomes), matriz M-1865. A sexta faixa é outro  xote,“Moxotó”, também de José Gomes (ou seja,o próprio Jackson), agora em parceria com Rosil Cavalcanti, datado de 1956, disco 5579-B, matriz M-1504. Em seguida, o clássico “Dezessete na corrente”, rojão de Edgar Ferreira e Manoel Firmino Alves, de 1954, disco 5287-A, matriz M-884-2. O lado B está na décima faixa: é o batuque “O galo cantou”, de Edgar Morais, matriz M-883-2. Na faixa 9, o baião “No quebradinho”, de Marçal Araújo e José dos Prazeres, lançado em agosto-setembro de 1955, disco 5444-A, matriz M-1015. Na décima-primeira faixa, o contagiante “Micróbio do frevo”, de Genival Macedo, para o carnaval de 1955, e que saiu ainda em novembro de 54 com o número 5331-A, matriz M-980. E o lado B, matriz M-981, e faixa 15 desta seleção, é “Vou gargalhar”, samba de Edgar Ferreira que foi um dos campeões da folia de 1955. Na décima-segunda faixa, o divertido “Forró em Caruaru”, rojão que tem a respeitável assinatura do pernambucano Zé Dantas (1921-1962), também parceiro de Luiz Gonzaga em inúmeros hits. Foi lançado em março-abril de 1955 sob n.o 5397-A, matriz M-1104, tendo no verso justamente a faixa seguinte, o batuque “Pai Orixá”, de Edgar Ferreira, matriz M-882-3). Para encerrar, as duas faixas são do disco Copacabana 5277, lançado em 1954: “Eta baião!”, de Marçal Araújo (lado B, matriz M-823-2, faixa 14) e o coco “Boi brabo”, de Rosil Cavalcanti (lado A, matriz M-822-2). É a faixa que termina com chave de ouro a primeira parte da retrospectiva que o GRB dedica a Jackson do Pandeiro, fazendo justiça a este notório, expressivo e até hoje lembrado nome da música regional nordestina, prometendo a segunda parte para a próxima semana. Até lá e fiquem com Deus!
* Texto de Samuel Machado Filho

A Música De Buci Moreira (parte 2) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 97 (2014)

E aí vai para todos os nossos amigos cultos, ocultos e associados, mais uma edição do Grand Record Brasil, a de número 97, apresentando a segunda e última parte da retrospectiva dedicada ao compositor Buci Moreira (1909-1982), oferecendo mais dez gravações históricas com suas músicas. Abrimos esta segunda parte com Carlos Galhardo, interpretando o samba “Loucura”, parceria de Buci com Oswaldo Lira e A. F. Conceição, gravado na RCA Victor em 17 de outubro de 1955 e lançado em janeiro de 56, destinando-se evidentemente ao carnaval, sob n.o 80-1539-B, matriz BE5VB-0896. “O cantor que dispensa adjetivos” também está na faixa 8, “Adoro o samba”, em que Buci Moreira tem como parceiro (aliás, um de seus mais constantes) Arnô Canegal, gravação Victor de 26 de agosto de 1941, lançada em novembro do mesmo ano sob n.o  34830-B, matriz S-052344. Prosseguindo, na faixa 2, temos o grande flautista Benedito Lacerda, à frente de seu grupo Gente do Morro, e também cantando, no samba “Preto d’alma branca”, só de Buci Moreira, que mostra a banalidade do preconceito racial. Foi lançado pela Brunswick (marca americana de curta duração no Brasil) em janeiro de 1931, por certo também visando o carnaval, com o n.o 10128-A, matriz 528. Em seguida  vem o misterioso H. G. Americano, intérprete de curta carreira fonográfica (apenas seis discos com dez gravações, em 1929/30), com o samba “Mulher soberba”, em que Buci tem como parceiro Oswaldo Santiago, lançado pela Odeon em agosto de 1930 com o n.o 10657-B. Depois, Francisco Alves nos traz outro samba, “Em uma linda tarde”, parceria de Buci Moreira com Nasinho (apelido de Norival Reis), gravação Victor de 16 de abril de 1935, lançada em julho seguinte com o n.o 33946-A, matriz 79877, com acompanhamento da orquestra Diabos do Céu, do mestre Pixinguinha. O gaúcho Alcides Gerardi vem com “Protesto”, samba em que Buci tem como parceiro Felisberto Martins, então diretor artístico da Odeon, onde o cantor o gravou em 9 de junho de 1952, com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 13318-B, matriz 9332. Henricão (Henrique Felipe da Costa, 1908-1984), também compositor de renome, aqui comparece com o samba “Pra que tanto ciúme?”, de Buci Moreira em parceria com Lacy Martins (irmão de Herivelto), gravado na mesma Odeon em 10 de dezembro de 1937 e lançado em janeiro de 38, com vistas ao carnaval, disco 11565-A, matriz 5731. Pioneiro da música country no Brasil, Bob Nélson (Nélson Roberto Perez, Campinas, SP, 1918-Rio de Janeiro, 2009), devidamente acompanhado de seus “rancheiros” (entre eles nada mais nada menos que Luiz Gonzaga à sanfona), apresenta a marchinha “Companheiro de caçada”, em que o parceiro de Buci Moreira é o ator Macedo Neto, que atuou no rádio e na televisão e foi inclusive marido de Dolores Duran. Foi gravada na RCA Victor em 26 de outubro de 1949, e lançada em janeiro de 50 (para o carnaval, claro) sob n.o 80-0634-A, matriz S-078961. O eterno “metralha do gogó de ouro”, Nélson Gonçalves (1919-1998) nos traz o samba “Perfeitamente”, do trio Buci Moreira-Arnô Canegal-Carlos de Souza, gravação Victor de 7 de abril de 1943, lançada em junho seguinte sob n.o 80-0086-B, matriz S-052749. Tem versos algo confusos, mas merece ser ouvido.  E, para encerrar com chave de ouro, volta Francisco Alves, agora junto com o Trio de Ouro em sua primeira formação (Dalva de Oliveira, Herivelto Martins e Nilo Chagas), com o samba “Não é assim que se procede”, do quarteto Bucy Moreira-Arnô Canegal-Raul Marques-Henrique de Almeida, do carnaval de 1945, gravação Odeon de 13 de dezembro de 44 lançada bem em cima da folia, em fevereiro, disco 12550-B, matriz 7735. O próprio Herivelto comanda o acompanhamento, a cargo de sua escola de samba, e no final da gravação comete um erro crasso dizendo “Não é assim que se PORCEDE”! Isso, porém, é apenas é um detalhe. E assim apresentamos a segunda e última parte da retrospectiva do GRB dedicada a Buci Moreira. Até a próxima e muito obrigado pela atenção e carinho!
*Texto de Samuel Machado Filho

A Música De buci Moreira – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 96 (2014)

Estamos de volta com o Grand Record Brazil, em sua edição de número 96. Desta feita, apresentamos a primeira de duas partes de uma retrospectiva dedicada à obra musical de um dos maiores compositores do samba carioca: Buci Moreira. Buci veio ao mundo no dia primeiro de agosto de 1909. Seu pai, Guilherme Eduardo Moreira, era violonista e ele, desde pequeno, mostrou vocação para ritmista. Buci também era neto da lendária Tia Ciata, em cuja residência, nas proximidades da não menos lendária Praça Onze, reuniam-se pioneiros do samba. Em 1917, sem deixar sua casa em São Cristóvão, passou a viver também com outra família no mesmo bairro, fazendo companhia a um menino da casa, e começando seus estudos. Em 1922, foi morar com a avó, até a morte desta, em 1924, e de 1925 a 1927, estudou na Escola Bom Jesus, na Ilha de Paquetá. Com a morte de sue pai, em 1928, Buci foi viver com os tios na Praça Onze, ingressando no Colégio Benjamin Constant. No ano seguinte, desfilou pela única vez naquela que é considerada a primeira escola de samba, a Deixa Falar. Foi justamente na Praça Onze que, em 1930, foi descoberto por Francisco Alves, primeiro a gravar uma composição de Buci, o samba “Palhaço”, parceria com Nélson Januário. Nessa ocasião, começou a atuar como ritmista em gravações na Odeon, formando dupla com Waldemar Silva e, depois, com Arnô Canegal. Entre 1936 e 1940, foi diretor de harmonia da Escola de Samba Vê Se Pode, do Morro de São Carlos, da qual foi um dos fundadores e onde, claro, também desfilou. Trabalhou no cinema, com o cineasta Moacyr Fenelon, e em 1943 participou, ao lado de outros sambistas, do famoso filme inacabado de Orson Welles, “It’s all true”. Entre seus sucessos como compositor destacam-se “Anda, vem cá” (neste volume), “Quem pode, pode”, “Por que é que você chora?”, “Em uma linda tarde” e, o mais conhecido, o samba “Não põe a mão”, parceria com Arnô Canegal e Mutt, gravado pelos Titulares do Ritmo e um dos campeões do carnaval de 1951. Buci Moreira faleceu em seu Rio de Janeiro natal, no dia 28 de março de 1982. Neste primeiro volume, apresentamos dez composições de Buci Moreira, interpretadas por cantores de prestígio em seu tempo. Abrindo-o, temos Linda Batista, interpretando o samba “Casa de cômodos”, parceria de Buci com Carlos de Souza, por ela gravado na Victor em 18 de maio de 1944 e lançado em  agosto seguinte sob n.o 80-0196-A, matriz S-052964. Ela ainda interpreta aqui “Mau costume’ (faixa 3), samba dos mesmos autores mais Chiquinho Sales, gravado também no selo do cachorrinho Nipper em 15 de junho de 1942, com lançamento em agosto do mesmo ano sob n.o 34954-A, matriz S-052554. Por fim, Linda canta, na faixa 5, o samba “Salve a batucada”, do mesmo trio de autores de ‘Mau costume”, também gravação Victor, esta de 11 de maio de 1942, lançada em julho seguinte com o número 34939-B, matriz S-052514. Na faixa 2, a bossa inconfundível da dupla Francisco Alves e Mário Reis, no samba “Anda, vem cá”, gravado na Odeon em 3 de agosto de 1931, disco 10824-B, matriz 4264. O curioso é que Buci Moreira aparece como autor no selo original, mas na edição impressa, da editora Mangione, o samba é creditado a Francisco Alves, Ismael Silva e Nílton Bastos. Na faixa 4, temos o samba “Você foi a culpada”, parceria de Buci Moreira com o ex-pugilista Kid Pepe, na interpretação dos Quatro Diabos,grupo vocal integrado por estudantes de direito. Saiu pela Odeon em agosto de 1935, sob número 11252-B, aliás o único disco do quarteto. Filha do compositor e instrumentista Heitor Leite Sodré, que adotou o pseudônimo de Heitor Catumbi, a carioca Odaléa Sodré (1924-?) interpreta aqui outro samba da parceria Buci Moreira-Kid Pepe, “Romance da morena”, lançado pela Columbia em 1936 no primeiro de seus três únicos discos, número 8165-B, matriz 1112. Aurora Miranda, irmã de Cármen, vem com a marchinha natalina “Blem blau”, em que Buci tem como parceiros Portello Juno e Vicente Paiva (que a acompanha aqui com sua orquestra), gravação Odeon de 3 de novembro de 1936, lançada em dezembro seguinte sob n.o 11414-A, matriz 5434. O Quarteto de Bronze, que tem sido um mistério quanto a seus integrantes, comparece com o samba “Terra do ferro”, parceria de Buci Moreira com Carlos de Souza e Ely de Almeida, lançado pela Victor em maio de 1942 sob n.o 34925-A. Falando em Cármen Miranda, ela aqui nos apresenta “Dance rumba”, que Buci fez em parceria com um especialista nesse ritmo caribenho, Djalma Esteves. Gravação Odeon de 25 de março de 1937, lançada em julho do mesmo ano, disco 11489-A, matriz 5557. Para encerrar esta primeira parte, temos outra Cármen, a Barbosa, de curta carreira e morte prematura, interpretando o samba “Maior prazer”, parceria de Buci Moreira com Miguel Baúso, em gravação Columbia de 13 de maio de 1939, lançada em junho seguinte sob n.o 55069-B, matriz 153. Semana que vem, amigos cultos, ocultos e associados, mais um pouco da obra musical de Buci Moreira. Até lá!
*Texto de Samuel Machado Filho

Cantoras – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 95 (2014)

Em sua edição de número 95, o Grand Record Brazil volta a apresentar uma seleção apenas com cantoras, muitas delas de marcante presença na história de nossa música popular. Algumas das dezesseis faixas desta edição foram conseguidas por mim mesmo graças à imprescindível colaboração de colecionadores e pesquisadores como Beto de Oliveira, Gilberto Inácio Gonçalves e Marcelo Bonavides de Castro, este último do Acervo Nirez, de Fortaleza, CE, e também administrador do blog Estrelas que Nunca se Apagam. A eles (e também ao próprio Nirez) nossos mais sinceros agradecimentos. Abrindo nossa seleção desta semana, temos Dora Lopes, cantora e compositora nascida (1922) e falecida (1983) no Rio de Janeiro. Ela comparece aqui com o disco Sinter 00-00.214, lançado em abril de 1953, apresentando dois sambas-canções. Na faixa 2 está o lado A, matriz S-458, “Baralho da vida”, composto por Ulisses de Oliveira, mineiro de Juiz de Fora e personagem marcante na história dessa cidade. E na primeira faixa temos o lado B, “Você morreu pra mim”, matriz S-459. Uma faixa histórica, pois constituiu-se na primeira composição gravada de Newton Mendonça , também nascido (1927) e falecido (1960, prematuramente, aos 33 anos, de infarto fulminante) no Rio de Janeiro. Pianista, compositor, gaitista e violinista, ele seria parceiro de Tom Jobim em várias composições de sucesso, entre elas “Desafinado”, verdadeiro hino da bossa nova. Em “Você morreu pra mim”, Newton tem a parceria de Fernando Lobo, outro notável compositor da MPB (fez, entre outras,“Chuvas de verão”, “Nêga maluca”, “Chofer de praça”, “Preconceito”, etc.) e pai de outro grande cantor-compositor brasileiro, Edu Lobo.  Portuguesa de Vizeu, Vera Lúcia Ermelinda Balula (1930-?) naturalizou-se brasileira e foi eleita Rainha do Rádio em 1955, derrotando Ângela Maria (vencedora desse concurso um ano antes) por decisão do apresentador Manoel Barcelos, da Rádio Nacional, como homenagem a Cármen Miranda, que também era portuguesa como ela e falecera nesse mesmo ano nos EUA. Vera Lúcia aqui comparece com a gravação original de um samba-canção clássico de Tito Madi, “Cansei de ilusões”, lançada pela Continental em agosto-setembro de 1956 sob número 17323-A, matriz C-3845. “Cansei de Ilusões” foi várias vezes regravado, inclusive pelo próprio Tito Madi, e está finalmente aqui em seu primeiro registro, com Vera Lúcia. Possivelmente o saxofone que se ouve na gravação é de Zé Bodega, então atuando na Orquestra Tabajara de Severino Araújo. Em seguida, tiramos do esquecimento a excelente cantora mineira Daisy Guastini.  Ela iniciou sua carreira nos anos 1950, como locutora e atriz da Rádio Inconfidência e apresentadora da TV Itacolomi, ambas de Belo Horizonte, capital de Minas. Casou-se com o compositor e guitarrista Nazário Cordeiro, com quem teve a filha Daisy Cordeiro, também cantora, e atuou também em emissoras do eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Deixou, porém, uma discografia muito aquém de seu potencial como intérprete: apenas dois compactos duplos, um pelo selo Arpège, do tecladista Waldir Calmon, dono da boate carioca de mesmo nome, em 1959, e outro pela RGE, em  1964. Do primeiro deles, o Arpège AEP-1003, é a gravação aqui escalada, e por sinal sua faixa de abertura: o famoso samba-canção “O que tinha de ser”, da profícua parceria Tom Jobim-Vinícius de Moraes, bastante conhecido e com inúmeros outros registros. A carioca Dalva de Andrade (n.1935) aqui comparece com um disco de 1959, o Polydor 305. No lado A, matriz POL-3504, gravado em 3 de março desse ano, está o samba “Brigas, nunca mais”, outro produto de sucesso da dupla Tom Jobim-Vinícius de Moraes, e com inúmeras gravações. No lado B, matriz POL-3487, gravado em fevereiro do mesmo ano (talvez no dia 20), está o samba-canção “História”, de Fernando César em parceria com o cantor Luiz Cláudio, falecido no ano passado sem qualquer divulgação por parte da mídia, tanto que fiquei sabendo de sua morte através do Toque Musical, quando foram repostados vários álbuns por ele gravados. Ambas as gravações, com acompanhamento concebido e dirigido pelo maestro Peruzzi, também figuraram no primeiro LP da cantora, “Eis Dalva de Andrade”.  Dalva teve de abandonar a carreira prematuramente, em meados da década de 1960, por problemas de deficiência auditiva, lançando, depois disso, apenas dois compactos de produção independente. Gaúcha de Porto Alegre, Luely da Silva Figueiró (1936-2010) mudou-se para São Paulo em 1957, após ser eleita Rainha do Rádio gaúcho, atuando nas Emissoras Unidas (Rádio e TV Record).  Foi também atriz de cinema, aparecendo em filmes como “A doutora é muito viva” (1956), “Casei-me com um xavante” (1957) e “Marido de mulher boa” (1960). Viveu alguns anos com o cantor-compositor Sérgio Ricardo (aquele do violão quebrado em festival), no Rio de Janeiro, voltando a morar em São Paulo na década de 1970 e abandonando a carreira artística. Retomando seus estudos, formou-se professora de ensino de segundo grau, exercendo a profissão durante anos até se aposentar, na virada do século XXI. De Luely Figueiró escalamos outro clássico da dupla Tom Jobim-Vinícius de Moraes: o samba “A felicidade”, do filme “Orfeu negro” (nos cinemas, “Orfeu do carnaval”), produção franco-italiana filmada no Rio de Janeiro e premiada com o Oscar de filme estrangeiro, e nele interpretado por Agostinho dos Santos. A gravação de Luely saiu pela Continental em  agosto de 1959, sob número 17713-A, matriz C-4191. A carioca Iracema de Souza Ferreira, aliás, Nora Ney (1922-2003), de marcante presença em nossa música popular como intérprete essencialmente romântica, aqui comparece com dois sambas-canções de sucesso, ambos do disco Continental  16726, gravado em 23 de janeiro de 1953 e lançado em março-abril desse ano, com acompanhamento orquestral de Copinha. Abrindo-o, matriz C-3043, o inesquecível ‘De cigarro em cigarro”, de Luiz Bonfá, e no verso, matriz C-3044, “Onde anda você?”, de Antônio Maria e Reynaldo Dias Leme. Outro resgate importantíssimo é o de Laís Marival (Maria Neomézia Negreiros, 1911-?), paulista de Taquaritinga, e de curta carreira fonográfica: apenas sete discos 78 com catorze músicas, entre 1936 e 1938, todos pela Columbia, futura Continental.  Do penúltimo deles, número 8296-B, matriz 3510, de 1937, é o samba aqui escalado, “Saudades do morro”, de H. Celso e A. Santos.  Nos anos 1980/90, Laís ainda participava de corais em São Paulo. “Molambo”, de autoria do violonista Jayme Florence (o Meira dos regionais) em parceria com Augusto Mesquita, é um dos clássicos do samba-canção brasileiro, tendo recebido inúmeras gravações ao longo dos anos. O que quase ninguém sabe, porém, é que “Molambo” foi lançado pela cantora Julinha Silva no lado A de seu disco de estreia, o Todamérica TA-5334, gravado em 18 de junho de 1953 e editado em setembro do mesmo ano, matriz TA-487. Julinha é outra que teve curta carreira fonográfica, deixando apenas sete discos 78 com catorze músicas, entre 1953 e 1962, nos selos Todamérica, Guanabara, Mocambo e Continental. Onilda Figueiredo, pernambucana do Recife, comparece aqui com seu primeiro disco,feito justamente numa gravadora de lá, a Mocambo dos irmãos Rozenblit, por sinal a primeira instalada fora do eixo Rio-São Paulo. Lançado em junho de 1956, com Onilda ainda adolescente, o 78 abre com o tango “Nunca! Jamais! (Nunca! Jamás!)”, de Lalo Guerrero em versão de Nélson Ferreira (compositor de frevos de sucesso e então diretor artístico da Mocambo), matriz R-694, depois faixa de abertura do único LP da cantora, o dez polegadas ‘A voz de Onilda Figueiredo”. Também está aqui o lado B, matriz R-695, o bolero “Desespero”, de Ângelo Iervolino, que não entrou no LP. Apesar de seu potencial como cantora, Onilda é outra com discografia escassa. Além do LP já mencionado, só gravou quatro discos 78 com oito músicas, tudo na Mocambo. Uma das melhores cantoras brasileiras, a carioca Claudette Soares (n. 1937) iniciou-se ainda na infância, no programa “A raia miúda”, apresentado na Rádio Nacional por Renato Murce, passando mais tarde a apresentar-se no “Programa do guri”, de Silveira Lima, na Rádio Mauá.  Na Rádio Tamoio, quando atuava no programa ‘Salve o baião”, conheceu Luiz Gonzaga, que a chamou de “princesinha do baião”. E foi com dois baiões que Claudette estreou em disco, através da Columbia, futura Sony Music. Editado em junho de 1954 com o número CB-10049, com Claudette na plenitude de seus 17 anos, o 78 apresenta “Você não sabe”, de Castro Perret e Jane (matriz CBO-218, faixa 15) e, no verso, matriz CBO-219 (faixa 14), “Trabalha, Mané”, de José Luiz e João Batista da Silva. Dos dois baiões, por certo “Trabalha, Mané” ficou mais conhecido, uma vez que foi regravado pelos grupos Os Cangaceiros e Os Três do Nordeste. No entanto, após fazer outros discos 78 na Columbia e na Repertório, Claudette Soares só conseguiu gravar seu primeiro LP em 1964, na Mocambo, com o nome de “Claudette é dona da bossa”, pontapé inicial para inúmeros outros trabalhos de sucesso. Para encerrar, apresentamos nada mais nada menos que Marta Rocha. Eleita Miss Brasil em 1954, a baiana causou comoção em todo o país ao perder o título de Miss Universo, no mesmo ano, para a americana  Myrian Stevenson. Marta teria perdido porque teria duas polegadas a mais nos quadris. Entretanto, no livro “O império de papel – Os bastidores de O Cruzeiro”, o jornalista Accioly Neto, ex-diretor da revista, garante que as tais polegadas foram inventadas pelo fotógrafo João Martins, inconformado com o resultado, com a cumplicidade de outros jornalistas presentes ao concurso, realizado na cidade americana de Miami, na Flórida. Boato ou não, o fato é que o Brasil inteiro cantou com Marta Rocha ‘Duas polegadas”, marchinha de Pedro Caetano, Carlos Renato e Alcyr Pires Vermelho, lado B do primeiro dos dois únicos discos 78 que ela gravou pela Continental, número 17134, lançado em agosto-setembro de 1955, matriz C-3610. É com esta curiosidade que encerramos mais esta edição do GRB dedicada a vozes femininas. Até a próxima e divirtam-se!

*Texto de Samuel Machado Filho

A Música De Príncipe Pretinho – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 94 (2014)

Esta semana, o Grand Record Brazil apresenta a segunda parte da retrospectiva dedicada à obra musical do compositor Príncipe Pretinho (José Luiz da Costa),  uma personalidade tão misteriosa quanto fascinante em nossa música popular. Príncipe Pretinho, como já vimos anteriormente, muito incentivou  o compositor Herivelto Martins no início de sua carreira. Certamente por isso é que o Trio de Ouro, formado por ele, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas, interpreta a maior parte das vinte faixas aqui incluídas, ou seja, nove.  A começar pela primeira, o samba “Todos têm o direito”, parceria de Príncipe Pretinho com J. J. de Oliveira, curiosamente uma das derradeiras gravações da primeira fase do trio, que logo se desfez com a separação ruidosa de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira (e também a última composição gravada de Pretinho). Destinado ao carnaval de 1949, foi gravado na Odeon em 2 de dezembro de 48, e lançado um mês antes do tríduo momesco, em janeiro, sob n.o 12910-B, matriz 8463. Na faixa 4, o trio apresenta a marchinha junina “Toma cuidado”, apenas e tão-somente de Príncipe Pretinho, lançada pela Columbia em junho de 1941 sob n.o 55278-A, matriz 401. No monólogo inicial, Dalva de Oliveira, com singela voz de menina, faz, e muito bem, a personagem  Zefinha, então sucesso no programa de rádio “Piadas do Manduca”.  Na faixa 6, o trio vem com um samba em que Pretinho tem o próprio líder e fundador, Herivelto Martins, como parceiro: “É triste a gente querer”, do carnaval de 1947, gravação Odeon de 6 de dezembro de 46, lançada bem em cima da folia, em fevereiro, sob n.o 12758-A, matriz 8144. Em seguida, na sétima faixa, vem o batuque “É a lua”, só de Pretinho, gravação também da Odeon, em 4 de junho de 1946, lançada em agosto do mesmo ano, disco 12715-A, matriz 8055. A faixa 9 é uma parceria de Pretinho com José de Sá Roris, a marchinha “Dança la conga”, do carnaval de 1942, gravada em pleno dia de Natal de 41 (25 de dezembro) e lançada às vésperas dos festejos de Momo, em janeiro, sob n.o 55319-B, matriz 490. Em seguida, o trio nos oferece o samba “Maria Cheirosa”, só de Pretinho, gravação Columbia de 12 de maio de 1942, lançada logo em seguida  sob n.o 55338-B, matriz 512. Vem logo depois uma regravação do ponto de macumba “Quem tá de ronda”, só de Pretinho, originalmente lançado em 1935 na voz de Francisco Sena, registro esse que apresentamos em nosso volume anterior. Aqui, veio como batuque no selo, e o Trio de Ouro o regravou na Columbia no lado A de “Maria Cheirosa”, matriz 513. Na faixa 16, temos “Porta afora”, outra parceria de Pretinho com Herivelto Martins, samba do carnaval de 1945. Foi gravado pelo trio na Odeon em  29 de novembro de 44, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, disco 12542-B, matriz 7718. Por fim, na faixa 17, o Trio de Ouro encerra sua participação neste volume com “Quem vem descendo”, outro samba da parceria Príncipe Pretinho-Herivelto Martins, do carnaval de 1944. Gravação Odeon de 23 de novembro de 43, lançada em janeiro seguinte sob n.o 12404-B, matriz 7424. No restante do programa, temos outros grandes intérpretes. Castro Barbosa, que também marcou época no rádio brasileiro com o humorístico “PRK-30”, interpreta, em nossa segunda faixa, o samba “Eu queria um adeus”, da parceria Príncipe Pretinho-Herivelto Martins, destinado ao carnaval de 1941. Foi gravado na Columbia em 11 de novembro de 40, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 55264-B, matriz 346. Ao lado de suas Pastoras, Ataulfo Alves, o sempre lembrado poeta de Miraí, apresenta em nossa terceira faixa o batuque “Alodê”, só de Príncipe Pretinho.  Foi gravado na Victor em 16 de maio de 1946, e lançado em setembro do mesmo ano, disco 80-0433-B, matriz S-078518. Na faixa 5, um clássico interpretado por Zé e Zilda, “a dupla da harmonia”:  o samba “Só pra chatear”, um dos campeões do carnaval de 1948. Gravação Continental de 30 de outubro de 47, lançada ainda em dezembro com o número 15856-A, matriz 1772. Outro inesquecível intérprete de nossa música popular, Francisco Alves, o eterno Rei da Voz, aqui comparece com dois sambas de carnaval da parceria Príncipe Pretinho-Herivelto Martins, gravados na Odeon.  Na faixa 8, “Ela”, da folia de 1943, e também interpretado por Chico no filme ‘Samba em Berlim”, da Cinédia. Gravação de 3 de novembro de 1942, lançada ainda em dezembro com o número 12236-B, matriz 7127. E, na faixa 15, “Se a vida não melhorar”, do carnaval de 1945, registrado em 26 de dezembro de 44 e lançado bem em cima da folia pela “marca do templo”, em fevereiro, sob n.o 12555-B, matriz 7741. Isaura Garcia, a sempre “personalíssima”, apresenta, na faixa 12, outro samba da parceria de Pretinho com Herivelto Martins, “Consciência”, gravação Columbia de 27 de abril de 1942, lançada em maio seguinte com o número 55345-A, matriz 522. Nélson Gonçalves, o eterno “metralha do gogó de ouro” vem com outro samba da profícua parceria Príncipe Pretinho-Herivelto Martins, “Não fiquei louco” (faixa 13), do carnaval de 1945, gravação Victor de 26 de outubro de 44 , lançada um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, disco 80-0244-A, matriz S-078075. O “Formigão”, Cyro Monteiro, aqui comparece, na faixa 14, com o samba “Voltei mas era tarde”, em que Príncipe Pretinho tem a parceria de Geraldo Pereira. Gravação Victor de 13 de setembro de 1944, lançada em novembro seguinte com o número 80-0228-B, matriz S-078053. Na faixa 18, Cármen Costa interpreta “Caramba”, parceria de Pretinho com Henricão, samba destinado ao carnaval de 1943. Outra gravação Victor, esta de 19 de novembro de 42, lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 80-0045-A, matriz S-052660. Em seguida, a marchinha “A violeta”, em que Pretinho tem Marino Pinto como parceiro. Destinada ao carnaval de 1943, foi lançada pela Columbia em janeiro desse ano na voz de Déo (“o ditador de sucessos”), sob n.o 55398-B, matriz 589. Para encerrar, o GRB resgata Alfredo Simoney, cantor sobre o qual não existe biografia disponível no momento, mas que deixou uma discografia até razoável, compreendendo, em 78 rpm, 15 discos com 28 músicas, em inúmeros selos, além de uma participação no LP “Boate à beira-mar’ (Copacabana, 1959), do acordeonista Paschoal Melillo, interpretando “Saudade de Itararé”. Aqui, o lado A do único disco de Simoney na Columbia, n.o 55350, lançado em junho de 1942, apresentando o samba “Marambaia”, de Príncipe Pretinho  sem parceria, matriz 532. Enfim, um encerramento com chave de ouro para a segunda e última parte da retrospectiva dedicada pelo GRB a Príncipe Pretinho, que por certo irá enriquecer os acervos de tantos quantos apreciem o que a MPB deixou de melhor e mais expressivo. Até a próxima, pessoal!
* Texto de Samuel Machado Filho