*Texto de Samuel Machado Filho
Som Brasileiro (1975)
É com a satisfação de sempre que o Toque Musical oferece hoje, a seus amigos cultos, ocultos e associados, mais uma coletânea apresentando MPB da melhor qualidade. Trata-se de “Som brasileiro”, editada em 1975 pela Odeon (depois EMI, hoje Universal Music), reunindo alguns dos então contratados da “marca do templo” em dez faixas marcantes e bastante expressivas. Uma seleção de primeira, conforme vocês poderão constatar. O álbum já começa arrebentando, com o grande Mílton Nascimento e seu eterno clássico “Travessia”, que o projetou nacionalmente em 1967 e aqui, em registro feito, ao que parece, especialmente para esta compilação. O grande Bituca ainda comparece com outra de suas inesquecíveis criações, “San Vicente”, lançada em 1972 no histórico álbum duplo “Clube da Esquina”. Outro “cobra” de nossa música, Marcos Valle, aqui nos traz “Remédio pro coração”, de sua longa e profícua parceria com o irmão Paulo Sérgio, extraída de seu álbum de 1974. O clássico “Primavera”, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, composto para a peça “Pobre menina rica”, é aqui oferecido na voz de Alaíde Costa, em gravação que saiu primeiro num compacto duplo também de 1974 e, no ano seguinte, foi incluída em um dos muitos LPs dessa excelente cantora. João de Aquino vem com “Sapos e grilos”, parceria dele próprio com Paulo Frederico, faixa extraída do álbum “Violão viageiro”. Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, juntamente com outra notável cantora, Márcia, aqui nos apresentam “Mordaça”, em registro feito ao vivo durante o espetáculo “O importante é que a nossa emoção sobreviva” (título, por sinal, oriundo de um verso desta música), e lançado primeiramente no álbum de mesmo nome. Gonzaguinha, o inesquecível e eterno aprendiz, então ainda se assinando Luiz Gonzaga Júnior, aqui comparece com “Meu coração é um pandeiro”, faixa de seu segundo álbum-solo, de 1974 (no mesmo ano, a música teve outro registro, feito ao vivo, pela cantora Marlene). Obra-prima de João Donato, em parceria com Lysias Ênio e Mercedes Chies, “Até quem sabe?” é apresentada neste disco na voz da não menos inesquecível Maysa, em faixa de seu derradeiro álbum de estúdio. Autor de clássicos como “Eu e a bridsa” e “Céu e mar”, Johnny Alf expressa bem sua porção- intérprete com “Um gosto de fim”, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, faixa extraída do álbum “Nós”. Finalizando, temos o grande Egberto Gismonti, músico completo e extremamente versátil, com “Vila Rica 1720”, por ele gravada pela primeira vez em 1972, para o álbum “Água & vinho” e, aqui, em seu segundo registro, extraído de um de seus mais expressivos LPs, ‘Academia de danças”. Repertório primoroso, intérpretes do melhor quilate… Que mais se pode querer?
*Texto de Samuel Machado Filho
Diana Pequeno – Mistérios (1989)
O Toque Musical põe hoje em foco uma cantora que, após anos de afastamento, voltou à cena em 2016: Diana Pequeno. Ela nasceu na capital baiana, Salvador, em 25 de janeiro de 1958, e, vinte anos mais tarde, radicou-se em São Paulo. Ainda estudante de Engenharia Elétrica, começou a aparecer cantando em shows universitários, passando a se dedicar à música. Gravou seu primeiro LP em 1979, pela RCA, hoje Sony Music. Participou de festivais de MPB e, em mais de 20 anos de carreira, apresentou-se em diversos países, entre os quais o Japão, onde recebeu o prêmio de Originalidade com a música “Papagaio dos cajueiros”. Sua discografia tem um total de dez álbuns, entre LPs e CDs, e alguns compactos, onde registrou um repertório bastante eclético, com baião, xote, música latina e pop. “Blowin’ in the wind” (versão dela mesma para o clássico de Bob Dylan), “Diverdade”, “Canção de fogo”, “Engenho de flores”, “Facho de fogo” e “Sinal de amor e de perigo” são alguns de seus maiores sucessos. A última aparição pública de Diana Pequeno, ao que se sabe, foi em 2005, em sua Salvador natal, no projeto “Pelourinho dia e noite”. Desde então, ela nunca mais desempenhou qualquer atividade artística, e passou a residir no Rio de Janeiro. Mas neste 2016 que ora finda, Diana voltou à cena, lançando uma série de álbuns independentes, a maioria contendo gravações recentes de músicas de composição própria. Um deles, “Signo”, é um “disco perdido”, gravado entre o final de 1989 e o início de 90, bem clima deste que comentaremos a seguir. “Mistérios”, que o TM apresenta hoje, é o sexto álbum de Diana Pequeno, também gravado e distribuído de forma independente. Foi lançado em 1989, após cinco anos de afastamento dos estúdios, e marca o retorno da intérprete baiana aos caminhos originais de sua trajetória, após tentativas de tornar sua música mais comercial, e à parceria com seus velhos colaboradores Papete (falecido em maio deste ano) e Ruy Saleme. O que resultou em seu trabalho mais intimista e autoral, com arranjos despojados, diferindo, nesse sentido, de seus primeiros discos. A faixa de abertura deste disco, “Tudo que eu quero”, é uma versão da própria Diana para “All I want”, balada folk do norte-americano John Mitchell, presente naquele que é considerado seu melhor álbum, “Blue”, de 1971. Seguem-se composições próprias, com ou sem parceiros, e de outros autores, como Zé Rodrix e Guarabyra (“Os olhos abertos”), Joyce Moreno (“As ilhas”) e a dupla Guilherme Rondon-Paulo Simões (“Mil melodias”). Destaque ainda para a bela adaptação, da própria Diana, para uma cantiga tradicional das ilhas de Cabo Verde, “Ser feliz é melhor do que nada” e para a faixa-título, dela mesma em parceria com Ruy Saleme. Tudo isso faz de “Mistérios” um disco maduro e agradável do começo ao fim, comprovando e reiterando o talento de Diana Pequeno. Confiram…
tudo que eu quero
olhos abertos
as ilhas
mistérios
tudo no olhar
ser feliz é melhor do que nada
mulher rendeira
mil melodias
jeito de viver
analfabetos do amor
imagens e sentimentos
*Texto de Samuel Machado Filho
Brasil Selo Exportação (1978)
No decorrer dos anos 1970, com o sucesso obtido pela Som Livre, gravadora vinculada à Rede Globo de Televisão, as emissoras concorrentes decidiram criar seus próprios selos fonográficos. Dessa maneira, surgiram a Bandeirantes Discos, a Seta (vinculada à Record)e a GTA (Gravações Tupi Associadas). Esta última, vinculada à Rede Tupi, grande rival da Globo na época, surgiu em 1976, e seu primeiro lançamento foi a coletânea “Sucessos pop Difusora”, recheada de hits internacionais, e produzida pela rádio AM paulistana de mesmo nome, que também pertencia ao grupo Diários Associados e tinha uma programação para a juventude, embrião do que as FMs teriam bem mais tarde. O disco (que tinha na capa o desenho de uma macaca vestida de Mona Lisa) foi um sucesso, sendo logo seguido de um segundo volume. A GTA fazia praticamente o mesmo que a Som Livre, ou seja, trilhas sonoras das novelas da Tupi e compilações nacionais e internacionais de gêneros diversos, a partir de fonogramas cedidos pelas co-irmãs. Mas, com a falência da emissora, em 1980, acabou também sumindo do mercado fonográfico, o mesmo acontecendo com a Seta e a Bandeirantes Discos, que também não foram muito longe. A Som Livre, vocês sabem, continua na ativa. É justamente uma coletânea da GTA que o Toque Musical está oferecendo hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados. Trata-se de “Brasil selo exportação”. Com seleção de repertório a cargo de Ana Maria Mazzocchi, cujo nome está ligado ao extinto Sebo de Elite, uma loja de discos raros que comandou por mais de quinze anos em São Paulo, o álbum reúne vários nomes da MPB de então, a maior parte bastante conhecidos. A exceção fica por conta de Neuber, um cantor-compositor que a própria GTA tentou emplacar sem êxito, aqui com a faixa “Análise”, que encerra o LP. No mais, verdadeiras “feras” da MPB batem ponto neste disco: Maria Bethânia, logo de saída, vem com “Terezinha”, cujo autor, Chico Buarque, aparece logo em seguida com a não menos antológica “Basta um dia”, também composição sua. Temos ainda a inesquecível Elis Regina com “Sentimental eu fico”, de Renato Teixeira, Lula Carvalho com “Portão antigo”, releitura de uma composição de Antônio Maria originalmente lançada por Renata Fronzi em 1953, Ney Matogrosso interpretando “A gaivota”, de Gilberto Gil, a não menos inesquecível cantora e violonista Rosinha de Valença com sua “Os grilos são astros”, Fafá de Belém com a sensível “Dentro de mim mora um anjo”, de Suely Costa e Cacaso, João Nogueira com sua “Albatrozes”, Nana Caymmi revivendo “Perdoa, meu amor”, de Georges Moran e J. G. de Araújo Jorge, hit de Orlando Silva em 1947, Gal Costa com a versão “Louca me chamam” (Crazy he calls me)”, feita pelo poeta concretista Augusto de Campos a partir de original dos norte-americanos Carl Sigman e Bob Russell, e Alaíde Costa com um trabalho da parceria Ivan Lins-Vítor Martins, “Corpos”. Tudo isso em uma compilação de inestimável valor artístico e histórico, trazendo de volta um pouco da melhor MPB da década de 1970. É ouvir e comprovar.
terezinha – maria bethania
basta um dia – chico buarque
sentimental eu fico – elis regina
portão antigo – lula carvalho
a gaivota – ney matogrosso
os grilos são astros – rosinha de valença
dentro de mim mora um anjo – fafá de belém
albatrozes – joão nogueira
perdoa meu amor – nana caymmi
louca me chamam – gal costa
corpos – alaide costa
análise – neuber
*Texto de Samuel Machado Filho
Antena Um – Sucessos FMPB (1981)
Surgida em 1975, por iniciativa do empresário Orlando Negrão, a Antena 1 FM de São Paulo foi uma das primeiras rádios comerciais a apostar numa programação segmentada e de qualidade. De início, a emissora estava mais voltada para o público jovem, com programação baseada em música pop e rock, além de MPB contemporânea. Com o passar dos anos, a Antena 1 foi mudando seu estilo, passando a atingir o segmento conhecido como adulto contemporâneo, e voltando-se para as classes A e B, executando flashbacks de música internacional. No final dos anos 1980, passou a transmitir via satélite, tornando-se a primeira rede de emissoras de rádio FM do Brasil. Atualmente, a Rede Antena 1 conta com 21 emissoras, sendo sete próprias e as demais afiliadas, e vem se firmado como uma opção de qualidade para o público mais exigente. Além, é claro, de poder ser ouvida aqui na web. É justamente dos primórdios da Rede Antena 1, quando a MPB também fazia parte de sua programação, a coletânea que o Toque Musical oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados. Trata-se de “Antena 1 – Sucessos FMPB”, lançada em 1981 pela Philips/Polygram, hoje Universal Music, gravadora que sempre teve entre seus contratados autênticas “feras” de nossa música popular. Embora não haja crédito ao responsável pela seleção de repertório, esta é de arrepiar. O disco já começa arrebentando, com “Meu bem, meu mal”, grande hit de Gal Costa na época. Depois tem um irresistível dueto de Ivan Lins com a então esposa Lucinha, “Amor”, Zizi Possi com “Caminhos de sol” (mais conhecida por “Um minuto além”), o grupo Boca Livre (então já contratado da Polygram, após lançar os dois primeiros LPs de forma independente), com “Folia”, Renato Terra com “Raio de Sol”, o grupo Céu da Boca (do qual fez parte a cantora Verônica Sabino) com a expressiva “Clarissa”, extraída do primeiro álbum do conjunto, Robertinho de Recife e a esposa Emilinha interpretando “Feliz com você”… Robertinho, por sinal, é parceiro de Capinam na faixa seguinte, “Seja o meu céu”, na interpretação da inesquecível Nara Leão. O “Tremendão” Erasmo Carlos vem com o megahit “Minha superstar”, faixa extraída do álbum “Mulher (Sexo frágil)”, por sinal o mais vendido de toda a sua carreira. Ângela Ro Ro interpreta “Vou lá no fundo”, Eduardo Dusek vem com “Injuriado”, o Boca Livre retorna acompanhando Elza Maria (cantora que, ao que parece, não foi muito longe na carreira) em “Pena de sabiá”, um certo Heraldo com “Primavera” e, para encerrar, o sempre competentíssimo Roupa Nova, com a expressiva releitura de “Lumiar”, de Ronaldo Bastos e Beto Guedes, grande hit deste último de 1977. Enfim, uma compilação que nos dá uma ideia do que a Antena 1 apresentava musicalmente em seus primeiros tempos, na parte nacional, além de nos oferecer um pouco do que a MPB produzia de mais expressivo no início da década de 1980, na interpretação de alguns de seus expoentes. Divirtam-se…
Luiz Gonzaga – Ô Véio Macho (1962)
Boa noite, prezadíssimos amigos cultos e ocultos! Hoje eu acordei com vontade de ouvir Luiz Gonzaga e naturalmente, eu não deixaria esse momento passar em branco aqui no Toque Musical. Embora o Gonzagão já tenha sido exaustivamente publicado aqui, Muitos de seus lps, principalmente os de 12 polegadas ainda continuam inéditos, pelo menos por aqui. Assim sendo, aqui vai mais um.
“Ô véio macho” é um lp de carreira, lançado em 1962 pela RCA Victor. Neste disco vamos encontrar o Luiz Gonzaga intérprete e parceiro. São doze faixas recheadas de xote, baião, forró e toada. Aqui, pela primeira vez, Luiz Gonzaga apresenta em disco um de seus parceiros e fã, José Marcolino, com quem divide seis faixas. Disco bacana, gravação com a qualidade que só mesmo a RCA Victor sabia fazer. Confiram…
Assis Brasil Quarteto – Self Portrait (1988)
Irmão gêmeo do saxofonista Victor Assis Brasil, o pianista e professor João Carlos Miranda de Assis Brasil nasceu em 28 de agosto de 1945, no Rio de Janeiro. Sua formação musical iniciou-se no Conservatório Brasileiro de Música, onde, além de piano, estudou harmonia e teoria musical, tendo recebido, aos dez anos de idade, o primeiro prêmio em concurso promovido pela instituição de ensino. Em 1960, prosseguiria seus estudos, com o renomado concertista Jacques Klein e, dois anos mais tarde, venceu o Concurso Nacional de Piano da Bahia. Em 1964, viajou para Paris, a capital francesa, onde estudou com Pierre Sancan. Em 1965, classificou-se em terceiro lugar no Concurso Internacional Beethoven, realizado em Viena, Áustria, disputando com mais de 60 candidatos, e ali aprimorou seus estudos com Richard Hauser e Dieter Weber. Também atuou como solista na Orquestra Filarmônica de Viena. Em 1966, apresentou-se em Londres (Wigmore Hall), Milão (no auditório da família Meneghine), Belgrado (no teatro local) e também em Viena (no Brahmsaal). Estudou em Londres com Ilona Kabos, em 1970, e cinco anos depois, apresentou-se em Washington, na Universidade Católica. Nos anos 1980, formou o João Carlos Brasil Trio, ao lado do baixista Zeca Assumpção e do baterista Cláudio Caribé, que passou a quinteto com a entrada do violoncelista David Chew e do saxofonista Idriss Boudrioua. O grupo apresentou-se em vários concertos e, nessa época, João Carlos ainda atuou como professor do Conservatório Brasileiro de Música e, durante cinco anos, como professor e diretor da Faculdade de Música da Universidade Estácio de Sá, também do Rio de Janeiro. Possui uma discografia de doze álbuns, inclusive com ilustres parceiras, como a cantora Olívia Byington e a também pianista Clara Sverner. A morte prematura de Victor Assis Brasil, em 1981, afastou os irmãos do convívio, mas João encontrou justamente na música o meio sublime que encontrou para manter viva a memória de Victor. O que resultou no belo álbum que o TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados, gravado em 1988 e lançado com o selo Kuarup (houve reedição em CD, pela Biscoito Fino). Seu título, “Self portrait” (auto-retrato, em português), já sugere tratar-se de um disco autobiográfico. São treze músicas de Victor Assis Brasil executadas pelo piano de João, com o apoio de Paulo Sérgio Santos (clarinete e saxofone), Zeca Assumpção (baixo) e Jurim Moreira (bateria). A seleção foi feita a partir de 400 composições inéditas, a maior parte escritas durante o verão carioca de 1972/73, em três cadernos, encontrados em um baú herdado da mãe de Victor e João Carlos, dona Elba. Segundo o próprio João Carlos Assis Brasil, a intenção foi a de apresentar um panorama da obra de Victor, muito ligado á imagem de músico jazzista, mas o disco permite lançar nova luz sobre sua produção, oferecendo uma visão mais abrangente, mostrando como a música clássica contemporânea foi também fonte recorrente de inspiração e, sobretudo, como Victor buscou criar a partir de temas e ritmos brasileiros. “Self portrait” (a faixa-título), “One for Bill” (homenagem ao pianista Bill Evans) e “Blues for Oliver” (tributo ao norte-americano Oliver Nelson) têm clara inspiração no jazz, “Samba sem nome” é embebida de Brasil, e “Almendrix” traz referências à música latina. Por sua vez, as incursões de Victor pelo gênero erudito estão presentes em “Jazz sonata for piano”, com toques jazzísticos, “Fast/slow/fast” e “Moderato valsa”. Assim é o álbum que o TM orgulha-se em nos oferecer hoje: a obra de um compositor diverso e pouco conhecido, interpretada pelo sentimento de um irmão saudoso. É só conferir.
blues for oliver
samba sem nome
self portrait
one for bill
blues
almendrix
choral n.1
moderato valsa
motif for piano – scattered clouds31
elba
jazz sonata for piano
fast slow fast
*Texto de Samuel Machado Filho
Bud Shank – Holiday In Brazil (1958)
Olá, amigos cultos e ocultos! Para não dizerem que eu abandonei o barco, que deixei o Samuca sozinho no leme, vou aqui me apresentando e apresentando um disquinho diferente, para não variar 🙂 Tenho para vocês hoje um disco de jazz. Um álbum raro lançado nos Estados Unidos no final da década de 50 trazendo o grande flautista e saxofonista da Costa Leste, Bud Shank. Como todos já devem saber, o Toque Musical se dedica a postar exclusivamente a produção fonográfica brasileira, mas também vai a miúde pautando também os estrangeiros, desde que esses tenham alguma relação com o Brasil. E é por conta disso que este clássico do chamado Latin Jazz vem agora se juntar a nossa lista. Temos aqui um lp inspirado na música brasileira trazida por ninguém menos que o genial Laurindo Almeida, que podemos entender como a pré Bossa Nova. “Holiday In Brazil” foi um álbum lançado originalmente em 1958 pelo ainda modesto selo Pacific Jazz Records, que também passou a ser chamado, a partir de 57 de World Pacific Records. Foi neste selo que o violonista brasileiro Laurindo Almeida gravou ao lado de músicos americanos uma dezena de discos. Em ‘Holiday In Brazil’, Laurindo é o responsável pelos arranjos e também participa como compositor e instrumentista, azeitando e afiando o grau neste maravilho trabalho. Uma joia, não deixem de conferir…
Lyra De Xopotó – Valsa da Saudade (1958)
*Texto de Samuel Machado Filho
Minas 1717-1977 – Região Do Rio Das Mortes (1977)
Com o prazer e a satisfação de sempre, o Toque Musical oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados, parcela significativa da música sacra brasileira. E trata-se de um álbum da Som Livre, braço fonográfico do Grupo Globo, que sempre especializou-se em produtos de forte apelo comercial, como trilhas de novelas e compilações. Uma louvável “ousadia” que resultou de uma iniciativa cultural da TV Globo de Belo Horizonte, aliada ao extinto Banco Nacional (“o banco do guarda-chuva”). É na região do Rio das Mortes (MG) que a música sacra do Brasil tem seu ponto forte. Ali, mais do que em qualquer lugar de nosso território, a música desempenha o papel para a qual foi composta, não sendo mera peça de concerto. As orquestras e bandas são tradições fortemente enraizadas no povo daquela região. O presente álbum foi gravado em igrejas de Tiradentes e São João Del Rei, sendo desta última cidade as orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos, ambas bicentenárias, que juntas mantém a tradição sacro-musical do município. Os visitantes e moradores de São João Del Rei se deparam com essas orquestras no seu cotidiano, nas missas de segunda a segunda, executando sempre peças do repertório sacro-colonial. Neste trabalho, são apresentadas nove expressivas peças sacro-coloniais. Essas e outras orquestras, como a Ramalho e a Lira Ceciliana de Prados, ainda hoje mantêm viva a tradição sacro-musical da região do Rio das Mortes. A instalação de uma faculdade de música em São João Del Rei resultou em considerável melhora no padrão técnico das execuções desses grupos, mas ainda prevalecem, no dia-a-dia do município, aqueles que zelam pelo amor à arte e pela tradição, mantendo o caráter não profissional. A realidade técnica desses grupos mudou muito da época da gravação deste nosso álbum para os dias atuais, até mesmo para melhor. Mas, ainda assim, vale a pena ouvir o disco. Deliciem-se com as peças sacras nele incluídas, fechem os olhos e imaginem-se numa das igrejas barrocas da região do Rio das Mortes, cheias de riquezas, de ouro… e, principalmente, cultura!
applaudatur
maria mater gratiae
laudamus
assumpta est
exaltata est
primeira jaculatória de s. francisco de assis
segunda jaculatória de s. francisco de assis
missa de são benedito
domenica palmarum
*Texto de Samuel Machado Filho
Ilder Miranda – Nesse Estado De Coisas (1981)
Olá, amigos cultos, ocultos e associados! Conforme já disse William Shakespeare, “existem mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar a nossa vã filosofia”. Sem contar as incógnitas, que vez por outra nos chegam. É o caso do álbum que o TM oferece hoje, “Nesse estado de coisas”, ao que parece o único trabalho de Ilder Miranda. O LP saiu em 1981 com o selo Mãos e Meios, numa época em que se registrou um verdadeiro “boom” de lançamentos discográficos independentes, a partir do sucesso do primeiro álbum do grupo Boca Livre, editado justamente nesse esquema. É um trabalho até caprichado, tanto técnica quanto graficamente, gravado em São Paulo no estúdio Vice Versa, na época um dos melhores do Brasil. Compõe-se de doze faixas, todas de autoria do próprio Ilder. Em todas as músicas, percebe-se um olhar crítico do cantor-compositor ao panorama do mundo contemporâneo, com todas as suas mazelas, tais como violência e degradação do meio-ambiente. Ouvindo-se este trabalho, pode se concluir que o mesmo continua atualíssimo, apesar de decorridos mais de 35 anos de sua realização. Agora: o único problema é que não encontrei nenhuma informação biográfica a respeito de Ilder Miranda. O que se pode afirmar com certeza é que, hoje, este disco pertence ao catálogo da Sonhos & Sons, a maior distribuidora de artistas independentes de Minas Gerais, pertencente ao compositor, músico e produtor Marcus Vianna, mais conhecido pela música-tema da novela “Pantanal”, sucesso da extinta Rede Manchete em 1990, e mais tarde reprisada pelo SBT. No site da Sonhos & Sons, o artista é identificado por seu nome completo, Ilder Miranda Costa. O mesmo de um advogado devidamente registrado na OAB mineira, que tem até livros jurídicos publicados. Seria ele? Pois aqui vai um lembrete a nossos amigos cultos, ocultos e associados: quem tiver informações mais detalhadas a respeito deste nosso Ilder Miranda, favor escrever para: toquelinkmusical@gmail.com. Eu e o Augusto agradecemos desde já a quem puder decifrar este enigma…
madrugada paulista
a porta do cabaré
ciranda
carta pra minas inteira
a volta da filha presa
porque qui oce num pode aguentar
pena apenas
cala a boca
iara
preso por dentro de nada vale o teu gritar
r-evolução
quase louca
*Texto de Samuel Machado Filho
Frank Morris E Sua Orquestra (196…)
Bom dia, amigos cultos e ocultos! Como todos já devem saber, o Toque Musical é um blog que prima pela qualidade, mas também e principalmente pela curiosidade. Temos aqui todo tipo de artista, gênero musical, gravações e publicações das mais variadas, tudo sempre relacionado ao universo fonográfico produzido no Brasil. Excepcionalmente, apresentamos também coisas que vem de fora, internacionais, mas sempre com algum viés brasileiro. Entre tantos e tantas, hoje eu trago um disco que me chamou a atenção logo que eu o achei. Trata-se de mais um daqueles discos da Odeon e seu selo Imperial. Lp sem data, mas possivelmente da primeira metade dos anos 60, na tradicional capa sanduíche. Teria me passado batido, não fosse o perfeito estado da capa. Me interessei, inicialmente, mais por conta disso, um lp de capa sanduíche (original) super bem conservado é coisa rara de se ver. E realmente era isso mesmo, um disco novinho em folha, com quase seus 50 anos! Prova de que nunca havia sido tocado era o selo de segurança tampando o buraco do vinil. Esse selinho, cabaço de vinil, garantia ao comprador que o disco nunca havia sido tocado antes. Uma ideia bem legal, mas que parece ter sido exclusividade da Imperial/Odeon, assim como eram os modelos capa sanduíche. Era tudo patenteado. Acredito que esta tenha sido a primeira vez que eu pus a mão em um disco virgem de 50 anos (hehehe…)
Bom, mas o que me levou a postá-lo aqui é a quase certeza de que se trata de mais uma produção nacional. Um disco como tantos outros lançados por aqui, com pinta de estrangeiro, apenas para atrair público. Uma seleção de temas exclusivamente internacionais, bem ao gosto do público da época. Frank Morris e Sua Orquestra é com certeza um nome fictício criado para engrossar o caldo de títulos da gravadora. Confiram os primeiros sinais sonoros de um disco virgem de 50 anos. 🙂
Wanderley Cardoso – Juventude E Ternura (1966)
O TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados mais um álbum de Wanderley Cardoso, um dos cantores mais expressivos da Jovem Guarda e que, no Nordeste, chegou a ser até mais popular do que o próprio Roberto Carlos, líder do movimento e apresentador do programa de mesmo nome na antiga TV Record de São Paulo, que ficou no ar entre 1965 e 1968. Trata-se de “Juventude e ternura”, seu terceiro LP de estúdio, lançado pela Copacabana em agosto de 1966, apenas quatro meses após o segundo, “Perdidamente apaixonado”, que o TM já ofereceu a vocês. É bom lembrar que, nessa ocasião, Wanderley era também contratado da extinta TV Excelsior, e participava do programa “Adoráveis trapalhões”, ao lado de Renato Aragão, Ted Boy Marino e Ivon Cúri. Nesse tempo, Wandeco era o genro que toda sogra, por mais megera que fosse, queria ter… “Juventude e ternura” foi também o título de um programa que Wanderley apresentava na Excelsior, ao lado de Rosemary, mas que durou pouco tempo. Em compensação, o disco foi aquele sucesso, é claro. Dois dos maiores hits de Wandeco nessa época estão nele: “Meu amor brigou comigo”, de Eliza Moreira, e “Você zangada é feia”, da parceria Roberto & Erasmo Carlos. Sérgio Reis, o “grandão”, antes mesmo de estourar com “Coração de papel”, assina a faixa “Por que chorar, coração?”. “Sozinho na multidão” tem a parceria de Nélson Ned, outro que anos mais tarde obteria sucesso como intérprete. “Showman” de talento incontestável, Moacyr Franco assina, com Mílton Rodrigues, “Do sublime que tu és”. O lado compositor de Wanderley Cardoso manifesta-se na faixa de encerramento do disco, “Meu regresso”, uma parceria com Genival Melo, que durante anos foi conceituado empresário do setor artístico. Genival também assina aqui as versões “Não te amo mais” e “Morrer ou viver”, ambas as músicas de origem francesa, o que também é o caso de “Assim é a vida”, abrasileirada por Carlos Vidal. Trabalhos de Carlos Cézar (“Vivo te esperando”), Hamilton di Giorgio (“Por favor, vai embora”, parceria com o irmão Eduardo Alberto), e da dupla Heitor Mangeon-Roberto Muniz (“Desengano”) completam este terceiro e bem-sucedido álbum de Wanderley Cardoso, sem dúvida um prato cheio para quem viveu aqueles tempos. Mesmo quem ouviu falar da Jovem Guarda e só chegou depois dela poderá apreciar mais este trabalho de Wanderley Cardoso, precioso documento desse que é considerado o primeiro movimento de massas da história da MPB. É uma brasa, mora!
*Texto de Samuel Machado Filho
Paul Mauriat – Brazilian Landscape (1974)
Apreciadores da “easy listening”, ou seja, da música instrumental e orquestrada, lembram-se, e com muitas saudades, de nomes como o norte-americano Ray Conniff, o francês Franck Pourcel, o canadense Percy Faith e o italiano Mantovani, notáveis regentes de grandes orquestras. E, evidentemente, também têm na lembrança um outro grande maestro francês, hoje lembrado pelo TM: Paul Mauriat. Ele veio ao mundo na cidade de Marselha, a 4 de março de 1925. Filho de uma família de músicos, teve seu pai como primeiro mestre. Iniciou seus estudos de piano aos quatro anos, e aos dez, entrou para o Conservatório de Paris, e de lá saiu aos catorze, decidido a seguir carreira de concertista. Porém, o encontro com o jazz mudou seus planos, influenciando decididamente o estilo que o consagrou a nível mundial. Mauriat cresceu em Paris, e organizou sua própria orquestra aos dezessete anos, apresentando-se com ela em cabarés e teatros da França e outros países europeus. Nos anos 1950, tornou-se o arranjador preferido de inúmeros cantores franceses, principalmente Charles Aznavour. Gravou o primeiro álbum com sua orquestra, “Paris by night”, em 1961, depois do qual vieram muitos e muitos outros. Seu maior sucesso talvez seja “L’amour est bleu (Love is blue)”, gravado em 1968, que embalou as festinhas de muita gente e é lembrado até hoje. “El bimbo” e “Penelope” também estão entre as gravações mais lembradas de Paul Mauriat e sua “grande orquestra”. Após vários anos de intensa atividade no disco e em apresentações públicas por todo o mundo, em 1998, Paul Mauriat decidiu retirar-se da vida artística, realizando um último show em Osaka, Japão. Mas sua orquestra continuou em atividade, assumida primeiramente por Gilles Gambus, que era seu pianista, e mais tarde por Jean-Jacques Justafre. Em fins de 2006, aos 81 anos de idade, Mauriat afasta-se definitivamente da vida artística e passa a residir em sua casa de verão, na cidade francesa de Perpignan, onde morreu no dia 3 de novembro daquele ano. O álbum de Paul Mauriat que o TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados, é “Brazilian landscape”. Lançado em 1974 pela Philips/Phonogram, é o primeiro volume de uma série denominada “Melodies and memories”, que teve no total dez títulos temáticos, cada um dedicado a um gênero musical, e todos montados a partir dos muitos LPs gravados pelo maestro francês até aquele ano. Mauriat muito apreciava a música popular brasileira, e não é à toa que este disco seja inteiramente dedicado a hits brazucas. Em catorze faixas, desfilam sucessos da MPB principalmente dos anos 1960/70, bem conhecidos até hoje, tipo “A banda”, “Jesus Cristo”, “Naquela mesa”, “Ponteio”, “Amada amante”, “Folhas secas”, “Viagem”, “Você abusou”, além da tradicionalíssima “Carinhoso”, do mestre Pixinguinha, uma dessas páginas musicais que não há quem não conheça. Merece também destaque a inclusão de “O sonho”, de Egberto Gismonti, surgida em um festival da canção e, mesmo não classificada, o projetou internacionalmente. Uma compilação que irá por certo fazer o deleite e o entretenimento dos amigos do TM, especialmente os que gostam de dançar “coladinho”, e pode ser considerada o embrião da série de álbuns “Exclusivamente Brasil”, que Mauriat gravaria nos anos seguintes. Show de bola!
carinhoso
ponteio
tristeza20
a banda
folhas secas
jesus cristo
presepada
naquela mesa
viagem
amada amante
casa no campo
você abusou
teimosa
o sonho
*Texto de Samuel Machado Filho
Sergio And Odair Assad – Alma Brasileira (1989)
“O melhor duo de violões existente, talvez em toda a história. Nenhuma antecipação poderia ter me preparado para o jeito deles de tocar: flexível, ousado, estranhamente unânime”. Assim escreveu, certa vez, um comentarista do jornal norte-americano “The Washington Post”, referindo-se aos protagonistas da postagem de hoje do TM: o Duo Assad, formado pelos irmãos Sérgio e Odair, cuja família é de origem libanesa. Vindos de escola tradicional do choro, e consagrados internacionalmente, ambos residem no exterior: Sérgio, em São Francisco, EUA, e Odair, em Bruxelas, capital da Bélgica. E têm uma irmã mais nova, também violonista e cantora, mundialmente consagrada, assim como eles, Badi Assad. O pai, relojoeiro de profissão, adorava tocar. Ganhou um cavaquinho em uma rifa e não sabia o que fazer com ele. Aí, comprou discos, ouviu e tirou de ouvido mais de quatrocentos choros! E foi nesse ambiente que os irmãos cresceram e começaram, bem cedo, a dedilhar seus violões. Mais tarde, Sérgio e Odair foram estudar violão clássico com a professora argentina Monina Távora. Além de estabelecer novos padrões de interpretação, os Assad influenciaram vastamente na criação e introdução de novas músicas para dois violões. E essa extraordinária virtuosidade inspirou vários compositores a escrever peças especialmente para os Assad, tais como Astor Piazzolla, Teddy Riley, Radamés Gnattali, Francisco Mignone, Marlos Nobre, Edino Krieger… Além disso, o repertório dos irmãos Assad é formado de arranjos para músicas folclóricas, jazz e música latina, e também de composições próprias. A carreira internacional começou em 1979, em Bratislava, hoje capital da Eslováquia, ao vencerem a Young Artists Competition. E até hoje ambos viajam pelo mundo, apresentando clássicos do violão, não só europeus mas também brasileiros, como as obras de Garoto, Villa-Lobos, Egberto Gismonti, Baden Powell, João Pernambuco e Dilermando Reis. Uma cativante mistura de estilos, períodos e culturas. Os Assad têm trabalhado extensivamente com artistas renomados, tais como Yo-Yo Ma, Paquito D’Rivera, Gidon Kremer, Nadja Salerno Sonnenberg e Dawn Upshaw. Todos os anos, no último final de semana do mês de julho, a cidade de São João da Boa Vista (SP), berço da família, realiza o Festival Assad, que, além de ser referência de música instrumental da mais alta qualidade, recebendo visitantes de várias partes do mundo, já se tornou tradição no calendário cultural do município. E, claro, contando com a participação dos irmãos Assad. Da vasta e extensa discografia de Sérgio e Odair Assad (mais de 30 álbuns), o TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados, “Alma brasileira”, selo Nonesuch /Warner. Gravado na Holanda, em 1987, e lançado no Brasil dois anos mais tarde, possui um repertório de primeiríssima qualidade, assinado por compositores do porte dos que já citamos aqui: Egberto Gismonti (“Baião malandro”, “Frevo”), Marlos Nobre (“Cantiga de cego”, “Capoeira” “Martelo”, “Praiana”, todas da série “Ciclos nordestinos”), Radamés Gnattali (“Tocata em ritmo de samba”, “Pixinguinha”, esta última da série “Retratos”), além de trabalhos próprios de Sérgio Assad (“Jobiniana número 1”e, da “Suíte brasileira”, “Baião” e “Canção”). Ainda batem ponto aqui Wagner Tiso (“Choro de mãe”) e Hermeto Paschoal (“Série de arco”). Um trabalho absolutamente impecável, que o TM orgulha-se em oferecer, e mostra por que Sérgio e Odair Assad tornaram-se referência unânime para os violonistas, criando um padrão de inovação para o violão com geniosidade e expressão.
marlos nobre: cantiga de cego
egberto gismonti; balão malandro
heitor villa-lobos: a lenda do caboclo
sérgio assad: jobiniana n. 1
marlos nobre: capoeira
wagner tiso: choro de mãe
hermeto pascoal: serie de arco
radamés gnattali: toccata em ritmo de samba
heitor villa-lobo: alma brasileira
marlos nobre: martelo
radamés gnattali – pixinguinha
sérgio assad: baião
marlos nobre: praiana
egberto gismonti: frevo
sérgio assad: canção
.
*Texto de Samuel Machado Filho
Vários – Programa Especial Vol. 4 (1979)
Amigos cultos e ocultos, bom dia! Segue aqui, enfim, o último disco que tenho da série “Programa Especial”, o volume 4. Nele, como podemos ver, temos Alcione, Chico da Silva, Jair Rodrigues e Leci Brandão. Uma coletânea, desta vez, voltada para o samba. Confiram…
Passa, Passa, Passará – TSO (1986)
Compositor, tecladista, arranjador e professor de música, Antônio Adolfo (Rio de Janeiro. 10/2/1947) fez, em parceria com Tibério Gaspar, sucessos que ainda hoje estão na memória de muitos, tais como “Sá Marina”, “BR-3”, “Juliana” e “Porque hoje é domingo”. É irmão de outro cantor-compositor bastante conhecido, Ruy Maurity, e pai da cantora Carol Saboya. Em 1971, no auge da ditadura militar, Antônio Adolfo resolveu sair do Brasil, indo para os EUA e Europa, a fim de realizar estudos de aperfeiçoamento musical, retornado anos mais tarde para atuar como músico de estúdio. Em 1977, resolveu criar seu próprio selo fonográfico, o Artezanal, passando a produzir ele mesmo seus discos. Nesse ano, lançou seu primeiro álbum nesse novo esquema, “Feito em casa”, que é considerado o primeiro LP independente na história fonográfica brasileira. E, evidentemente, viriam muitos outros. Desde 1985, ele se dedica à sua escola de música, o Centro Musical Antônio Adolfo, além de participar em eventos internacionais como músico e educador, sem deixar de lado a carreira de intérprete. Ganhou dois Prêmios Sharp de Música, pelos álbuns “Antônio Adolfo” (1995) e “Chiquinha com jazz” (1997), este último dedicado á obra de Chiquinha Gonzaga. Em 1986, o selo Artezanal produziu o álbum que o TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados. É a trilha sonora do musical infantil de teatro “Passa passa passará”, com texto de Ana Luiza Job, mulher de Antônio Adolfo (suas filhas, Carol Saboya, então atuando no teatro infantil, e Luísa Maria, sempre adoraram o gênero), e para o qual, além dele, também produtor, arranjador e executante das faixas deste disco, Xico Chaves e Paulinho Tapajós colaboraram na elaboração das canções. A peça foi encenada com sucesso em teatros cariocas, e vez por outra ressurge em novas montagens. E, deste disco, participaram nomes de peso: Oswaldo Montenegro, Elza Maria, Zezé Gonzaga, Joyce (atualmente Joyce Moreno), Leci Brandão e, claro, o irmão de Antônio Adolfo, Ruy Maurity, e a filhota, Carol Saboya, esta integrando o coral do Passa Passa Passará, ao lado de Paulinho Tapajós e do maestro Ary Sperling, entre outros. Tudo produzido com elevado padrão técnico e artístico, com músicas bem elaboradas e cativantes. Enfim, mais um trabalho de primeiríssima qualidade que o TM oferece hoje, para o encanto e o deleite de crianças e adultos!
passa passa passará
cacarejando
o menino perdido
samba do macaco
natureza
blues da raposa
bola de cipó
abelhinha
fazendo bolo
caracol
* Texto de Samuel Machado Filho
Joyce – Feminina (1980)
O Toque Musical oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados o álbum de maior sucesso da cantora e compositora Joyce, que mais tarde passou a se assinar Joyce Moreno, por conta do registro civil de seu casamento com o baterista Tutty Moreno. Batizada como Joyce Silveira Palhano de Jesus, ela veio ao mundo no dia 31 de janeiro de 1948, e foi criada na Zona Sul de sua cidade natal, o Rio de Janeiro. Começou a tocar violão aos 14 anos, observando seu irmão, o guitarrista Newton, amigo de músicos da bossa nova como Eumir Deodato e Roberto Menescal. Mais tarde, estudou com Jodacil Damasceno (violão clássico e técnica) e Wilma Graça (teoria e solfejo). Em 1963, a convite de Roberto Menescal, participou pela primeira vez de uma gravação em estúdio, no álbum “Sambacana”, de Pacífico Mascarenhas. A partir daí, gravou inúmeros jingles publicitários e começou a compor. Em 1967, classificou sua composição “Me disseram” no II Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo. Um ano depois, veio o primeiro LP-solo, intitulado apenas “Joyce”, com texto de apresentação do Poetinha Vinícius de Moraes. Em 1970-71, fez parte do grupo vocal e instrumental A Tribo, ao lado de Toninho Horta, Naná Vasconcellos, Nélson Ângelo e Novelli, chegando a gravar algumas faixas no LP “Posições”. Entre 1971 e 1975, afastou-se do meio musical, dedicando-se apenas às filhas Clara e Ana, nascidas respectivamente em 1971 e 1972. Em 75, Joyce retoma a carreira, substituindo o violonista Toquinho, ao lado de Vinícius de Moraes, em turnê pela América Latina e depois pela Europa, já com Toquinho de volta ao grupo. Na Itália, gravou o álbum “Passarinho urbano”, com músicas de autores brasileiros então duramente atingidos pela censura do regime militar, como Chico Buarque, Mílton Nascimento, Caetano Veloso e o próprio Vinícius. Em 1977, fez uma temporada de seis meses em Nova York, e gravou, junto com Maurício Maestro, o disco “Natureza”, para o mercado exterior, mas que jamais foi comercializado. Como compositora, tem músicas gravadas por nomes do porte de Mílton Nascimento, Elis Regina. Maria Bethânia, Fafá de Belém, Quarteto em Cy e Joanna. Sua discografia abrange mais de quarenta álbuns, gravados no Brasil e no exterior, além de inúmeros compactos e dois DVDs. Joyce Moreno tem divulgado nossa música em sucessivas turnês internacionais, fazendo grande sucesso entre o público de drum’n’bass e acid jazz. Publicou, em 1997, o livro “Fotografei você na minha Rolleyflex”, reunindo crônicas e histórias da MPB. “Feminina”, o álbum que o TM hoje nos oferece, foi o trabalho que marcou a primeira grande exposição de Joyce na mídia. Lançado pela EMI-Odeon em 1980, foi seu quinto álbum-solo, o mais autoral e o de maior repercussão popular, no qual canta as dores e delícias de ser mulher: a descoberta da sensualidade (na faixa-título, “Feminina”), a paixão (”Mistérios”), o sexo (“Da cor brasileira”) e as dificuldades de conciliar marido, filhos e desejos (“Essa mulher”). Além, é claro, de incluir sua música de maior sucesso, “Clareana”, que fez em homenagem a suas filhas, e uma das finalistas do festival MPB-80, da TV Globo. Elas, inclusive, fazem pequena participação ao final do registro. Mais tarde, já crescidas, profissionalizaram-se como cantoras, sob os nomes de Clara Moreno e Ana Martins. “Feminina” foi inclusive citado por Charles Gavin, baterista do grupo de rock Titãs, em seu livro “Trezentos discos importantes da música brasileira”, publicado em 2008. Portanto, é mais um trabalho de qualidade orgulhosamente oferecido a vocês pelo TM, e uma valiosa amostra do talento de Joyce (agora Moreno) como autora e intérprete. É só conferir.
feminina
minstérios
clareana
banana
revendo amigos
essa mulher
coração de criança
da cor brasileira
aldeia de ogum
compor
*Texto de Samuel Machado Filho
Programa Especial Vol. 3 (1979)
Olá amiguíssimos cultos e ocultos! E aqui vai mais um lp da série “Programa Especial”. Temos para hoje o volume 3 que traz nesta coletânea outros quatro grandes artistas da mpb. Desta vez a pegada tem uma pitada de rock, muito por conta da Rita Lee e do Raul Seixas. Mas Fagner e Belchir, nessa fase, também não ficam para trás. Eis uma coletânea boa, com três músicas para cada artista. Dá para matar a vontade, ou despertar o ouvir mais 😉
Paulo Autran – O Pequeno Príncipe (1957)

Verdadeira obra-prima do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (Lyon, 29/6/1980-litoral sul da França, 31/7/1944), “O Pequeno Príncipe”, último livro publicado em vida do autor, em 1943, está em terceiro lugar entre as obras literárias mais traduzidas no mundo, editada em mais de 220 idiomas e dialetos, só perdendo para o Al-Corão e a Bíblia. E seu enredo possui a capacidade de envolver leitores de todas as idades, despertando o interesse em olhar com mais cuidado para o mundo em que vivemos. É difícil não se emocionar com a história do principezinho loiro e frágil encontrado por um aviador (o próprio Exupéry) no deserto do Saara, após cair com seu avião, e vindo do asteroide B-612. Ali, na convivência com o piloto perdido, os dois repensam seus valores e encontram o sentido da vida. E com sérias críticas aos adultos, questionando suas condutas (preguiça, autoritarismo, vaidade, pressa excessiva). Uma história mágica, sensível, comovente, às vezes triste, que, ao cair no domínio público, passou a ser publicada por diferentes editoras, podendo ser encontrada em formatos diversos, até mesmo em edições de luxo e álbuns para colorir! “O Pequeno Príncipe” recebeu inúmeras adaptações, inclusive para o cinema e televisão (quem não se lembra de uma série de desenhos animados que vivia passando no SBT?). E, evidentemente, também chegou ao disco, por iniciativa do incansável Irineu Garcia, dono do selo Festa. E é justamente o LP adaptando a bela e querida história do Pequeno Príncipe, que o Toque Musical oferece com a satisfação de sempre a seus amigos cultos e associados. E esse disco, logicamente, contou com o cuidado de produção habitual da Festa, inclusive com um encarte reproduzindo aquarelas originais que o autor fez para ilustrar sua obra-prima. Lançado em 1957, tem dois autênticos “cobras” envolvidos em sua elaboração: o mestre Tom Jobim, na música, e a narração expressiva de Paulo Autran, sem dúvida um dos maiores expoentes que nossa arte dramática já teve. Tudo feito com a devida autorização da Gallimard, a editora francesa que deteve durante anos os direitos de publicação da obra, até esta cair em domínio público. A voz do Pequeno Príncipe ficou a cargo de Glória Cometh, atriz teatral, e deste disco ainda participam Oswaldo Loureiro Filho (o Acendedor de Lampiões), Margarida Rey (a Serpente), Benedito Corsi e Aury Cahet (a Rosa). Fiel à tradução brasileira de Dom Marcos Barbosa (há outra mais recente, de Frei Betto), o disco repetiu o sucesso do livro, e teve tantas reprensagens que até desgastaram as madres de impressão! Foi reeditado por doze anos, e chegou ao CD em 1999, sendo um dos títulos mais vendidos em toda a história da Festa. E é agora oferecido pelo TM para alegria de todos aqueles que se comoveram ao ler o livro quando crianças, e também para conhecimento do público que hoje se emociona com esta bela e cativante história, que tanto tem cativado crianças e adultos há pouco mais de setenta anos!
* Texto de Samuel Machado Filho
Comemorações Cívicas (1982)
Didático e ao mesmo tempo obscuro. Assim pode ser classificado o álbum que o TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados. No geral, o disco reúne temas para inúmeras comemorações de cunho cívico e festivo (Dia da Bandeira, da Criança, do Professor, do Bombeiro, Independência, Tiradentes, festas juninas, etc.). Só que não há informação nenhuma a respeito de autores das faixas nem de músicos que participaram do disco, por certo produzido com finalidade educacional. O que se sabe é que a Bolsa Nacional do Livro, responsável por seu lançamento, está aí, firme e forte, até hoje. Fundada em 1957, e “organizada para difundir a cultura”, a BNL tem sede em Curitiba, capital do Paraná, e seus produtos são especialmente direcionados à educação infantil e ao ensino fundamental. E é justamente o caso desse disco, que também não possui ano de lançamento conhecido, mas por certo é posterior a 1981, quando a gravadora Continental, responsável pela prensagem, mudou sua fábrica de São Paulo para o Rio de Janeiro. A indicação “Atlas pedagógico brasileiro”, constante do selo, é outra incógnita. Ao que parece, o disco foi produzido para acompanhar o referido atlas, que, como muita gente deve se lembrar, fornecia noções diversas de língua pátria, conhecimentos gerais, Matemática, Geografia e História brasileiras. Foi publicado durante anos pela extinta EPB (Editora Pedagógica Brasileira), que tinha sede em São Paulo, e, ao que parece, encampado pela BNL. Por certo ajudava bastante na escola, e com alguma sorte ainda pode ser encontrado em sebos. Mistérios à parte, este “Comemorações cívicas”, com catorze faixas, é fiel ao que a BNL se propõe desde sua fundação, reunindo músicas para as mais variadas datas cívico-festivas. Serve também pra gente lembrar o nosso tempo de estudante, naquilo que ele tinha de bom e proveitoso. Verdes anos…
dia do índio
dia de anchieta
princesa izabel e a abolição
tiradentes e a inconfidência
dia da criança
dia do professor
quadrilha para festa junina
dia do folclore
entrada da primavera
dia do transito
hino ao bombeiro
hino nacional do brasil
hino a bandeira
hino da independência
*Texto de Samuel Machado Filho
Programa Especial Vol. 2 (1979)
Bom dia, amigos cultos e ocultos! Intercalando as postagens do amigo Samuca, aqui vai mais um volume da série “Programa Especial”, da Polygram. Neste segundo volume temos Gilberto Gil, Marku Ribas, Jorge Ben (Benjor) e Emílio Santiago distribuídos democraticamente nas doze faixas deste lp. Uma seleção impecável, exceto pelo número de músicas. No mais, excelente 😉
Discoteca Pública em novo endereço. Anota aí…

Santa Tereza ganha Discoteca Pública como novo espaço cultural.
A Discoteca Pública de Minas Gerais renasce em Santa Tereza depois de dois anos sediada no Mercado Distrital do Cruzeiro.
O bairro de Santa Tereza, localizado na zona leste da capital, é muito conhecido por ter sediado o famoso e cultuado Clube da Esquina em sua fase embrionária, além de seus bares e botecos disputadíssimos nos finais de semana.
Pois agora, seus frequentadores terão mais um motivo para desfrutar desse charmoso e histórico bairro: A Discoteca Pública, que agora se reinventa em nova sede abrindo um novo ciclo de trabalho, depois de um período frutífero no bairro do Cruzeiro.
Após quase dois meses de trabalho, contando mudança e reorganização de um acervo que conta com cerca de 20 mil títulos de música brasileira em vinil, a “nova” Discoteca Pública já se encontra à disposição dos visitantes, amantes do vinil e da música em geral.
Paralelo ao projeto, o pesquisador e coordenador da Discoteca Edu Pampani, também dispõe de uma loja no local, com discos usados, lançamentos e relançamentos em vinil com preços justos e CDs independentes, atendendo a todos que pretendem adquirir algum título que falte em sua coleção.
Com uma área privilegiada de 80 metros quadrados, além de um mezanino, a Discoteca Pública pretende ampliar seus horizontes, dando sequência ao trabalho de catalogação, higienização e digitalização dos vinis, além de agregar a esse acervo, livros, revistas, fotografias, partituras, fitas cassete, VHS, DVDs e CDs de artistas mineiros e de todo o Brasil.
Se modernizando a cada ciclo, a Discoteca agora ruma para uma fase mais abrangente e valorizando cada vez mais o universo da música em sua mais autêntica tradução.
Inaugurando um novo sistema de trabalho e com um conceito mais forte do que nunca, a Discoteca Pública já se encontra aberta para visitações e está mais viva do que nunca como um oceano à espera de navegantes dos mares musicais.
Rua Hermilo Alves, 134 – Santa Tereza
Horário de Funcionamento:
Segunda à sexta de 10:00h às 19:00h
Sábado de 10:00h às 14:00h
Informações e agendamentos: 31 – 2514-5710 / 9 9215-5142
Anuário Marcus Pereira (1974)
“Publicação anual contendo as principais ocorrências da vida de uma instituição e suas atividades durante o ano transato”. Este é um dos significados da palavra “anuário”, que os dicionários registram. E tal definição se encaixa perfeitamente no álbum que o Toque Musical oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados. Trata-se do “Anuário Marcus Pereira”, uma compilação na qual a gravadora reuniu as principais faixas de alguns discos que lançou no decorrer do ano de 1974. Como vocês já sabem, a Marcus Pereira destacou-se pelo pioneirismo na adoção de uma política de produção fonográfica alternativa, independente das grandes gravadoras e de verbas governamentais. Porém, acabou liquidada pelos vai-e-vens da economia brasileira, e seu fundador-proprietário acabou pondo trágico fim à sua vida, em 1981, ao disparar um tiro no ouvido. A qualidade da produção fonográfica da Marcus Pereira, obviamente, iria resultar em coletâneas também de nível. É o caso deste “Anuário” de 1974, com quinze faixas imperdíveis e momentos realmente sublimes. Destaque para Cartola, com o belíssimo samba, “Acontece”, faixa de seu primeiríssimo LP, Renato Teixeira, bem antes de estourar com “Romaria”, aqui apresentando “Gavião do penacho”, “Grandola, vila morena”, o hino da Revolução dos Cravos, acontecida em Portugal naquele ano, e que derrubou a ditadura salazarista, na voz de Paula Ribas, Leci Brandão, também em início de carreira, apresentando “Benedito de Lima”, faixa extraída de seu compacto duplo de estreia, o choro clássico “Flor amorosa”, com o regional de Evandro, e Dona Ivone Lara com “Andei para Curimar”. Além de informar os discos de onde foram extraídas as faixas, a gravadora pôs, na contracapa do LP, várias notas publicadas na imprensa, recomendando seus trabalhos fonográficos. Tudo isso reafirma a qualidade e a importância cultural do legado da Marcus Pereira, fundamental, indispensável e imprescindível para quem estuda a história de nossa música popular. É ouvir este “Anuário” e comprovar.
cuitelinho – nara leão
gavião de penacho – renato teixeira
carreira do navio – pedro chiquito
reisada a são josé – raimundo monte santo
serra baile – chico ubatuba
nau catarineta – adauto santos
grândola vila morena – paula ribas
acontece – cartola
baltazar – raul de barros
amigo do povo – donga
flor amorosa – evandro e seu regional
juízo final – adauto santos
benedito de lima – leci brandão
andei para curimar – dona ivone lara
revoada – quinteto armorial
*Texto de Samuel Machado Filho
Jacinto – O Donzelo (1973)
O TM oferece hoje, com muita alegria, este álbum que vai, por certo, divertir seus amigos cultos, ocultos e associados, com garantia de boas risadas. É o primeiro de uma série lançada pela CBS (selo verde Entré) com o personagem Jacinto, o Donzelo, criado e interpretado pelo comediante Murillo de Amorim Corrêa. Paulista de Campinas, nascido em 19 de dezembro de 1926, Murillo iniciou sua carreira como locutor, na Rádio América de São Paulo, PRE-7. Depois, transferiu-se para as Emissoras Associadas (Rádios Tupi e Difusora), onde tornou-se ator, especializando-se em comédias. Era imbatível, por exemplo, na imitação de políticos famosos da época, entre eles Jânio Quadros. Evidentemente, Murillo também seria um dos pioneiros da televisão brasileira. Ao passar-se para a TV Tupi, atuou em programas de teleteatros, entre eles o famoso “TV de vanguarda”. Atuou também em novelas da Excelsior (“Mãe” e “Uma sombra em minha vida”, 1964, “A indomável”, 1965, e “Alma de pedra”, 1966), da TV Paulista, futura Globo (“Pedaço de mulher”, 1965) e da Record (“As professorinhas”, 1968). Entretanto, foi no humorismo que Murillo de Amorim Corrêa ganhou fama, participando, ao lado da também comediante Maria Tereza, do quadro “Vitório e Marieta”, um casal de italianos desastrados e, por isso mesmo divertidos, no programa “Praça da Alegria” (depois “A praça é nossa”). Murillo bateu ponto em quase todas as grandes emissoras de TV do Brasil como humorista, e recebeu várias vezes o Troféu Roquette Pinto, entre outros. No cinema, participou dos filmes “Absolutamente certo” (1957) e “Sabendo usar não vai faltar” (1976). Também interpretou Jacinto, o Donzelo, no rádio, nos programas “A turma da maré mansa” e “Haroldo de Andrade”, e apresentou ainda, na Rádio Bandeirantes de São Paulo, o sertanejo “Discojeca do Jacinto”, que era transmitido nas manhãs de domingo. Murillo de Amorim Corrêa faleceu no dia 13 de maio de 1997, em São Paulo, aos 70 anos, de complicações cardiovasculares. Mas o TM traz de volta, para uns recordarem e outros conhecerem, um pouco de sua arte e talento como humorista, através deste disco produzido pelo sanfoneiro Abdias dos Oito Baixos. Como Jacinto, o Donzelo, o matuto solteirão tímido que veio de Jurumim do Ribeirão, ele interpreta sete divertidas histórias, sendo a primeira uma apresentação do personagem, escritas por Irvando Luiz, então roteirista de humorísticos de televisão, provocando gargalhadas (inclusive dos presentes ao auditório, nas sessões de gravação do LP) com seu bom humor, suas tiradas e suas tentativas frustradas de conquistar mulheres, sempre terminando com o bordão “Eu prego fogo!”. O sucesso de vendagem deste primeiro álbum fez com que Jacinto, o Donzelo, protagonizasse mais cinco LPs até 1977, quatro pela CBS e um pela Copacabana. Portanto, este disco é um senhor remédio para o mau humor, a tristeza e a depressão. Divirtam-se!
jacinto donzelo
jacinto no baile
o pai é assim
a mulata
garota do parque
jacinto é isso aí
nem gorda escapa
*Texto de Samuel Machado Filho
Programa Especial Vol. 1 (1979)
Olá amigos cultos e ocultos! Infelizmente, para mim, ainda continuo com uma tendinite no braço direito, o que me impede de ficar muito tempo mexendo no computador e daí manter o ritmo de postagens, que tem caído muito por essas e outras… Felizmente, para vocês, tenho um grande colaborador, que muito tem nos ajudado a manter o Toque Musical, o sempre pronto Samuca. Neste mês de outubro quem vai dominar as paradas é ele. Eu irei apenas fazendo pequenas intercessões, com uma ou outra postagem.
Assim sendo, escolhi para os próximos dias a coletânea “Programa Especial”, lançada pela Polygram, através de seu selo Polifar. No caso, tenho uma série com os quatro primeiros volumes. São coletâneas de artistas dessa gravadora e que procura estabelecer em cada volume um encontro de artistas com as mesmas afinidades de estilo. Começamos com essa coletânea que reúne quatro grandes nomes da chamada ‘soul and black music brasileira”: Tim Maia, Luiz Melodia, Hyldon e Cassiano. Neste lp foram selecionadas doze autênticas ‘pérolas negras’. Músicas que marcaram uma época e hoje se tornaram verdadeiros clássicos. Pessoalmente, desta série, este é o melhor volume. Como dizem, o disco ficou redondinho 😉 Confiram…
Vinicius de Moraes e Paulo Mendes Campos – Poesias Vol. 2 (1956)
Hoje, o Toque Musical oferece a seus amigos cultos, ocultos e associados um pouco da melhor poesia brasileira. Trata-se de um disco do selo Festa, de Irineu Garcia, jornalista, sonhador, boêmio e autêntico mecenas, que tantas contribuições deu à nossa cultura, inclusive na área musical, com LPs primorosos, tipo “Canção do amor demais”, obra-prima de Elizeth Cardoso, e “Por toda a minha vida”, de Lenita Bruno, ambos já oferecidos a vocês pelo TM. O álbum de hoje, gravado em 1956, é o segundo de uma série da Festa apresentando poetas brasileiros de renome, declamando de viva voz seus poemas. O primeiro volume foi com Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, e este segundo nos traz outros “cobras” do gênero: Vinícius de Moraes (Rio de Janeiro, 19/10/1913-idem, 9/7/1980) e Paulo Mendes Campos (Belo Horizonte, MG, 28/2/1922-Rio de Janeiro, 1/7/1991). Ressalte-se que, nessa época, era costume, no Brasil, lançar discos com recitais de poesia, e um deles, com o rádio-ator Floriano Faissal declamando poemas de Olavo Bilac, lançado em 1957 pela Musidisc, chegou a ser campeão absoluto de vendagem, o que fez a Odeon e a RGE também lançarem títulos explorando esse mercado. Nenhum selo, porém, foi tão dedicado à poesia quanto a Festa, que construiu um catálogo tão impressionante quanto numeroso nessa área. O poetinha Vinícius, claro, dispensa quaisquer apresentações. Neste trabalho, ele nos oferece sete verdadeiras obras-primas vindas de sua inspiração, entre elas os antológicos “Soneto de fidelidade”, “Pátria minha”, “Poética” e “Soneto de separação”. Quanto a Paulo Mendes Campos, creio que muitos o conheceram através das crônicas incluídas nos livros da série “Para gostar de ler”, da Editora Ática, verdadeiros “best-sellers” entre estudantes de ensino fundamental e médio nas décadas de 1970/80, e até hoje em catálogo. Paulo também foi poeta, e seus primeiros livros, por sinal, foram de poesias: “A palavra escrita” (1951) e “O domingo azul do mar” (1958). Aqui, ele declama seis poemas, e apenas um, o soneto “Despede teu pudor”, é de seu livro de estreia, sendo os demais apresentados pela primeira vez. Tudo isso, aliado ao padrão de qualidade da marca Festa, faz deste trabalho, assim como outros da série, um verdadeiro documento histórico, digno de ser apreciado por quem prestigia tudo que há de bom no rico e variado acervo da poesia brasileira. Pura sensibilidade!
soneto da felicidade
balada da moça do miramar
soneto de amor total
a morte de madrugada
soneto de separação
pátria minha
poética
infância
o homem da cidade
pesquisa
despede teu pudor
poema didático
if
* Texto de Samuel Machado Filho
Vânia Bastos (1990)
O TM oferece hoje aos amigos cultos, ocultos e associados, com grata satisfação, um trabalho primoroso, concebido por uma das mais expressivas intérpretes de MPB surgidas na década de 1980: Vânia Maria Bastos, ou simplesmente Vânia Bastos. Ela veio ao mundo na cidade paulista de Ourinhos, bem perto da divisa com o Paraná, no dia 13 de maio de 1956. E foi lá que se iniciou na carreira musical, participando de coros de igreja. Aos 19 anos de idade, em 1975, transferiu-se para São Paulo, a fim de estudar Sociologia. Nessa ocasião, iniciou os estudos de canto com Ula Wolff, Lee Alison e Darcy Miranda. Ligada ao movimento cultural conhecido como Vanguarda Paulista, Vânia ingressou como vocalista, em 1980, da banda Sabor de Veneno, de Arrigo Barnabé, com quem gravou o álbum “Clara crocodilo”, participando de todas as faixas, e fazendo a voz-solo em quatro delas. Em 1983, no disco “Tubarões voadores”, também de Arrigo, tornou-se a principal solista das músicas do compositor. Paralelamente, acompanhou também o cantor-compositor Itamar Assumpção em shows e gravações. No decorrer dos anos 80, cantou em outros grupos paulistanos, como Magazine e Joelho de Porco. Finalmente, em 1987, vem seu primeiro álbum-solo, pela Copacabana, sem título, com sucesso de crítica. Dois anos mais tarde, a partir de um LP no qual interpreta composições de seu marido, Eduardo Gudin (entre elas “Paulista”, uma das mais conhecidas interpretações de Vânia, também constante deste álbum hoje postado), e em dupla com ele, este passou a produzir seus trabalhos fonográficos. A discografia de Vânia Bastos, solo ou em dupla com outros, abrange doze álbuns, entre LPs e CDs (em alguns deles homenageando compositores como Caetano Veloso, Tom Jobim, Edu Lobo e o pessoal do Clube da Esquina), e um DVD, “Tocar na banda”, lançado em 2007, no qual canta músicas que marcaram sua brilhante trajetória. Seu mais recente trabalho, lançado neste ano de 2016, é “Concerto para Pixinguinha”, gravado ao vivo, em dupla com o contrabaixista Marcos Paiva. Este álbum de Vânia Bastos oferecido hoje a vocês pelo TM, é seu segundo trabalho-solo em disco (sem contar o que fez em dupla com o marido, Eduardo Gudin, evidentemente também produtor deste aqui), lançado em outubro de 1990 pela Eldorado, gravadora vinculada ao jornal “O Estado de S. Paulo”, e até hoje sinônimo de qualidade, tanto técnica quanto artística. Na ocasião, Vânia comemorava dez anos de carreira, e dedicou este trabalho aos filhos Rita e Noel. No repertório, autênticas pérolas, como a versão “Tudo que você é (All the things you are)”, que abre o disco, três faixas assinadas pelo marido-produtor Eduardo Gudin (a já citada “Paulista”, “Outra estação” e “Caiaque”) e regravações de “A vizinha do lado”, de Caymmi, e A filha da Chiquita Bacana”, de Caetano Veloso, esta acoplada a “Frou-frou”, do casal Rita Lee-Roberto de Carvalho. Destaque ainda para “O rouxinol”, parceria de Gilberto Gil com Jorge Mautner, e um charleston de Inácio Zatz, “Não canto na chuva”. Tudo isso e muito mais em um trabalho primoroso e do mais alto nível, no qual Vânia Bastos firmou-se como uma das melhores cantoras brasileiras surgidas de 1980 para cá. Vale conferir!
*Texto de Samuel Machado Filho
Tributo A Marcus Pereira (1982)
É inegável a importância da gravadora Marcus Pereira para a história da nossa música popular. Ela foi a primeira no país a adotar uma política de produção alternativa, fora das grandes companhias do setor e do mecenato estatal. Como hoje o fazem selos tipo Kuarup, Biscoito Fino, Acari, Rob Digital etc. Tudo isso começou em 1967, quando o publicitário Marcus Pereira, então frequentador assíduo e sócio minoritário da boate Jogral, de São Paulo, através de sua agência de propaganda, produziu um LP para ser distribuído aos clientes como brinde de fim-de-ano, dedicado à obra de Paulo Vanzolini: o histórico “Onze sambas e uma capoeira”, reunindo vários intérpretes, entre eles Luiz Carlos Paraná (dono da Jogral), Chico Buarque e sua irmã Cristina (então estreando em disco). Mais tarde, a RGE o lançaria no mercado. Um ano depois, veio “Flauta, cavaquinho e violão”, dedicado ao choro. Por fim, em 1973, Marcus Pereira decide fechar sua agência de publicidade e dedicar-se apenas à produção fonográfica. Assim nasceu a lendária Discos Marcus Pereira, cujo primeiro lançamento foi a série de quatro LPs “Música popular do Nordeste”, laureada com o Prêmio Estácio de Sá, do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. E logo viriam outras, dedicadas à música popular de outras regiões do Brasil perfazendo um total de 16 álbuns. A Marcus Pereira era um selo aberto a estilos diversos de música: choro, samba, experimental… Por lá passaram nomes da mais alta estirpe da MPB, gravando ou participando de seus discos. E, em menos de dez anos de existência, o selo conseguiu lançar 144 álbuns! Entretanto, a famigerada economia brazuca fez com que a Marcus Pereira enfrentasse problemas de distribuição e acúmulo de dívidas, que deixaram a empresa à beira da falência, sem contar os problemas pessoais de seu proprietário. E tudo isso fez com que Marcus Pereira, em fevereiro de 1981, se suicidasse com um tiro no ouvido. Um ano mais tarde, como homenagem póstuma a seu fundador e proprietário, a Discos Marcus Pereira (cujo acervo hoje pertence à Universal Music) lançou a coletânea que o TM agora oferece, prazerosamente, a seus amigos cultos, ocultos e associados. Este “Tributo a Marcus Pereira” reúne, em doze faixas, as músicas de que ele mais gostava, interpretadas por artistas que passaram por sua gravadora, em épocas e estágios diversos. Se não, vejamos: a faixa de abertura é “Engenho de flores”, interpretada pelo maranhense Papete (José de Ribamar Viana), falecido em maio deste ano. Lançada em 1979, em seu segundo LP, “Bandeira de aço”, tornou-se hit nacional um ano depois, com Diana Pequeno. A segunda faixa é um clássico de sempre do mestre Cartola, interpretado por ele mesmo: “As rosas não falam”, gravação de 1976 que vale a pena sempre (re) ouvir, extraída do segundo álbum do mestre mangueirense. “De Teresina a São Luís”, originalmente lançada por Luiz Gonzaga em 1962, é aqui revivida por Irene Portela, cujo registro é faixa de abertura de seu único LP-solo, “Rumo Norte” (1979). Na quarta faixa, Leci Brandão interpreta “Antes que eu volte a ser nada”, samba que a revelou para o grande público em 1975, no festival Abertura, da TV Globo, e, ainda nesse ano, daria título a seu primeiro álbum-solo. Renato Teixeira vem com “Moreninha, se eu te pedisse”, em gravação que foi originalmente lançada em 1971, num LP chamado “Álbum de família”, produzido sob encomenda da Cia. Cacique de Café Solúvel como brinde de Natal, e reeditado pela Marcus Pereira em 1974 (nesse ano, ainda seria faixa de abertura do primeiro volume de “Música popular do Centro-Oeste/Sudeste”). “O menino (El menino)”, composição do argentino Atahualpa Yupanqui (Héctor Roberto Chavero), com letra brasileira de Dércio Marques, mineiro de Uberaba, é interpretada por ele em gravação de 1977, extraída de seu primeiro álbum, “Terra, vento e caminho”. A inesquecível Nara Leão interpreta “Cuitelinho”, em adaptação do mestre Paulo Vanzolini, em gravação de 1974, originalmente faixa de abertura do quarto volume de “Música popular do Centro-Oeste/Sudeste”. A irmã de Dércio Marques, Doroty, aqui comparece interpretando “Eterno como areia”, gravação de 1978, extraída do seu primeiro álbum, “Semente”. Léo Karam interpreta “Jesuína”, gravação de 1976, lançada em seu único LP-solo, “Urbana”. Chico Maranhão (autor do frevo “Gabriela”, sucesso no festival de MPB da TV Record de 1967) aqui interpreta “A vida do ‘seu’ Raimundo”, lançada em 1980, em seu terceiro LP-solo, “Fonte nova”. Surgida em outro festival de MPB da Record, o de 1966, na voz de Elza Soares, “De amor ou paz”, composição de Luiz Carlos Paraná e Adauto Santos, é aqui revivida por este último, em faixa do álbum “A música de Carlos Paraná”, lançado com o selo Jogral em 1971 e depois reeditado pela Som Livre e, claro, pela Marcus Pereira. Para finalizar, o próprio Luiz Carlos Paraná interpreta, de sua autoria, a guarânia “Vou morrer de amor”, faixa desse mesmo LP de 1971 anteriormente mencionado, documentando sua obra como compositor (o registro original é dele mesmo, feito em 1963). Enfim, um resumo interessante do memorável legado da Discos Marcus Pereira, que, conforme está escrito na contracapa, foi “muito mais um estado de espírito do que uma gravadora convencional”.
engenho das flores
as rosas não falam
de terezina a são luiz
antes que eu volte a ser nada
moreninha se eu te pedisse
o menino
cuitelinho
eterno como areia27
jesuína
a vida de ‘seo’ raimundo
de amor ou paz\
vou morrer de amor
*Texto de Samuel Machado Filho
Rede Globo Especial (1973)
Relembrando os bons tempos da Rede Globo, quando ainda se amarrada cachorro com linguiça… Temos aqui um álbum especial, um brinde de fim de ano oferecido pela emissora aos seus associados. Juro que este eu também não conhecia. Mais um bom presente do meu amigo Fáres. Como podemos ver aqui, temos um álbum com quatro lps distintos, lançamentos recentes da Som Livre, ainda naquele início dos anos 70. Numa singular embalagem, a Rede Globo selecionou 4 discos da sua gravadora: a trilha nacional de sua novela “Os Ossos do Barão”, com músicas compostas por Marcos Valle e interpretada por diversos artistas; Luiz Bonfá em seu diferentaço ‘Jacarandá”, disco produzido e arranjado por Eumir Deodato; a trilha internacional da novela “O Bem Amado” e de quebra temos ainda Astor Piazzolla em seu clássico disco “Adios Nonino”, lançado em 72 no Brasil pela Som Livre. Sem dúvida, um leque bem agradável, que amostra bem a produção fonográfica do selo/gravadora. Não deixem de conferir…