Luiz Eça & Cordas (1965)

Hoje, o TM põe em foco mais um nome importantíssimo de nossa música popular, atuando como pianista, compositor, músico e arranjador. Estamos falando de Luiz Mainzi da Cunha Eça, ou simplesmente Luiz Eça, como ficou para a posteridade. Ou ainda Luizinho, como era chamado carinhosamente pelos amigos. Embora nascido no Rio de Janeiro, em 3 de abril de 1936, Luiz Eça era descendente do escritor português Eça de Queiroz, e foi tão importante para a música, tanto popular quanto erudita, quanto seu ilustre antepassado para a literatura. Seu primeiro contato com a música deu-se aos quatro anos de idade, quando ganhou de presente um pianinho de brinquedo.  A sua primeira professora foi a pianista russa Zina Stern, amiga de seus pais, que lhe ensinou durante quatro anos as técnicas de piano das escolas francesas e russas. Aos catorze anos, após um período de muita brincadeira e pouca música, voltou aos estudos sistemáticos, e apresentou seu primeiro recital, no Conservatório Brasileiro de Música, e também fez seu primeiro baile, no Clube Caiçaras, na Lagoa. Nessa época, início dos anos 1950, ocasião em que estudava no Colégio Mallet Soares, em Copacabana, passa a ter aulas de piano com aquela que ele próprio considerava sua grande mestra, Madame Petrus Verdier. Em 1951-52 atuou na lendária Rádio Nacional, junto com Garoto, o mago das cordas, com quem inclusive participou de algumas rodas de choro no sítio que ele possuía em Areal, RJ. Aos 17 anos, em 1953, passa a atuar como pianista na boate do Hotel Vogue, autêntico reduto da “high society” carioca, onde tinha grande trânsito com os estrangeiros que lá se hospedavam, por falar fluentemente inglês, francês e espanhol (com essa idade, Luiz só podia tocar na noite com permissão judicial).  Um ano mais tarde, ingressa no conjunto do acordeonista Sivuca, que seria seu amigo para o resto da vida e, depois, forma o Trio Penumbra, com Candinho ao violão e Jambeiro ao contrabaixo, que fazia apresentações na Rádio Mayrink Veiga.  Em 1955, como pianista do Trio Plaza, integrado ainda por Ed Lincoln no contrabaixo e Paulo Ney na guitarra, Luiz Eça faz sua estreia fonográfica, quando a etiqueta Rádio lança o LP “Uma noite no Plaza”. Depois desse álbum, Luiz Eça ganhou uma bolsa de estudos do então presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira, para estudar em Viena, capital da Áustria, onde teve aulas, entre outros grandes professores, com o pianista e compositor Friederich Guida. De volta ao Brasil, em 1962, Luizinho forma um dos mais importantes conjuntos da bossa nova: o Tamba Trio, ao lado do contrabaixista Bebeto e do baterista Hélcio Milito, sendo os três também vocalistas. O Tamba Trio foi, inclusive, o primeiro a fazer “pocket-shows” no Bottle’s Bar, que ficava no lendário Beco das Garrafas, catedral da bossa nova no Rio de Janeiro, e ainda fez excursões pela América do Norte e pela Europa.  Luiz Eça acompanhou e fez arranjos para muitos dos mais importantes nomes da MPB a seu tempo, como Maysa, Nara Leão, Carlos Lyra, Sylvia Telles, Edu Lobo, Mílton Nascimento, Flora Purim, Joyce Moreno, João Bosco, Luiz Gonzaga  e Nana Caymmi, entre tantos outros. Foi ainda professor de jovens músicos e atuou como pianista na casa noturna Chiko’s Bar, onde também gravou um disco ao vivo com um de seus maiores amigos, o pianista de jazz norte-americano Bill Evans, em 1979. Luiz Eça faleceu em 25 de maio de 1992, em seu Rio de Janeiro natal, aos  56 anos, de infarto fulminante, deixando, como se vê, um extenso currículo de serviços prestados à música brasileira. Dele, o TM oferece, orgulhosamente, a seus amigos cultos, ocultos e associados, o álbum que é talvez sua maior obra-prima. Trata-se de “Luiz Eça & cordas”, lançado em  1965 pela Philips. Produzido pelo próprio Luizinho, que, claro, está também ao piano, este disco contém primorosos arranjos (dele próprio, naturalmente)  para composições suas e de outros grandes nomes da bossa nova, como Edu Lobo, Baden Powell, Robereto Menescal e Durval Ferreira. Obras como “A morte de um deus de sal”, “Chegança”, “Primavera” e “Tristeza de nós dois” ganham roupagem de gala, com grande orquestra de cordas e participação do contrabaixista Bebeto, seu companheiro de Tamba Trio, do violonista Neco e do baterista Ohanna.  A contracapa do disco reproduz, inclusive, um entusiasmado telegrama de parabéns do então diretor artístico da Philips, Armando Pittigliani. Tudo isso faz de “Luiz Eça & cordas” um trabalho de qualidade inquestionável, merecedor, por todos os títulos, de mais esta postagem do nosso TM.É só conferir…

morte de um deus de sal

imagem

canção da terra

tristeza de nós dois

velho pescador

canção do encontro

chegança

primavera

consolação

saudade

quase um deus

amando

*Texto de Samuel Machado Filho

Momento Quatro – Momento 4uatro (1968)

Boa noite, prezados amigos cultos e ocultos! Hoje a resenha ‘fonomusical’ é minha. Trago, enfim, para as nossas ‘fileiras’ um lp que há tempos eu venho querendo postar. Vamos no embalo do Momento Quatro, um quarteto vocal que surgiu nos anos 60, junto aos festivais. Ganhou forma a partir do III Festival da TV Record, em 1967, acompanhando Edu Lobo e Marília Medalha na apresentação da festejada e memorável ‘Ponteio’. O Momento Quatro era formado por Zé Rodrix, Ricardo Villas, Maurício Maestro e David Tygel, figuras que após a efêmera existência do ‘M4’, seguiriam se destacando em outro importantes projetos. Zé Rodrix iria para o Som Imaginário, formaria um trio com Sá e Guarabyra, depois seguia em carreira solo. Ricardo Villas (antes Ricardo Sá) chegou a ser preso por conta da ditadura, se exilou na França e formou dupla com a cantora Teca Calazans. Maurício Maestro e David Tygel também se destacaram formando com Claudio Nucci e Zé Renato o conjunto vocal Boca Livre.
O Momento Quatro gravou apenas este lp, que hoje é um disco raro, afinal (e que eu saiba) nunca chegou a ser relançado. Tendo total liberdade de criação, o álbum ‘Momento 4uatro’ foi produzido ao gosto do quarteto, que nos apresenta um repertório fino, tanto autoral quanto de outros grandes nomes como Gilberto Gil, Milton Nascimento, Marcos Valle, Edú Lobo e mais… basta ver nos créditos da contracapa. Orquestrações de Rogério Duprat e arranjos vocais de Maurício Maestro. Um trabalho muito bacana que merece o nosso toque musical. Confiram lá no GTM 😉

passa ontem
três pontas
festa
dos caminhos longoestranhos até chegar junto dela
no brilho da faca
classe dominante
ele falava nisso todo dia
de luzia, ana e maria
irmão de fé
veleiro
proton elétron e neutron
litoral

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Moacir Santos – The Maestro (1974)

“Tu que não és um só, és tantos, como o meu Brasil de todos os santos, inclusive meu São Sebastião”. Assim o Poetinha Vinícius de Moraes, em seu “Samba da bênção”, com melodia de Baden Powell, homenageou um dos principais arranjadores, multi-instrumentistas e compositores brasileiros, aquele que renovou a linguagem da harmonia no país. É Moacir Santos, que o TM põe hoje em foco.  Foi na cidade de Flores, no sertão pernambucano, que Moacir Santos veio ao mundo, no dia 26 de julho de 1926. Começou a tocar clarinete aos onze anos, e iniciou sua carreira tocando em bandas de música. Foi para o Recife ainda adolescente e, em seguida, excursionou com um circo pelo interior de Pernambuco. Nos anos 1940, trabalhou na Bahia, Ceará e Paraíba, e aprendeu a tocar saxofone. Em 1948, junta-se à Orquestra Tabajara de Severino Araújo e muda-se para o Rio de Janeiro, sendo logo contratado pela lendária Rádio Nacional. Conhecido por seu virtuosismo, ainda dominava o piano, o trompete, o banjo, o violão e a bateria. Por dois anos, Moacir residiu em São Paulo, onde foi regente da orquestra da antiga TV Record, voltando em seguida para o Rio. Foi lá que, em 1965, gravou seu primeiro LP, “Coisas de Moacir Santos”, pela marca Forma, que pertencia a Roberto Quartin. Suas composições mais conhecidas são “Nanã (Coisa número 5)”, de parceria com Mário Telles, irmão da cantora Sylvia Telles, “Se você disser que sim” (que fez com o Poetinha Vinícius), “Menino travesso’ e “Triste de quem”.  Foi assistente do compositor alemão Hans Joachin Kollreuter e professor de importantes nomes da MPB, tais como Baden Powell, Paulo Moura, João Donato, Nara Leão, Roberto Menescal e Sérgio Mendes. Em 1967, Moacir Santos transfere-se para Los Angeles, EUA, pois fora convidado para a estreia mundial do filme “Amor no Pacífico”, de cuja trilha sonora foi responsável (também compôs para filmes do cinema novo brasileiro, como “Ganga Zumba”, “Os fuzis”, “O beijo” e “Seara vermelha”). Nos EUA, Moacir lançou quatro álbuns autorais (inclusive o que o TM nos traz hoje) e continuou compondo para o cinema, além de ministrar aulas de música e vir esporadicamente ao Brasil, onde recebeu inúmeras homenagens, como o Prêmio Shell de Música, com o qual foi agraciado em 2006. Em 2005, foi lançado pela Biscoito Fino o álbum “Choros & alegria”, com várias composições do início da carreira de Moacir, nunca antes gravadas.  Moacir Santos faleceria um ano mais tarde (6 de agosto de 2006), em Pasadena, Califórnia, onde residia. “The maestro”, o álbum de Moacir Santos que o TM orgulhosamente oferece a seus amigos ocultos, ocultos e associados, é o primeiro que ele fez nos EUA. Lançado em 1972 pela Blue Note, verdadeira referência em matéria de jazz, só chegou ao Brasil dois anos mais tarde, através da extinta Copacabana Discos, que representava o selo, então coligado da United Artists, e hoje com seus produtos mundialmente distribuídos pela Warner. Gravado em Los Angeles, nos estúdios da A&M Records, e remixado em Nova York, é um trabalho excepcional, com oito faixas, todas de autoria do próprio Moacir Santos, sozinho ou com parceiros. Logo no início, ele revive sua “Coisa número 5”, o afro-samba “Nanã”, como já frisado, um de seus mais conhecidos trabalhos autorais. Ele mesmo participa como vocalista em cinco faixas, sendo que em duas ele divide os vocais com Sheila Wilkinson, e assina quase todos os arranjos, a exceção de “Nanã”, que ficou a cargo de Reggie Andrews, também produtor deste trabalho. Por sinal, impecável do início ao fim, com o padrão técnico e de qualidade que até hoje caracteriza as produções fonográficas da Blue Note. Ouvindo-o, constata-se que, realmente, Moacir Santos não era um só: eram muitos, em uma só pessoa!

nanã (coisa n.5)

bluishmen

sou eu (luanne)

lamento astral (astral whine)

mãe iracema

kermis

april child (maracatu, nação do amor)

the mirror’s mirror

*Texto de Samuel Machado Filho

Claudia – Reza, Tambor E Raca (1977)

O Toque Musical põe hoje em foco uma das mais expressivas cantoras brasileiras. Estamos falando de Maria das Graças Rallo, que adotou inicialmente o nome artístico de Cláudia, e, por questões numerológicas, passou a se assinar Claudya. Ela veio ao mundo no dia 10 de maio de 1948, na cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, foi criada em Juiz de Fora, Minas Gerais, onde também começou a cantar, aos oito anos de idade, participando de um programa de calouros da Rádio Sociedade.  Aos treze anos, atuou como “crooner” do conjunto Meia-Noite, que atuava em bailes e festas de Juiz de Fora e cidades vizinhas. Sua carreira profissional  se inicia nos anos 1960, em São Paulo, quando participa do programa “O fino da bossa”, da antiga TV Record. Entretanto, sua apresentadora, Elis Regina, a baniu definitivamente da atração, pois Claudia foi considerada, logo de saída, uma intérprete tão boa quanto Elis, que evidentemente temia sofrer concorrência. Claudia gravou seu primeiro disco em 1965, na RGE, um compacto simples com as músicas “Deixa o morro cantar”, de Tito Madi, e “Sorri”, de Zé Kéti e Elton Medeiros. Logo no primeiro ano de carreira, foi agraciada com o Troféu Roquette Pinto de cantora-revelação e, em 1967, lançou seu primeiro LP, também pela RGE.  Mais tarde, viajou para o Japão, onde se apresentou ao lado do saxofonista Sadao Watanabe, ficando seis meses naquele  país, e lançando um LP em japonês que vendeu mais de 200 mil cópias! De volta ao Brasil, em 1969, venceu o I Festival Fluminense da Canção, defendendo a música “Razão de paz para não cantar” , de Eduardo Lages e Alézio de Barros, que também concorreu no quarto FIC (Festival Internacional da Canção), obtendo a quarta colocação e dando à nossa Claudia o prêmio de melhor intérprete.  Ela também foi marcante presença em diversos festivais de música no exterior (Japão, Espanha, Grécia, México, Venezuela…), tornando-se a cantora mais premiada fora do Brasil. E, aqui mesmo, recebeu ainda os troféus Imprensa e Globo de Ouro. Claudia tem, em sua discografia, mais de 20 álbuns, entre LPs e CDs, e alguns compactos, e entre seus principais sucessos, destacamos: “Jesus Cristo” (cuja gravação chegou a vender tanto ou mais que a do próprio Roberto Carlos!), “Com mais de trinta”, “Só que deram zero pro Bedeu”, “Deixa eu dizer” (sampleada por Marcelo D2 na música “Desabafo”), “Mudei de ideia”, “Memória livre de Leila” (homenagem póstuma à atriz Leila Diniz, morta em acidente aéreo, composta por Taiguara) e “Gosto de ser como sou”.  O grande momento da carreira de nossa Claudia viria em 1982, ao ser convidada para fazer o papel principal na versão brasileira do musical “Evita”, de autoria dos britânicos Andrew Lloyd Weber e Tim Rice. Grande sucesso de público e crítica, “Evita” permaneceu seis meses em cartaz em São Paulo, e quase dois anos no Rio de Janeiro, e Claudia ainda foi considerada a que melhor interpretou o mito político argentino entre todas as adaptações internacionais do espetáculo. Claudia (ou Claudya) é ainda, desde os 23 anos de idade, exímia tecladista, e sua filha, Graziela Medori, também segue carreira de cantora. Da extensa e bastante expressiva discografia da então Claudia, o TM oferece hoje, a seus amigos, ocultos e associados, o sexto álbum de estúdio da intérprete. É “Reza, tambor e raça”, editado no início de 1977 pela RCA Victor, depois BMG, Sony/BMG e atualmente Sony Music.  Com direção de estúdio do experiente Osmar Navarro, e arranjos e regências a cargo dos competentíssimos José Paulo Soares, Pepe Ávila e Bauru, é um trabalho muitíssimo bem cuidado, técnica e artisticamente. Nele, Claudia dá um banho de interpretação e técnica vocal, seja em regravações de hits da ocasião (“Soy latino-americano”, “O cavaleiro e os moinhos”, “Apenas um rapaz latino-americano”, “Glorioso Santo Antônio”), quanto em trabalhos até então inéditos , como a própria faixa-título, “Reza, tambor e raça”, “Poeta do medo”, “Pororoca” e ‘Ana cor de cana”. E a curiosidade deste trabalho fica por conta da releitura do tema da série de TV norte-americana “Peter Gunn”, sucesso de audiência nos anos 1950/60, composto por Henry Mancini, que ganhou letra em português com o título de “Vai, baby” e acordes brasileiríssimos de samba! Enfim, um excelente trabalho da agora Claudya, cuja voz permanece atualíssima e vibrante. E ela continua aí, na ativa, para alegria de tantos quanto apreciem o que nossa música popular tem de melhor e mais expressivo!

reza, tambor e raça

soy latino americano

glorioso santo antonio

poeta do medo

pororoca

lua negra

apenas um rapaz latino americano

o cavaleiro dos moinhos

vai baby (peter gunn)

segunda feira

homem e mulher

ana cor de cana

*Texto de Samuel Machado Filho

Mario Albanese – Jequibáu na Broadway (1967)

Boa tarde, meus prezados amigos cultos e ocultos! Aqui estou eu, cada dia mais sumido, porém, ainda não completamente perdido. Graças ao amigo e colaborador Samuca, vamos aos trancos e barrancos mantendo acesa a chama do Toque Musical. Hoje quem traz a postagem sou eu mesmo, mas o Samuel continua no baralho e até mais atuante em suas resenhas (para a nossa felicidade).
Tenho hoje para vocês uma boa raridade, Mário Albanese e seu álbum ‘Jequibau na Broadway’, disco lançado em 1967 pelo selo Chantecler. Foi o seu segundo lp pela gravadora e que muitos consideram como sendo uma continuação de ‘Jequibáu’, uma obra prima, a qual Mário Albanese dividiu os créditos com o maestro Ciro Pereira. No presente lp temos um repertório de composições próprias de Mário e Ciro no ritmo do Jequibáu, somado a outros temas famosos e internacionais muito bem arranjados. Um trabalho de padrão internacional. Não deixem de conferir…
Numa próxima oportunidade postaremos também aqui o ‘Jequibáu’, uma joia brasileira premiada, que até hoje não recebeu por parte de nós brasileiros a sua merecida atenção. Aguardem, pois a resenha vai ser do Samuca, quer dizer, super completa 😉

zambo
un homme et une femme
o caminho das estrelas
days of wine and roses
longe de você
maré alta
fim de semana em guarujá
the shadow of your smile
certa vez
não posso esquecer

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Dick Farney – As Duas Maneiras De Dick Farney (1972)

Um dos precursores da bossa nova, e, por tabela, integrado à mesma, Dick Farney (Farnésio Dutra e Silva, Rio de Janeiro, 14/11/1921-São Paulo, 4/8/1987) tem vários de seus álbuns postados aqui no TM, e já foi devidamente focalizado no Grand Record Brazil. É lembrado e cultuado até hoje, e com justiça, por todos que apreciam o importantíssimo legado que deixou como cantor e pianista, aplaudido tanto no Brasil quanto no exterior. Hoje, o TM apresenta a seus amigos cultos, ocultos e associados, mais um disco do notável Dick. Com o título “As duas maneiras de Dick Farney”, o álbum é uma coletânea organizada por Maurício Quadrio, e lançada em 1972 pela Philips/Phonogram, futura Universal Music, com o selo Fontana.  É dividido em duas partes distintas: na primeira, “Dick na Broadway”, são apresentadas as gravações que ele fez nos EUA com a orquestra do maestro Paul Baron, em 1954, perfazendo um total de oito faixas, que chegaram ao Brasil em discos de 78 rpm pela antiga Sinter. Os clássicos “Copacabana”, de Braguinha e Alberto Ribeiro, e “Marina”, de Dorival Caymmi, ganham aqui versões bilíngues, com letras em inglês de Jack Lawrence. No restante do programa, seis standards do repertório popular norte-americano, entre eles “How soon”, “For once in your life” e “Tenderly”(que ele próprio registrou pela primeira vez em 1946, lá mesmo nos EUA). A segunda parte deste álbum é denominada “Dick em Ipanema”, e engloba seis faixas que ele registrou em território brasileiro, todas pela Elenco, gravadora criada por Aloysio de Oliveira, cujos trabalhos fonográficos (lançou 60 LPs em quatro anos de atividades) eram extremamente bem produzidos, alguns deles tornando-se até clássicos. Três faixas são do álbum que Dick Farney gravou em 1964, sem título, entre elas um sucesso absoluto na época: “Você” (“Manhã de todo meu”), da vitoriosa parceria Roberto Menescal-Ronaldo Bôscoli, inesquecível dueto de Farney com Norma Bengell, atriz, cineasta e cantora e hoje, com justiça, um dos clássicos da bossa nova. Desse disco de 64 também são as faixas “Inútil paisagem”, e “One for my baby” . As três faixas restantes são de um outro LP, de 1966, denominado “Dick Farney: piano – Orquestra: Gaya”, e são apenas instrumentais, na qual Farney demonstra todo seu virtuosismo de pianista, acompanhado pela orquestra do já veterano maestro Lindolfo Gaya: “Fotografia”, “Valsa de uma cidade” e “And roses.. and roses”, que na verdade é “Das rosas”, de Dorival Caymmi, que ganhou esse título ao receber letra em inglês de Ray Gilbert, gravada por Andy Williams. Enfim, está é mais uma oportunidade que o TM oferece de apreciar um pouco do extraordinário trabalho do inesquecível Dick Farney. Para baixar e ouvir com todo o carinho…
*Texto de Samuel Machado Filho

Luiz Carlos Vinhas – O Som Psicodelico De LCV (1968)

Após apresentar o álbum “Os reis do ritmo”, com o conjunto Bossa 3, formado e dirigido pelo pianista Luiz Carlos Vinhas (1940-2001), o TM tem a grata satisfação de oferecer a seus amigos cultos, ocultos e associados mais um trabalho com a marca deste notável músico, e considerado até mesmo sua obra-prima: trata-se de “O som psicodélico de Luiz Carlos Vinhas”, seu segundo disco individual (o primeiro foi “Novas estruturas”, em 1964), elaboradíssima produção de Hélcio Milito, então baterista do Tamba Trio, para a CBS, futura Sony Music, e preciosíssimo legado do “ano que não terminou”, 1968. Tendo em seu currículo participações em discos de grandes nomes da MPB, tipo Elis Regina, Quarteto em Cy, Jorge Ben Jor e Maria Bethânia, Luiz Carlos Vinhas iniciou-se na música ainda cedo, quando seu pai lhe deu um violão de presente, e em 1957 já estava nas composições da bossa nova carioca. Ele se supera neste trabalho, riquíssimo em elementos e experimentos, mesclando psicodelia e toques de música brasileira, com cantos folclóricos, caboclos e umbandistas. Abrindo o disco, a instrumental “Amazonas”, de João Donato, que impressiona o ouvinte logo de saída. Vinhas sempre foi experimental, e conhecia bem a cultura brasileira, o que se reflete em trabalhos autorais como “Tanganica”, “Zizê baiô”  e “Ye-melê” (títulos que remetem à cultura afro), esta última um lindo canto para Iemanjá, na mesma época também gravada por Elis Regina e mais tarde êxito mundial com Sérgio Mendes. Outro destaque é “Um jour Christine”, de Bruno Ferreira, uma canção melancólica porém com linda melodia vocal e percussão bem simples ao fundo. A partir da sexta faixa, Vinhas nos oferece fantásticas regravações de sucessos nacionais e internacionais, como “Arrasta a sandália”, “Chatanooga choo-choo”, “Tributo a Martin Luther King”, “Rosa morena”, “Morena boca de outro” e “Can’t take my eyes of you”. Tudo terminando, e muitíssimo bem, com “O diálogo”, uma parceria de Vinhas com Chico “Fim-de-Noite” Feitosa, que também fizeram juntos “Ye-melê” e “Zizê baiô”. Em suma, um trabalho primoroso, de alta qualidade técnica e artística, que o TM orgulhosamente nos oferece. Confiram…

amazonas

tanganica

yê-melê

zizé-melê

un jour christine

song to my father

chatanooga choo-choo

pourquoi

birthday morning

o diálogo

*Texto de Samuel Machado Filho

Marcos Valle (1970) REPOST

Um dos cobras da MPB, Marcos Valle já teve inúmeros álbuns postados aqui no TM, inclusive este, que agora volta como ‘repost, o quinto por ele gravado no Brasil, e lançado pela Odeon’, em 1970. Marcos Kostenbader Valle, seu nome na pia batismal, veio ao mundo em 14 de setembro de 1943, na cidade do Rio de Janeiro. Iniciou seus estudos de piano clássico aos seis anos de idade e formou-se em piano e teoria musical em 1956. Considerado um dos integrantes da segunda fase da bossa nova, Marcos iniciou sua carreira artística em 1961, participando de um trio do qual também faziam parte Edu Lobo e Dori Caymmi.  É quando também começa a compor, formando parceria com o irmão, Paulo Sérgio Valle. A primeira composição da dupla, “Sonho de Maria”, chegou ao público em 1963, interpretada pelo Tamba Trio. Um ano mais tarde, Marcos Valle grava seu primeiro LP-solo, “Samba demais”, alternando composições próprias com trabalhos de outros autores.  Entre os muitos sucessos compostos pelos irmãos Valle, destacamos: “Samba de verão”, “Preciso aprender a ser só”, “Terra de ninguém” (que Marcos apresentou com Elis Regina no show “Bossa no Paramount”, em 1965), “Viola enluarada”, “Black is beautiful”, “Com mais de trinta”, “Mustang cor de sangue”, “Um novo tempo” (aquela que todo fim-de-ano toca na programação da TV Globo, “Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou”…), “Pelas ruas do Recife”, “Remédio pro coração”, etc. Seu respeitável currículo também inclui jingles publicitários, temas para novelas globais como “Pigmalião 70”, “Assim na terra como no céu”, “Carinhoso” e “Os ossos do barão”, e a trilha sonora do infantil “Vila Sésamo”, também da Globo, que tantas saudades deixou em quem foi criança nos anos 70. Compôs ainda a trilha completa do documentário “O fabuloso Fittipaldi” (1973), sobre a trajetória do célebre piloto de Fórmula-1 Emerson Fittipaldi. No setor publicitário, foi sócio da Aquarius Produções Artísticas, junto com o irmão Paulo Sérgio e o jornalista Nélson Motta. Em 1965, Marcos Valle esteve pela primeira vez nos EUA, onde atuou por sete meses no conjunto Brasil 65, de Sérgio Mendes. Retornou algumas vezes a esse país, e, farto da censura do regime militar, e enfrentando problemas psicológicos que afetavam sua voz, ali residiu entre 1975 e 1980, trabalhando com gente do porte de Andy Williams, Sarah Vaughan, Airto Moreira e o grupo de pop-rock Chicago. Fortemente influenciado pela “disco music”, então na moda, Marcos foi se aproximando  de músicos negros e do universo do rhythm and blues e do boogie-funk. Por volta de 1978, iniciou parceria com Leon Ware, colaborador frequente de Marvin Gaye. E, em 1980, Marcos volta definitivamente ao Brasil, já então em época de abertura política. Surgem, então, novos sucessos, como  “Bicho no cio”, “Velhos surfistas querendo voar”, “A Paraíba não é Chicago”, “Estrelar” e “Bicicleta”. Enfim, uma longa e vitoriosa trajetória com mais de 25 álbuns gravados, tanto no Brasil quanto nos EUA, além do DVD “Bossa entre amigos”, junto com Wanda Sá e Roberto Menescal, lançado em 2011. O álbum de Marcos Valle que o TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados, de 1970, é um de seus melhores trabalhos. Curiosamente, na capa do disco, ele aparece deitado em uma cama, com o quarto arrumado, e, na contracapa, o mesmo quarto (na verdade o da irmã, Ângela Valle, na casa de seus pais) está vazio e desarrumado, com roupas femininas espalhadas pelo chão.  O álbum tem as credenciais de Mílton Miranda na direção de produção, com assistência de Mariozinho Rocha, direção musical do maestro Lírio Panicalli e arranjos e regências a cargo de dois outros “cobras”, Leonardo Bruno e Orlando Silveira. Evidentemente, é um trabalho autoral, com todas as faixas compostas pelo próprio Marcos Valle, sozinho ou com parceiros como Novelli e o irmão Paulo Sérgio. Destaque para dois temas que compôs para novelas da Globo, “Quarentão simpático” (de “Assim na terra como no céu”) e “Pigmalião 70” (do folhetim de mesmo nome) e para as faixas “Dez leis (Is that law)”, “Esperando o Messias”, esta com a participação dos sempre afinadíssimos Golden Boys, e a provocadora “Ele e ela”, na qual Marcos e a irmã Ângela insinuam uma relação sexual! “Os grilos” aparece duas vezes, na versão que foi gravada para este álbum, e na original, editada em compacto simples em 1967, como faixa-bônus. É mais um trabalho de Marcos Valle que o TM tem muito orgulho em oferecer a vocês que tanto apreciam nossa música popular, no que ela tem de melhor!
quarentão simpático
ele e ela
dez leis
pigmaleão
que eu canse e descanse
esperando o messias
freio aerodinâmico
os grilos
suite imaginária
os grilos (versão single 67)

*Texto de Samuel Machado Filho

Bossa 3 – Os Reis Do Ritmo (1966)

O TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados um álbum de música instrumental brasileira da melhor qualidade, com o conjunto Bossa 3, que os estudiosos consideram o primeiro grupo instrumental da bossa nova. O Bossa 3 foi criado no início dos anos 1960 pelo pianista e compositor Luiz Carlos Vinhas (Rio de Janeiro, 19/5/1940-idem, 22/8/2001), e, em sua primeira formação, estavam ainda o contrabaixista Tião Neto e o baterista Edison Machado. As primeiras apresentações do trio aconteceram nas boates do Beco das Garrafas, em Copacabana, acompanhando os bailarinos Lennie Dale, Joe Benett e Martha Botelho. Com eles, viajaram aos EUA para se apresentar no “Ed Sullivan Show”, então um dos programas de maior audiência da televisão norte-americana. Após gravarem três álbuns e realizarem uma série de apresentações em clubes de jazz novaiorquinos, Luiz Carlos Vinhas foi o único que resolveu  voltar para o Brasil. Aqui chegando, reorganizou o Bossa 3, agora com Octávio Bailly Júnior no contrabaixo e Ronie Mesquita na bateria. A nova formação gravou mais cinco álbuns, sendo um deles com Pery Ribeiro e outros dois com o mesmo intérprete, mais Leny Andrade, sob o nome de Gemini V. Após realizar uma turnê no México, da qual resultou um LP ao vivo, o Bossa 3 se dissolveu, e só voltaria à cena em 2000, para tocar com a cantora Wanda Sá, e desta vez com o baterista João Cortez e o contrabaixista Tião Neto. Foi a última formação do grupo, desfeito definitivamente com a morte de Luiz Carlos Vinhas, em 2001, aos 61 anos, de parada cárdio-respiratória. “Os reis do ritmo”, que o TM nos oferece hoje,  foi lançado pela Odeon em 1966, com o Bossa 3 já reformulado, isto é, com o baterista Ronnie Mesquita e o contrabaixista Octávio Bailly Júnior, acompanhando Luiz Carlos Vinhas, pianista e fundador do grupo. Sob a batuta de Mílton Miranda na direção de produção, e do maestro Lírio Panicalli na direção musical, e com excelentes arranjos do próprio Vinhas, o Bossa 3 está em plena forma, num repertório que mistura sambas clássicos (“Não me diga adeus”,  “Exaltação à Mangueira”), standards da bossa nova (“Onde anda o meu amor?”, “Até o sol raiar”, “Coisa mais linda”,  “Samba de verão”, “Balanço Zona Sul”, “Silk stop”) e trabalhos autorais do próprio Vinhas (“É”, “Le Bateau”, “Recado ao pé do berço”), que na última faixa, “Cartaz”, da parceria Roberto Menescal-Ronaldo Bôscoli (este também escreveu o texto de contracapa do disco) chega até mesmo a cantar! Tudo isso em um trabalho primoroso, com o invejável padrão técnico que a Odeon então imprimia às suas produções discográficas. É só ouvir e confirmar!  E mais:brevemente estaremos apresentando mais um álbum de Luiz Carlos Vinhas. Aguardem…

onde anda o meu amor
até o sol raiar
não me diga adeus
coisa mais linda
e
samba de verão
le bateau
silk stop
exaltação a magueira
balanço zona sul
recado ao pé do berço
cartaz

*Texto de Samuel Machado Filho

Vários – Transa Musical Sandsom (1975)

Olá, amigos cultos, ocultos e associados! O TM hoje oferece um álbum-coletânea  raro, e ainda por cima duplo! É o tipo de coisa que, creio eu, pouquíssima gente tem, uma vez que foi produzido em 1975 pela CBS, hoje Sony Music, especialmente para a empresa Sands Exportação, que vendia seus produtos apenas e tão-somente por mala direta (correio), promovendo-os através de catálogos e anúncios em revistas. Quer dizer, um título que não chegou às lojas de discos. Com o nome de “Transa musical Sandsom”, este raro e precioso álbum duplo é um autêntico desfile de sucessos ditos “jovens” da época, interpretados por alguns dos principais artistas que a CBS então mantinha sob contrato, vários deles remanescentes da Jovem Guarda e que, mesmo com o fim do movimento, continuaram marcando presença nas chamadas “paradas de sucesso” e nas rádios AM de cunho popular. Por certo muita gente que viveu na metade dos anos 1970 vai se lembrar de grande parte das músicas que um certo Edson Paulo Cleto selecionou para integrar este LP duplo. Para cada intérprete, foram reservadas duas faixas, sendo uma em cada LP, salvo uma ou outra exceção. Também merece destaque a parte gráfica, realmente impecável, com fotos dos artistas participantes do disco recheando a capa dupla. Roberto Carlos, o “rei” que nunca perde a majestade, aqui comparece com faixas de seu álbum de 1973, ambas compostas por ele em parceria com seu eterno “amigo de fé” Erasmo: “Proposta” (sucesso eterno, realmente um clássico!), escolhida para abrir este LP duplo,  e “Palavras”. Jerry Adriani, outro remanescente das “jovens tardes de domingo”, vem com “Uma vida inteira” e “Não feche os olhos”, ambas também de 1973. Leno, já separado de Lilian, com quem formara uma dupla de sucesso durante a Jovem Guarda, canta apenas uma faixa, porém bastante expressiva: “A festa dos seus quinze anos”, de autoria de Ed Wilson, faixa-título e de abertura  de seu segundo LP-solo, editado em 1969, lembrada até hoje por muitos. Nalva Aguiar, que mais tarde abrigou-se entre os intérpretes sertanejos, aqui comparece com a versão “Quero que volte (Magic woman touch)”, gravação de 1973. O organista Lafayette, cuja sonoridade marcou época na Jovem Guarda, aqui executa, em registros de 1974, “No more troubles”, então sucesso do cantor marroquino Sharif Dean, e “Tema para um samba”, esta só gravada pelo Lafayette mesmo. Baiano de Salvador, e ainda hoje em atividade, José Roberto bate ponto neste LP duplo com as faixas “Lágrimas nos olhos” (grande sucesso em 1973, composto por nada mais nada menos que Raul Seixas) e “Desculpas” (1974). Cantor e compositor bastante expressivo, o mineiro (de Belo Horizonte) Márcio Greyck interpreta aqui duas músicas românticas de sucesso, até hoje lembradas: “Impossível acreditar que perdi você” (sua e do irmão Cobel, de 1970, inclusive regravada por outros artistas) e a versão “O mais importante é o verdadeiro amor (Tanta vogila di lei)”, de 1972. Outras duas faixas foram reservadas para Diana, cantora de expressivo êxito junto às camadas mais populares: a versão “Por que brigamos? (I am… I said)”, hit também de 1972, regravada até por duplas sertanejas, cujo refrão (“Ó meu amado, por que brigamos?”) é cantarolado até hoje por muitos, e “Amor só se paga com amor”, de 1973. Conhecido como “o reizinho da Jovem Guarda”, por ter sido apadrinhado por Roberto Carlos, Oscar Teixeira, ou, como ficou para a posteridade, Ed Carlos, aqui comparece com “Meu aniversário”, de 1974, e a versão “A menina que passa (Conmigo en algun lugar)”, de 1973. Renato e seus Blue Caps, grupo de rock considerado a cara da Jovem Guarda, aqui interpretam “Eu quero dançar contigo (Dancing on a saturday night)” e a romântica e sensível “Eu não aceito o teu adeus”, sucessos em 1974. Cláudio Roberto, outro intérprete de sucesso junto às camadas populares nos anos 70, aqui interpreta duas composições de Cláudio Fontana: “Como é que eu posso ser feliz sem você?” (1971) e “Separados” (1975), esta originalmente lançada por Nélson Ned na Copacabana, em 1973, e que encerra o álbum duplo. O recifense Luiz Carlos Magno entrou com “Ave Maria pro nosso amor” (com direito até a declamação da Ave Maria!), de 1972, e “Sonho de menina”, de 1974. A curiosidade fica por conta do grupo Os Selvagens, interpretando “Eu e você”, versão de Rossini Pinto para “Me and you”, lançada no original por Dave MacLean, um daqueles brasileiros que cantavam e até compunham em inglês. Ídolo eterno e inesquecível, o recifense Reginaldo Rossi vem aqui com uma verdadeira pérola de seu repertório, ainda hoje muito lembrada: “Mon amour, meu bem, ma femme”, composta por Cleide de Lima, e lançada em 1972 com enorme sucesso. Enfim, um raro LP duplo que certamente proporcionará momentos de agradável reminiscência para quem viveu nessa primeira metade dos anos 1970, e desfrutável também para os que só chegaram depois dessa época. Deliciem-se…

proposta – roberto carlos
uma vida inteira – jerry adriani
festa dos seus quinze anos – leno
quero que volte – nalva aguiar
no more troubles – lafayette
lágrimas nos olhos – josé roberto
impossível acreditar que perdi você – marcio greyck
porque brigamos – diana
meu aniversário – ed carlos
eu quero dançar contigo – renato e seus blue caps
como é que eu posso ser feliz sem você – claudio roberto
ave maria pro nosso amor – luiz carlos magno
palavras – roberto carlos
desculpas – josé roberto
amor só se paga com amor – diana
tema para um samba – lafayette
eu e você – os selvagens
sonho de menina – luiz carlos magno
eu não aceito o teu adeus – renato e seus blue caps
não feche os olhos – jerry aderiani
o mais importante é o verdadeiro amor – marcio greyck
a menina que passa – ed carlos
mon amour meu bem ma femme – reginaldo rossi
separados – caludio roberto

*Texto de Samuel Machado Filho

Radamés Gnattali E Rafael Rabello – Tributo A Garoto (1982)

O TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados um disco que reúne dois grandes instrumentistas: o pianista e também maestro e compositor Radamés Gnattali (Porto Alegre, RS, 27/1/1906-Rio de Janeiro, 3/2/1988), e o violonista Rafael Rabello (Petrópolis, RJ, 31/10/1962-Rio de Janeiro, 27/4/1995). O álbum é um tributo-homenagem a outro grande instrumentista e compositor brasileiro, verdadeiro mago das cordas: Aníbal Augusto Sardinha, ou como ficou para a posteridade, Garoto (São Paulo, 28/6/1915-Rio de Janeiro, 3/5/1955). Produzido pela Funarte e gravado nos estúdios da Sonoviso, em 1982, o disco faz parte do Projeto Almirante, uma das inúmeras iniciativas da entidade, hoje vinculada ao Ministério da Cultura, objetivando divulgar e preservar nossa melhor música popular. Este trabalho teve a produção artística de um verdadeiro “craque” na matéria, Hermínio Bello de Carvalho, ficando a produção executiva a cargo de Cláudio Guimarães, e as transcrições das obras incluídas neste disco pelo mestre Radamés. Este trabalho, como vocês verão, é primoroso e muitíssimo bem cuidado, tanto técnica quanto artisticamente. Cuidado esse que também se verificou na parte gráfica, que inclui um encarte repleto de informações sobre o homenageado, os músicos-intérpretes, as músicas incluídas e até mesmo um bate-papo informal entre Radamés, Rafael e o mestre Tom Jobim. São seis faixas, cinco delas compostas por Garoto, incluindo dois clássicos, “Duas contas” e “Gente humilde” (esta só revelada ao público na década de 1970, ao receber letra de Vinícius de Moraes e Chico Buarque). Na sexta e última faixa, temos o “Concertino para violão e piano” (1953), de autoria do mestre Radamés, versão reduzida do “Concertino n.o 2 para piano e orquestra”, composto em 1948 especialmente para Garoto, que o apresentou cinco anos mais tarde no Teatro Municipal do Rio, ficando a regência da orquestra por conta do maestro Eleazar de Carvalho. Como bem afirma Cláudio Guimarães no encarte, “Garoto e Jacob do Bandolim, que tanto prestigiaram Radamés Gnattali, se orgulhariam ao conhecer o jovem Rafael Rabello”. Por uma triste coincidência, tanto Rafael quanto Garoto faleceram prematuramente. Mas este “Tributo a Garoto” ficou para a posteridade como um dos mais expressivos trabalhos discográficos de Rafael Rabello, notável violonista, contando com a honrosa companhia, ao piano, de outro grande mestre, Radamés Gnattali. É o que os amigos cultos, ocultos e associados do TM poderão constatar.

desvairada
gente humilde
enigmático
nosso choro1919
duas contas
concertinho para violão e piano

*Texto de Samuel Machado Filho

Ricardo Silveira – Bom De Tocar (1984)

Violonista, guitarrista e compositor de primeira linha, aplaudido no Brasil e no exterior. Assim é Ricardo Rodrigues Parente Silveira, ou, como ficaria para a posteridade, Ricardo Silveira. Nascido no Rio de Janeiro, a 25 de outubro de 1956, Ricardo cresceu ouvindo bossa nova, samba e marchinhas carnavalescas.  Suas primeiras influências foram os violonistas Baden Powell e João Gilberto. Mais tarde, interessou-se por Jimi Hendrix, e recebeu influências de Wes Montgomery e George Benson. Terminado o segundo grau, Ricardo deixou o Brasil e foi para os EUA, onde estudou por dois anos na Berklee College of Music, de Boston. Após morar durante anos em Nova York, onde tocou com Herbie Mann, Ricardo voltou ao Brasil para se aprofundar na música instrumental, logo se tornando um dos mais requisitados músicos de estúdio no país. Gravou e fez shows acompanhando nomes de prestígio da MPB, como Elis Regina, Hermeto Paschoal, Gilberto Gil, Maria Bethânia, João Bosco, Ivan Lins, Nana Caymmi, Vinícius Cantuária e Mílton Nascimento.  Ele inclusive é o autor do arranjo da música “Portal da cor”, que fez em parceria com Mílton.  Assim Ricardo Silveira define seu trabalho: “Eu toco dentro do ponto de vista de um músico brasileiro. Há elementos de funk e jazz, mas não gosto de dizer que toco fusion.  Eu sou um músico que gosta de diferentes formas de música, e me sinto bem explorando esses diferentes mundos musicais”. A carreira internacional de Ricardo Silveira deslanchou nos EUA quando ele assinou contrato com o selo Verve Forecast, da Polygram, hoje Universal Music. Tem mais de dez álbuns em sua discografia, e, entre uma gravação e outra, excursiona com sua banda, nos EUA e no Brasil. Já formou trio com Alfonso Johnson (ex-Weather Report) eWalfredo Reyes Jr.  (ex-Santana) e participou da turnê “Brasil Project”, com o gaitista belga Toots Thielemans. Atualmente, faz parte do grupo Latin American All Stars, junto com o peruano Alex Acuña, o colombiano Jsto Almario e o mexicano Abraham Laboriel. E é justamente o começo de tudo isso, o pontapé inicial da longa e vitoriosa  carreira de Ricardo Silveira como guitarrista-solo, que o Toque Musical orgulhosamente apresenta a seus amigos cultos, ocultos e associados: “Bom de tocar”, seu primeiríssimo álbum-solo, editado pela Polygram (selo Fontana) no ano da graça de 1984. Produzido por ele próprio juntamente com Luiz Carlos, o Lelé, o disco traz nove faixas marcantes, inclusive a que lhe dá o título. E ele vem muito bem acompanhado, com gente do quilate de Jamil Joanes (baixo), Chacal (percussão), Léo Gandelmann (saxofone) e Márcio Montarroyos (mais conhecido como trompetista, aqui atuando nos teclados, juntamente com Serjão e Serginho Trombone). Tudo isso com o elevado padrão técnico que sempre caracterizou os trabalhos discográficos da antiga Polygram. Ouvindo este “Bom de tocar”, entende-se por que o álbum foi (e ainda é) considerado  um marco na história da música instrumental brasileira.

bom de tocar

pica-pau I

xamba

maricy17

dois irmãos

rock

espaços

55

raizes

*Texto de Samuel Machado Filho

Lô Borges (1972)

Boa noite, amigos cultos e ocultos! Após mais de mil publicações a gente começa a esquecer o que já, ou não, foi postado por aqui. Para a minha surpresa, verifico que este segundo e emblemático disco do Lô Borges ainda não havia passado por aqui. E olha que não foi por falta de oportunidade. Mas, por alguma razão, acabou passando batido. Hoje, meio que na base dos discos ‘de gaveta’, enquanto espero as resenhas do Samuca, vou tomando a frente e finalmente postando o ‘álbum do tênis’. Este lp, originalmente foi lançado em capa sanduíche e trazia esta contracapa com a foto do adolescente Lô Borges sentado num caixote lendo jornal. Depois, na segunda edição, em capa comum, tiraram o cara do caixote e o colocaram numa cadeira, em foto preto e branco e dessa vez trazendo também as letras. 1972 foi para o artista um ano prolixo, que estreava naquele ano com dois discos, este do tênis e o Clube da Esquina, ao lado de Milton Nascimento. Dois álbuns básicos, clássicos da música popular brasileira. Para não dizer que não falei de flores… segue aqui e no GTM, finalmente 😉

você fica melhor assim
canção postal
o caçador
homem da rua
não foi nada
pensa você
fio da navalha
prá onde vai você
calibre
faça seu jogo
não se apague esta noite
aos barões
como o machado
eu estou com você
toda essa água
.

Zimbo Trio – Sonny Stitt In Brasil (1979)

O TM apresenta hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados mais um álbum do sempre notável Zimbo Trio. Lançado em 1979 com o selo Clam, que pertencia ao grupo, o disco registra o encontro deles com o saxofonista norte-americano Edward “Sonny”  Stitt (Boston, Massachussets, 2/2/1924-Washington, DC, 22/7/1982). Ao contrário do que sugere o título, primeiro da trilogia “Zimbo Trio convida”, eles próprios foram convidados  a ser o grupo de apoio do já veterano músico norte-americano em uma turnê que ele fez pelo Brasil. O resultado é o que se pode esperar de uma reunião dessa ordem, repertório com base em standards do jazz, da bossa nova (“Corcovado”, “Samba de Orfeu”), do bebop (“Little suede shoes”, There you will never be another you”, “Autumn leaves”) e trabalhos originais do próprio Sonny Stitt (“Hope’s blues”, “Blues for Gaby”). Ele foi, talvez, o saxofonista com sonoridade e fraseado mais parecidos com os de Charlie Parker, ídolo do bebop. Stitt era alguns anos mais velho do que Parker, e iniciou-se como músico ainda na era do swing. Ele próprio declarou várias vezes que, quando ouviu Parker pela primeira vez, ainda com “Bird” tocando na orquestra de Jay McShan, levou um susto, tal a semelhança de estilos. Stitt tornou-se um dos nomes de peso do bebop, gravando alguns discos importantes com ninguém menos do que Dizzy Gilespie, o outro co-fundador desse estilo, ao lado de Charlie Parker. Dos integrantes do Zimbo Trio, o pianista Hamilton Godoy parece ser o que mais está á vontade, graças à influência de Oscar Peterson em seu estilo. O baixista Luiz Chaves e o baterista  Rubinho Barsotti, ao contrário, não demonstram lá muita intimidade com as acentuações rítmicas do bebop, especialmente no trabalho com o bumbo e a caixa, e as características do walking bass. Afora esses detalhes, percebidos apenas e tão-somente pelos ouvidos dos mais iniciados, este disco, para o público em geral, é uma agradável sessão de jazz com músicos de alto gabarito em suas respectivas estéticas. Um encontro histórico de grandes músicos brasileiros com um saxofonista que marcou época na história do jazz, agora oferecido pelo TM a todos aqueles que apreciam música de qualidade. Simplesmente o fino do fino…

hope’s blues

corcovado

there you’ll never be another you

little suede shoes

autumn leaves

samba de orfeu

blues for gaby

assim está certo

*Texto de Samuel Machado Filho

Lucinha Lins e Cláudio Tovar – Simbad de Bagdad (1986)

O TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados mais um álbum infantil que, por certo, vai fazer muitos deles recordarem seu tempo feliz de criança. Ele foi concebido por Lucinha Lins em companhia de seu segundo marido, Cláudio Tovar, e foi lançado em 1986 pela gravadora Arca Som, que pertencia ao Grupo de Comunicação O Dia, cuja principal empresa era o jornal carioca de mesmo nome, ainda hoje em circulação. Nesse tempo, a extinta Rede Manchete de Televisão havia perdido para a Globo a apresentadora Xuxa Meneghel, e o “Clube da Criança”, que ela apresentava na faixa vespertina, passou a ser uma simples “sessão desenho”. Para não deixar sua programação sem representantes para as crianças, a emissora dos Bloch, aproveitando o sucesso que Lucinha Lins e Cláudio Tovar vinham fazendo em espetáculos teatrais infantis, contratou o casal. Assim, no dia 3 de março de 1986, a Rede Manchete estreava o “Lupu Limpim Clapla Topo”, programa com nome bem incomum e que poucas crianças conseguiam pronunciar. Dirigido por Sérgio Galvão e Cláudio Tovar, e com textos de Lula Torres e Maria Lúcia Dahl, era um infantil bem diferente dos que haviam na época, pois baseava-se em teleteatro com agradáveis curiosidades e, logicamente, recheado de desenhos animados. Tempos depois, o programa passou a contar com um auditório de crianças. Nesta fase, além de brincadeiras como “Cama de gato”, o “Lupu Limpim” tinha dramatizações de clássicos infantis. E tinha também a Lucinha Lins ensinando a “língua do P”, uma forma diferente de falar que acabou caindo no gosto da criançada. O tema de abertura do programa era “Caixa de brinquedos”, que abre também o presente álbum, com produção executiva da própria Lucinha Lins, e dividido em duas partes. No lado A, temos a trilha sonora de um dos musicais teatrais que Lucinha e Cláudio fizeram com sucesso, “Simbad de Bagdad”. No lado B, os temas de “Lupu Limpim Clapla Topo”. Tudo com arranjos e regências de um verdadeiro “craque”, Antônio Adolfo. Em fins de 1987, o “Lupu Limpim Clapla Topo” saiu do ar, e o “Clube da Criança” voltou, agora apresentado por nada mais nada menos do que Angélica, atualmente na Globo. Este álbum de Lucinha Lins e Cláudio Tovar, portanto, é mais um trabalho de qualidade destinado ao público infantil, que o TM oferece com muito orgulho e satisfação. É digno representante de um tempo em que as redes de televisão aberta dedicavam mais espaço a atrações para crianças, que, com o advento da TV por assinatura e da internet , e as restrições impostas pelas autoridades à propaganda de produtos destinados ao consumo infantil, sobretudo guloseimas, passaram a se tornar inviáveis comercialmente. Mas, se as coisas boas um dia se acabam, o TM, através de postagens como esta, faz com que elas fiquem vivas em nossa lembrança!

*Texto de Samuel Machado Filho

Dorival Caymmi – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 149 (2017)

Para alegria dos amigos cultos, ocultos e associados do TM, o Grand Record Brasil, dedicado à musicografia brasileira em 78 rpm, está de volta. Nesta, que é a edição de número 149, apresentamos um pouco da preciosíssima obra de Dorival Caymmi, o poeta seresteiro da Bahia, interpretada por ele próprio em gravações originais. Caymmi veio ao mundo no dia 30 de abril do ano da graça de 1914, na capital baiana, Salvador. Era descendente de italianos pelo lado paterno, e seu bisavô chegou ao Brasil para trabalhar no reparo do Elevador Lacerda. Ainda criança, iniciou-se na música, ouvindo parentes ao piano. O pai, Durival (assim mesmo, com “u”!) Henrique Caymmi, funcionário público e músico amador, tocava ainda violão e bandolim, e a mãe, Aurelina Soares Caymmi, dona-de-casa, mestiça de portugueses e africanos, cantava apenas no lar. Ainda menino, nosso Caymmi era baixo-cantante em um coro de igreja. Aos 13 anos, interrompeu os estudos e passou a trabalhar como auxiliar na redação do jornal “O Imparcial”. Com o fechamento do periódico, em 1929, passou a vender bebidas. Escreve sua primeira música, “No sertão”, em 1930 e, aos vinte anos, faz suas primeiras apresentações como cantor  e violonista em programas da Rádio Clube da Bahia. Em 1935, passa a ter um programa só seu, “Caymmi e suas canções praieiras”. Aos 22 anos, vence um concurso de músicas de carnaval com o samba “A Bahia também dá”. Incentivado por um diretor da Rádio Clube da Bahia, Gilberto Martins, resolve seguir carreira no Sul do Brasil, e embarca para o Rio de Janeiro, então Capital da República, em abril de 1938, num ita (navio que cruzava o Brasil de sul a norte) , a fim de obter emprego como jornalista e estudar Direito. Com a ajuda de parentes e amigos, fez alguns pequenos trabalhos como repórter em “O Jornal”, periódico dos Diários Associados, ainda assim continuando a compor e cantar. Em seguida, estreou como cantor na PRG-3, Rádio Tupi (“o cacique do ar”), apresentando-se dois dias por semana. Foi no programa “Dragão da Rua Larga” que Caymmi apresentou, pela primeira vez, seu samba “O que é que a baiana tem?”, mais tarde interpretado por Cármen Miranda no filme “Banana da terra”,  e que muito contribuiu para a consagração internacional da “pequena notável”. E foi com ele que Caymmi estreou em disco, em dueto com Cármen, em 1939, tendo no verso “A preta do acarajé” (incluído nesta seleção).  Era o pontapé inicial para inúmeros outros sucessos, gravados por ele próprio e por outros intérpretes, em mais de 50 anos de atividade musical, entre os quais, além dos presentes nesta edição do GRB, podemos citar: “A jangada voltou só”, “Marina”, “Acalanto”, “A vizinha do lado”, “Saudade da Bahia”, “Pescaria (Canoeiro)”, “Tão só”, “Sábado em Copacabana”, “Samba da minha terra”, “Eu não tenho onde morar”, “São Salvador”, “Modinha para Gabriela”, “Das Rosas”, “Eu cheguei lá”, “Vou ver Juliana”, “Maracangalha”, “Adeus”, “Trezentas e sessenta e cinco igrejas”, “Oração de Mãe Menininha”, “O bem do mar” e muitos mais. Uma gloriosa trajetória que também inclui apresentações no exterior.  Possuía um estilo pessoal de compor e cantar, com espontaneidade nos versos, sensualidade e riqueza melódica. Além da música, dedicou-se intensamente à pintura. Em 1986, foi merecidamente homenageado pela Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira com o enredo “Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm”, com o qual a “verde-e-rosa” sagrou-se campeã do carnaval carioca. Do casamento de Caymmi com Adelaide Tostes (que, como cantora, usava o pseudônimo de Stella Maris), resultaram três filhos que também seguiram carreira musical, e estão na estrada até hoje:  Nana, Dori e Danilo, além da neta Alice. Dorival Caymmi faleceu em 16 de agosto de 2008, aos 94 anos, no Rio de Janeiro, de insuficiência renal.

Para esta edição do GRB, foram selecionadas doze preciosas gravações de mestre Caymmi, verdadeiras joias da nossa música popular, documentando parcela substancial de sua obra como autor e intérprete. Abrindo o programa, temos “Cantiga”, gravação RCA Victor de 5 de novembro de 1947, lançada em maio de 48 sob número 80-0585-A, matriz S-078820. O samba “Dois de fevereiro”, em homenagem  a Iemanjá, “a rainha do mar”, é gravação Odeon de primeiro de setembro de 1957, com acompanhamento orquestral de Léo Peracchi, lançada em dezembro seguinte com o número 14286-A, matriz 12000, aparecendo também no LP “Caymmi e o mar”, quarto vinil do artista baiano e primeiro no formato-padrão de doze polegadas. Voltando à RCA Victor, temos “Festa de rua”, “cena baiana” gravada em 18 de abril de 1949 e lançada em julho seguinte com o número 80-0596-B, matriz S-078868. Temos em seguida uma amostra do Caymmi apenas intérprete, no samba-jongo “Navio negreiro”, de Alcyr Pires Vermelho, J. Piedade e Sá Roris, gravação Odeon de 5 de março de 1940, com suporte orquestral do palestino Simon Bountman,  lançada em maio do mesmo ano sob número 11850-A, matriz 6311. Uma das obras-primas de Caymmi, o samba-canção “Nem eu”, que o autor já havia interpretado no filme “Terra é sempre terra”, da Vera Cruz, foi por ele gravado na mesma Odeon em 14 de maio de 1952, com lançamento em julho do mesmo ano, com o número 13288-B, matriz 9305. “Nem eu” tem regravações por Ângela Maria, Gal Costa e até mesmo por Hebe Camargo, entre outras. Logo depois, outra obra-prima do mestre baiano: a canção praieira “O mar”, por ele interpretada com acompanhamento orquestral de Radamés Gnattali. A gravação ocupou os dois lados do disco Columbia 55247, registrado em 7 de novembro de 1940 e lançado em dezembro do mesmo ano, matrizes 328 e 329. “Noite de temporal”, outra canção praieira do gênio baiano, é o lado B de “Navio negreiro”, e foi gravado um dia antes, em 4 de março de 1940, matriz 6310. Caymmi a interpreta acompanhado pelos violões de Laurindo de Almeida, Dilermando Reis e Rogério Guimarães. E tome clássico: “Dora”, samba com introdução de frevo, que Caymmi fez no Recife, inspirado numa mulata que dançava o frevo com perfeição, à frente de um bloco que passava em frente a um hotel da capital pernambucana. Antológica gravação Odeon de 18 de junho de 1945, com acompanhamento da orquestra do maestro Fon-Fon , lançada em agosto seguinte sob número 12606-A, matriz 7856. O samba “Lá vem a baiana” foi gravado por seu autor na RCA Victor em 11 de julho de 1947, com lançamento em agosto do mesmo ano, com o número 80-0536-B, matriz S-078763. O samba-canção “João Valentão” foi inspirado em um pescador amigo de Caymmi, Carapeba, e é considerado um dos melhores perfis humanos traçados pelo mestre baiano. Foi por ele imortalizado na Odeon em 28 de maio de 1953, acompanhado pela orquestra de Oswaldo Borba, com lançamento em agosto seguinte sob número 13478-A, matriz 9726, e tem sido bastante regravado, como aliás quase todas as suas obras. “Saudade de Itapoã” é outra obra-prima que o próprio Caymmi imortalizou, desta vez na RCA Victor, em 5 de novembro de 1947, com lançamento em abril de 48, sob número 80-0576-B, matriz S-078823. Para encerrar, uma gravação do início da carreira de Caymmi: a “cena típica baiana” “A preta do acarajé”, que ele interpreta ao lado de Cármen Miranda. Registro Odeon de 27 de fevereiro de 1939, lançado em abril seguinte com o número 11710-B, matriz 6024. Caymmi recolheu o pregão da voz de uma negra vendedora de acarajé , que todas as noites passava por sua rua, em Salvador, e ao servir os fregueses também dizia: “Todo mundo gosta de acarajé, mas o trabalho que dá pra fazer é que é”. Segundo o próprio Caymmi, “em verdade essa canção é muito mais daquela preta que vendia acarajé do que minha”… Enfim, uma pequena-grande amostra do talento, da poesia e da musicalidade de Dorival Caymmi como autor e intérprete, que o GRB tem a grata satisfação de oferecer.

* Texto de Samuel Machado Filho

Luiz Gonzaga – S.Paulo-QG Do Baião (1974)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Começando bem a manhã e antes de sair para o trabalho, vou deixando aqui um ‘disco de gaveta’, ou seja, aquele que está sempre pronto para cobrir um vão. Eu já havia abandonado esse termo, pois afinal, o que não falta aqui no Toque Musical é buraco, furo… Furo do amigo aqui, que nem sempre encontra tempo para manter a tradicional postagem diária. Mas como dizem por aí, é melhor pingar do que faltar.
Seguimos assim, trazendo este lp do Luiz Gonzaga, lançado em 1974 pela gravadora RCA. Aqui temos um disco dedicado aos paulistas e a comunidade nordestina, em São Paulo. Cidade onde o Lua amplificou o seu sucesso, ecoando por todo o Brasil e também fora dele. Trata-se de um lp importante, pois reúne gravações antigas da época dos 78 rpm com uma qualidade de som que só mesmo uma gravadora como a RCA Victor poderia nos dar. Há também o fato de que algumas gravações são raras, como é o caso de “A vida do viajante”, que aqui aparece na versão original. Geralmente quando ouvimos essa música, a versão é sempre em dueto com o filho Gonzaguinha. Na verdade, nem sei se existe essa primeira versão lançada em cd. Embora difícil de se ver e ouvir, acredito que sim, pois a obra do Gonzaga já foi toda rastreada. Confiram aqui essa joinha, é imperdível! 😉

baião da garôa
a vida do viajante
jardim da saudade
marabaixo
catamilho na festa
xaxado
cana só em pernambuco
moda da mula preta
moreninha, moreninha
tô sobrando
relógio do baião
a canção do carteiro
velho pescador
vamos xaxear

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Isolda (1979)

Hoje o TM oferece aos amigos cultos, ocultos e associados o primeiro álbum-solo, como intérprete, de uma compositora que tem mais de noventa músicas gravadas, a maior parte grandes sucessos. Estamos falando de Isolda Bourdot Fantucci, ou simplesmente Isolda.  Foi no dia 9 de janeiro de 1957, em São Paulo, que Isolda veio ao mundo. Seu bisavô e avó maternos foram maestros e compositores, e desde criança ela se interessou por artes em geral. Começou a aproximar-se da música em brincadeiras com o irmão e futuro parceiro Mílton Carlos, escrevendo canções e histórias para teatrinhos de bonecas. Nossa Isolda queria ser jornalista, mas, ainda adolescente, começou a participar, junto com o irmão, de festivais de MPB, muito em moda nas décadas de 1960/70, pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, sendo premiados em vários deles. A partir daí, Isolda e Mílton passaram a receber encomendas de músicas de alguns cantores que sentiram grande sensibilidade artística na dupla de irmãos. Entre eles, Roberto Carlos, que, em seu álbum de 1973, incluiu a música “Amigos, amigos”, primeiro grande sucesso autoral de Isolda e Mílton. Este último gravou seu primeiro disco em 1974, um compacto duplo que incluiu “Samba quadrado”, grande sucesso na época, evidentemente composto em parceria com a irmã. Deles, Roberto Carlos ainda gravaria “Jogo de damas” (1974), “Elas por elas” (1975), “Um jeito estúpido de te amar” e “Pelo avesso” (ambas em 1976). Outros cantores também registraram composições de Isolda e Mílton: Wando (“Amanhã é outro dia”, “Na boca do povo”), Ângela Maria (“Nunca mais”) e Agnaldo Rayol (“Eu levo uma cruz na corrente”). O próprio Mílton gravou “Um acalanto”, “Uma valsa, por favor”, “Telerodovida”, “Me mata” e “Vexame”. Infelizmente, a parceria Isolda-Mílton Carlos terminou prematuramente e de forma trágica, em 1976, quando Mílton faleceu em acidente automobilístico na Via Anhanguera, em São Paulo. Mesmo abalada com a morte do irmão e parceiro, Isolda compôs uma balada romântica que seria seu maior sucesso autoral: nada mais nada menos que “Outra vez”, sucesso de Roberto Carlos em 1977 e merecedor de inúmeras regravações no Brasil (Altemar Dutra, Simone, Emílio Santiago…) e no exterior (Peppino di Capri, Armando Manzanero, Ray Conniff…). “Outra vez” recebeu vários prêmios, foi incluída em trilha sonoras de telenovelas  e até hoje é muitíssimo lembrada. “É uma música que sempre vai me acompanhar”, como diz a própria Isolda. Apesar de todo o seu sucesso como compositora, Isolda sempre teve comportamento sóbrio e discreto, chegando até mesmo a evitar contatos com a mídia. Ainda assim, em 1979, concordou em soltar a voz quando, a convite da RCA, hoje Sony Music, gravou seu primeiro álbum-solo, este mesmo que o TM nos oferece hoje. O disco foi produzido pelo sempre versátil Sérgio Sá, que também se incumbiu dos arranjos e regências, além de assinar a faixa “Dois encontros casuais”. É claro que “Outra vez” está presente no repertório deste álbum, junto com outras composições suas (algumas em parceria com o então já falecido irmão, Mílton Carlos) e de outros autores. Com direito até a regravações de “Ilegal, imoral ou engorda”, de Roberto & Erasmo Carlos, “Um jeito estúpido de te amar” (que ela fez ainda com o irmão) e “Tente esquecer” (que compôs solo), estas duas também hits na voz do “rei da MPB”. A faixa de abertura, “Boleríssimo” (outra parceria com o irmão Mílton), chegou até a ser incluída em uma novela da extinta TV Tupi que não terminou, “Como salvar meu casamento”. Após mais de 140 capítulos exibidos, a novela (cuja trilha sonora já havia sido até lançada em disco) teve sua exibição interrompida no início de 1980, por conta da crise financeira que levou a emissora a fechar suas portas.  E a Tupi não deu nenhuma satisfação quanto à exibição dos capítulos restantes…  Ainda assim, “Boleríssimo” fez sucesso, e inclusive foi regravada por Maria Creuza. Isolda só gravaria mais um álbum além deste aqui, o CD “Tudo exatamente assim”, lançado em 2006 pela marca Toca Disc. E este primeiro disco-solo nos oferece a oportunidade de apreciar um pouco de sua arte como cantora e compositora, sempre com apurada sensibilidade e imenso talento. Confiram…

boleríssimo
um jeito estúpido de te amar
você precisa saber das coisas
questão de dias
não faça assim
outra vez
confidências
apague a luz
ilegal imora ou engorda
dois encontros casuais
sem desespero
tente esquecer

*Texto de Samuel Machado Filho

João Nogueira (1972)

Boa tarde, amigos cultos e ocultos! Para começarmos bem o ano, escolhi um disco que também representa um começo. O começo da carreira do grande compositor e sambista João Nogueira. Este foi o seu primeiro lp, lançado pela Odeon, em 1972. A capa do disco é originalíssima, replicando a manchete do jornal O Globo, onde o escritor e jornalista Carlos Jurandir nos apresenta o artista e seu disco de estréia. Certamente, a manchete saiu antes do lançamento do disco. A capa, por si só, já dá o recado e eu como sou muito preguiçoso, aproveito a onda pra ir de jacarezinho. Ou seja, recomendo, maiores informações, consulte a capa 😉
Sei que há tempos tenho andado um tanto desleixado com minhas postagens, inclusive o trabalho de apresentação. Depois que troquei o computador e perdi meus programas piratas de edição de imagens, nem as capas eu tenho tratado. Mas como um autêntico virginiano, eu odeio essas ‘meia-bocas’, para mim, a coisa tem que estar certinha. Acho que só não tomei providências ainda, porque ninguém tem reclamado. Aliás, quase ninguém mais dá sinal de vida neste blog. Sei que eu sou um chato de dar medo, mas fiquem tranquilos, eu ainda não mordo. (kkk…)

morrendo verso em verso
maria sambamba
beto navalha
mãe solteira
alô madureira
heróis da liberdade
mariana da gente
prum samba
meu caminho
das 200 pra lá
blá blá blá
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Elza Soares – O Samba É Elza Soares (1961)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Enfim, lá se foi 2016. Pqp, que ano feio! Fomos golpeados de todas as maneiras. Uma sequência de maus momentos que ainda insiste em se manter em 2017. Mas como diria o grande Belchior: ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro! Por aqui, no Toque Musical quem salvou o ano foi o amigo Samuca. Sem ele como colaborador, eu confesso, já teria desanimado. Aproveito para deixar aqui os meus agradecimentos, toda a atenção e empenho dedicado ao blog. Valeu, Samuel Machado Filho! Continuo contando com você em 2017. Por certo, também não posso deixar de agradecer a alguns poucos amigos cultos e ocultos que ainda visitam com frequência o nosso sítio. Obrigado pela colaboração e participação de todos. Desejo a vocês também um ótimo ano e que este seja mais musical e envolvente, pelo menos aqui no TM.
A postagem de hoje, “Elza Soares – O Samba é Elza Soares” já estava agendada desde o inicio do ano, mas por força das circunstâncias acabou ficando para o último dia. Deste álbum e desta cantora eu não preciso dizer muita coisa, todos já os conhecem bem. Temos aqui um clássico lp da Odeon, em capa sanduíche tradicional da gravadora. Elza Soares, sempre no auge do sucesso, nos apresenta uma seleção de ótimos sambas, com arranjos e orquestração do maestro Astor Silva que dá aos metais o nobre destaque. Neste álbum Elza também conta com a participação de, outro grande, o sambista e compositor Monsueto, presente em pelo menos três faixas. Um disco inegavelmente importante, que agora também faz parte de nosso acervo digital. Confiram…

eu e o rio
vedete certinha
teleco teco
bom mesmo é estar bem
fez bobagem
amor de mentira
na base do bilhetinho
cantiga do morro
acho que sim
ziriguidum
vou sonhar pra você ver
reconciliação

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