Antonio Carlos E Jocafi – Trabalho De Base (1980)

Dois cantores e compositores nascidos na Bahia, e ainda hoje queridos do público. São Antônio Carlos e Jocafi, que trazemos hoje para os amigos cultos e ocultos do Toque Musical. Ambos são da capital da Boa Terra, Salvador. Antônio Carlos Pinto veio ao mundo em 24 de outubro de 1945, no Alto da Silveira, bairro do Garcia. Por volta de 1955, sua família se mudou para o Rio Vermelho. Desde cedo Antônio Carlos, evidentemente, se interessava por música, tocando um pouco de violão e piano, e já começando a compor. Isso iria aproximá-lo da nata da musicalidade que morava no Rio Vermelho ou frequentava o bairro, famoso pela boemia, por suas tradições e seus moradores ilustres (entre eles o escritor Jorge Amado).  Com o tempo ele adquire prática, e se transforma em guitarrista de orquestra, passando a  tocar com o maestro Carlos Lacerda (a quem por sinal o álbum de hoje do TM é dedicado) em clubes e boates soteropolitanos. E foi tocando numa festa no Clube Português que conheceu  uma cantora que também se iniciava e seria sua parceira na vida e na música: Maria Creuza. É ela quem defende, no Festival de MPB da TV Record de São Paulo, em 1967, sua música “Festa no terreiro de Alaketu”, que acabaria sendo a primeira gravação da cantora. Jocafi (sigla de seu nome completo, José Carlos Figueiredo), nasceu em 21 de dezembro de 1944, no bairro soteropolitano de Cosme de Farias. E sua história não é lá muito diferente da do parceiro Antônio Carlos: ambos gostavam de futebol e aprenderam a tocar o violão de rua, e Jocafi teve a oportunidade de ser pupilo-admirador do lendário compositor, violonista e cantor Codó.Sua experiência musical começou igualmente na infância, seja ouvindo o som do serviço de alto-falante (que tocava Waldik Soriano, Bienvenido Granda, Lucho Gatica, Trio Irakitan…) enquanto jogava futebol de rua, seja ouvindo sua mãe cantar músicas antigas de Noel Rosa, Ismael Silva e outros. Ainda adolescente, José Carlos,o futuro Jocafi, começa a frequentar com assiduidade o Mercado Modelo, a Meca da música baiana nesse tempo, assimilando os batuques, a capoeira e os sambas-de-roda, que seriam essenciais em seu trabalho criativo. Mesmo com as serestas lhe atraindo mais que os estudos,consegue conciliar estudo, trabalho e boemia, graças à boa formação familiar. Conheceu Antônio Carlos por intermédio do já citado maestro Carlos Lacerda, passando a se apresentar juntos em programas da televisão baiana, cantando e tocando violão e guitarra. Com Antônio Carlos ao piano, Evandro na bateria e Luís Berimbau no baixo. Em 1969, a dupla tem sua composição “Catendê” (parceria com o letrista Ildásio Tavares) defendida por Maria Creuza no Festival de MPB da TV Record. Um ano mais tarde, Antônio Carlos e Jocafi são contratados pela RCA e gravam seu primeiro disco, um compacto simples com duas músicas de autoria própria: “Roberto, não corra” (resposta a “Por isso corro demais” e “As curvas da estrada de Santos” , hits de Roberto Carlos) e “Por causa dela”. Um ano mais tarde, chegam os primeiros sucessos: para começar, o clássico “Você abusou” , até hoje o maior hit da dupla, cuja versão em francês, “Fais comme l’oiseau”, feita por Michel Fugain, virou hino do Partido Socialista da França, e que tem outras versões gravadas internacionalmente, inclusive por Stevie Wonder e Célia Cruz. Depois, vem “Desacato”, segundo lugar no FIC (Festival Internacional da Canção), promovido pela TV Globo naquele ano de 1971. Completando a história, vem o primeiro LP, “Mudei de ideia” (cuja faixa-título imediatamente chama a atenção do público). Também compuseram as trilhas sonoras de duas novelas da TV Globo, “O primeiro amor” (1972) e “Supermanuela” (1974). Outros hits conhecidos de Antônio Carlos e Jocafi são “Teimosa”, “Fraqueza”, “Toró de lágrimas”, “Dona Flor e seus dois maridos”, “Jesuíno Galo Doido”, “Ossos do ofício”, “Chuculatêra”, “Dona da casa” , “Estrela amante” e “Deixe que é dengo dela”, só para citar alguns. A discografia de Antônio Carlos e Jocafi em dupla abrange um total de 12 álbuns, e inúmeros compactos. Este “Trabalho de base”, que o TM apresenta hoje, é o oitavo LP da dupla, também correspondendo ao nome do grupo que  os acompanha, com o devido apoio do “cobra” José Briamonte nos arranjos e nas regências. Dez faixas são assinadas pelos próprios Antônio Carlos e Jocafi (algumas com parceiros), e duas por Zé do Maranhão (uma delas, “Roça errada”, tem a respeitável co-autoria de Noca da Portela). Mesmo esquecidos por boa parte da mídia, como costuma acontecer, Antônio Carlos e Jocafi continuam na ativa, recebendo os aplausos merecidos do público, redescobertos por DJs nacionais e estrangeiros e até mesmo por Marcelo D2 . Este “Trabalho de base”, por certo, irá agradar aos fãs da dupla, e é um de seus raríssimos vinis, daqueles que ninguém se desfaz por dinheiro algum. Ouçam e comprovem!

agua viva
recaída
orô mi mayo
peso morto
batalha de canudos
roça errada
meu endereço é o bar
poucas e boas
pimenta malagueta
ossain
pé de coelho
areia movediça
* Texto de Samuel Machado Filho

De Castro – Melodias Do Brasil (196…)

Boa noite, amigos cultos e ocultos! Não era para estranhar. Depois de quase 8 anos na ativa, mantendo sempre uma identidade muito própria, o Toque Musical tem se tornado alvo de especulações. Tem gente por aí de olho no nome Toque Musical. Estão querendo o domínio e se eu marcar bobeira vão me tirar até as minhas marcas e logos. Já recebi uns três e-mails de gente me forçando a liberar o domínio. Mas enquanto eu conseguir manter este espaço independente, longe do julgo e deliberação de Blogger, Worldpress e outros, vou continuar agarrado no osso. Não largo mão desse endereço e nem da marca Toque Musical. O avatar do Augusto TM também é outro que já foi parar em botons, estampado em camisetas e até sacolas. Virou um ícone! Vai lá, divulguem, mas ajuda a gente aqui a manter o disco rodando. Em tempos como este, toda doação é bem vinda.
Muito bem, eis aqui a postagem do dia… Trago hoje para vocês mais uma dessas raridades. Aliás, não sei o que é mais, se raro ou curioso. Como se pode ver logo de cara, ou melhor, de capa (e contracapa), temos aqui um disco estrangeiro, vindo lá da Polonia, E claro, acabou caindo na minha mão (eu adoro isso). Temos aqui “Melodias do Brasil”, um inusitado álbum que tem como seu intérprete o sorridente cidadão, De Castro. Mas quem seria esse artista? Nunca tinha visto, nem ouvi falar. No texto de contracapa, escrito em polonês e também em inglês, a informação é superficial e não nos esclarece muito. Conforme o texto, De Castro era Niltinho, cantor da noite, artista com apresentações em casas noutrnas, no rádio, tv e cinema. Também compositor, tendo, segundo o texto, participado com sua música de filmes importantes. Com um currículo como este era para a gente encontrar muita informação através do Google. Mas, qual nada… De Castro, Niltinho, Nilton de Castro… era como procurar agulha no palheiro. Definitivamente, não achei uma pista, apenas suposições. Quem seria este artista? Talvez fizesse parte de algum grupo brasileiro em excursão pela Europa. No texto diz que ele fez uma tournê de sucesso por vários países europeus, o que talvez tenha motivado os polacos a gravarem o rapaz. Mas é ouvindo o disco que a gente consegue imaginar melhor a situação. Pra começar, parece que nessa investida fonográfica, de brasileiro só tinha ele mesmo. Até mesmo os músicos que o acompanham, logo de cara se percebe, não são brasileiros. Aquela batida do samba, aquele jeito de tocar não era coisa daqui. Chega mesmo a ser curiosa algumas interpretações, tais como o samba carnavalesco de Haroldo Lobo e Niltinho, “Tristeza”, ou “Manhã de carnaval”, de Luiz Bonfá. Melhor ainda, no quesito curiosidades, temos também a “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, ou “A felicidade”, de Tom e Vinícius, aqui chamada de “Adieu tristesse”. O resultado é aquela coisa que a gente já sabe, um quase samba, uma quase bossa. Samba do crioulo branco. Por outro lado, temos também as composições próprias. Quatro das doze faixas são composições do De Castro, músicas essas, por sinal, muito boas. Teriam um melhor sabor se fossem arranjadas e interpretadas por brasileiros. O resultado, num geral é algo que lembra assim um Agostinho dos Santos ao lado da orquestra do Paul Mauriat (só lembra,ok?)
No campo da suposições, acredito que este artista tenha ficado um bom tempo na Polônia pois, como disse, ele está sozinho nessa empreitada e pelos resultados, creio que coube a ele também ensinar aos polacos a batida da música brasileira e isso é coisa que não se faz em menos de um mês. Para finalizar, deixo aqui outra curiosidade, das mais interessantes supostas por mim :) Pesquisando daqui e dali com as poucas pistas que consegui, chego a conclusão de que Nilton De Castro era irmão por parte de pai do Wilson Simonal. No livro “Nem vem que não tem – A vida e o veneno de Wilson Simonal”, de Ricardo Alexandre, há uma passagem em que ele fala de um show na boate Sucada, onde Simonal apresenta ao público o seu pai, Lúcio Pereira de Castro, que havia saído de casa, abandonando a família há mais de 20 anos. O velho foi assistir ao show do filho acompanhado pelos meio-irmãos, entre esses um que se chamava Nilton de Castro, que também era compositor e Simonal inclusive chegou a gravar uma música sua. Juntando peças daqui e dali, cheguei então a essa conclusão. Será mesmo o De Castro irmão por parte de pai do grande Simonal? Termino deixando assim esta dúvida. Que me corrijam os ‘entendidos’… Nem vem que não tem! ;)

aquarela do brasil
não lamentes
le le le do negro sete
segura o samburá
tristeza
tema da rosa
maria elena
manhã de carnaval
adieu tristesse (a felicidade)
amor nada mais
a noite do meu bem
usted
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Marília Batista – Dircinha Batista – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 129 (2014)

A  edição número 129 do Grand Record Brazil, “braço de cera” do Toque Musical, oferece alguns dos melhores momentos de duas  notáveis cantoras da MPB, que não eram parentes, apesar do sobrenome ser igual:  Marília e Dircinha Batista. São dezesseis gravações raras, sendo chover no molhado falar de seu valor artístico e histórico, absolutamente incontestável.
Marília Monteiro de Barros Batista nasceu no Rio de Janeiro em 13 de abril de 1918, filha do médico do Exército Renato Hugo Batista e da pianista Edith Monteiro de Barros Batista. Seus irmãos, Henrique e Renato, eram também compositores, o que faria nossa Marília (neta do poeta e Barão Luiz Monteiro de Barros) interessar-se desde menina pela música. Seu primeiro violão foi “ganho” por acaso, aos seis anos de idade, quando o barbeiro da família, numa ida à sua casa para cortar os cabelos do pai e de um irmão, esqueceu lá o seu instrumento. O violão seria uma de suas eternas paixões, e ela não o largaria mais, já mostrando talento de compositora aos oito anos. Estudou no Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da Universidade Federal  do Rio de Janeiro), onde se formou em teoria, solfejo e harmonia,apesar de ter abandonado, no quarto ano, o curso de piano. Em 1930, levada pelo jornalista Lauro Sarno Nunes (pai do humorista Max Nunes), fez seu primeiro recital, no Cassino Beira-Mar, interpretando, com sua voz e seu violão, canções sertanejas, sambas e cateretês, além de suas primeiras composições próprias. Aos 12 anos, começou a estudar violão com Josué de Barros, que, após ficar encantado com o recital da menina Marília, fez questão de lhe dar aulas por conta própria. Marília estudou com Josué por seis meses, mas, como pretendia ser concertista, passou a ter aulas de violão clássico com o virtuose José Rebelo. Porém, seu interesse pela música popular sempre foi mais forte. Em 1931, aos 14 anos, convidada para se apresentar no espetáculo “Uma hora de arte”, no Grêmio Esportivo Onze de Junho, ali conheceu Noel Rosa. Ambos logo se tornaram grandes amigos, e Marília é até hoje considerada por historiadores da MPB uma das melhores intérpretes de Noel, ao lado de Aracy de Almeida.  O primeiro disco viria em 1932,apresentando duas músicas suas de parceria com o irmão Henrique Batista: o samba “Pedi, implorei” e a marchinha “Me larga”. Em 1933,a convite de Almirante, participa do Broadway Cocktail, um espetáculo que acontecia no Cine Broadway, antecedendo o filme, ao lado de medalhões da MPB nessa época, tais como Sílvio Caldas e Jorge Fernandes. O sucesso fez com que, a convite de Ademar Casé (avô da humorista e apresentadora de TV Regina Casé),Marília participasse do “Programa Casé”, na PRAX, Rádio Philips. No programa, fazia improvisos e versinhos das propagandas dos patrocinadores, ao lado de Noel Rosa, com quem gravou três discos com seis músicas. Foi para Marília Batista que a mãe de Noel,  Dona Martha, após sua morte(1937),  entregou os manuscritos do filho, que a cantora repassou para Almirante. Foi uma das pioneiras da Rádio Nacional, inaugurada em 1936, e lá faria parte do grupo vocal As Três Marias, com quem gravaria alguns discos e acompanhou os cantores da emissora. Em 1945, ao se casar, interrompeu por alguns anos suas atividades artísticas, mas, no início da década de 1950, retomou-as, gravando inúmeros LPs,  incluindo músicas de seu amigo Noel Rosa, até mesmo inéditas que aprendera com ele (sua discografia também abrange cerca de 30 gravações em 78 rpm). Nos anos 1960, resolveu voltar a estudar e formou-se em Direito. Em 1988, quando participou do projeto “Concerto ao meio-dia”, no Teatro João Teotônio, foi aplaudidíssima pela plateia que superlotava o recinto, chegando a ir às lágrimas. Marília Batista faleceu em seu Rio natal, no dia 9 de julho de 1990. Abrindo esta seleção do GRB, ela interpreta justamente um samba de Noel, “Tipo zero”, composto em 1934, mas só gravado por Marília Batista em 1956, na Musidisc de Nilo Sérgio, integrando o 78 número M-50046-A, matriz MD-10091, e, como faixa de abertura, o LP de 10 polegadas “Samba e outras coisas”, título de um programa que seu irmão Henrique manteve no rádio por muitos anos.  Noel  faria retoques na segunda parte deste samba, e colocaria uma estrofe a mais para encaixá-lo na opereta “A noiva do condutor”, só gravada na íntegra em 1986, em álbum da Eldorado, já oferecido a vocês pelo TM.  Em seguida, temos mais cinco sambas de Noel Rosa, cantados por Marília em dueto com ele,  já no final da curta vida do compositor, e em sua maior parte com acompanhamento do regional de Benedito Lacerda,  e sua inconfundível flauta. “Provei” é da parceria de Noel com Vadico, gravação Odeon de 12 de novembro de 1936, lançada em dezembro do mesmo ano para o carnaval de 37, disco 11422-A, matriz 5445. O lado B, matriz 5446, está na faixa 8: ”Você vai se quiser”, único samba que Noel fez para sua esposa Lindaura, que se dispôs a trabalhar fora, dadas as dificuldades financeiras do casal. Noel, nada feminista, revidou:  “Ela esquece que tem braços,nem cozinhar ela quer”…  “Cem mil-réis” (faixa 3)  é outro produto da parceria Noel-Vadico, gravação Odeon de 5 de março de 1936, lançada em abril do mesmo ano, disco 11337-B, matriz 5275. Em seguida, na faixa  4, matriz 5277, o lado A desse disco:  o divertido e clássico “De babado”,  conhecido e regravado até hoje, como praticamente tudo do Poeta da Vila.  A letra menciona inclusive o cavalo Mossoró, vencedor do Grande Prêmio Brasil de Turfe em 1933. Ironicamente,era “De babado” que estava sendo executado numa casa vizinha a de Noel, no dia de sua morte (4 de maio de 1937), quando ele já agonizava em seu leito, consumido pela tuberculose. Na faixa 5, “Quem ri melhor”, samba de sucesso no carnaval de 1937, o último da vida de Noel, e feito sem parceria. Gravação Victor de 18 de novembro de 36, com acompanhamento dos Reis do Ritmo, lançada em dezembro seguinte sob número 34140-A, matriz 80258. “Silêncio de um minuto”, samba feito por Noel em 1935, só foi gravado pela primeira vez,  por Marília Batista, cinco anos depois, com Noel já falecido, em 20 de março de 1940, com lançamento pela Victor em maio do mesmo ano, disco 34604-B, matriz 33356. É uma versão resumida, pois o samba só foi gravado com a letra completa em 1951, por Aracy de Almeida.  Por fim, uma amostra do trabalho exclusivamente autoral de Marília Batista: o “Samba de 42”, parceria dela com o irmão Henrique Batista, mais Arnaldo Paes. Quem canta é Arnaldo Amaral, também galã de cinema, e o lançamento se deu pela Columbia em janeiro de 1942, é claro, para o carnaval, disco 55320-B, matriz 491.
 Filha do comediante Batista Júnior e irmã da também cantora Linda Batista, Dirce Grandino de Oliveira, aliás Dircinha Batista (São Paulo, 7/4/1922-Rio de Janeiro,  18/6/1999) começou bem cedo sua carreira artística: em 1930, aos oito anos de idade, como Dircinha de Oliveira, gravou seu primeiro disco, na Columbia,futura Continental,  interpretando duas composições do pai, “Dircinha” e “Borboleta azul”. Em mais de 40 anos de estrada, gravou mais de 300 discos em 78 rpm, e alguns LPs  e compactos, com inúmeros hits, especialmente carnavalescos, além de atuar no rádio, no teatro e no cinema (apareceu em 16 filmes). Foi eleita Rainha do Rádio em 1948, substituindo a irmã Linda, que detinha a coroa desde 1937. Parou de cantar em 1972, abalada pela morte de sua mãe, Emília Grandino de Oliveira, e pelo descaso da mídia com os astros do passado.  Nos últimos anos de vida, Dircinha e sua irmã Linda foram amparadas pelo cantor José Ricardo, que as acolheu como membros de sua família. No final dos anos 1980, surgiu o musical “Somos irmãs”, estrelado por Nicete Bruno e Suely Franco, relatando a vida das irmãs-cantoras.

Nesta edição do GRB, um pouco do legado artístico-musical de Dircinha Batista. Para começar, a bem-humorada e divertida “Canção pra broto se espreguiçar”,  que leva a respeitável assinatura de Mário Lago, gravada na RCA Victor por Dircinha em primeiro de julho de 1955 e lançada em setembro do mesmo ano, disco 80-1493-B, matriz BE5VB-0810. Mais tarde, entraria no LP-coletânea de 10 polegadas “Elas cantam assim”. “Chico Brito” é um samba clássico e bastante conhecido, de autoria de Wilson Batista e Afonso Teixeira.  Gravado por Dircinha na Odeon em primeiro de dezembro de 1949, só seria lançado menos de um ano depois (outubro de 50), sob número 13047-B, matriz 8603. O nome Peçanha foi posto na letra da música para substituir “meganha”, gíria da época para policial. Note-se também uma menção à “erva do norte”, possivelmente…   Adivinha! O samba “Icaraí”, de Raimundo Flores e Célio Ferreira, é uma exaltação à famosa praia situada em Niterói, litoral fluminense, imortalizada por Dircinha Batista na Continental em 19 de abril de 1948 e lançada em  julho-setembro do mesmo ano, disco 15923-A, matriz 1851. Mostrando que sabia dar o recado até em inglês, Dircinha interpreta depois, com acompanhamento orquestral de Aristides Zaccarias, o fox “I only have eyes for you”, de Harry Warren e Al Dubin, composto em 1934. Gravação RCA Victor de 1957, do LP de 10 polegadas “Música para o mundo”. “O teu sorriso me prendeu” é uma marchinha de meio-de-ano, assinada pelo pistonista Bomfiglio de Oliveira, com letra de Walfrido Silva. Dircinha a gravou na Victor na plenitude de seus 13 anos, acompanhada pela endiabrada orquestra Diabos do Céu, de Pixinguinha, em 8 de julho de 1935, sendo lançada em agosto do mesmo ano, disco 33961-B, matriz 79969. A batucada “A coroa do rei”, de Haroldo Lobo e David Nasser, foi uma das músicas campeãs do carnaval de 1950, imortalizada por Dircinha na Odeon em 30 de setembro de 49 e lançada ainda em dezembro, disco 12962-B, matriz 8564. Do carnaval de 1946 é o samba “Que papagaio sou eu?”,  de Wilson Batista e Henrique de Almeida, lançado por Dircinha na Continental em janeiro daquele ano, disco 15574-B,matriz 1352. Encerrando este volume,uma curiosidade histórica:  o jingle publicitário gravado por Dircinha para o Auris Sedina, um remédio para dor de ouvido, produzido até hoje pelos Laboratórios Osório de Moraes. Bastante veiculado no rádio durante os anos 1950, ficou na memória de muita gente. E,  se depender de iniciativas como a deste volume do GRB, as Batistas aqui recordadas, Marília e Dircinha, vão ficar para sempre na memória de muitos!

* Texto de Samuel Machado Filho

Trio Camara – Le Trio Camara (1968)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Nesse mundo de colecionadores de vinil a gente sempre tem muitas surpresas. Como eu sempre digo, o grande barato disso tudo não está em ter raridades, mas está sempre a procura delas. Ou mais ainda, o momento do encontro, quando que por sorte ou por destino aquele determinado disco cai na sua mão. Na semana passada estive garimpando discos aqui pela cidade. Geralmente eu não faço isso aqui em Belô, dou preferência por outras praças, outras cidades onde sei que vou encontrar coisas diferente. Já conheço bem as lojas e os colecionadores de BH e por aqui os acervos não mudam muito. É preciso dar um tempo. O tempo para os encantos se desencantarem. Para os desapegos florescerem e definitivamente, para que coleções fiquem órfãs e sejam de imediato descartadas pelos familiares do falecido. É, o mundo dos discos e das raridades é assim… ao longo do tempo eles acabam passando de mão em mão, isso quando não se perdem nas mão de outros, os descuidados. Dá mesmo um puta prazer encontrar um disco raro e em boas condições. Melhor ainda quando a gente o encontra perdido entre as ofertas à preço de uma banana. Foi mais ou menos assim que aconteceu comigo há alguns dias atrás. Encontrei em um dos grandes sebos da cidade esta jóia que aqui eu volto a postar. Digo volto, porque há tempos atrás, logo no início do Toque Musical eu cheguei a postá-lo aqui, através de uma colaboração de um dos nossos visitantes. Agora, tendo o disco integralmente em meu prato, posso novamente postá-lo de maneira descente. Como vocês sabem, eu gosto de publicar os discos completos, incluindo capa, contracapa, selos e encartes quando tem. Foi providencial eu ter digitalizado e fotografado a capa logo no mesmo dia que comprei, pois ontem, na Feira de Vinil da Savassi, levei ele para um passeio e não deu outra… acabei vendendo. Mas só vendi porque a oferta foi tentadora. Paguei 15 reais e vendi por 250. Teria me arrependido não fosse o fato de que com esses mesmo 250 comprei um lote de uns cento e poucos discos, entre os quais haviam tantas outras preciosidades as quais eu ainda estou avaliando. Logo vocês terão notícias por aqui, pois certamente irei compartilhar minha alegria com todos.
Bom, falando um pouco sobre a ‘joinha’ do dia, este é um álbum essencialmente de jazz, o jazz com bossa, o jazz made in brazuca. Um disco originalmente produzido na França, em 1968 e editado pelo selo francês Saravah, apresentando o Trio Camara, formado pelos músicos brasileiros Fernando Martins (piano), Edson Lobo (contrabaixo) e Nelson Serra (bateria). Para muitos, este é considerado um dos melhores discos de música instrumental, na linha jazz-bossa. Excelentes músicos gravando em condições perfeitas e apresentando um repertório fino com músicas próprias e dos mestres Baden Powell, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Edu Lobo, Noel Rosa, Sérgio Mendes, João Donato e Durval Ferreira.
Como disse, este lp foi produzido por uma editora francesa, mas veio também a ser lançado no Brasil, no ano seguinte (1969) pelo obscuro selo Joda Discos, com as mesmas características do original, ou seja, em capa dupla. Um disco, sem dúvida, muito bom. Vale a pena ouvir de novo ;)

berimbau
não tem solução
bia
nascente
estrada do sol
upa neguinho
feitio de oração
chegança
noa noa
muito a vontade
samba novo
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The Brasilia Nueve – How Insensitive (1967)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Fuçando em uma pilha de discos que tenho e que nunca dei muita bola, achei por acaso este álbum que aqui eu apresento a vocês. Eu também, por certo, estou conhecendo este lp agora. Trata-se de um disco estrangeiro, de jazz, liderado pelo pianista americano Bill Potts. Como podemos ver logo de cara, na capa e contracapa ele nos apresenta um título bem sugestivo: “How insensitive” e completando, o nome do conjunto é The Brasilia Nueve. Não é preciso dizer mais nada, já dá para entender que a onda aqui é a Bossa Nova. A bossa, influencia do jazz, ou o jazz influenciado pela bossa? A coisa se materializa quando ao virar a contracapa encontrarmos “Insensatez”, de Tom e Vinícius; “Agora posso entendê-lo”, de Nelson Lins de Barros; “Samba da benção”, de Baden e Vinícius (e que também foi tema do filme “Um homem e uma mulher”); “Meditação”, de Tom e Newton Mendonça e “Esquecendo você”, também de Tom Jobim.
O disco foi lançado originalmente nos ‘States’ em 1967, pelo selo Decca. No Brasil o álbum foi lançado no ano seguinte pela Chantecler. Não vou entrar em detalhes sobre o conjunto, pois para a minha felicidade já está tudo bem explicadinho na contracapa. Aproveitem a ocasião, pois como todos devem saber os prazos por aqui são limitados. Se não baixarem logo no GTM vão ficar a ver apenas esta postagem. Como já disse, links por aqui não tem retorno, ok?

insensatez
brasilvelle
day by day
agora posso entendê-lo
samba da benção
teach me tonight
meditação
como va
que se vaya
esquecendo você
.

Sílvia Maria – Coragem (1981)

Boa noite, amigos cultos e ocultos! Eu até que estava animado com os discos de samba, mas por não ter nada que achasse relevante em minha gaveta, preferi tomar outro rumo. Ou melhor, decidi postar outra coisa, outro disco… Vamos hoje com a cantora paulista Silvia Maria. Uma artista muito talentosa que em 1973 estreou em lp com o excelente álbum “Porte de rainha”, álbum este que eu já postei aqui há tempos atrás. Passaram-se quase oito anos até que ela voltasse em um novo álbum solo. Tomou coragem, quer dizer, gravou em 1980 este que foi o seu segundo trabalho e que justamente se chama “Coragem”. Um disco também muito bom, com dez faixas muito bem escolhidas e participação especial do violonista Baden Powell.
Pelo jeito, Silvia Maria não é desses artistas que gravam muito, mas sim que gravam bem. Em 2011 ela voltou à cena lançando o CD “Ave rara”. Vamos ver se a gente o encontra para postarmos aqui no Toque Musical numa próxima oportunidade. Confiram

samba da partida
fim de abril
irmão de fé
poema das lágrimas
kangala
pedacinhos do céu
fim de papo
acalmar
desperta
canção das flores
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Bahiano – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 128 (2014)

O Grand Record Brazil chega à sua edição de número 128 trazendo um autêntico pioneiro da gravação de discos no Brasil: o Bahiano.

Batizado com o nome de Manuel Pedro dos Santos, nosso focalizado era mesmo baiano, nascido em 5 de dezembro de 1870 na cidade de Santo Amaro da Purificação, que, muito mais tarde, por coincidência, seria o berço natal dos irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia. Um dos mais populares intérpretes brasileiros do início do século XX, Bahiano integrou o primeiro grupo de cantores profissionais da Casa Edison, fundada em 1900 pelo tcheco Fred Figner, ao lado de Cadete, Mário Pinheiro e Eduardo das Neves.  Nesse tempo, em que a gravação de discos era pelo processo mecânico, o artista tinha que cantar na boca de uma enorme corneta: o microfone!  E o técnico de gravação empurrava o cantor para perto da tal corneta nas notas graves e o puxava para mais longe nas agudas. E ainda, na hora do coro, todos se amontoavam junto do microfone! Duro, não?
Bem, o fato é que a Casa Edison lançou seu primeiro suplemento de discos fonográficos, substituindo os cilindros, exatamente no dia 5 de agosto de 1902. E o primeiro deles foi justamente com o nosso Bahiano,  o lundu “Isto é bom”, de Xisto Bahia (que evidentemente abre este volume), pontapé inicial para inúmeros outros sucessos,  alguns deles aqui reunidos, que manteriam sua popularidade até 1924, quando, espontaneamente, aposentou-se do disco.  Como cançonetista, Bahiano atuou no teatrinho do Passeio Público e no Circo Spinelli, chegando a aparecer em  filmes de curta-metragem, como “O cometa” e “A seresta caipora”, ambos de 1910. Em sua discografia predominam as modinhas e lundus, que conhecia muito bem, mas hoje ele é principalmente lembrado pela gravação de “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, considerado o primeiro samba “cem por cento” levado a disco (também neste volume). Foi casado com Almerinda Pedro dos Santos, que faleceu em 1937. No mesmo ano, compôs, em homenagem a ela, a valsa “Dores íntimas”, jamais gravada. Bahiano não se adaptou ao processo elétrico de gravação, pois já era considerado um artista da chamada “velha guarda”, além do quê alguns de seus companheiros já haviam falecido (Mário Pinheiro, Eduardo das Neves) ou se aposentaram precocemente (caso de Cadete). Ainda assim, continuou funcionário da Casa Edison, uma compensação que Fred Figner lhe deu pelos serviços prestados nos primeiros tempos da companhia, pois era a “cara” da mesma. E lá continuaria trabalhando até falecer, em  15 de julho de 1944, aos 73 anos.

 

Nesta edição do GRB, temos 19 preciosíssimos fonogramas do pioneiro Bahiano, verdadeiros documentos da heroica era das 76 rotações por minuto (sim, 76, as 78 rpm viriam muito depois), todas evidentemente da Casa Edison, selos Zon-O-Phone e Odeon.  Abrindo-a, temos justamente “Isto é bom”, lundu de Xisto Bahia também conhecido como “Iaiá, vancê qué morrê?”, lançado em agosto de 1902 com o selo Zon-O-Phone, sob número 10001, justamente o disco pioneiro de nossa fonografia, depois relançado com o número X-1031. Note-se o improviso que Bahiano faz entre as estrofes, numa lembrança de Xisto Bahia, falecido oito anos antes.  A faixa seguinte é a embolada “A espingarda”,de autoria de Jararaca (José Luiz Rodrigues Calazans), lançada pela Casa Edison com o selo Odeon sob número 122102, em 1922. A marchinha “Ai, amor”, de Freire Júnior, é do carnaval de 1921, lançada pela Odeon/Casa Edison com o número 121974. Em seguida,a cançoneta “O angu do barão”, de Ernesto de Souza, data de 1903, e é do disco Zon-O-Phone  X-670, reeditado depois com o número X-1046. Nossa quinta faixa é a marchinha “A baratinha”, de autoria do português Mário São João Rabelo, sucesso do carnaval de 1917, época em que já se delineava uma produção musical exclusivamente para os festejos momescos.  Bahiano a lançou pela Odeon/Casa Edison sob número 121320. A cançoneta “A pombinha da Lulu”, de Costa Silva, é gravação de 1913, disco Odeon 120148, matriz XR-1692. A marchinha “Ai, Filomena”, adaptação de uma canção italiana feita por J. Carvalho de Bulhões, com letra ironizando o então presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, o “seu Dudu”. foi sucesso no carnaval de 1916, em disco Odeon 120988. O cateretê “Eu só quero é beliscá”, de Eduardo Souto, data de 1922 (Odeon 122127).  De letra bastante apimentada, a cançoneta “O taco”, de autor desconhecido, data de 1913, e a Odeon/Casa Edison a lançou na voz do nosso Bahiano sob número 108531, matriz XR-1127. Como se vê,as plateias não eram assim tão puritanas como pensamos hoje… Outra cançoneta de autor desconhecido é “Os mosquitos”, gravação também de 1913, do Odeon 108716. Nessa época, o Rio de Janeiro,´então capital do Brasil, enfrentava séria epidemia de febre amarela, combatida com energia pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz. “Pra exposição”, de autor desconhecido, é de 1903, disco Zon-O-Phone X-697.  A modinha “Quem eu sou?”, igualmente de autor ignorado,saiu em fevereiro de 1914, e é do disco Odeon 120917. A faixa seguinte é um verdadeiro clássico da MPB: o tango-fado “Luar de Paquetá”, de Freire Júnior e Hermes Fontes, sem dúvida a mais belas das composições musicais que a famosa ilha do litoral do Rio de Janeiro inspirou.  Bahiano a imortalizou no Odeon 122064,em 1922, e neste registro original ele canta a letra completa, o que jamais aconteceria nas gravações posteriores de outros intérpretes. O lundu “Os colarinhos”, de autor desconhecido, data de 1913 (Odeon 108530, matriz XR-1126). Em seguida, um verdadeiro clássico: nada mais nada menos que “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, primeira composição denominada samba a obter sucesso. Samba que, evidentemente, mudaria muito com o passar do tempo. O Peru de que fala a letra é o próprio Mauro de Almeida, que, como cronista carnavalesco, assinava com o pseudônimo de Peru dos Pés Frios. Foi retumbante sucesso no carnaval de 1917, e Bahiano o imortalizou em disco no Odeon 121322. “Regente de orquestra”, de autor desconhecido,  disco Zon-O-Phone X-649, talvez seja de 1903. A serenata “São Paulo futuro (Os cavaleiros do luar)” é de 1916, disco Odeon 120991, composição de Marcelo Tupinambá (Fernando Álvares Lobo,Tietê, SP, 29/5/1889-São Paulo, 4/7/1953). A sátira política volta a bater ponto em “Ai, seu Mé”, marchinha do carnaval de 1922, de autoria de Freire Júnior (que se escondeu sob o pseudônimo de Canalha das Ruas) e Luiz Nunes Sampaio,o Careca. É um ataque ao então presidenciável Artur Bernardes,o”seu Mé” de que fala a música, e adversário de Nilo Peçanha. Freire Júnior chegou a ser preso e a marchinha foi proibida pela censura da época, acusada de subversão, mas ainda assim estourou nessa folia. Bahiano a gravou no Odeon 122115, e, apesar do sucesso, Artur Bernardes venceu a eleição presidencial , pondo mesmo o pé no Palácio das Águias,o do Catete, então sede do governo federal.  “O genro e a sogra” é um dueto de Bahiano com a Senhorita Consuelo, de quem nada se sabe, em gravação Zon-O-Phone provavelmente de 1904, disco X-763. Por fim, encerrando esta seleção histórica, temos o desafio “Cabala eleitoral”, que também o título de “Cabo eleitoral”, dueto de Bahiano com Cadete, gravação  de 1912, disco Odeon 120035. Todas essas gravações mecânicas, é bom que se frise, eram precedidas de um anúncio vocal, informando o título, o intérprete e sempre terminando com “Casa Edison, Rio de Janeiro”. Possivelmente  esse anúncio, em geral feito pelo chefe de estúdio Nozinho,  servia para facilitar a compreensão  dos analfabetos, por sinal método bem prático…  Enfim, é com muita alegria que oferecemos mais esta edição do GRB, dedicada ao pioneiro Bahiano, e que por certo irá figurar nos arquivos de muitos de nossos amigos cultos, ocultos e associados, por se tratar de documento musical e histórico imprescindível.
* Texto de Samuel Machado Filho

 

Joel De Castro – Interpreta Os Poetas Da Portela (1991)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Continuando na cadência do samba, vamos desta vez com um álbum dedicado aos poetas da Portela. Um disco diferente motivado em mostrar alguns dos mais importantes compositores desta Escola. Para interpretar os dez sambas escolhidos, chamaram o cantor e sambista Joel de Castro, uma artista com uma voz muito boa e uma interpretação fina, capaz de dar ainda mais brilho a essas músicas. O álbum não traz data de lançamento, mas creio que é de 1991, conforme dedicatória. Curiosamente, também não achei qualquer informação sobre o nosso intérprete, mas sei que ele é daqui das Minas Gerais. Como me disse o radialista Luiz Pedro, da antiga Rádio Capital, que foi quem me doou este disco, mineiros e cariocas têm uma sintonia muito fina, os dois estados que se completam. Há, sem dúvida, uma relação muito boa  dos cariocas com os mineiros e isso é fato!

cidade mulher
verdade
bailado da repulsa
o tempo
a primavera
melodia divinal
fila da tristeza
o bom mandrião
sempre só
remorso
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Paulo Vanzolini – Por Ele Mesmo (1981)


Olá amigos cultos e ocultos! Seguindo no samba, eu hoje trago um disco que para caçadores e garimpeiros musicais já não é nenhuma novidade e nem raridade. Mas tem, para mim, uma importância que eu faço questão de manifestar através desta postagem. Paulo Vanzolini é um dos meus compositores prediletos. Sua música tem uma característica própria e suas letras são verdadeiras crônicas com começo, meio e fim. Gosto disso. Gosto também do seu humor e da sua maneira de descrever as relações. Me faz lembrar outro grande compositor, o Billy Blanco.
Neste álbum, lançado pelo Estúdio Eldorado, no início dos anos 80, temos então o autor, pela primeira vez, interpretando a si mesmo. Vanzolini era antes de tudo um compositor e seu sucesso vem através de seus intérpretes e claro, de suas muitas canções que ficaram para sempre marcadas em nossa memória. Aqui ele interpreta treze impecáveis composições, músicas de diversos momentos, acompanhado por um time de músicos, como Adalto Santos, Edson Alves, Heraldo do Monte, Bolão e outros, que entendem o seu recado. O disco é realmente uma bela produção. Só peca pelo fato de ser um álbum de um disco só. Merecia mais. Isso porém viria a acontecer no lançamento em 2003 do box, “Acerto de contas”, com quatro cds trançando toda a sua produção conhecida, editado pela Biscoito Fino.

bandeira de guerra
tempo e espaço
raiz
samba erudito
amor de trapo e farrapo
alberto
falta de mim
o rato roeu a roupa do rei de roma
cravo branco
vida é tua
capoeira do arnaldo
samba do suicídio
samba abstrato
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Cartola 70 – Fala Mangueira! (1978)

Boa noite, amigos cultos e ocultos! No batido do samba aqui vamos nós com mais um disco bacana. Eu, na verdade estou fazendo uma reprise. Há alguns anos atrás eu postei aqui o álbum, “Fala Mangueira!”, originalmente lançado em 1968, pela Odeon. Um verdadeiro clássico do samba. Disco que não pode faltar em nenhuma boa coleção. Estamos falando aqui do feliz encontro de Cartola, Carlos Cachaça, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e Odete Amaral, num disco dedicado à Mangueira. Conforme relata o texto de contra capa desta edição, foi uma ideia de Vianinha (Oduvaldo Vianna Filho) sugerida ao Herminio Bello de Carvalho para um musical falando sobre a Mangueira. Espetáculo este que nunca chegou a acontecer, infelizmente. Mas pelo menos esse encontro se eternizou em disco, neste lp que aqui retorna após 10 anos numa edição comemorativa em homenagem aos 70 anos do Cartola. Por essa razão o disco mudou de nome, mas o material, a gravação é a mesma. Fica aqui esta segunda chance, para manter o pique do samba ;)

enquanto houver mangueira – odete amaral
lá vem mangueira – clementina de jesus
mundo de zinco – zezinho
tempos idos – odete amaral e cartola
ao amanhecer – cartola
alvorada no morro – odete amaral
quem me vê sorrindo – odete amaral
alegria – clementina de jesus
lacrimário – carlos cachaça
saudosa mangueira – clemetnina de jesus
sei lá mangueira – odete amaral
rei vagabundo – a magueira me chama, sempre mangueira, folhas caídas, eu e as flores
nelson cavaquinho e odete amaral
sabiá da mengueira – clementina de jesus
exaltação a mangueira – Zezinho
despedida de mangueira – odete amaral

A Música De Caxiné – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 127 (2014)

Esta semana comemoramos o Dia Nacional do Samba, 2 de dezembro. Entrando no clima, a edição de número 127 do nosso Grand Record Brazil vem com toda a ginga e espontaneidade, apresentando uma amostra do trabalho de um dos maiores compositores do gênero: Eden Silva, popularmente conhecido como Caxiné. Poucos são os dados biográficos a seu respeito. Entretanto, Eden “Caxiné” Silva foi um verdadeiro gênio de nossa música popular. Participou da Escola de Samba Depois eu Digo, e também fundou a Independentes do Leblon, a Unidos do Humaitá, e a Acadêmicos do Salgueiro (que surgiu da fusão da Depois eu Digo com a Azul e Branco, ambas as escolas situadas no Morro da Tijuca). Caxiné é considerado inclusive um dos maiores compositores que o Salgueiro já teve em todos os tempos, tendo também feito bons trabalhos para blocos carnavalescos. Foi eleito Cidadão Samba em 1946, e era também carnavalesco. Caxiné  e Aníbal da Silva, conhecido como o “seresteiro da Praia do Pinto” (situada no Leblon, Zona Sul carioca)formaram uma dupla de compositores de muito sucesso nos anos 1940/50, tendo composto quase todos os sambas-enredo da Depois eu Digo na década de 40. “Brasil, fonte das artes”, que fez em parceria com Djalma “Sabiá” Costa e Nilo Moreira, foi um dos primeiros sambas-enredo a ser gravados comercialmente (inclusive está nesta edição).  Caxiné faleceu em 1963, deixando várias músicas que fazem parte da história do samba: sambas-canções, de terreiro, de enredo…
Nesta edição do GRB, apresentamos dez gravações que montam um pequeno-grande panorama da obra musical de Caxiné, seleção esta idealizada pelo Blog Coisa da Antiga.  Abrindo o programa, temos “Tudo é ilusão”, parceria dele com Aníbal da Silva e Tufic Lauar (mais tarde cantor de sucesso com o pseudônimo  de Raul Moreno). Destinado ao carnaval de 1945, foi gravado na Odeon por Odete Amaral, “a voz tropical do Brasil”, em 5 de outubro de 44, com lançamento ainda em dezembro, sob número  12519-B, matriz 7676. Voltaria a fazer sucesso vinte anos mais tarde, numa gravação de Clara Nunes.  A faixa seguinte é talvez o trabalho mais famoso de Caxiné: “Rosa Maria”, outra parceria dele com Aníbal, até hoje cantado em rodas de samba. Um dos campeões do carnaval de 1948, foi imortalizado na RCA Victor por Gilberto Alves em 9 de outubro de 47, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, disco 80-0564-A,matriz S-078792. Caxiné e Aníbal assinam também nossa terceira faixa, “Vem me consolar”, samba do carnaval de 1949, interpretado por Zé e Zilda, “a dupla da harmonia”.  Gravação Continental de 13 de outubro de 48, lançada um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, sob n.o 15984-A,matriz 1980. Em seguida, uma homenagem de Caxiné e Aníbal a outro grande sambista: “Paulo da Portela”,aliás, Paulo Benjamin de Oliveira, falecido prematuramente, aos 47 anos, em 31 de janeiro de 1949. Zé e Zilda também gravaram este samba, na Star (futura Copacabana), disco 151-A. para a folia de 1950. A dupla ainda nos apresenta  outro samba de rara beleza de Caxiné e Aníbal, aqui em parceria com Noel Rosa de Oliveira, “Falam de mim”, lado B do disco Continental de “Vem me consolar”, matriz 1981, e outro sucesso do carnaval de 1949. Completando este trabalho, cinco faixas de um precioso LP de 10 polegadas da Todamérica, gravado por integrantes da escola de coração de Caxiné, o Salgueiro, lançado em maio de 1957 e intitulado apenas “Samba!” (LPP-TA-12).  “Brasil, fonte das artes”, já mencionado acima, parceria de Caxiné com Djalma “Sabiá” Costa e Nilo Moreira, havia aparecido em 1957, em versão resumida, na voz de Emilinha Borba, que também apresentou a música no filme “Garotas e samba”, da Atlântida. Aqui, neste registro de integrantes do Salgueiro, este samba-enredo de 56 é apresentado com a letra completa. Caxiné e Djalma, agora na companhia de Oldemar Magalhães, assinam o samba “Novo dia”, até agora só com esta gravação. Não podia faltar uma “Exaltação ao Salgueiro”, que Caxiné assina com seu parceiro mais constante, Aníbal da Silva, e mais uma vez Nilo Moreira. E – por que não? – uma “Exaltação à Tijuca”, em cujo morro o Salgueiro surgiu, novamente com Caxiné e Nilo Moreira na parceria, e aqui junto com Luís Silva. Para encerrar, uma regravação de “Tudo é ilusão” (ouça, na faixa 1, o registro original de Odete Amaral). Enfim,  uma homenagem que o Grand Record Brazil presta,com muita justiça, a Eden Silva, o Caxiné, sem dúvida um gênio do samba carioca e brasileiro.
* Texto de Samuel Machado Filho

João Nogueira & Cartola – Projeto Pixinguinha 1977 (2014)

Boa noite, amigos cultos e ocultos! Já faz tempo que eu não dou sequência a esta coleção de shows do Projeto Pixinguinha. Tá na hora de voltar, pois afinal ainda temos uma dezena de espetáculos, com um time de artistas de primeiríssima. Como já informei em outros volumes, as gravações aqui apresentadas fazem parte de material do excelente site “Brasil  Memória das Artes“, um projeto da Funarte onde boa parte do seu acervo em áudiovisual está disponível para consulta permanente. Entre esses os registros de shows do Projeto Pixinguinha.
Como todos podem ver, temos aqui em nosso volume 8 dois grandes sambistas. Melhor ainda, dois grandes compositores reunidos em show realizado em 1977. Aqui temos apenas 17 músicas, num roteiro que contava com mais de 20. Infelizmente nem todas foram disponibilizadas. Procurei editar cada música seguindo a sequência do programa. A gravação não está muito boa pois o som captado vem apenas dos microfones de voz. Daí, os instrumentos aparecem muito baixo. Mas mesmo assim vale a pena conferir esse encontro histórico.

nó na madeira – joão nogueira
batendo a porta – joão nogueira
wilson geraldo noel – joão nogueira
pimenta no vatapá – joão nogueira
espelho – joão nogueira
samba da bandola – joão nogueira
alvorada -cartola
corra e olhe o céu – cartola
disfarça e chora – cartola
autonomia – cartola
o mundo é um moinho – cartola
acontece – cartola
chorando pelos dedos – joão nogueira
tive sim – joão nogueira e cartola
não quero mais amar a ninguém – joão nogueira e cartola
o sol nascerá – joão nogueira e cartola
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Célia Mara Apresenta: Ninguém Segura Meu Samba (197…)

Boa tarde, amigos cultos e ocultos! Depois de uma rodada de vozes femininas, vamos agora para o samba. Trago hoje para vocês um disco que comprei no Rio de Janeiro. Só mesmo no Rio é que eu encontraria uma raridade dessas… Vejam que legal, temos aqui um encontro de grandes figuras, nomes memoráveis das mais importantes e tradicionais agremiações e escolas de samba da Cidade Maravilhosa. É, sem dúvida um encontro histórico em disco. A reunião de vários sambistas numa produção, digamos, independente…
Gravado ao vivo, quer dizer, direto e sem ensaio no estúdio da Musidisc, o lp traz um selo próprio, “Internacional”. O que nos leva a crer que produziram outros discos. Mas o álbum nos apresenta muitas curiosidades, inclusive musicais. A começar pela própria capa e título: “Célia Mara Apresenta Ninguém Segura Meu Samba”. Não sei nada sobre as vedetes, mas Célia Mara era um nome que me soava familiar e logo pela capa deduzi isso. Procurei então informaçoes no Google e o mais próximo que cheguei foi através do excelente blog do Luiz Sérgio Nacinovic, o “popmuzikrocknroll“, onde ele em seu texto me esclareceu o básico. Célia Mara era mesmo uma vedete (certamente muitos aqui deve saber disso e mais), “a Rainha da Vedetes e criadora do melhor programa programa de Jovem Guarda que o Rádio carioca colocou no ar em todos os tempos…”, palavras da própria Célia, segundo Nacinovic. Mas ainda assim, fiquei me perguntando qual a razão da vedete apresentar este disco. Na ficha técnica, como se pode ver na contracapa, seu nome aparece em Coordenação. Coordenação de quê? Ficaria resolvido se fosse apenas uma estampa, mas pelo jeito ela também fez parte dessa produção. E pelas histórias do Nacinovic, dá para imaginar… Como curiosidade musical tem aqui a faixa dois do lado b, “Coroa boa”. Será que foi inspirado na Célia Mara? Maldade a minha… Melhor voltarmos para o conteúdo musical. Olhem quem veio para o samba
juvenal, mangueira e samba – padeirinho
lágrimas – paulo roberto
meu aniversário – rubens zuzuca
vou deixar a boemia – jandyr antunes
velho cavaquinho – rubens zuzuca
divina música – caciça
sou flamengo e sou mangueira – padeirinho
coroa boa – paulo robero
meu pandeiro furou – haroldo melodia
no silêncio do meu quarto – ledi
samba do motorista – haroldo melodia
sem vergonha – haroldo melodia
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Fátima Guedes (1979)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Estive ouvindo ontem, coisa que não fazia há tempos, a cantora Fátima Guedes. Há tempos não escuto ela mais pelas rádios. Acho que as rádios de hoje não estão interessadas em música boa. O negócio é negócio, ou seja, música para vender e fazer sucesso e no geral, só lixo! Felizmente ainda existem apresentadores finos e esses trazem para seus programas coisas de seus acervos, pois rádio hoje em dia não tem mais discoteca. Isso me faz lembrar a discoteca da Rádio Inconfidência. Ah, que acervo! Quanta coisa boa, quantas raridades. E isso eu me refiro só aos discos nacionais! Era um tesouro. Mas com a chegada da era digital, da modernização das rádios, uma discoteca física se tornou um problema, um arquivo morto. Acho que mortos estavam aqueles que deixaram tudo se perder. Não tiveram a preocupação de digitalizar obras raríssimas, que foram aos poucos sucateadas, levando o resto para depósitos onde se perderam ou foram para o lixo. Uma pena… Hoje quando se ouve discos, como os que apresentamos no Toque Musical, esses são levados para as rádios por seus próprios apresentadores, de suas coleções particulares. Daí, são raras as chances de se ouvir no rádio artistas como a Fátima Guedes. Aliás, a Fátima Guedes não é apenas uma cantora, ela é uma grande compositora. Expoente da geração do final dos anos 70. Produziu muita coisa boa, música popular brasileira realmente de qualidade. Algumas, grandes sucessos. Gravada por outros tantos artistas, ela é, sem dúvida, uma das nossas melhores compositoras. Continua na ativa, sempre produzindo e pelo que andei vendo, dividindo mais suas criações em parceria com outros artistas.
O disco que apresento a vocês, muitos irão lembrar, foi o lp de estréia. Fátima nos apresenta um trabalho totalmente autoral em dez composições que se de todo não foi um grande sucesso, abriu com certeza mais as portas para o seu talento. Lançado em 1979, este álbum foi produzido por Renato Corrêa e contou com orquestração e regências de Oscar Castro Neves e Gilson Peranzzetta. Por aí já dá para se ter uma ideia do nível do trabalho. Um bom começo ;)

onze fitas
esse sol
previsão
meninas da cidade
cara a máscara
cachorro magro
fulano beltrano e cicrano
passional
madame
notícias de mim
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Ester De Abreu – Amar Amar (1975)

Olá amigos cultos e ocultos, boa noite! Eu havia planejado postar aqui nesta semana um grupo de discos com vozes femininas. Infelizmente eu não consegui manter a regularidade nas postagens, daí vamos para o ‘quando der’, mas sem perder o foco ;)
Tenho aqui a cantora Ester de Abreu, uma artista que já apresentamos em outras épocas no Toque Musical. Desta vez eu trago o disco “Amar, amar” lançado pela Tapecar, em 1975. Pelo recado impresso na própria capa, percebe-se que é um disco de retorno. Acredito também que este tenha sido seu último trabalho. Não consta em sua discografia outros álbuns.. Ester, como sempre, nos vem com um repertório bem português, alguns temas clássicos, fados, como era o seu estilo. “Amar, amar”, título do disco, é também o nome de uma das faixas, composição para o poema de Florbella Espanca. “Ai, Mouraria”, “Nem as paredes confesso”, “Coimbra” e tantas outras fazem parte desse retorno. Bem legal, não deixem de conferir

canoas do tejo
foi deus
ora pois pois
saudade vai-te embora
vendaval
coimbra
ai mouraria
e depois do adeus
oh tempo volta pra trás
nem as paredes confesso
amar, amar…
zé da rua
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Adelaide Chiozzo (parte B) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 126 (2014)

E aqui estamos mais uma vez com o meu, o seu, o nosso Grand Record Brazil. Esta semana concluímos a retrospectiva dedicada à cantora, atriz e acordeonista  Adelaide Chiozzo, uma verdadeira  estrela dos áureos tempos do rádio e dos filmes musicais.  Durante os 25 anos em que permaneceu na Rádio Nacional, Adelaide era anunciada de diversas maneiras, conforme o programa: “A Que Tem Simpatia Para Dar e Vender” (César de Alencar),  “A Bela e o Seu Acordeão” (Paulo Gracindo) e, aí já incluindo seu marido, o violonista Carlos Matos, “O Casal 20” (Manoel Barcelos).  Desta feita, o GRB oferece mais dez preciosas gravações da notável Adelaide. Abrindo a seleção desta semana, a polca “Zé da Banda”, de autoria do acordeonista (e também professor de acordeão)  Alencar Terra, em dueto com sua amiga e parceira de cinema  Eliana Macedo.  Saiu pela Star em maio-junho de 1952, sob número 345-A.  Em seguida, o belo baião “Nós três”, de autoria de Garoto, Fafá Lemos e Chiquinho do Acordeão, cujo título, por certo, se refere a eles mesmos.  A música surgiu pela primeira vez em disco, em versão apenas instrumental , em julho de 1955, na execução do acordeonista Ribamar. Logo em seguida, Adair Badaró, sem precisar mexer no título, escreve uma letra tendo em vista o nascimento de Creuza Maria, filha única de Adelaide Chiozzo e Carlos Mattos. Outros três… A versão cantada de Adelaide saiu pela Copacabana em outubro-novembro de 1955, sob número 5470-B, matriz M-1252. Temos depois a valsa junina “Casório lá do arraiá”, da conhecida dupla de autores Getúlio Macedo-Lourival Faissal, em que Adelaide é acompanhada por uma bandinha que parece ser a do mestre Altamiro Carrilho, à época (1954) também contratado da Copacabana, que lançou a composição sob n.o 5248-A, matriz M-808. A rancheira “Tempinho bom”, de autoria de outro grande mestre do acordeão, Mário Zan, em parceria com Sereno, é também gravação Copacabana de 1954, lançada pouco antes (disco 5201-B, matriz M-690), e Adelaide também a cantou no filme “O petróleo é nosso”, da Brasil Vita Filmes (em nosso volume anterior, está o lado A, a toada “Meu sabiá”, incluída no mesmo filme). Neste registro, o acompanhamento orquestral é de Alexandre Gnattali, irmão de Radamés.  O baião junino “Vai comendo, Raimundo…”, nossa faixa seguinte, também de 54, vem a ser o lado B de “Casório lá do arraiá”, matriz M-809, e foi composto por Petrus Paulus e Ismael Augusto.  Adelaide e Eliana  voltam a se encontrar em nossa sexta faixa, “Vapô de Carangola”, um coco muito animado, de autoria de dois grandes expoentes da MPB, ambos pernambucanos, Manezinho Araújo, “O Rei da Embolada”, e Fernando Lobo, jornalista e produtor,  pai do compositor-cantor Edu Lobo. É o lado B do disco de “Zé da Banda”, o Star 345, lançado em maio-junho de 1952. A rancheira “Tempo de criança”, de João de Souza e Ely Turquine, é o lado B do primeiríssimo disco de Adelaide Chiozzo, o Star 192,lançado em janeiro de 1950, e do qual já apresentamos o lado A, o clássico “Pedalando”.  A rancheira foi também apresentada por Adelaide no filme “E o mundo se diverte”, da Atlântida”, onde sua amiga e parceira Eliana Macedo (antes uma professora primária em Itaocara, interior fluminense, descoberta por seu tio, Watson Macedo, durante uma visita à cidade) também fez sua estreia no cinema, como atriz. O baião “É noite, morena” é dos irmãos Hervê e Renê Cordovil, lançado pela Star em julho-agosto de 1952, sob número 367-A. Temos depois um outro baião, este junino, “Papel fino”, de autoria de Mirabeau, Cid Ney e Don Madrid, que a Copacabana leva para as lojas em 1956, disco 5590-A, matriz M-1544. Encerrando esta seleção, a valsa “Meu papai”, outra composição de Getúlio Macedo e Lourival Faissal, feita, como indica o título, para o Dia dos Pais, data que começou a ser comemorada entre nós em 1953, no Rio de Janeiro, e dois anos mais tarde em São Paulo.  Cantada por Adelaide junto com o coro do programa “Clube do Guri”, então transmitido pela Rádio Tamoio do Rio de Janeiro, saiu pela Copacabana em 1956, sob número 5640-A, matriz M-1648. Portanto, aí está, para deleite de todos os que apreciam o que é bom e fica para sempre, a segunda e última parte do retrospecto dedicado pelo nosso GRB à notável Adelaide Chiozzo, estrela que deixou sua  marca indelével  na música e no cinema do Brasil.
* Texto de Samuel Machado Filho

Marlene – Vamos Dançar Com Marlene E Seus Sucessos (1956)

Boa noite, amigos cultos e ocultos! Atendendo a pedidos (foram cinco!) estou trazendo para hoje o álbum de 10 polegadas, “Vamos dançar com Marlene e seus sucessos”. Um disco lançado pela Sinter em 1956 reunindo alguns de seus muitos sucessos. Gravações que originalmente foram apresentadas em discos de 78 rpm.Temos aqui um disco com sambas, mambos e um baião. Marlene atacando com tudo em “Samba rasgado”, de Zé Ketti e Jaime Silva; “Saudosa maloca”, de Adoniran Barbosa e outros sambas, mambo e até baião. Ah! Não posso me esquecer de outro clássico, “O lamento da lavadeira”, de Monsueto, Nilo Chagas e João Violão. Um samba com muito humor que retrata bem a situação atual de falta de água (mas a chuva está chegando). Enfim, olha o disco aí…

papai é do mambo
samba rasgado
saudosa maloca
dinguilim do baião
canta menina, canta
lamento da lavadeira
mi papá
aperta o cinto
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Nora Ney – Meu Cantar É Tempestade De Saudade (1987)

Olá, amigos cultos e ocultos! Mais uma vez marcando presença em nosso Toque Musical, eu trago para vocês a cantora Nora Ney em seu último lp, gravado em 1987. Produzido por Milton Miranda e Moacyr Machado, com arranjos e regências de Eduardo Assad, o álbum nos traz um repertório variado e para mim, inconstante. Pessoalmente, não me agrada muito a seleção, embora tenhamos aqui um Noel Rosa, em “Último desejo”, um pot pourri de Lupicínio Rodrigues e outras cositas mas… Porém, acho que o que me incomoda é mesmo é a superficialidade musical dos anos 80. Ô décadazinha sem vergonha para a música! Sons sintetizados, sem originalidade… Uma coisa assim meio que pasteurizada e sem sabor. Me refiro, não especificamente a este disco, mas no geral. O uso excessivo de recursos eletrônicos, timbres e toques padronizados deram à música dos anos 80 um aspecto artificial e sem sabor. Há neste disco um pouco dessa contaminação. Mas, em se tratando de Nora Ney, a gente não pode deixar de conferir

por incrível que pareça
deixe a chave
calçadas
vôo sem destino
quero que volte
pot pourri lupicínio rodrigues:
esses moços / nunca / vingança
tempestade de saudade
tanta cidade
meu cantar
sem medo de amar
só saudade
último desejo
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Marília Batista – Vai Marília (1989)

Olá amigos cultos e ocultos! Nesta semana que passou fiquei conhecendo um antigo radialista, o Sr Luiz Pedro Rodrigues. Ele foi cantor, apresentador e diretor de várias rádios no Rio de Janeiro, São Paulo e finalmente em Belo Horizonte. Era mais conhecido por Pedro Luiz, uma inversão do nome, que segundo ele, para um artista do rádio, era ‘mais sonoro’. Ele trabalhou ao lado de grandes nomes da música brasileira. Foi também compositor. Para a minha grande surpresa, autor de jingles que eu cantava na minha infância, como o do arroz Paranaíba, da TV Itacolomi e algumas chamadas da Rádio Inconfidência. Ele conheceu de perto pessoas que fizeram parte desse universo, inclusive do lado do público. Figura da mais interessantes e discursivas, me contou alguns fatos interessantes, memórias e coisas ligadas ao rádio. Muitas dessas histórias fazem parte de um de seus livros: “Show do Rádio – Pessoas e Fatos Ligados Ao Rádio de Minas Gerais”, lançado pela editora Armazém de Ideias em 2002. Mais uma fonte de informação que eu até então desconhecia. Fiquei amigo do moço e por conta disso, logo vou postar aqui uma seleção com alguns dos seus trabalhos… Do nosso encontro também surgiu o presente um raro disquinho que eu aqui apresento a vocês. Um compacto da cantora e compositora Marília Batista que ele mesmo recebeu da artista. Segundo consta, este foi o último trabalho realizado por Marília antes de vir falecer, em 1990. Para os desatentos, Marília Batista foi uma das mais importantes intérpretes da obra de Noel Rosa. (Em uma próxima oportunidade postarei aqui as gravações dela com Noel.)
Ao lado do Regional Recordando, de Vadinho do Bandolim, Marília nos traz em um compacto duplo e independente quatro de suas composições, entre elas “Garota Sapeca”, gravada por Aracy de Almeida. Mesmo para um compacto e gravado de maneira independente, o disquinho é encantador, samba e choro com muita qualidade. Taí um disquinho que merece fazer parte do nosso acervo. Falou que é raro e curioso, é aqui mesmo, no Toque Musical ;)

vai marília
noite tão noite
garota sapeca
itajubá
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Adelaide Chiozzo (parte 1) – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 125 (2014)

Esta semana o Grand Record Brazil, o “braço de cera” do TM,  oferece a primeira de duas partes de uma retrospectiva dedicada a uma notável estrela dos áureos tempos do rádio e dos filmes musicais, extraordinária cantora, acordeonista e atriz: Adelaide Chiozzo. Nossa homenageada veio ao mundo em São Paulo, no dia 13 de maio de 1931, na Rua Martim Buchard, no bairro do Brás, tradicional reduto de italianos e seus descendentes. Residia perto das porteiras do Brás, nas quais costumava se dependurar quando elas se moviam para dar passagem ou impedir o trânsito, autêntico divertimento das crianças nessa época. Seu pai,Geraldo Chiozzo, era natural de Botucatu, interior paulista, e a mãe,Leonor Cavallini, era de Sorocaba. . Hábil marceneiro e mestre-entalhador, Geraldo Chiozzo era gerente da fábrica de móveis Paschoal Bianco. Mais tarde passou a trabalhar por conta própria, recebendo encomendas da mesma empresa.  Certa vez, uma loja de músicas pagou os serviços do “seu” Geraldo com um acordeão, que ele não conseguia tocar (o forte dele era o violão).  Quem acabou se interessando pelo  instrumento foi Adelaidinha, que às escondidas tirou a primeira música, a valsa “Saudades de Matão”, sem auxílio de professor.  Os quatro filhos de Geraldo e Leonor, aliás, tinham inclinação musical. Carolina, a mais velha, cantava e tocava violão. O segundo filho, Afonso, também era de acordeão. A filha caçula, Silvinha, cantava, e Adelaide,a terceira filha, é o que sabemos. Aos 11 anos, Adelaidinha se inscreveu num programa de calouros da PRH-9, Rádio Bandeirantes (então “a mais popular emissora paulista”), apresentado por Vicente Leporace, apenas solando músicas como “Branca” e “Saudades de Matão”.  Cumpridas  quatro etapas, ganhou o primeiro prêmio, em dinheiro, e o convite para atuar em um programa sertanejo matinal da mesma emissora, “Na Serra da Mantiqueira”, dirigido pelos Irmãos Mota, que também faziam seus números.  Para maior segurança da garota, seu pai, homem rígido, determinou que Afonso, com seu acordeão, fizesse dupla com ela: os Irmãos Chiozzo.  Durante alguns anos, eles passaram a excursionar pelo interior junto com os Irmãos Mota. E toda a família Chiozzo  ia em peso, inclusive “seu” Geraldo, de violão em punho,  e Dona Leonor, a única não incorporada à parte artística.  Durante uma apresentação na cidade mineira de Andradas, em 1945, alguém adentrou o recinto e anunciou, aos gritos, o fim da Segunda Guerra Mundial. Artistas e público imediatamente saíram às ruas, cantando, para comemorar. Em 1946, o pai de Adelaide Chiozzo se muda para Niterói e monta uma pequena fábrica de móveis. O compositor Irany de Oliveira, por acaso, redescobre a futura estrela e a leva ao prestigioso programa de calouros “Papel carbono”, de Renato Murce, na lendária Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Renato exigia uma imitação e ela escolhe a de Pedro Raimundo, “o gaúcho alegre do rádio”. Após quatro semanas, ganha o primeiro prêmio e um contrato da Nacional, mas apenas como acordeonista , pois acreditavam que ela tinha mesmo aquela voz imitativa. Assim passa a fazer parte do regional do flautista Dante Santoro, um dos melhores do Brasil, mesmo sendo mulher e jovenzinha, porém à altura daqueles músicos experientes. Um ano e meio depois, uma cantora falha durante a transmissão e Adelaide, que a acompanhava ao acordeão, a substitui na emergência. Só assim descobrem sua bela voz, passando a aproveitá-la também como cantora. Permaneceria na Rádio Nacional por 25 anos. Foi também Irany de Oliveira quem levou Adelaide, em 1946, com quinze anos, para um teste de cinema na Atlântida, sendo aprovada. Ela e o irmão Afonso acompanham o cantor-caubói Bob Nélson em dois filmes: “Este mundo é um pandeiro” (1947) e “É com esse que eu vou” (1948). Em “E o mundo se diverte” (1949), consegue um quadro só seu, interpretando a rancheira “Tempo de criança”, que mais tarde gravaria e estará em nosso próximo volume. Estreou como atriz no filme “Carnaval no fogo” (1949), onde também interpretou a polca “Pedalando”, que seria para sempre seu carro-chefe e consta deste volume.  Atuou também em “Aviso aos navegantes” (Atlântida, 1950), “O petróleo é nosso” (Brasil Vita Filmes, 1954) e “Garotas e samba” (Atlântida, 1957), entre outros filmes. Em janeiro de 1951, casou-se com o violonista e professor de violão Carlos Azevedo Matos (entre namoro, noivado e casamento foram apenas seis meses, pois “seu” Geraldo  não abria mão da marcação cerrada). Tiveram uma única filha, Cristina Maria, nascida em 1955, que lhe deu três netos, também músicos talentosos, que passariam também a acompanhar Adelaide em suas apresentações:  o baixista e guitarrista Bruno, o tecladista e cavaquinista Fábio Leandro, e o baterista Roberto.  O casamento durou até a morte de Carlos Matos, em 2006, aos 80 anos de idade. Por sugestão de Paulo Gracindo, a “Revista do Rádio” promoveu um concurso para escolher a Namoradinha do Brasil, por votação dos leitores. Adelaide ganhou, e ostentaria esse título para sempre, pois não houve outra eleição. Em 1975, seu espetáculo “Cada um tem o acordeão que merece” foi considerado pela crítica o melhor daquele ano. Em 2003, recebeu da Assembleia Legislativa do Ceará o título honorário de “cidadã cearense”. Adelaide Chiozzo gravou,em 78 rpm, 18 discos com 36 músicas, entre 1950 e 1958, sendo oito delas em dueto com Eliana Macedo, também atriz e sobrinha do cineasta Watson Macedo, e duas com sua irmã Sylvinha, todos pela Star e sua sucessora, a Copacabana.  Ainda gravou, em 1957, o LP “Lar… Doce melodia”, também na Copacabana.  Na televisão, atuou nas novelas “Feijão maravilha” (1979), “Cambalacho” (1986), “Deus nos acuda” (1992-93), todas pela Rede Globo, e na segunda versão de “Uma rosa com amor” (2010), pelo SBT.
Nesta primeira parte da retrospectiva que o GRB dedica a Adelaide Chiozzo, temos onze gravações históricas, nas quais, em sua maior parte, é acompanhada pelo conjunto do marido Carlos Matos.  Para começar, temos o clássico “Beijinho doce”, valsa ou corrido de José Alves dos Santos, o Nhô Pai, originalmente lançado pelas Irmãs Castro em 1945. Adelaide o interpretou junto com Eliana Macedo no filme “Aviso aos navegantes”, da Atlântida, e ambas repetiram o dueto em disco, o Star 263-A, em gravação de 1951. Na faixa seguinte, Adelaide recorda, em ritmo de baião (em moda na época),  a canção “Minha casa”, de Joubert de Carvalho, originalmente gravada por Sílvio Caldas em 1946. O registro de Adelaide saiu pela Star em julho-agosto de 1952, disco 367-B. Em seguida, a toada “Meu sabiá”, de Carlos Matos em parceira com Antônio Amaral. Saiu pela Copacabana  em 1954, sob número 5201-A, matriz M-689, sendo também cantada por Adelaide no filme “O petróleo é nosso”,  da Brasil Vita Filmes. A orquestração e a regência são de Alexandre Gnattali, irmão de Radamés.  “Sabiá na gaiola”, clássico baião de Hervê Cordovil e Mário Vieira, é outro duo de Adelaide com Eliana Macedo, que o interpretaram no filme “Aí vem o barão”, outra produção da Atlântida.  Originalmente lançado por Carmélia Alves, em 1950, seria regravado um ano mais tarde por Adelaide e Eliana na Star, disco 264-A. “Nossa toada”, feita para outro filme da Atlântida, “Garotas e samba” (onde Adelaide faz par romântico com o cantor Francisco Carlos, “El Broto”),  é gravação Copacabana de 1957, lançada com o número  5750-A, matriz M-1890. Foi composta por Carlos Matos em parceria com Luiz Carlos, um jovem compositor que logo faleceria sem poder assistir ao filme nem ouvir a gravação. Em seguida, temos a marchinha junina “Cada balão uma estrela”, de Zé Violão e Carrapicho, lançada pela Star em julho-agosto de 1952, disco 356-B. O clássico “Cabeça inchada”, outra composição de Hervê  Cordovil, foi originalmente lançado como balanceio, em 1949, por Sólon Sales. Aqui Adelaide Chiozzo e Eliana Macedo o recordam em ritmo de baião, em gravação lançada pela Star no lado B de “Beijinho doce”, disco 263, em 1951, mesmo ano do registro de Carmélia Alves pela Continental.  Adelaide e Eliana voltam a se encontrar nas duas faixas seguintes, lançadas em janeiro de 1953 para o carnaval,pela Copacabana, sob número 5026: o samba “Com pandeiro na mão” (lado B, matriz M-283), de Manoel Pinto,  D. Ayrão e Jorge Gonçalves, e a marchinha “Queria ser patroa” (lado A, matriz M-282), só de Manoel Pinto e D. Ayrão,  que Eliana interpretou solo no filme “Carnaval Atlântida”. A seguir, a música que consagrou Adelaide Chiozzo:  a polca “Pedalando”, com melodia do pianista Benê Nunes e letra do ator e futuro cineasta Anselmo Duarte. Adelaide a cantou no filme “Carnaval no fogo”, da Atlântida, sob a direção de Watson Macedo,  num cenário holandês, com moinhos de vento e tudo o mais. É a faixa de abertura de seu primeiro disco, o Star 192, lançado em janeiro de 1950, e aqui o acordeão que acompanha Adelaide é de Alencar Terra. Para terminar, outro clássico de Nhô Pai, agora em parceria com outro grande acordeonista, Mário Zan: o rasqueado “Orgulhoso”, criação das Irmãs Castro em 1947, e aqui apresentada em novo dueto de Adelaide com Eliana Macedo, que saiu pela Star em 1951, no lado B de “Sabiá na gaiola”, disco 264. Na próxima semana, concluiremos esta retrospectiva  que o GRB dedica a Adelaide Chiozzo. Até lá!
*Texto de Samuel Machado Filho