Raices De America – Amazônia (1990)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Eu estou sempre me surpreendendo com o acervo musical que fomos criando ao longo desses 11 anos de atividades.Confesso que as vezes até me esqueço do que já postei aqui e as vezes chego até a postar de novo e só depois me dou conta disso. Também, não é para menos, temos aqui mais de 3 mil títulos! É disco pra caramba! E assim como repito, também falho em algumas postagens que já deveriam estar aqui. É o caso do grupo Raices de America que agora eu percebo, nunca postei nada deles aqui. Uma injustiça, por certo. Mas que agora vamos corrigir. Tenho aqui este lp, o Amazônia, lançado em 1990. Acredito eu que este tenha sido o último disco gravado pelo grupo que surgiu no final dos anos 70, formado inicialmente por músicos argentinos, chilenos e brasileiros. Seguindo a linha de outros grupos de cunho folclórico latino americano, como o Tarancón, o Raices de America buscou ser um grupo um pouco além, preocupado com suas apresentações sempre bem produzidas, um trabalho de cunho também autoral. Ao longo de todos esses anos o grupo passou por várias formações, ou por outra, muitos artistas contribuíram para a permanência de um dos mais importantes grupos musicais do gênero. Gravou uma dezena de discos. Neste álbum, ‘Amazônia’, que como disse, parece ser o último da era vinil. Lançaram em 2006 um cd reunindo seus melhores momentos. Confiram este trabalho no GTM.

amazônia
nelson mandela sus dos amores
el primer amor
caminho de andes
passo de cucaracha
carcará
clareia a manhã
guantanamera
los pajaros
a dívida não existe

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Tania Maria – Olha Quem Chega (1971)

Cantora, compositora e pianista de jazz brasileira mundialmente consagrada, Tânia Maria volta a bater ponto aqui no TM. Desta vez oferecemos a nossos amigos cultos e ocultos “Olha quem chega”, álbum lançado pela Odeon em 1971, segundo trabalho-solo de Tânia e o último feito por ela antes de fixar residência no exterior. Neste disco, que conta com arranjos do violonista Geraldo Vespar  (uma ótima credencial, convenhamos), Tânia Maria oferece, como sempre, um repertório irrepreensível e de qualidade, assinado por compositores de quilate: Ivan Lins (“Madalena”, “Hey você”), a dupla Eduardo Gudin-Paulo César Pinheiro (a faixa-título), Toquinho (“Bobeou, não vai entender”, parceria com Gianfrancesco Guarnieri, e “Mais um adeus”, com o Poetinha Vinícius), Johnny Alf (“Garota da minha cidade”), Chico Feitosa (“Vireivolta”), Abílio Manoel (“Ruas do Rio”), Anselmo Mazzoni (“De frente”) e ainda dois clássicos inesquecíveis de nosso cancioneiro: “Carinhoso” (Pixinguinha e João “Braguinha” de Barro) e “Ai, que saudades da Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago). Tudo com a versatilidade, a competência e  o talento incontestáveis da grande Tânia Maria, aliado ao que de melhor a Odeon tinha em aparato técnico de gravação, fazendo deste “Olha quem chega” um dos melhores trabalhos já realizados pela cantora-compositora-pianista. Simplesmente de arrepiar!

bobeou, não vai entender
madalena
olha quem chega
mais um adeus
ai que saudades da amélia
garota da minha cidade
ruas do rio
hey você
carinhoso
de frente
vireivolta

*Texto de Samuel Machado Filho

Sandra Sá – Vale Tudo (1983)

Boa noite, amigos cultos e ocultos! Hoje cedo dei carona para um amigo gringo, fui levá-lo no aeroporto. No caminho, rádio ligado, começou a tocar o balanço “Guarde minha voz”, com a Sandra Sá. O cara pirou com a música, foi longo pelo aplicativo do celular procurar saber de quem era. Baixou a música e já desceu do carro ouvindo. Aquilo me chamou a atenção, lembrei que tenho este disco e por acaso nunca postei aqui no Toque Musical. Para minha infelicidade, em meio a uma centena de discos, acabei não o encontrando. Onde foi que eu coloquei esse disco? Terei que dar uma geral no meu quartinho no próximo fim de semana. Mas felizmente eu já o tenho aqui digitalizado e só de teimosia vou postá-lo agora. Vamos lá, vale tudo… Vale o que vier, até mesmo homem com homem e mulher com mulher, hehehe… (postura mais correta para os dias atuais)

trem da central
candura
pela cidade
onda negra
gamação
vale tudo
guarde minha voz
terra azul
musa
só as estrelas

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Diana Pequeno – Sentimento Meu (1982)

Olá, amigos cultos e ocultos! Segue para o dia de hoje este álbum da cantora baiana Diana Pequeno, artista a qual já presentamos outros dois trabalhos e dispensa maiores apresentações. Temos aqui o seu quarto disco, lançado em 1982, pela RCA. Um trabalho muito bem produzido, com direito a um álbum de capa dupla. Certamente, já não traz o mesmo encanto dos três primeiro lps, mas evidentemente é um disco acima da média. Não deixem de conferir no GTM 😉

sentimento meu
vida
amor de índio
inverno
paisagem
missa da terra sem males
estrela vermelha
que amor não me engana
irupe
hoje te vi de longe
el rossynol

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Os Melhores (1985)

Os anos 1980 foram marcados pela explosão de um novo movimento musical: o Rock Brasil, ou BRock, a princípio com o surgimento de bandas independentes divulgadas em fanzines. A criação de casas de show como Noites Cariocas e Circo Voador (Rio), e Aeroanta, Carbono 14, Lira Paulistana, Madame Satã e Napalm (São Paulo), foi outro acontecimento importante para a formação do cenário roqueiro da época. As primeiras bandas a fazerem sucesso foram Gang 90 e Absurdettes, vindos de São Paulo (com o hit “Perdidos na selva”, inscrito no festival MPB-Shell de 1981) e liderados pelo jornalista Júlio Barroso, e a Blitz, do Rio de Janeiro, com outro hit explosivo, “Você não soube me amar” (que inclusive popularizou a expressão “OK, você venceu”). Surgiram também solistas, como Lulu Santos, Lobão, Léo Jaime, Ritchie (aquele da “Menina veneno”)e Marina Lima, além de outros grupos, caso do Rádio Táxi e do Herva Doce. Outras bandas cultuadíssimas surgiram nessa época, como Os Paralamas do Sucesso, Legião Urbana (a mais influente, liderada por Renato Russo), Capital Inicial, Kid Abelha, Barão Vermelho (com Cazuza à frente), Sempre Livre (que revelou a vocalista Dulce Quental), Camisa de Vênus, Raimundos, Biquini Cavadão, Ira!, Titãs, Ultraje a Rigor, Engenheiros do Hawaii, RPM, Tokyo (aquela do Supla), enfim, para toda e qualquer tribo. Algumas dessas bandas, como os Paralamas, os Titãs e o Ira! ainda estão em franca atividade, em discos e shows. Outras se imortalizaram, como o Legião e os Engenheiros, e tocam nas rádios até hoje, principalmente em virtude do sucesso alcançado entre os jovens e adolescentes. Dessa época são também Kiko Zambianchi, Celso Blues Boy (“Aumenta que isso aí é rock androll”) e Fausto Fawcett (o da “Kátia Flávia”). Na área do heavy metal, destaque para o Sepultura, surgido em Minas Gerais e sucesso internacional, com tendência para o “thrash metal”, e o Viper, surgido em São Paulo, com sucesso inclusive no Japão, que revelou o vocalista André Matos, mais tarde integrante do Angra e do Shaman. Hoje, o TM apresenta para seus amigos cultos e ocultos um raro tesouro dessa efervescente época do rock brasileiro. Trata-se do único álbum do sexteto carioca Os Melhores, lançado pela Polydor/Polygram em 1985, e produzido pelo sempre experiente Mariozinho Rocha, a quem inclusive o disco foi dedicado. O grupo era formado por Iúri (teclados), Sérgio Serra (violão, guitarras e voz), Paulo Duncan (baixo, teclados e voz), Rodrigo Castro Neves (bateria), Edom (guitarra) e a solista vocal Maria Eduarda. Ao que parece, a banda não passou desse álbum, mas pelo menos duas faixas do disco obtiveram destaque nas rádios: “Emoções baratas”, de Rodrigo, Sérgio e Paulo, e “Como é bom te amar”, versão brasileira para o hit “Life islife”, do grupo austríaco Opus. Destaque ainda para “Dançando no escuro”, que também tocou razoavelmente na ocasião. Enfim, um documento histórico e interessante do chamado Rock Brasil, hoje cult, que o TM nos oferece prazeirosamente hoje.

suborno emocional
emoções baratas
garotinhas
canção para quem acreditou em mim
dançando no escuro
porque
nosso amor é uma guerra
como é bom te amar
cobrador

*Texto de Samuel Machado Filho

Missa Leiga (1972)

Boa noite, amigos cultos e ocultos! Mantendo o nosso leque de variedades e surpresas, tenho para hoje um disco de teatro, ou melhor dizendo, a trilha musical da polêmica peça de Ademar Guerra, ‘Missa Leiga’, escrita pelo dramaturgo paulista Francisco de Assis Pereira, ou como era mais conhecido, Chico de Assis. Missa Negra foi uma peça de grande sucesso, com produção de Ruth Escobar. Estreou em 1972, sendo montada em uma velha fábrica abandonada depois de ter sido proibida a sua apresentação na Igreja da Consolação, local antes idealizado para o espetáculo. A peça foi uma super produção com música de Cláudio Petraglia, cenários e figurinos de Joel de Carvalho e um elenco com dezenas de atores, entres os quais estavam Armando Bógus e Buzza Ferraz. Segundo o ator Sérgio Britto, que participou da segunda montagem da peça, já no Rio de Janeiro, “Missa Leiga foi uma das mais importantes tentativas de furar a censura e falar o que acontecia no país naqueles malditos tempos.” A peça fez tamanho sucesso que chegou a ser apresentada também fora do país, em Portugal e também na África.
Este disco é um registro dos mais importantes, pois é a gravação ao vivo dessa primeira montagem, lançado no mesmo ano pela Sigla/Som Livre. Aqui, eu procurei não editar, ou seja, separar por faixas, pois entre as partes não há pausas. Daí, temos separação apenas dos lados, ok? 😉

procissão de entrada
a destruição do templo e despojamento
salmo da paz
kyrie
glória
aleluia
canto de joão batista
ofertório e canto da entrega
sanctus
agnus dei
última oração

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Grupo Corda & Voz (1982)

O TM oferece hoje a seus amigos cultos e ocultos um pouco de nossa melhor música caipira, ou sertaneja raiz, como também é chamada. Trata-se do único álbum do Grupo Corda & Voz, lançado em 1982, com a garantia habitual de qualidade técnica e artística da Eldorado. A história do grupo, formado por funcionários do Senac de Araçatuba e Presidente Prudente, começa em 1981. Um outro grupo, o Som Senac, se dissolvera por problemas de disponibilidade de tempo de seus músicos para ensaios e apresentações. Daí a proposta de um diretor da entidade, José Ildefonso Martins, de se criar um grupo apenas com funcionários da entidade. Tarefa extremamente fácil, pois vários servidores do Senac  tinham algum tipo de talento musical e dominavam algum instrumento.  Daí nasceu o Corda & Voz, integrado porÁlvaro (solista vocal), Mazzini (viola e voz),Waldemar Milanez Júnior (violão de doze cordas), José Ildefonso (violão de seis cordas) e Arnaldo (contrabaixo e voz). Logo depois do surgimento do grupo, veio o convite de Ronaldo Boldrin para se apresentar no programa “Som Brasil”, que ele então apresentava nas manhãs de domingo da Rede Globo, com sucesso. Na primeira apresentação, o Corda & Voz interpretou “Pé de ipê”, do repertório de Tonico e Tinoco (inclusive constante deste disco), e agradou tanto que voltaria ao programa inúmeras vezes. Também se apresentaram em várias cidades do interior paulista. Por fim, o convite da Eldorado para gravar este disco, o que aconteceu em apenas uma semana, em 1982. E com texto de contracapa do próprio Rolando Boldrin, que acabou sendo uma espécie de “padrinho” do Corda & Voz. O disco foi lançado em uma noite de gala, no Bar Engenho & Arte, com o grupo recebendo várias homenagens, entre as quais a entrega de um ramalhete de flores enviado pelo publicitário Carlito Maia, então executivo do alto escalão da Rede Globo. Como iremos observar, o repertório tem dez clássicos do cancioneiro caipira brasileiro, como “Pingo d’água”, “Burro picaço” e “Chitãozinho e xororó” (que inclusive deu nome a uma dupla moderna do gênero sertanejo, formada pelos irmãos José e Durval), com nova leitura e roupagem, inclusive a adoção de harmonia com até quatro vozes, porém mantendo a identidade das canções. Tudo com muita sensibilidade e bom gosto, e é uma pena que o Grupo Corda & Voz só tenha gravado este álbum. Ainda assim, o grupo conseguiu durar dez anos, com mudanças de integrantes, e realizando shows por todo o estado de São Paulo, mas inexplicavelmente não teve mais oportunidades em disco. De qualquer forma, este trabalho do Corda& Voz é uma autêntica obra-prima, que o TM se orgulha, e muito, de nos oferecer. Ô trem bão… 🙂

irmãos de lua
burro picaço
pingo d’agua
faca de ponta
pé de ipê
pomba do mato
boiadeiro apaixonado
sina de violeiro
carreiro bão
chitãozinho e xororó

*Texto de Samuel Machado Filho

Fernando Ribeiro – O Coro Dos Perdidos (1978)

E vamos que vamos… amigos cultos e ocultos! Hoje trazendo mais um disco bacana, obscuro para muita gente, pois se trata de uma produção local, que ficou restrita ao meio universitário e como sendo também coisas vindas do Sul, não chegou ao centro do país, Rio e São Paulo, que até então era a grande vitrine de divulgação. Estamos falando do compositor gaúcho (?) Fernando Ribeiro em seu segundo disco. “O Coro dos Perdidos” foi um disco produzido por Geraldo Flack, um dos mais importantes músicos do Rio Grande do Sul. Aliás, neste trabalho, Fernando Ribeiro vem muito bem acompanhado por alguns melhores músicos do Sul. As músicas são todas de sua autoria, com letras do parceiro Arnaldo Sisson, letrista também de seu primeiro disco. Este disco, assim como a faixa que dá nome ao lp, me parece hoje em dia bastante atual. Um povo rachado, mas num coro dos perdidos. 🙁

maldita noite
vera cruz
surdo mudo
americano
pedaços
walhala
o coro dos perdidos
diga lá
se restar em você
dolorido amor
americano II
dramas de circo
americano III
final e deus nos guarde
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Grupo Olá (1980)

Olá! Será que os amigos cultos e ocultos se lembram deste disco? Principalmente aqueles que ainda eram crianças entre o final da década de 70 e início dos 80. Temos aqui o ‘Olá’, mais que um simples disco infanto-juvenil, um projeto realmente interessante criando pela pedagoga Denise Mendonça. Uma ideia que nasceu nos anos 70 quando Denise se encontra com Maria Mazzetti, também professora, escritora e poeta, que dedicou seu trabalho à educação infantil. Mazzetti foi uma incentivadora de Denise, oferecendo a ela seus poemas para serem musicados. Dessa parceria nasceu no início de 80 o bem idealizado lp independente ‘Olá’, um disco muito bem produzido, gravado em Belo Horizonte, na Bemol, com direito a libreto com todas as músicas, recheado de desenhos e ainda um compacto duplo, pois ao que parece, não coube tudo num disco só. Este disco foi lançado em 1980, mesmo ano em que começaram as atividade do Instituto de Arte Tear, criando também por Denise Mendonça, no Rio de Janeiro. A propósito, este trabalho foi relançado em cd, mas me parece que em uma nova gravação. Denise, continua a frente do Tear, tentando manter acessa a chama da educação e cultura, hoje em dia tão golpeada em nosso país. Ouve só… 🙂

dia diferente
elefante elegante
nhoque
tô toque-toque
rua do muito barulho
desencaracolando
correndo, correndo, correndo
parou paradinho
gato xadrex
quem mora
meu boizinho
calhambeque
viagem maluca
cadê meus óculoses
esconde, esconde
um barquinho
o que eu descubro
compacto:
ouve só
plantando flor
cantiga de embalar papai
tesouro do pirata
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Grandes Sucessos Da E. S. Portela (1962)

O TM oferece hoje a seus amigos cultos e ocultos, com a alegria e a satisfação de sempre, um disco lançado pela Copacabana em 1962, pondo em foco sambas de compositores ligados a uma das mais tradicionais e queridas escolas de samba do Rio de Janeiro, a Portela. A escola das cores azul e branco, que tem a águia como símbolo, foi fundada em 11 de abril de 1923, como bloco carnavalesco, com o nome de Conjunto Oswaldo Cruz, pois ficava no bairro de mesmo nome. No mesmo ano, foi criado o bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz, que já continha o embrião da primeira diretoria portelense: Paulo da Portela, Alcides Dias Lopes (o “malandro histórico”), Heitor dos Prazeres, Antônio Caetano, Antônio Rufino, Manuel Bam-Bam-Bam, Natalino José do Nascimento (o “seu Natal”), Candinho e Cláudio Manuel. Mudou duas vezes de nome, Quem Nos Faz é o Capricho e Vai Como Pode, até assumir definitivamente , a partir de 1936, a denominação Portela. Ao longo das primeiras décadas do carnaval carioca, a Portela tornou-se uma das principais escolas de samba cariocas, ao lado de Mangueira, Império Serranoe Acadêmicos do Salgueiro. E é responsávelpor algumas inovações nos desfiles de carnaval, como, por exemplo, a comissão de frente, sendo também a primeira escola a uniformizá-la. A Portela é, também, um dos grandes celeiros de compositores do samba, comprovado por sua ativa e tradicional Velha Guarda.  Além disso, é a maior campeã do carnaval carioca, com 22 títulos conquistados, entre 1935 e 2017. Sua quadra, situada no bairro de Madureira, é um dos grandes pontos culturais do Rio de Janeiro, e recebe, o ano inteiro, visitações e eventos. Neste disco, produzido por um verdadeiro craque, Moacyr Silva, iremos encontrar doze sambas bastante expressivos, interpretados por Zezinho (duas faixas) e Abílio Martins (as demais). E assinados por vários nomes ligados à Portela, como Zé Kéti, Manacéa e seu irmão Aniceto, Waldir 59, Candeia… além, é claro, do lendário Paulo da Portela. Ele aqui comparece com um samba até então inédito em disco, “Cidade-mulher”, cujo título original era “Guanabara”, composto em 1935 para a então Vai Como Pode. Um álbum cheio de autenticidade, produzido com esmero e capricho, e digno de figurar nos acervos de tantos quanto apreciem o melhor de nossa música popular. E agora, ó abre alas, que a Portela quer passar!

piau
sofrer por errar
já sou feliz
cidade mulher
linda natureza
exaltação ao rio
sempre teu amor
nós vamos assim
pode chorar
sofrimento
micróbio do samba
incrível destino

*Texto de Samuel Machado Filho

 

Tadeu Franco – Cativante (1983)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Eis aqui um disco que há muito eu queria postar, mas  por razões diversas, acabou ficando para algum dia. E esse dia então chegou, é hoje! Taí, o músico mineiro Tadeu Franco em seu primeiro disco, produzido por Milton Nascimento, direção musical de Túlio Mourão e arranjos e regência de Wagner Tiso. Isso par não citar os outros músicos que o acompanham, que são só feras. Estreou bem o rapaz, o que também prova as suas qualidades, pois para ter um time de colaboradores desse naipe precisa ser realmente muito bom. E Tadeu Franco é, sem dúvida, uma grande revelação da MPB nos anos 80. “Cativante” é realmente um trabalho cativante, que pega a gente pelo pé (do ouvido, com certeza). Um repertório impecável, onde todas as músicas fizeram e fazem muito sucesso. Vale a pena recordar 🙂

nenhum mistério
gente que vem de lisboa
canto de uma terra
se meu jardim der flor
nós dois
tiê sangue
arrumação
onde eu nasci passa um rio
coração civil

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Giba Ferreira (1982)

Olá amiguinhos cultos e ocultos! Neste mês de aniversário, eu pretendo estar mais presente, ou seja, mantendo postagens mais regulares, talvez até diárias. Assim, pelo menos, nessa data comemorativa, podemos ter um ‘algo mais’ 😉
Para hoje eu trago esse lp, produção independente lançada no início dos anos 80. Trata-se do primeiro disco do compositor Giba Ferreira. Um nome ainda hoje desconhecido do grande público. Pesquisando no Google, não encontrei nada a seu respeito além, é claro, deste disco sendo vendido no Mercado Livre. No texto da contracapa (parece até ironia) também apresenta o artista de forma vaga. Quem é Giba Ferreira? “Não há referências musicais e nem curriculuns extensos.” E pelo jeito, com o passar do tempo, ele parece ter não ter vingado, apesar de ter aqui um trabalho muito bom, assessorado por nomes de peso como Amilton Godoy, Toquinho, Silvinha, Tetê Espíndola, Eliana Estevão… Tem também o grupo instrumental Medusa que faz a base para todo o trabalho. Vale a pena ouvir e conhecer. Como disse, no Mercado Livre é possível encontrar alguns. Este, eu ganhei do meu amigo Fares e já faz pare da coleção 😉

valsinha pro guy
chegou o tempo
abandono
virada
profissão de fé
travelling
tá na cara
a pessoa que eu amo
meta- morfases
mais cedo ou mais tarde
zombaria
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Jograis De São Paulo – Poesia Brasileira Contemporânea (1980)

Olá amigos cultos e ocultos! Hoje vamos de poesia, pois a vida anda muito dura e o ser humano perdendo a inspiração. Tenho aqui este lp do Jograis de São Paulo, um disco que comemorava os então 25 anos do grupo dirigido por Ruy Affonso. Nesta formação temos, além do Ruy, Carlos Vergueiro e os atores Armando Bogus e Rubens de Falco. No lp encontraremos a poesia de alguns dos mais importantes poetas brasileiros. Não vou nem estender a apresentação, pois a contracapa já diz tudo. Além do mais, eu hoje estou numa gripe brava. Vai aí de poesia… Eu prometo que também repostarei os outro discos do Jograis que já postei aqui, ok? Divirtam-se!

manuel bandeira – evocação do recife
cecília meireles – romance do embuçado
oswald de andrade – colagem de na avenida e ns dos cordões
guilherme de almeida – a rua das rimas
haroldo de campos – poemas concretos
mario quintana – velha historia
murilo mendes – jandira
carlos drumod de andrade – josé
ascenso ferreira – trem de alagoas
cassiano ricardo – a vida particular do jardim público
ruy affonso – estudo de concerto
mario de andrade – côco do major
menotti del picchia – batismo
vinicius de moraes – o dia do criador

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Cid Gray E Sua Orquestra – Soirée Dançante (1959)

Boa noite, amigo cultos e ocultos! Neste mês de julho, o Toque Musical está completando 11 anos de atividades. Certamente, um dos blogs com mais tempo de vida e sempre ativo, apesar de já não fazer mais postagens diárias como antigamente. Os tempos mudam e o interesse por esse sítio já não é como nos velhos tempos. Enfim…
Hoje eu trago para vocês o primeiro disco do maestro Cid Gray pela RGE, “Soirré Dançante”, lançado em 1959. Como de comum para a época, temos um disco dançante, com um repertório moderno e misto, com músicas brasileiras e sucessos internacionais. Ao que parece, o disco fez sucesso e teve lá continuação em outros volumes. A propósito, Cid Gray, na verdade, era um pseudônimo do maestro Renato de Oliveira, um músico de sólida carreira e bastante atuante nas décadas de 50, 60 e 70. Neste lp eu destacaria a música que abre o disco, “Chega de saudade”, o grande clássico da Bossa Nova, composta por Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Vale a pena conferir essa interpretação, aliás, vale conhecer o disco inteiro! 🙂

chega de saudade
tudo ou nada
roselle
tu me acostubraste
solidão
come prima
vai, mas vai mesmo
twilight time
ave maria lola
till
piccolissima serenata
aperta-me em teus braços

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Simone Et Roberto Ribeiro – A Bruxelles (1973)

O TM oferece hoje, a seus amigos cultos e ocultos, um notável trabalho reunindo dois astros de nossa música popular em início de carreira, e bastante promissor: Simone e Roberto Ribeiro. Ambos se apresentaram em Bruxelas, capital da Bélgica, na feira BrazilExport73, juntamente com o violonista João de Aquino, e este álbum de selo Odeon, editado exclusivamente para o mercado externo, documenta alguns dos melhores momentos de suas performances por lá.Simone Bittencourt de Oliveira (Salvador, BA, 25/12/1949), nascida prematura de oito meses (!), foi jogadora de basquete antes de seguir carreira artística. Tem inúmeros sucessos em seu repertório, tais como “De frente pro crime”, “Começar de novo”, “Tô voltando”, “Cigarra”, “Face a face”, “Jura secreta”, “Um desejo só não basta”, “Pão e poesia”, “O amanhã”, “Então é Natal” (versão do clássico natalino “HappyXmas”, de John Lennon), “Tô que tô” etc. Em 1973, Simone tinha acabado de lançar seu primeiro LP, quando participou de uma turnê internacional, organizada por Hermínio Bello de Carvalho, intitulada “Panorama brasileiro”, que passou por várias cidades europeias, incluindo Paris e Bruxelas. É de Simone a primeira parte deste disco, apresentando releituras de “Bamboleô”, “Voltei pro morro” e “Lamento negro”, além de três sambas de roda adaptados e arranjados por ela mesma. Na segunda parte, temos a presença do inesquecível Roberto Ribeiro (pseudônimo de Demerval Miranda Maciel, Campos dos Goytacazes, RJ, 20/7/1940-Rio de Janeiro, 8/1/1996), um dos melhores sambistas que o Brasil já teve. Ex-jogador de futebol, ele foi puxador de samba da Escola Império Serrano, entre 1974 e 1981, e deixou sucessos inesquecíveis, tais como “Acreditar”, “Poeira pura”, “Todo menino é um rei”, “Vazio (Está faltando uma coisa em mim)”, “Propagas”, “Algemas” e “Lágrima morena”.  Infelizmente, ele perdeu a visão de um olho, em razão de uma contaminação por fungo agravada pelo diabetes, e faleceu vítima de atropelamento, no bairro carioca de Jacarepaguá. A carreira de Roberto Ribeiro ganhou impulso a partir de 1972, quando gravou pela Odeon três compactos com Elza Soares, e, mais tarde, também com ela, o LP “Sangue, suor e raça”. Na segunda parte do presente álbum, ele interpreta o clássico “Berimbau”, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, acompanhado por João de Aquino, e revive “Manhã de carnaval” e “Não tenho lágrimas”, além de um dueto com Simone em “De uma noite de festa”.  Enfim, é mais um raro e precioso trabalho discográfico que o TM nos oferece, apresentando dois notáveis cantores em promissor início de carreira artística!

bamboleo – simone
voltei pro morro – simone
lamento negro – simone
três sambas de roda – simone
berimbau – roberto ribeiro e joão de aquino
manhã de carnaval – roberto ribeiro
não tenho lágrimas – roberto ribeiro
de uma noite de festa – roberto ribeiro

*Texto de Samuel Machado Filho

Conjunto Super Som T. A (1974)

Boa noite, prezados amigos cultos e ocultos! Seguimos no dia de hoje com mais uma doação. Um disco que traz lá boas surpresas. Temos aqui o conjunto Super Som T.A., um dos mais importantes grupos de baile formado em São Paulo na década de 70. O Super Som T. A. surgiu em um curso de inglês, com a finalidade de auxiliar no ensino. Em sociedade com o maestro italiano Enrico Simonetti, surgiu o conjunto que se tornaria um dos mais requisitados para bailes no país. Grupo super profissional, que investia tanto na arte musical como cênica. Seus bailes eram verdadeiros shows, com muitas luzes, trocas de roupas e tudo mais. Apresentavam sempre um repertório atual, incluindo músicas próprias. Aqui neste lp o que temos é exatamente isso, uma amostragem do talento deste grupo. Disco lançado pela RGE em 1974. Há uns 4 anos atrás eu postei aqui um outro disco do conjunto, lançado em 1991 e já com o nome de Internacional Super Som T. A., também muito bom.
Não deixem de conferir no GTM 😉

agora chega
dei tempo ao tempo – se deus quiser
assim ela lhe estraga a festa
lady lay
se the people alone
we can make it happen again
morri de pena
eu não queria
lonely days
the best thing that ever happened to me
corazon
warterloo

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A Festa Do Macaco (1979)

Um dos programas humorísticos de maior sucesso da televisão brasileira foi, indiscutivelmente, “O planeta dos homens” (título que parodiava o filme norte-americano “O planeta dos macacos”), exibido pela Rede Globo durante seis temporadas, entre 15 de março de 1976 e 3 de janeiro de 1982, nas noites de segunda-feira. Criado por Max Nunes e Haroldo Barbosa, e dirigido por Paulo Araújo, tendo entre seus redatores nomes como Luiz Fernando Veríssimo, Redi, Expedito Fagioni, Caulos e Jô Soares (que também fazia parte de seu elenco), o programa apresentava quadros de humor baseados em sátira de costumes, crítica social e política, e paródia a programas de rádio e televisão. No elenco ponteavam, além de Jô Soares, comediantes do porte de Paulo Silvino, Stenio Garcia, Clarice Piovesan (que interpretavam o casal Kika e Xuxu), Berta Loran, Renata Fronzi, Marlene Silva, Eliezer Motta, Miele, Luiz Delfino, Mílton Carneiro, Agildo Ribeiro (que interpretava, entre outros tipos, um impagável professor de mitologia grega, ao lado da “múmia paralítica”, Pedro Farah), Wilma Dias (que aparecia na abertura do programa, de biquíni, saindo de uma banana quando um macaco a abria) e OrivalPessini (que interpretava os macacos Charles e Sócrates com máscaras feitas por ele mesmo e mais tarde criou outros personagens, como o Patropi e o Fofão). “O planeta dos homens” popularizou bordões como “O macaco tá certo”, “Cala a boca, Batista!” (dito pelo irmão Carmelo, personagem interpretado por Jô Soares), “Lá vai barão!” (alusão à nota de mil cruzeiros, que tinha a efígie do Barão do Rio Branco, e crítica à alta do custo de vida), “Guenta! Ele guenta!” (do personagem Fonseca, vivido por Paulo Silvino), “Esta é a versão do macaco” e “Não precisa explicar… eu só queria entender!” (os dois últimos do macaco Sócrates). Pois o álbum que o TM oferece hoje a seus amigos cultos e ocultos é capitaneado justamente por dois dos principais comediantes que então faziam o maior sucesso no “Planeta dos homens”: Paulo Silvino (Rio de Janeiro, 27/7/1939-idem, 17/8/2017), filho do também comediante Silvino Neto, e Orival Pessini, o macaco Sócrates (Pompeia, SP, 6/8/1944-São Paulo, 14/10/2016), contando ainda com a participação de Marlene Silva, Orlandivo, Dobert Nélson e outros. É “A festa do macaco”, lançado em 1979 pela Top Tape (gravadora que ainda existe) com o selo Aquarela. O próprio Paulo Silvino produziu este disco, juntamente com Durval Ferreira (que também era gerente artístico nacional da Top Tape na época e ainda atua como violonista) e Orlandivo (que ainda atua como ritmista, ao lado de Bira), e as faixas do disco também têm a assinatura dos três. Destaque ainda para a presença de outros músicos de renome, o tecladista Lincoln Olivetti e o baixista Luizão. Curiosamente, “My menina”, interpretada por Dobert Nélson, o “cachorro”, é assinada por Paulo Silvino com o pseudônimo de Dickson Savana, com o qual inclusive gravou um 78 rpm na Chantecler, em 1960. Na interpretação das demais faixas deste disco, revezam-se Paulo Silvino e OrivalPessini, o Sócrates, e Marlene Silva ainda canta “Sombras do passado”.  Enfim, “A festa do macaco” é um disco cheio de alto astral, muito alegre e com uma excelente produção, que nos faz inclusive recordar o talento e a versatilidade de Paulo Silvino e Orival “Sócrates” Pessini, dois comediantes que marcaram época na história da televisão brasileira, e que deixaram muitas saudades. É só conferir.

coco do macaco
carochinha
bicho cabeludo
my menina
la vem portela
carochinha
bolo de chocolate
a formiguinha e o elefante
sombras do passado
com tudo arriba
coco do macaco

*Texto de Samuel Machado Filho

Andre Geraissati – 7989 (1989)

Violonista, guitarrista e compositor dos mais conceituados, com uma das mais emblemáticas trajetórias da música instrumental brasileira, André Luiz Geraissati bate ponto hoje aqui em nosso TM. Ele veio ao mundo na cidade de São Paulo, em pleno dia da Independência do Brasil (7 de setembro) do ano da graça de 1951. Sua carreira teve início nos agitados anos 1960, quando tocou com Roberto Carlos, Ronnie Von e Os Mutantes. Em 1978, formou, juntamente com outros violonistas de formação clássica e jazzística, o Grupo Dalma, do qual também fizeram parte, em momentos diferentes, Ulisses Rocha, Rui Saleme, Mozart Melo e Cândido Penteado. Admirado pela crítica por seu apuro técnico e interpretativo, o Dalma lançou o primeiro álbum em 1979, “A quem interessar possa”. O disco impulsionou a carreira do grupo, que em seguida participou de eventos como o Festival Internacional de Jazz de São Paulo (1982) e o Free Jazz Festival (1986), além de gravar mais dois LPs. A carreira-solo de André Geraissati começou em 1982, com o álbum independente “Entre duas palavras”.  E ele também tocou com Egberto Gismonti (com quem gravou o CD “Brasil musical”, em 1993), Naná Vasconcelos, Eduardo Agni e Amílson Godoy, entre outros nomes da MPB. Em 1988, participou do Festival de Jazz de Montreux (Suíça) e, dois anos mais tarde, gravou o disco “Brazilianimage”, ao lado do flautista Paul Horn, sendo apontado pela crítica especializada como “o músico da década de 1980”. Pois hoje, o TM oferece a seus amigos cultos e ocultos o quinto álbum-solo deste notável violonista. É “7989” (título referente a afinações e cifras harmônicas), gravado digitalmente em fevereiro de 1989, no Rio de Janeiro, com produção dele próprio, e lançado originalmente pela WEA/Warner (tendo sido reeditado em CD pela Eldorado, em parceria com o selo Tom Brasil, em 2001). São nove faixas, todas de autoria do próprio André, e executadas com o máximo de virtuosismo e sensibilidade. Tudo isso, aliado à mais alta qualidade técnica e artística, torna o presente álbum uma autêntica joia rara para os amigos do TM, uma preciosa amostra do trabalho e da arte deste extraordinário violonista que é André Geraissati!

fazenda
trilha
agreste
canto das aguas
oriente
paz
com o sol nas mãos
eclipse
alvorada

*Texto de Samuel Machado Filho

Revista do Henfil (1978)

Em sua postagem de hoje, o TM presta uma justa homenagem a um expressivo cartunista, jornalista e escritor brasileiro: Henrique de Souza Filho, ou, como ficou para a posteridade, Henfil.  Ele nasceu em Ribeirão das Neves, Minas Gerais, no dia 5 de fevereiro de 1944. Cresceu na periferia de Belo Horizonte, onde fez seus primeiros estudos, frequentou um curso supletivo noturno e um curso superior em sociologia na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, que abandonou após alguns meses. Foi embalador de queijos, contínuo em uma agência de publicidade e jornalista, até se especializar, no início dos anos 1960, em ilustração e produção de histórias em quadrinhos.  Nessa atividade, estreou em 1964, quando, a convite do editor e escritor Roberto Drummond, começou a trabalhar na revista belorizontina “Alterosa”, onde criou “Os Franguinhos”. Um ano depois, passou a colaborar como caricaturista político no jornal “Diário de Minas”. Em 1967, criou charges esportivas para o “Jornal dos Sports”, do Rio de Janeiro. Os trabalhos de Henfil também apareceram nas revistas “Realidade”, “Visão”, “Placar”, e “O Cruzeiro”, além do “Jornal do Brasil” e do tablóide “Pasquim”, onde seus personagens ficaram bastante populares. Já envolvido com a política do país, Henfil lançou, em 1971, a revista “Fradim”, que teve31 números publicados até 1980, cuja marca registrada era o desenho humorístico, crítico e satírico, com personagens tipicamente brasileiros, como os fradinhos Cumprido e Baixim, a Graúna, o bode Orelana, o nordestino Zeferino e, mais tarde, Ubaldo, o paranoico. Henfil passou toda a sua vida a defender o fim do regime ditatorial pelo qual o Brasil passava. Tentou seguir carreira nos EUA, onde passou dois anos em tratamento de saúde. Como não teve lugar nos principais jornais norte-americanos, sendo renegado a publicações “underground”, escreveu o livro “Diário de um cucaracha” e, de volta ao Brasil, passou a colaborar na revista “Istoé”, escrevendo a coluna “Cartas à mãe”. Pelo conjunto de obra nessa revista, Henfil recebeu, em 1981, o Prêmio Vladimir Herzog, na categoria Artes. Outras de suas obras são “Henfil na China” (1980), “Diretas já” (1984) e “Como se faz humor político” (1984). Envolveu-se também com cinema (fez o filme “Tanga: deu no New York Times?”), teatro e televisão (teve inclusive, um quadro humorístico no programa “TV Mulher”, da Globo), mas ficou marcado mesmo por sua atuação nos movimentos sociais e políticos brasileiros. Como outros dois de seus irmãos – o sociólogo Betinho e o músico Chico Mário – Henfil herdou da mãe a hemofilia, distúrbio que impede a coagulação do sangue, fazendo com que a pessoa seja mais suscetível a hemorragias. E, após uma transfusão de sangue, acabou contraindo o vírus da AIDS. Henfil acabaria falecendo em 4 de janeiro de 1988, aos 43 anos, no Rio de Janeiro, vítima de complicações dessa doença. E em pleno auge da carreira, com seus trabalhos aparecendo nas principais revistas brasileiras e no jornal “O Estado de S. Paulo”, onde publicava os quadrinhos da Graúna. Pois o TM presta justa homenagem a este notável artista apresentando hoje, a seus amigos cultos e ocultos, o álbum com as músicas do espetáculo teatral “Revista do Henfil”, que estreou em São Paulo no dia primeiro de setembro de 1978, inaugurando o (então) novo Teatro Galpão/Ruth Escobar, e depois percorreu várias das principais cidades brasileiras. O espetáculo contou com as participações de Paulo César Pereio, Rafael de Carvalho, Sônia Mamede e da própria Ruth Escobar, entre outros. O texto foi do próprio Henfil, em parceria com Oswaldo Mendes, e as músicas, de autoria de Cláudio Petraglia (que também atua ao piano na faixa “Esta vida é um mafuá”), são interpretadas pelo elenco da peça, em gravação feita ao vivo pela Bandeirantes Discos, sob a supervisão de Sérgio Lopes.  Em suma, é mais um valioso tesouro musical que o TM resgata, para alegria e satisfação de todos aqueles que apreciam o que é bom.

henfil vai bem
seu presidente nosso abra’co
uai uai uai
xaxado
as riquezas da caatinga
cancão de amor
sambao
cancao da graúna
essa vida ‘e um mafua
tem peba na ceroula
ultima carta
henfil vai bem

Texto de Samuel Machado Filho

Cardinale Apresenta O Sucesso (1968)

Indiscutivelmente, o grupo de pop-rock The Fevers escreveu um dos mais expressivos capítulos da história da música jovem brasileira, a ponto de ser eleito, em pesquisa realizada pelo programa “Fantástico”, da TV Globo, como “a banda mais popular do país”. Formado em 1964, com o nome de The Fenders, o grupo logo mudou de nome, um ano mais tarde, para The Fevers, uma referência à música “Fever”, então sucesso de Elvis Presley (já havia um The Fenders na praça, daí a mudança). Além de gravarem seus próprios discos, a partir de 1965, os Feversrealizaram (muitas vezes sem créditos) os acompanhamentos instrumentais de gravações de Eduardo Araújo, Sérgio Reis, Deny e Dino, Erasmo Carlos, Trio Esperança, Roberto Carlos e outros mais. E também ficaram conhecidos como “os reis dos bailes”. “Mar de rosas”, “Agora eu sei”, “Elas por elas”, “Guerra dos sexos”, “Cândida”, “Hey girl”, “Vem me ajudar”, “Estou feito um demônio” e “Onde estão seus olhos negros?” são alguns dos maiores sucessos da banda. Os Fevers, durante sua fase inicial, também gravaram discos sob pseudônimo, tanto na própria companhia da qual eram então contratados (Odeon), como também em outras (na CBS, por exemplo, os Fevers gravavam com o pseudônimo de Superquentes). É justamente um desses álbuns que o TM oferece hoje, a seus amigos cultos e ocultos. Trata-se de “Cardinale apresenta o sucesso”, lançado pela Odeon (selo Parlophone) emsetembro de 1968. Evidentemente, Cardinale é um dos inúmeros pseudônimos dos Fevers. No repertório, músicas nacionais e internacionais que faziam sucesso entre a juventude nessa época. Na parte internacional, temos “E lapioggiacheva” (na verdade, “Remembertherain”, composta e gravada por Bob Lind, e que ganhou versões em italiano e português, esta última denominada “A chuva que cai”, e gravada pelo conjunto Os Caçulas), “Mrs. Robinson” (de Simon e Garfunkel, feita para o filme “A primeira noite de um homem”) , “Delilah”, “Seul sursonetoile” e “Honey” (então sucesso de Bobby Goldsboro). Na parte nacional, encontraremos “Com muito amor e carinho”, “Eu te amo, te amo, te amo” (curiosamente lançadas por Roberto Carlos em um mesmo compacto simples), “Última canção” (com a qual Paulo Sérgio despontou para o estrelato), “Bilhetinho apaixonado” (sensação da época na voz de Kátia Cilene), “Para o diabo os conselhos de vocês”(gravada por Erasmo Carlos e também por Paulo Sérgio) e “O barqueiro” (dos BrazilianBitles). Tudo isso em um disco totalmente instrumental, em que se destacam os solos de órgão Hammond, semelhantes aos do instrumentista Lafayette, reforçando aquele clima de bailinho. Por certo o álbum vendeu muito bem na época, tanto que foi seguido de um segundo volume. Portanto, este “Cardinale apresenta o sucesso” mostra por que os Fevers, mesmo escondidos sob esse pseudônimo, ficaram conhecidos como “os reis dos bailes”. E aí? Dá-me o prazer desta contradança?

com muito amor e carinho
última canção
bilhetinho apaixonado
largo tudo em venho te buscar
mrs robinson
eu te amo eu te amo eu te amo
para o diabo os conselhos de vocês
e la pioggia che va
o barquero
seul sur son stole
delilah
honey

*Texto de Samuel Machado Filho