Zimbo Trio – Sonny Stitt In Brasil (1979)

O TM apresenta hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados mais um álbum do sempre notável Zimbo Trio. Lançado em 1979 com o selo Clam, que pertencia ao grupo, o disco registra o encontro deles com o saxofonista norte-americano Edward “Sonny”  Stitt (Boston, Massachussets, 2/2/1924-Washington, DC, 22/7/1982). Ao contrário do que sugere o título, primeiro da trilogia “Zimbo Trio convida”, eles próprios foram convidados  a ser o grupo de apoio do já veterano músico norte-americano em uma turnê que ele fez pelo Brasil. O resultado é o que se pode esperar de uma reunião dessa ordem, repertório com base em standards do jazz, da bossa nova (“Corcovado”, “Samba de Orfeu”), do bebop (“Little suede shoes”, There you will never be another you”, “Autumn leaves”) e trabalhos originais do próprio Sonny Stitt (“Hope’s blues”, “Blues for Gaby”). Ele foi, talvez, o saxofonista com sonoridade e fraseado mais parecidos com os de Charlie Parker, ídolo do bebop. Stitt era alguns anos mais velho do que Parker, e iniciou-se como músico ainda na era do swing. Ele próprio declarou várias vezes que, quando ouviu Parker pela primeira vez, ainda com “Bird” tocando na orquestra de Jay McShan, levou um susto, tal a semelhança de estilos. Stitt tornou-se um dos nomes de peso do bebop, gravando alguns discos importantes com ninguém menos do que Dizzy Gilespie, o outro co-fundador desse estilo, ao lado de Charlie Parker. Dos integrantes do Zimbo Trio, o pianista Hamilton Godoy parece ser o que mais está á vontade, graças à influência de Oscar Peterson em seu estilo. O baixista Luiz Chaves e o baterista  Rubinho Barsotti, ao contrário, não demonstram lá muita intimidade com as acentuações rítmicas do bebop, especialmente no trabalho com o bumbo e a caixa, e as características do walking bass. Afora esses detalhes, percebidos apenas e tão-somente pelos ouvidos dos mais iniciados, este disco, para o público em geral, é uma agradável sessão de jazz com músicos de alto gabarito em suas respectivas estéticas. Um encontro histórico de grandes músicos brasileiros com um saxofonista que marcou época na história do jazz, agora oferecido pelo TM a todos aqueles que apreciam música de qualidade. Simplesmente o fino do fino…

hope’s blues

corcovado

there you’ll never be another you

little suede shoes

autumn leaves

samba de orfeu

blues for gaby

assim está certo

*Texto de Samuel Machado Filho

Lucinha Lins e Cláudio Tovar – Simbad de Bagdad (1986)

O TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados mais um álbum infantil que, por certo, vai fazer muitos deles recordarem seu tempo feliz de criança. Ele foi concebido por Lucinha Lins em companhia de seu segundo marido, Cláudio Tovar, e foi lançado em 1986 pela gravadora Arca Som, que pertencia ao Grupo de Comunicação O Dia, cuja principal empresa era o jornal carioca de mesmo nome, ainda hoje em circulação. Nesse tempo, a extinta Rede Manchete de Televisão havia perdido para a Globo a apresentadora Xuxa Meneghel, e o “Clube da Criança”, que ela apresentava na faixa vespertina, passou a ser uma simples “sessão desenho”. Para não deixar sua programação sem representantes para as crianças, a emissora dos Bloch, aproveitando o sucesso que Lucinha Lins e Cláudio Tovar vinham fazendo em espetáculos teatrais infantis, contratou o casal. Assim, no dia 3 de março de 1986, a Rede Manchete estreava o “Lupu Limpim Clapla Topo”, programa com nome bem incomum e que poucas crianças conseguiam pronunciar. Dirigido por Sérgio Galvão e Cláudio Tovar, e com textos de Lula Torres e Maria Lúcia Dahl, era um infantil bem diferente dos que haviam na época, pois baseava-se em teleteatro com agradáveis curiosidades e, logicamente, recheado de desenhos animados. Tempos depois, o programa passou a contar com um auditório de crianças. Nesta fase, além de brincadeiras como “Cama de gato”, o “Lupu Limpim” tinha dramatizações de clássicos infantis. E tinha também a Lucinha Lins ensinando a “língua do P”, uma forma diferente de falar que acabou caindo no gosto da criançada. O tema de abertura do programa era “Caixa de brinquedos”, que abre também o presente álbum, com produção executiva da própria Lucinha Lins, e dividido em duas partes. No lado A, temos a trilha sonora de um dos musicais teatrais que Lucinha e Cláudio fizeram com sucesso, “Simbad de Bagdad”. No lado B, os temas de “Lupu Limpim Clapla Topo”. Tudo com arranjos e regências de um verdadeiro “craque”, Antônio Adolfo. Em fins de 1987, o “Lupu Limpim Clapla Topo” saiu do ar, e o “Clube da Criança” voltou, agora apresentado por nada mais nada menos do que Angélica, atualmente na Globo. Este álbum de Lucinha Lins e Cláudio Tovar, portanto, é mais um trabalho de qualidade destinado ao público infantil, que o TM oferece com muito orgulho e satisfação. É digno representante de um tempo em que as redes de televisão aberta dedicavam mais espaço a atrações para crianças, que, com o advento da TV por assinatura e da internet , e as restrições impostas pelas autoridades à propaganda de produtos destinados ao consumo infantil, sobretudo guloseimas, passaram a se tornar inviáveis comercialmente. Mas, se as coisas boas um dia se acabam, o TM, através de postagens como esta, faz com que elas fiquem vivas em nossa lembrança!

*Texto de Samuel Machado Filho

Dorival Caymmi – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 149 (2017)

Para alegria dos amigos cultos, ocultos e associados do TM, o Grand Record Brasil, dedicado à musicografia brasileira em 78 rpm, está de volta. Nesta, que é a edição de número 149, apresentamos um pouco da preciosíssima obra de Dorival Caymmi, o poeta seresteiro da Bahia, interpretada por ele próprio em gravações originais. Caymmi veio ao mundo no dia 30 de abril do ano da graça de 1914, na capital baiana, Salvador. Era descendente de italianos pelo lado paterno, e seu bisavô chegou ao Brasil para trabalhar no reparo do Elevador Lacerda. Ainda criança, iniciou-se na música, ouvindo parentes ao piano. O pai, Durival (assim mesmo, com “u”!) Henrique Caymmi, funcionário público e músico amador, tocava ainda violão e bandolim, e a mãe, Aurelina Soares Caymmi, dona-de-casa, mestiça de portugueses e africanos, cantava apenas no lar. Ainda menino, nosso Caymmi era baixo-cantante em um coro de igreja. Aos 13 anos, interrompeu os estudos e passou a trabalhar como auxiliar na redação do jornal “O Imparcial”. Com o fechamento do periódico, em 1929, passou a vender bebidas. Escreve sua primeira música, “No sertão”, em 1930 e, aos vinte anos, faz suas primeiras apresentações como cantor  e violonista em programas da Rádio Clube da Bahia. Em 1935, passa a ter um programa só seu, “Caymmi e suas canções praieiras”. Aos 22 anos, vence um concurso de músicas de carnaval com o samba “A Bahia também dá”. Incentivado por um diretor da Rádio Clube da Bahia, Gilberto Martins, resolve seguir carreira no Sul do Brasil, e embarca para o Rio de Janeiro, então Capital da República, em abril de 1938, num ita (navio que cruzava o Brasil de sul a norte) , a fim de obter emprego como jornalista e estudar Direito. Com a ajuda de parentes e amigos, fez alguns pequenos trabalhos como repórter em “O Jornal”, periódico dos Diários Associados, ainda assim continuando a compor e cantar. Em seguida, estreou como cantor na PRG-3, Rádio Tupi (“o cacique do ar”), apresentando-se dois dias por semana. Foi no programa “Dragão da Rua Larga” que Caymmi apresentou, pela primeira vez, seu samba “O que é que a baiana tem?”, mais tarde interpretado por Cármen Miranda no filme “Banana da terra”,  e que muito contribuiu para a consagração internacional da “pequena notável”. E foi com ele que Caymmi estreou em disco, em dueto com Cármen, em 1939, tendo no verso “A preta do acarajé” (incluído nesta seleção).  Era o pontapé inicial para inúmeros outros sucessos, gravados por ele próprio e por outros intérpretes, em mais de 50 anos de atividade musical, entre os quais, além dos presentes nesta edição do GRB, podemos citar: “A jangada voltou só”, “Marina”, “Acalanto”, “A vizinha do lado”, “Saudade da Bahia”, “Pescaria (Canoeiro)”, “Tão só”, “Sábado em Copacabana”, “Samba da minha terra”, “Eu não tenho onde morar”, “São Salvador”, “Modinha para Gabriela”, “Das Rosas”, “Eu cheguei lá”, “Vou ver Juliana”, “Maracangalha”, “Adeus”, “Trezentas e sessenta e cinco igrejas”, “Oração de Mãe Menininha”, “O bem do mar” e muitos mais. Uma gloriosa trajetória que também inclui apresentações no exterior.  Possuía um estilo pessoal de compor e cantar, com espontaneidade nos versos, sensualidade e riqueza melódica. Além da música, dedicou-se intensamente à pintura. Em 1986, foi merecidamente homenageado pela Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira com o enredo “Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm”, com o qual a “verde-e-rosa” sagrou-se campeã do carnaval carioca. Do casamento de Caymmi com Adelaide Tostes (que, como cantora, usava o pseudônimo de Stella Maris), resultaram três filhos que também seguiram carreira musical, e estão na estrada até hoje:  Nana, Dori e Danilo, além da neta Alice. Dorival Caymmi faleceu em 16 de agosto de 2008, aos 94 anos, no Rio de Janeiro, de insuficiência renal.

Para esta edição do GRB, foram selecionadas doze preciosas gravações de mestre Caymmi, verdadeiras joias da nossa música popular, documentando parcela substancial de sua obra como autor e intérprete. Abrindo o programa, temos “Cantiga”, gravação RCA Victor de 5 de novembro de 1947, lançada em maio de 48 sob número 80-0585-A, matriz S-078820. O samba “Dois de fevereiro”, em homenagem  a Iemanjá, “a rainha do mar”, é gravação Odeon de primeiro de setembro de 1957, com acompanhamento orquestral de Léo Peracchi, lançada em dezembro seguinte com o número 14286-A, matriz 12000, aparecendo também no LP “Caymmi e o mar”, quarto vinil do artista baiano e primeiro no formato-padrão de doze polegadas. Voltando à RCA Victor, temos “Festa de rua”, “cena baiana” gravada em 18 de abril de 1949 e lançada em julho seguinte com o número 80-0596-B, matriz S-078868. Temos em seguida uma amostra do Caymmi apenas intérprete, no samba-jongo “Navio negreiro”, de Alcyr Pires Vermelho, J. Piedade e Sá Roris, gravação Odeon de 5 de março de 1940, com suporte orquestral do palestino Simon Bountman,  lançada em maio do mesmo ano sob número 11850-A, matriz 6311. Uma das obras-primas de Caymmi, o samba-canção “Nem eu”, que o autor já havia interpretado no filme “Terra é sempre terra”, da Vera Cruz, foi por ele gravado na mesma Odeon em 14 de maio de 1952, com lançamento em julho do mesmo ano, com o número 13288-B, matriz 9305. “Nem eu” tem regravações por Ângela Maria, Gal Costa e até mesmo por Hebe Camargo, entre outras. Logo depois, outra obra-prima do mestre baiano: a canção praieira “O mar”, por ele interpretada com acompanhamento orquestral de Radamés Gnattali. A gravação ocupou os dois lados do disco Columbia 55247, registrado em 7 de novembro de 1940 e lançado em dezembro do mesmo ano, matrizes 328 e 329. “Noite de temporal”, outra canção praieira do gênio baiano, é o lado B de “Navio negreiro”, e foi gravado um dia antes, em 4 de março de 1940, matriz 6310. Caymmi a interpreta acompanhado pelos violões de Laurindo de Almeida, Dilermando Reis e Rogério Guimarães. E tome clássico: “Dora”, samba com introdução de frevo, que Caymmi fez no Recife, inspirado numa mulata que dançava o frevo com perfeição, à frente de um bloco que passava em frente a um hotel da capital pernambucana. Antológica gravação Odeon de 18 de junho de 1945, com acompanhamento da orquestra do maestro Fon-Fon , lançada em agosto seguinte sob número 12606-A, matriz 7856. O samba “Lá vem a baiana” foi gravado por seu autor na RCA Victor em 11 de julho de 1947, com lançamento em agosto do mesmo ano, com o número 80-0536-B, matriz S-078763. O samba-canção “João Valentão” foi inspirado em um pescador amigo de Caymmi, Carapeba, e é considerado um dos melhores perfis humanos traçados pelo mestre baiano. Foi por ele imortalizado na Odeon em 28 de maio de 1953, acompanhado pela orquestra de Oswaldo Borba, com lançamento em agosto seguinte sob número 13478-A, matriz 9726, e tem sido bastante regravado, como aliás quase todas as suas obras. “Saudade de Itapoã” é outra obra-prima que o próprio Caymmi imortalizou, desta vez na RCA Victor, em 5 de novembro de 1947, com lançamento em abril de 48, sob número 80-0576-B, matriz S-078823. Para encerrar, uma gravação do início da carreira de Caymmi: a “cena típica baiana” “A preta do acarajé”, que ele interpreta ao lado de Cármen Miranda. Registro Odeon de 27 de fevereiro de 1939, lançado em abril seguinte com o número 11710-B, matriz 6024. Caymmi recolheu o pregão da voz de uma negra vendedora de acarajé , que todas as noites passava por sua rua, em Salvador, e ao servir os fregueses também dizia: “Todo mundo gosta de acarajé, mas o trabalho que dá pra fazer é que é”. Segundo o próprio Caymmi, “em verdade essa canção é muito mais daquela preta que vendia acarajé do que minha”… Enfim, uma pequena-grande amostra do talento, da poesia e da musicalidade de Dorival Caymmi como autor e intérprete, que o GRB tem a grata satisfação de oferecer.

* Texto de Samuel Machado Filho

Luiz Gonzaga – S.Paulo-QG Do Baião (1974)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Começando bem a manhã e antes de sair para o trabalho, vou deixando aqui um ‘disco de gaveta’, ou seja, aquele que está sempre pronto para cobrir um vão. Eu já havia abandonado esse termo, pois afinal, o que não falta aqui no Toque Musical é buraco, furo… Furo do amigo aqui, que nem sempre encontra tempo para manter a tradicional postagem diária. Mas como dizem por aí, é melhor pingar do que faltar.
Seguimos assim, trazendo este lp do Luiz Gonzaga, lançado em 1974 pela gravadora RCA. Aqui temos um disco dedicado aos paulistas e a comunidade nordestina, em São Paulo. Cidade onde o Lua amplificou o seu sucesso, ecoando por todo o Brasil e também fora dele. Trata-se de um lp importante, pois reúne gravações antigas da época dos 78 rpm com uma qualidade de som que só mesmo uma gravadora como a RCA Victor poderia nos dar. Há também o fato de que algumas gravações são raras, como é o caso de “A vida do viajante”, que aqui aparece na versão original. Geralmente quando ouvimos essa música, a versão é sempre em dueto com o filho Gonzaguinha. Na verdade, nem sei se existe essa primeira versão lançada em cd. Embora difícil de se ver e ouvir, acredito que sim, pois a obra do Gonzaga já foi toda rastreada. Confiram aqui essa joinha, é imperdível! 😉

baião da garôa
a vida do viajante
jardim da saudade
marabaixo
catamilho na festa
xaxado
cana só em pernambuco
moda da mula preta
moreninha, moreninha
tô sobrando
relógio do baião
a canção do carteiro
velho pescador
vamos xaxear

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Isolda (1979)

Hoje o TM oferece aos amigos cultos, ocultos e associados o primeiro álbum-solo, como intérprete, de uma compositora que tem mais de noventa músicas gravadas, a maior parte grandes sucessos. Estamos falando de Isolda Bourdot Fantucci, ou simplesmente Isolda.  Foi no dia 9 de janeiro de 1957, em São Paulo, que Isolda veio ao mundo. Seu bisavô e avó maternos foram maestros e compositores, e desde criança ela se interessou por artes em geral. Começou a aproximar-se da música em brincadeiras com o irmão e futuro parceiro Mílton Carlos, escrevendo canções e histórias para teatrinhos de bonecas. Nossa Isolda queria ser jornalista, mas, ainda adolescente, começou a participar, junto com o irmão, de festivais de MPB, muito em moda nas décadas de 1960/70, pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, sendo premiados em vários deles. A partir daí, Isolda e Mílton passaram a receber encomendas de músicas de alguns cantores que sentiram grande sensibilidade artística na dupla de irmãos. Entre eles, Roberto Carlos, que, em seu álbum de 1973, incluiu a música “Amigos, amigos”, primeiro grande sucesso autoral de Isolda e Mílton. Este último gravou seu primeiro disco em 1974, um compacto duplo que incluiu “Samba quadrado”, grande sucesso na época, evidentemente composto em parceria com a irmã. Deles, Roberto Carlos ainda gravaria “Jogo de damas” (1974), “Elas por elas” (1975), “Um jeito estúpido de te amar” e “Pelo avesso” (ambas em 1976). Outros cantores também registraram composições de Isolda e Mílton: Wando (“Amanhã é outro dia”, “Na boca do povo”), Ângela Maria (“Nunca mais”) e Agnaldo Rayol (“Eu levo uma cruz na corrente”). O próprio Mílton gravou “Um acalanto”, “Uma valsa, por favor”, “Telerodovida”, “Me mata” e “Vexame”. Infelizmente, a parceria Isolda-Mílton Carlos terminou prematuramente e de forma trágica, em 1976, quando Mílton faleceu em acidente automobilístico na Via Anhanguera, em São Paulo. Mesmo abalada com a morte do irmão e parceiro, Isolda compôs uma balada romântica que seria seu maior sucesso autoral: nada mais nada menos que “Outra vez”, sucesso de Roberto Carlos em 1977 e merecedor de inúmeras regravações no Brasil (Altemar Dutra, Simone, Emílio Santiago…) e no exterior (Peppino di Capri, Armando Manzanero, Ray Conniff…). “Outra vez” recebeu vários prêmios, foi incluída em trilha sonoras de telenovelas  e até hoje é muitíssimo lembrada. “É uma música que sempre vai me acompanhar”, como diz a própria Isolda. Apesar de todo o seu sucesso como compositora, Isolda sempre teve comportamento sóbrio e discreto, chegando até mesmo a evitar contatos com a mídia. Ainda assim, em 1979, concordou em soltar a voz quando, a convite da RCA, hoje Sony Music, gravou seu primeiro álbum-solo, este mesmo que o TM nos oferece hoje. O disco foi produzido pelo sempre versátil Sérgio Sá, que também se incumbiu dos arranjos e regências, além de assinar a faixa “Dois encontros casuais”. É claro que “Outra vez” está presente no repertório deste álbum, junto com outras composições suas (algumas em parceria com o então já falecido irmão, Mílton Carlos) e de outros autores. Com direito até a regravações de “Ilegal, imoral ou engorda”, de Roberto & Erasmo Carlos, “Um jeito estúpido de te amar” (que ela fez ainda com o irmão) e “Tente esquecer” (que compôs solo), estas duas também hits na voz do “rei da MPB”. A faixa de abertura, “Boleríssimo” (outra parceria com o irmão Mílton), chegou até a ser incluída em uma novela da extinta TV Tupi que não terminou, “Como salvar meu casamento”. Após mais de 140 capítulos exibidos, a novela (cuja trilha sonora já havia sido até lançada em disco) teve sua exibição interrompida no início de 1980, por conta da crise financeira que levou a emissora a fechar suas portas.  E a Tupi não deu nenhuma satisfação quanto à exibição dos capítulos restantes…  Ainda assim, “Boleríssimo” fez sucesso, e inclusive foi regravada por Maria Creuza. Isolda só gravaria mais um álbum além deste aqui, o CD “Tudo exatamente assim”, lançado em 2006 pela marca Toca Disc. E este primeiro disco-solo nos oferece a oportunidade de apreciar um pouco de sua arte como cantora e compositora, sempre com apurada sensibilidade e imenso talento. Confiram…

boleríssimo
um jeito estúpido de te amar
você precisa saber das coisas
questão de dias
não faça assim
outra vez
confidências
apague a luz
ilegal imora ou engorda
dois encontros casuais
sem desespero
tente esquecer

*Texto de Samuel Machado Filho

João Nogueira (1972)

Boa tarde, amigos cultos e ocultos! Para começarmos bem o ano, escolhi um disco que também representa um começo. O começo da carreira do grande compositor e sambista João Nogueira. Este foi o seu primeiro lp, lançado pela Odeon, em 1972. A capa do disco é originalíssima, replicando a manchete do jornal O Globo, onde o escritor e jornalista Carlos Jurandir nos apresenta o artista e seu disco de estréia. Certamente, a manchete saiu antes do lançamento do disco. A capa, por si só, já dá o recado e eu como sou muito preguiçoso, aproveito a onda pra ir de jacarezinho. Ou seja, recomendo, maiores informações, consulte a capa 😉
Sei que há tempos tenho andado um tanto desleixado com minhas postagens, inclusive o trabalho de apresentação. Depois que troquei o computador e perdi meus programas piratas de edição de imagens, nem as capas eu tenho tratado. Mas como um autêntico virginiano, eu odeio essas ‘meia-bocas’, para mim, a coisa tem que estar certinha. Acho que só não tomei providências ainda, porque ninguém tem reclamado. Aliás, quase ninguém mais dá sinal de vida neste blog. Sei que eu sou um chato de dar medo, mas fiquem tranquilos, eu ainda não mordo. (kkk…)

morrendo verso em verso
maria sambamba
beto navalha
mãe solteira
alô madureira
heróis da liberdade
mariana da gente
prum samba
meu caminho
das 200 pra lá
blá blá blá
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Elza Soares – O Samba É Elza Soares (1961)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Enfim, lá se foi 2016. Pqp, que ano feio! Fomos golpeados de todas as maneiras. Uma sequência de maus momentos que ainda insiste em se manter em 2017. Mas como diria o grande Belchior: ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro! Por aqui, no Toque Musical quem salvou o ano foi o amigo Samuca. Sem ele como colaborador, eu confesso, já teria desanimado. Aproveito para deixar aqui os meus agradecimentos, toda a atenção e empenho dedicado ao blog. Valeu, Samuel Machado Filho! Continuo contando com você em 2017. Por certo, também não posso deixar de agradecer a alguns poucos amigos cultos e ocultos que ainda visitam com frequência o nosso sítio. Obrigado pela colaboração e participação de todos. Desejo a vocês também um ótimo ano e que este seja mais musical e envolvente, pelo menos aqui no TM.
A postagem de hoje, “Elza Soares – O Samba é Elza Soares” já estava agendada desde o inicio do ano, mas por força das circunstâncias acabou ficando para o último dia. Deste álbum e desta cantora eu não preciso dizer muita coisa, todos já os conhecem bem. Temos aqui um clássico lp da Odeon, em capa sanduíche tradicional da gravadora. Elza Soares, sempre no auge do sucesso, nos apresenta uma seleção de ótimos sambas, com arranjos e orquestração do maestro Astor Silva que dá aos metais o nobre destaque. Neste álbum Elza também conta com a participação de, outro grande, o sambista e compositor Monsueto, presente em pelo menos três faixas. Um disco inegavelmente importante, que agora também faz parte de nosso acervo digital. Confiram…

eu e o rio
vedete certinha
teleco teco
bom mesmo é estar bem
fez bobagem
amor de mentira
na base do bilhetinho
cantiga do morro
acho que sim
ziriguidum
vou sonhar pra você ver
reconciliação

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Daltony – Bate Boca (1981)

Boa noite, amiguinhos cultos e ocultos! Falta pouco para ficarmos livre de vez deste 2016. Êta anozinho ingrato, cheio de mortes, de golpes, de coisas ruins… Por certo que não ficamos só na merda, afinal sofrimento tem limite. Tivemos sim bons momentos para compensar a tristeza. Entre as coisas boas, embora ninguém mais ligue, é o Toque Musical. Fiel ao seu propósito, um blog já tradicional. E é para manter o status que a gente falha mas não falta. Sempre presente trazendo os mais diferentes toques musicais.
Hoje, vamos com o Daltony. Artista já apresentando aqui por duas vezes, no compacto de 1982 e no lp “Cirose”, de 83. Agora ele volta em seu lp de estréia, “Bate boca”, lançado pela RCA, em 1981. Neste álbum, totalmente autoral ele conta com os arranjos e regência de Antonio Adolfo. Um trabalho muito bom de um artista que infelizmente poucos conhecem. Por isso, vale a pena ouví-lo com toda atenção.

os amigos do alheio
pra não se afastar
meu produtor
três amores
ligue
tempo
deda
bate boca
precisar de ti
classificados
primeira dança
nós o cantores

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Galo Preto (1981)

Boa noite, amigos cultos e ocultos! Para aqueles que não assistiram a Missa do Galo, não fiquem desolados. Para quem, como eu, não viu o Galão ser campeão, também não se desesperem. Ainda há tempo para um outro galo, o grupo de chorinho “Galo Preto”. Formado nos anos 70, o Galo Preto é um dos mais importantes grupos de choro do país. Em franca atividade ainda hoje, eles já tocaram e gravaram com uma infinidade de bons artistas. Já se apresentaram em diversos países, sempre com muto sucesso.
Neste lp, produção independente, lançada em 1981, o grupo seleciona um repertório com músicas até então inéditas de diversos autores. Confiram em detalhes, a contracapa traz toda a informação sobre essa produção. Para os amantes da boa música instrumental e do choro este lp é imperdível. Confiram…

meu tempo de garoto
choro ligado
eventualmente
gracioso
um presente pro titio
marceneiro paulo
amarelinho
deixa falar
rabo de galo
valsa n.2
vocês me deixam ali e seguem de carro
flor do mato

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Zimbo Trio – Strings and Brass Plays the Hits (1971)

Olá, amigos cultos e ocultos! Espero que tenham gostado de nossa mostra voltada aos festivais. Tivemos aqui um leque bem variado, com festivais de três décadas diferentes e sempre bem apresentados pelo nosso amigo culto Samuca.
Fugindo do tradicional, este ano não tivemos postagens natalinas. Acho que já esgotamos os discos ligados ao tema. Por essa e muito mais por outras, nosso Natal vai ser ao som do grande Zimbo Trio. Acho que este disco cai como uma luva, não apenas pelo seu conteúdo musical, mas também pela capa vermelha, que bem simboliza o Papai Noel.
Temos aqui mais uma belíssima pérola do Zimbo Trio, acompanhado de cordas e metais, numa sessão de ‘hits’ nacionais e internacionais. Um repertório misto e bem peneirado que agrada em cheio, antes ou depois da ceia.
Feliz Natal a todos os amigos cultos e ocultos!

madalena
bridge ove troubled water
falei e disse
agora
i’ll be there
apesar de você
na tonga da mironga do kaburetê
primavera (vai chuva)
close to you
carimbó
pulo pulo
fechado para balanço
para lennon e mccartney

O Melhor De O Brasil Canta No Rio (1968)

Encerrando de vez sua retrospectiva dedicada aos festivais, o TM oferece hoje a seus amigos cultos, ocultos e associados , mais um álbum (o oficial já foi postado anteriormente) referente ao certame promovido em 1968 (“o ano que não terminou”) pela extinta TV Excelsior, canal 2, do Rio de Janeiro, oficialmente denominado “O Brasil canta no Rio”, mas também conhecido como III Festival Nacional de Música Popular.  Criado, organizado e realizado por Adonis Karan, o festival aconteceu simultaneamente em oito estados (e sem o apoio da Embratel, então estatal, criada três anos antes):  Rio de Janeiro, Guanabara, Minas Gerais, Bahia, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo. Isso em uma época em que não havia as facilidades de comunicação de hoje (satélites, internet, redes sociais, etc.). Em cada um deles, houve quatro eliminatórias e uma final regional, cada um classificando cinco músicas. Entretanto, só três músicas classificadas em cada estado concorreram na final nacional, acontecida no ginásio Maracanãzinho (o mesmo do FIC) em 27 de julho de 1968. A música vencedora foi “Modinha”, de Sérgio Bittencourt, interpretada por Taiguara. O curioso é que neste álbum que hoje oferecemos, lançado pela CBS, a Sony Music de hoje,  quatro das primeiras colocadas no festival (“Modinha”, “Paixão segundo o amor”, “Fala moço” e “Você passa, eu acho graça”) nem sequer aparecem. Como seus intérpretes pertenciam a outras gravadoras, a empresa  decidiu oferecer o que tinha, literalmente à mão, apresentando neste disco doze concorrentes do festival da Excelsior, representando seis dos oito estados participantes (Minas Gerais e Paraná ficaram de fora), ficando a produção por conta de Hélcio Milito, então baterista e percussionista do Tamba Trio. Destas, seis participaram da final do certame: “Peccata mundi” (com Cynara e Cybele, ex-integrantes do Quarteto em Cy), “A vez e a voz da paz” (que abre o disco, na voz de Eduardo Conde, sendo que foi originalmente defendida por Taiguara), “Ciranda do amor” (aqui com seu autor, Roberto Lima), “Ultimatum” (a vice-campeã, de autoria dos irmãos Valle, originalmente defendida por Maria Odete com o grupo Momentoquatro, e aqui com a então estreante Glória), “O gaúcho” (na voz do autor, Raul Ellwanger) e “Retirada” (com Rose Valentim, curiosamente de autoria do maestro Eduardo Lages, futuro arranjador de Roberto Carlos em discos e shows). Completam o trabalho outras seis músicas: “Litoral”, dos estreantes Toninho Horta e Ronaldo Bastos, com a também estreante Gilda Horta, por certo irmã de Toninho (que já participara do festival de Juiz de Fora, acontecido pouco antes), “Sem assunto”, de Sidney Miller (vencedora do mesmo festival de Juiz de Fora), com Cynara e Cybele, que ainda interpretam “O jornal”, da dupla Chico Anysio-Arnaud Rodrigues (criadores, mais tarde, do “grupo” Baiano e os Novos Caetanos) e“Bloco do eu sozinho”, dos irmãos Valle,“Homem  do meu mundo”, também dos irmãos Valle e igualmente apresentada antes no festival de Juiz de Fora, com Eduardo Conde, e “Berenice”, com outra estreante de então, Vânia.  Tudo isso num verdadeiro álbum-documento, com o qual o TM encerra com chave de ouro sua retrospectiva dedicada aos festivais da MPB. Esperamos que vocês tenham gostado e apreciado, e desejamos-lhes um fim-de-ano cheio de alegria, e um ano novo repleto de realizações positivas e proveitosas!

a vez e a voz da paz – eduardo conde
ciranda do amor – roberto lima
litiral – gilda horta
sem assunto – cynara e cybele
retirada – rose valentim
homem do meu mundo – eduardo conde
peccata mundi – cynara e cybele
ultimatum – glória
berenice – vania
o jornal – cynara e cybele
o gaúcho – raul ellwanger
bloco do eu sozinho – cynara e cybele

*Texto de Samuel Machado Filho

I Festival Operário Da Música Popular Brasileira (1975)

Em sua retrospectiva “festivalesca”, o TM ofereceu anteriormente a seus amigos cultos, ocultos e associados um álbum documentando o festival interno de MPB promovido pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo em 1980. Pois bem: hoje apresentamos um precioso compacto duplo, com quatro concorrentes de um outro certame de que participaram trabalhadores. Batizado de I Festival Operário da Música Popular Brasileira, aconteceu em 1975, no estado do Rio Grande do Sul, iniciando-se em 2 de agosto e terminado em 21 de setembro, visando mostrar, conforme a chamada de capa, que “a boa música nasce nas fábricas”.  E foi bancado pelo próprio governo gaúcho,na gestão de Sinval Guazelli,  com a colaboração de empresas privadas (isso numa época em que os militares ainda governavam o Brasil, e os governadores de estado também eram eleitos indiretamente). Outro detalhe é que o compacto duplo com as músicas do festival foi lançado por uma “major” do setor fonográfico, a CBS, atual Sony Music, com a participação, nos arranjos, do então já veterano Alexandre Gnattali, irmão de Radamés. Duas faixas do disco são interpretadas por Waldir Mello, o samba-canção “Teu olhar” e o samba “Nossa guerra é diferente”, de cunho pacifista. O programa deste precioso disquinho se completa com o afro-samba “Cabo da Boa Esperança”, com o coral da CBS, e “Inquinação no samba” (pregando a volta do gênero às origens), com Vítor Ferreira e o grupo Som Kapela 6. Curioso também é o texto de apresentação do disco, escrito pelo então secretário do trabalho e ação social do governo riograndense, Carlos Alberto Gomes Chiarelli, afirmando que “ao lado do desenvolvimento econômico está o oferecimento  do bem-estar social para o trabalhador, incremento do lazer e da recreação”, além do objetivo de revelar novos talentos para nossa música popular. Ao que parece, os autores e intérpretes deste disco não foram lá muito longe, além do quê não há informação sobre qual foi a música vencedora. De qualquer forma, é um precioso documento que o TM nos revela, de um tempo em que nem sequer se imaginava que o Rio Grande do Sul iria enfrentar os graves problemas financeiros por que passa atualmente, e que por certo inviabilizariam iniciativas sócio-culturais como a do Festival Operário de MPB. Confiram…

teu olhar – valdir mello
nossa guerra é diferente – valdir mello
cabo da boa esperança – coral cbs
inquinação no samba – vitor ferreira

*Texto de Samuel Machado Filho

III Festival Bancário De MPB (1980)

Em seu livro “A era dos festivais – Uma parábola”, o pesquisador Zuza Homem de Mello informa que a mesma terminou em 1972, com o sétimo e último FIC (Festival Internacional da Canção), promovido no Rio de Janeiro pela TV Globo, após o quê foram realizados outros eventos esparsos do gênero, relacionados ao final do livro. A verdade, porém, é que festivais de música jamais deixaram de existir. Há, por exemplo,  escolas e colégios que, anualmente, promovem certames internos de música. Eu mesmo sou testemunha disso, pois estudei tecnologia têxtil no SENAI, quando morava em minha São Paulo natal, e os festivais estudantis de música promovidos pela Escola “Francisco Matarazzo”  (que se mudou do Brás para o Cambuci, em 1981) sempre foram bastante animados, com torcida organizada e tudo, a plateia cantando junto as músicas etc.  É assim, por certo, nas escolas, colégios e até mesmo faculdades  que boa parte de nossos amigos cultos, ocultos e associados frequentaram em seus tempos de estudante. Afinal de contas, quem nunca teve pelo menos um pouquinho de música em suas veias? Evidentemente, até sindicatos de trabalhadores promovem festivais internos de música popular. Aqui se enquadra o álbum que o TM nos oferece hoje, lançado em 1980, documentando o III Festival Bancário de MPB, promovido pelo sindicato paulistano da categoria (e, claro, produção independente). Nessa época, com a chamada “abertura lenta e gradual” promovida pelo regime militar, já em seus estertores finais, o sindicalismo brasileiro se revitalizou, a partir das greves de metalúrgicos no ABC paulista, capitaneadas pelo então presidente do sindicato da categoria, Luiz Inácio Lula da Silva. O álbum é dedicado a um certo Nélson C. Santos, falecido em uma terça-feira de carnaval, pouco antes do término dos trabalhos de gravação do disco. E resultou de brilhante iniciativa do departamento cultural do sindicato dos bancários paulistano, que então já acreditava nas atividades artísticas como instrumento de democratização do Brasil. As doze finalistas do certame (não há informação de qual foi a música vencedora, infelizmente) revelam cantores e compositores bastante inspirados, abordando temas diversos: homenagem ao homem do campo (“Imagem sertaneja”), pacifismo (“Nunca penso em guerra”), a luta do trabalhador pela sobrevivência (“O operário”, “Choro de breque”, “Zé carregador”), corrupção (“Uma rosa de cristal”), a saudade do retirante nordestino (“Sonho de voltar”)…  Tudo isso em trabalhos muito bem acabados, dando oportunidade a membros da categoria bancária, de mostrar talento, competência e inspiração no setor musical. Este disco praticamente encerra a retrospectiva dedicada aos festivais de música pelo TM, mas certamente não é um ponto final definitivo. Afinal, festivais de música continuam e continuarão sempre a existir ao redor de nós, ainda que não recebendo divulgação pela maior parte da mídia. E ponto final é uma coisa que o canto de nosso povo nunca teve, nem vai ter.

 rosa de cristal
sonho de voltar
chor de breque
o operário
despedida de um sambista
avesso
terra do sol
pegue o por do sol
pássaro doméstico
imagem sertaneja
zé na marra
nunca penso em guerra

*Texto de Samuel Machado Filho

I Festival Universitário de MPB (1979)

E prossegue a retrospectiva “festivalesca” do nosso Toque Musical. Desta vez, oferecemos hoje a nossos mui queridos amigos cultos, ocultos e associados o álbum que documenta o I Festival Universitário de MPB, promovido em 1979 pela TV Cultura de São Paulo, emissora estatal educativa que sempre se destacou pela qualidade de sua programação mas que, infelizmente, nos últimos tempos, vem sofrendo com sucessivos cortes de verbas por parte do governo do estado, e recentemente até enfrentou uma greve de funcionários. O certame constituiu-se na primeira experiência da Cultura em matéria de festivais competitivos. Realizado no Teatro Pixinguinha, hoje SESC Consolação, teve três eliminatórias, em 30 de abril, e nos dias 7 e 14 de maio, tendo a final acontecido no dia 21 desse mês. Como vocês poderão conferir na contracapa, o júri que escolheu as finalistas era pra ninguém botar defeito, com nomes ligados à MPB (Marcus Vinícius, Alaíde Costa, Tom Zé) e à crítica musical (Maurício Kubrusly, Chico de Assis, Adones de Oliveira, Renato de Moraes…). Enfim, gente especializada na matéria. O que, de certa maneira, contribuiu para o excelente resultado do certame a nível cultural e artístico. A faixa que abre este álbum da Continental é justamente a primeira colocada: “Diversões eletrônicas”, com o paranaense Arrigo Barnabé, mais tarde importante nome de vanguarda na MPB, já pintando e bordando (ele concorreu ainda com “Infortúnio”, também presente neste disco).  Muitos anos mais tarde, Arrigo passou também a ser radialista, apresentando o programa “Supertônica”, na Rádio Cultura paulistana. A vice-campeã, “Brigando na lua”, de e com Biafra, contou com o respeitável acompanhamento do grupo Premeditando o Breque, que também marcaria época no cenário musical paulistano, conhecido apenas por Premê.  Eliana Estevão defendeu a terceira colocada, “Meu grande amor suicida”, e ainda levou o prêmio de melhor intérprete profissional.  O quarto lugar foi de “Glória”, de e com Renato Lemos (que também apresentou “Coral dos gemedores”, outra faixa do presente LP), e o quinto foi para “Boneca de pano”, interpretada por José Carlos Ramos, laureado com o prêmio de melhor intérprete amador (ele ainda defenderia “Carruagens de cristal”, que encerra o disco). Tudo isso e muito mais dá a este álbum hoje oferecido pelo TM status de autêntico documento artístico e cultural, dando chance a então novos valores que então despontavam em nosso cenário musical. Se não, confiram. É só baixar e ouvir.

diversões eletrônicas – arrigo barnabé e grupo

brigando na lua – biafra

meu grande amor suicida – eliana estevão

glória – renato lemos

boneca de pano – josé carlos ramos

a turma do cometa – a banda dos aflitos

dia a dia – celso viáfora

a malhação – irene portela

amigo – julius m castilho

infortunio – arrigo barnabé e grupo

coral dos gemedores – renato lemos

carruagem de cristal – josé carlos ramos

*Texto de Samuel Machado Filho

Festival Da Feira Da Vila Madalena (1980)

Originalmente denominada Vila dos Farrapos, a Vila Madalena é um bairro nobre da cidade de São Paulo, situado no subdistrito de Pinheiros. Ficou bastante conhecida por ser um reduto boêmio da capital paulista, desde o início dos anos 1970, quando estudantes de pouco dinheiro passaram a ali residir, por causa da proximidade à Universidade de São Paulo (USP) e à Pontifícia Universidade Católica (PUC).  Na Vila Madalena, concentram-se inúmeros bares e casas noturnas, e lá também fica a Escola de Samba Pérola Negra. Há também ateliês, centros de exposições artísticas, lojas de vanguarda e escolas de música e teatro. O bairro até virou telenovela, exibida pela Globo no final dos anos 1990. A associação de moradores da Vila Madalena organiza feiras para mostrar os talentos artísticos do bairro, e um festival anual, conhecido como Feira da Vila, que atrai gente de toda São Paulo, com shows e barracas de artesanato. Sua primeira edição aconteceu em 1977, na Rua Girassol, e o evento já faz parte do calendário  oficial da capital paulista. Sendo assim, o Toque Musical prossegue seu ciclo dedicado aos festivais oferecendo a seus amigos cultos, ocultos e associados um álbum raro. O disco põe em foco a edição de 1980 do Festival da Feira da Vila Madalena, e foi lançado em 1980 pela Continental.  No repertório, estão doze das concorrentes do certame, inclusive a vencedora, “Tem Maria”, composta e interpretada por  Jorge Matheus. A vice-campeã foi “Improviso nordestino”, de e com Celso Machado, baseada em um arranjo do clássico “Juazeiro”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.  A terceira colocada, e que por certo ficou mais conhecida, foi “Nêgo Dito” (“Meu nome é Nêgo Dito João dos Santos Silva Beleleu”…), composta e interpretada por Itamar Assumpção (Tietê, SP, 13/9/1949-São Paulo, 12/6/2003), um dos ícones da música de vanguarda paulistana. Houve ainda menção honrosa para “Cool jazz”, de Cacá Mendes, com ele e Lúcia Nagib. Merece também destaque as participações de Celito Espíndola, irmão das cantoras Tetê e Alzira Espíndola, interpretando seu “Coração solitário”, e do futuro integrante da banda de rock Titãs, Paulo Miklos, com “Desenho”, feita por ele em parceria com Arnaldo Antunes, que seria a figura de proa do grupo em seus primeiros anos. Em suma, um álbum que documenta o que foi o Festival da Feira Livre da Vila Madalena de 1980, e com o qual o TM também homenageia esse bairro que vem se destacando como importante reduto sócio-cultural da capital paulista. É só conferir.

nêgo dito – itamar assumpção

improviso nordestino – celso machado

tem maria – jorge matheus

desenho – paulo miklos

coração solitário – celito espíndola

samba daqui – ricardo villas boas

o cheiro da beterraba – os camarões

cool jazz – cacá mendes e lucia nagib

recomeço – tuim

corujas da noite – rubens dultra e silvio piesco

gabriela – conjunto nosso som

menino doido – grupo arerê

 

 

*Texto de Samuel Machado Filho

Som Verde – I Festival Som Verde Da Música Sertaneja (1982)

O Toque Musical prossegue sua retrospectiva dedicada aos festivais apresentando desta vez o álbum com as doze finalistas de um certame de âmbito regional. Trata-se do I Festival Som Verde de Música Sertaneja, realizado em 1982 com promoção da Rádio Guarani Onda Rural, de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. A Guarani pertencia ao grupo Diários Associados e encerrou suas atividades por conta da venda de seus prefixos para igrejas evangélicas. Nessa mesma época, havia também o festival de música sertaneja da Rádio Record de São Paulo, que por certo motivou a Guarani a fazer algo semelhante em Minas. E com um patrocinador de prestígio: a Monark, fabricante de bicicletas, ainda hoje existente, embora sem a mesma participação de mercado que tinha na época. Além do imprescindível apoio da Secretaria de Agricultura mineira. O objetivo, conforme explica a contracapa do disco, era o de revelar novos cantores e compositores sertanejos. Foram sete eliminatórias e 84 músicas concorrentes. Doze delas foram para a final do certame, acontecida no Pavilhão de Exposições da Gameleira, em Belo Horizonte, que registrou um público de 25 mil pessoas presentes. E são justamente essas músicas finalistas que compõem o álbum que o TM hoje oferece a seus amigos cultos, ocultos e associados.  Gravado em Belo Horizonte mesmo, o disco saiu pela Continental (selo Chantecler), uma das gravadoras que mais investiam em música sertaneja na época, ao lado da extinta Copacabana. A única coisa que a contracapa não diz é qual foi a música vencedora. Como vocês perceberão, as músicas são interpretadas por duplas e trios oriundos de Minas mesmo, que certamente não ficaram conhecidos a nível nacional. Mas o esforço de ouvir este disco vale a pena, e muito, pois são trabalhos de primeiríssima qualidade, mostrando a mais autêntica música sertaneja brasileira. Um álbum que o TM oferece com a satisfação de sempre, e que será uma grata surpresa para todos que o baixarem e ouvirem. É só conferir…

meu boi carreiro –

recanto sertanejo – roninho e ronei

zé boiadeiro – caturana e flor da noite

assim é o meu sertão – os canários do sertão

carregando a minha cruz – matilde e manda brasa

cantiga do sertanejo – jaquelane e ibram

casas de barro – dudu e zezé

saudosa musa – mastro e maestro

tempo de boiadeiro –

tristeza de um carreiro – arcanjo e noé

*Texto de Samuel Machado Filho

Festival Da Viola – TV Tupi (1970)

Os festivais de música que assolaram o país nas décadas de 1960/70 tiveram, predominantemente, a participação de compositores urbanos, ou seja, nascidos e criados em cidades de grande porte. Um belo dia, Fernando Faro,  o “Baixo”, produtor de programas musicais que marcaram época na televisão brasileira, e então trabalhando na extinta Tupi de São Paulo, teve a feliz ideia de organizar um festival de música sertaneja (ou de inspiração sertaneja), objetivando colocar esse tipo de música no mesmo nível e importância da MPB urbana, além de despertar o interesse dos compositores dessa faixa para os ritmos ditos caipiras ou sertanejos. Foi assim que nasceu o Festival da Viola, com a devida colaboração de Magno Salerno, outro experiente membro da equipe de produção da Tupi nesses tempos, e do apresentador Geraldo Meirelles, cognominado “o marechal da música sertaneja”. O certame obteve grande repercussão na capital paulista, e a Tupi recebeu muitas cartas e telegramas cumprimentando os organizadores do festival pela iniciativa. As rádios paulistanas executaram bem as finalistas do certame, que eram até cantaroladas pelo povo nas ruas. Sendo assim, o Toque Musical prossegue sua retrospectiva “festivalesca” oferecendo hoje, a seus amigos cultos e associados, o álbum com as doze músicas apresentadas na finalíssima do Festival da Viola da extinta TV Tupi, editado em 1970 pela Copacabana, com o selo Sabiá. Pelo que pude apurar, a música que venceu o certame foi “À minha moda”, de Rolando Boldrin, o atual “Senhor Brasil”, defendida por ele em companhia da então esposa Lurdinha Pereira. Esta música, evidentemente, consta de nosso álbum de hoje, porém na interpretação de Nonô (Basílio) e Naná. O próprio Nonô, como autor, teve outras duas músicas classificadas para a final do festival: “A viola e a carabina” (que ele também canta com Naná neste disco, sendo inclusive a faixa de abertura) e “Devoção”, aqui interpretada pelos sempre afinadíssimos Titulares do Ritmo. Merece destaque também a presença, entre os intérpretes, de nomes queridos do cenário sertanejo de então, como Dino Franco e a dupla Criolo e Seresteiro. Letinho, que assina “Carro velho” em parceria com Criolo e Pedro Sabino de Oliveira, trocou mais tarde seu nome artístico, passando a ser conhecido como Ronaldo Adriano. Os Titulares do Ritmo ainda interpretam, neste álbum, “Da lua, da rua, do violão”, curiosamente assinada por Antônio Marcos, cantor de grande popularidade na época, mas que teve sua carreira destruída pelo alcoolismo, em parceria com o maestro José Briamonte. Outro ídolo popular dessa época, o cantor Paulo Sérgio, assina outras duas músicas, aqui interpretadas pelo mestre Dino Franco: “É hoje que a terra treme” (parceria com Tony Gomide) e “A boiada” (com Alcino de Freitas). Enfim, um esforço que valeu a pena, e hoje é um verdadeiro documento histórico. É também uma oportunidade, para o público de hoje, de conhecer um pouco do que se fazia nessa época em matéria de autêntica música sertaneja, que, como vocês facilmente perceberão, nada tem a ver com o estilo dito “universitário”, que tanto infesta a mídia nos dias que correm. Ê trem bão…

a viola e a carabina – nono e nana

a saudade continua – maracá, dorinho e nardeli

desafio – trio maraya

carro velho – criolo e seresteiro

é hoje que a terra treme – dino franco

da lua, da rua, do violão – titulares do ritmo

a minha moda – nono e nana

o caboclo também tem ética – altemir e altemar

devoção – titulares do ritmo

passarela – itaity e embalo 5

carreteiro da esperança – maracá, dorinho e nardeli

a boiada – dino franco

*Texto de Samuel Machado Filho

Gala 79 Apresenta: O Melhor Dos Festivais (1979)

Dando prosseguimento ao ciclo dedicado aos festivais, o Toque Musical oferece a seus amigos cultos, ocultos e associados mais uma compilação de primeira lançada pela Som Livre, braço fonográfico da Rede Globo de Televisão, dentro de uma série econômica, sob o selo Gala, em 1979. O título não poderia ser outro: “O melhor dos festivais”.  Em suas doze faixas, com seleção musical feita pelo inesquecível Márcio Antonucci (da dupla Os Vips), desfilam algumas das mais antológicas páginas musicais apresentadas  nos festivais da Record e da própria Globo. Abrindo, e muito bem, este disco, temos as duas vencedoras do festival de MPB da Record em 1966: “Disparada”, na interpretação insuperável do inesquecível Jair Rodrigues, acompanhado pelo Trio Marayá (destacando-se, na percussão, a queixada de burro de Aírto Moreira), e, em seguida, “A banda”, com seu autor, Chico Buarque, defendida no certame por ele e Nara Leão. A terceira faixa, do festival da Record de 1967, é “Domingo no parque”, com Gilberto Gil acompanhado pelos Mutantes, e orquestração de Rogério Duprat. Vice-campeã do certame, foi, ao lado de “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso (não incluída aqui), uma das músicas que detonaram o movimento tropicalista, de ampla importância artística e cultural. Do FIC (Festival Internacional da Canção) de 1967 é a antológica “Travessia”, que revelou para todo o Brasil o nome de Mílton Nascimento, mais tarde um dos monstros sagrados da MPB, além de lhe dar o prêmio de melhor intérprete.  “O cantador”, originalmente defendida por Elis Regina no festival da Record, também de 67, é aqui interpretada por Maria Creuza, que se notabilizou na MPB por interpretar canções de cunho romântico. Do FIC de 1971 é “Casa no campo”, que Zé Rodrix, seu autor em parceria com Tavito, apresentou inicialmente no Festival de Juiz de Fora, Minas Gerais, vencendo o  certame. No FIC, porém, ficou apenas em nono lugar na fase nacional, mas Elis Regina, que presidia o júri do festival, apaixonou-se por “Casa no campo” e a gravou imediatamente, alcançando um dos maiores hits de sua carreira. O próprio Rodrix gravou a música duas vezes, a primeira em 1971, e a segunda em 1976, para o álbum “Soy latino-americano” (é a que está neste disco).  Terceira colocada no festival  da Record de 1967, “Roda viva” está aqui presente com quem a defendeu no certame, ou seja, o próprio Chico mais o MPB-4. Mais tarde, daria título a uma polêmica peça teatral escrita por ele mesmo. Em seguida, o primeiro grande sucesso de Beth Carvalho, “Andança”, com ela e os Golden Boys, terceira colocada na fase nacional do FIC de 1968, e que Beth manteria para sempre em seu repertório.  Do FIC de 1970 é “Universo do teu corpo”, de e com o saudoso Taiguara, uruguaio radicado no Brasil. Embora conquistando apenas o oitavo lugar na fase nacional, foi grande sucesso na época e tornou-se um clássico da MPB. A faixa seguinte é do FIC anterior, de 1969, e foi a segunda e última vez em que uma música brasileira venceu o certame também na fase internacional, conquistando o troféu Galo de Ouro: “Cantiga por Luciana”, na voz suave da grande Evinha, então assinando-se apenas Eva e iniciando triunfalmente carreira-solo, afastando-se gradativamente do Trio Esperança, que integrava junto com os irmãos Mário e Regina. Depois, volta Chico Buarque, desta vez interpretando sua “Carolina”, do FIC de 1967, terceira colocada na fase nacional, defendida por Cynara e Cybele. E encerrando com chave de ouro, e no maior alto astral, temos a agitadíssima Maria Alcina, interpretando outro grande clássico: “Fio maravilha”, de autoria de Jorge Ben (atual Ben Jor), apresentada no sétimo e último FIC promovido pela Globo, em 1972. Vencedora na fase nacional junto com “Diálogo”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, “Fio maravilha” obteve menção honrosa na internacional, ingressando entre os clássicos de nossa música popular, e é uma homenagem ao jogador Fio (João Batista de Sales), então craque do Flamengo, clube de coração de Jorge da Capadócia. Como se percebe, é uma compilação que certamente trará recordações de momentos inesquecíveis a quem viveu a época áurea dos festivais de música, e surpreenderá agradavelmente aqueles que ainda não conhecem estes antológicos sucessos. É baixar, ouvir e conferir…

disparada – jair rodrigues

a banda – chico buarque

travessia – milton nascimento

cantador – maria creuza

casa no campo – zé rodrix

roda viva – chico buarque

andança – beth carvalho e golden boys

universo no teu corpo – taiguara

cantiga por luciana – eva

carolina – chico buarque

fio maravilha – maria alcina

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 *Texto de Samuel Machado Filho

V Festival Internacional Da Canção Popular-Rio (1970)

Prosseguindo o ciclo dos festivais de música, o TM apresenta hoje, a seus amigos cultos, ocultos e associados, o álbum com as músicas que concorreram na fase internacional do quinto FIC (Festival Internacional da Canção), promovido pela TV Globo em 1970. Lançado pela Polydor/Philips, ele já havia sido apresentado aqui anteriormente, mas agora retorna com os links devidamente repostos. A faixa de abertura é exatamente a que venceu a fase internacional, representando a Argentina: “Pedro Nadie”, com Piero, que derrotou a concorrente brasileira, “BR-3”, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, defendida por Tony Tornado e aqui na voz de Gerson Combo, uma vez que Tony era então do elenco da Odeon. As demais concorrentes “gringas” não ficaram lá muito conhecidas, mas o disco mesmo assim vale como documento. E vale também pela música que ficou em sexto lugar na fase nacional, mas agradou tanto que foi reapresentada no dia do encerramento do FIC: “Eu também quero mocotó”, de Jorge Ben (atual Ben Jor), defendida por Erlon Chaves com sua Banda Veneno. Na gravação ele conta com o apoio do coro SAM (Sociedade Amigos do Mocotó), que tinha mais de 40 integrantes nas apresentações ao vivo. Entretanto, ao encerrar sua apresentação, na qual estava cercado de belas mulheres, Erlon provocou o maior escândalo ao beijar uma linda loira, olhar para as câmeras e dizer que, com aquele gesto, estava beijando todas as brasileiras! Algo inadmissível  para os valores morais então vigentes, além do quê era época de ditadura militar “braba”. O resultado: Erlon Chaves saiu do Maracanãzinho algemado, e ainda proibido por 30 dias de exercer qualquer atividade artístico-musical! Nesse período, Erlon sumiu de cena e, ao retomar seu trabalho, voltou a ser apenas maestro e arranjador, até falecer, em 1974, de infarto fulminante. Enfim, o TM nos oferece hoje a alegria do reencontro, ao trazer este álbum documentando a fase internacional do FIC de 1970. Afinal, todos merecem uma segunda chance… .

argentina – pedro nadie – pero
brasil – br-3 – gerson combo & orquestra som bateau
suécia – det ljuva livet – sylvie schneider
grécia – georges is sly – marinella
bélgica – who can tell me my name – music machine
inglaterra – out of the darkness – vincent deal
the best man – rocky shahan
brasil – eu também quero mocotó – s.a.m. & banda veneno de erlon chaves
frança – et pourtant c’est vrai – michelle olivier
canadá – put it off till september – les amis
mônaco – rire ou pleurer – michele torr
itália – tu non sei piu innamorato di me – diva paoli
espanha – elizabeth – nino bravo
holanda – just be you – rita heyes
*Texto de Samuel Machado Filho

II Festival Universitário da Guanabara (1969)

Olá, amigos cultos, ocultos e associados! Prosseguindo o ciclo dedicado aos festivais, o TM nos oferece hoje um compacto duplo com quatro músicas que concorreram no II Festival Universitário do Rio de Janeiro (então estado da Guanabara), promovido pela TV Tupi em 1969. Ao contrário dos certames similares promovidos pelas TVs Excelsior, Record e Globo, este destinava-se exclusivamente a compositores universitários, e foi realizado pela Tupi no Rio de Janeiro e em São Paulo durante quatro anos, de 1968 e 1972. Curiosamente, não consta deste compacto da Odeon a música vencedora da edição carioca de 1969 (quando o regime militar e, por tabela, a censura,  já estavam bastante endurecidos, com a decretação do draconiano Ato Institucional número 5), “O trem”, de e com Gonzaguinha, então assinando-se Luiz Gonzaga Júnior. Em compensação, vamos encontrar aqui grandes nomes da MPB em princípio de carreira, aos quais coube a apresentação das músicas dos então jovens compositores universitários.  Abrindo o precioso disquinho, temos “Nada sei de eterno” de Sílvio da Silva Jr. e Aldir Blanc, na voz de Taiguara, incluída depois no primeiro LP do cantor-compositor, uruguaio radicado no Brasil. “Dois minutos de um novo dia”, de Ruy Maurity e José Jorge, é interpretada pelo grupo Antônio Adolfo & A Brazuca, então em evidência.  Clara Nunes, acompanhada pelo Quarteto 004, apresenta a quinta colocada, “De esquina em esquina”, de César Costa Filho e Aldir Blanc, incluída depois no terceiro LP de Clara, “A beleza que canta”. Finalizando, os sempre afinadíssimos Golden Boys, interpretando “A menina e a fonte”, de Arthur  Verocai, Paulinho Tapajós e Arnoldo Medeiros.  Enfim, é um pequeno-grande documento sonoro que enriquecerá os acervos de tantos quantos apreciem o que a MPB produziu de melhor e mais expressivo na década de 1960. É só conferir…

nada sei de eterno – taiguara
2 minutos de um novo dia – antonio adolfo & a brazuka
de esquina em esquina – clara nunes
a menina e a fonte – golden boys

*Texto de Samuel Machado Filho